Carta aberta aos leitores da Copa
Reproduzo aqui o comentário que publiquei no site da Copa de Literatura Brasileira, da qual sou um dos jurados este ano. Um reconhecimento de derrota que é ao mesmo tempo uma tentativa de salvar o que for possível. A luta continua.
Caros,
Enquanto minha resenha não vem (o que fazer, se já tinha me comprometido?), gostaria de explicar por que considero a Copa 2008 um fracasso. Divertida, pode ser, num sentido meio espírito-de-porco. Mas um desperdício e uma tristeza.
Não é de hoje que o clima por aqui andava beirando o das torcidas organizadas, mas o fator decisivo para o bolo solar foi a não-resenha dadaísta de André Sant’Anna. Ao investir corajosamente contra uma cidadela imaginária, desconstruir o que está em farelos há décadas, ela ganha leituras como a de Isaac, entre tantas semelhantes – “todo julgamento é estúpido, tudo é válido, viva a liberdade total etc.”
Topei participar da Copa porque via nela um belo fórum para provar – democraticamente, mas provar – justo o contrário. A saber:
1. Que precisamos reaprender a julgar, reencontrar uma linguagem comum para debater mérito. Devemos isso a nós mesmos e principalmente aos leitores. O preço do fracasso é a irrelevância.
2. Que a arte vista como mera auto-expressão é um excelente ganha-pão para terapeutas e apresentadoras louras de TV. Para artistas, é o beijo da morte.
3. Que existem, óbvio, fundamentos que alguns dominam, outros dominam mais ou menos e outros não passam sequer perto de vislumbrar. Nem todo mundo é escritor.
4. Que o discurso crítico é algo que, idealmente, deve ser desenvolvido muito acima da rede de alianças e amizades (ou inimizades!), por mais difícil que isso seja na prática.
5. Que a divergência continuará existindo, mesmo porque as estratégias para se chegar à meta serão sempre inumeráveis – como as próprias metas, aliás. O papel decisivo da subjetividade está garantido, sobretudo na “disputa” entre livros de qualidade semelhante. Mas isso não tem nada a ver com anomia babaca.
Como pode ver qualquer um que acompanhe isso aqui, a balbúrdia chegou a um ponto em que essas pretensões iniciais parecem definitivamente derrotadas. “Perdeu, perdeu.” Reconhecer a derrota é parte fundamental do jogo.
Mas continuo achando que a idéia era boa. Quem sabe um dia.
Abraços.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria Tags:
Sérgio: Esse é sem dúvida alguma um dos melhores posts que li em neste blog. Gostaria de comentar um ponto: “tudo é válido, viva a liberdade total”. Quem diz isso esquece de um ponto. acima de qualquer outra forma de arte a literatura pressupõe uma regra: o código. Toda literatura é construida pelo menos duas vezes,, ao ser escrita e ao ser lida, pressupondo que o leitor precisa conhecer o código.
Claro que existe liberdade dentro do código, mas ainda assim, as letras devem formar palavras. as palavras, devem formar frases, que devem formar ideias. Caso a regra seja ignorada, a literatura será qualquer outra coisa menos literatura.
Creio que os dignos Leitores desse blog “pessoas de inteligentes e de discernimento”, concordarão comigo. Ou não.
Amém, Sérgio, amém.
Eu, einh…
É impressão minha ou mais da metade dos supostos críticos e comentadores da Copa não entendem absolutamente nada de literatura?
Interessante a linha de argumentação desenvolvida pelo André Sant’Anna… Por meio dela, chego à conclusão de que o próprio André Sant”Anna escreve bem.
Desde que Zenão criou seus famosos paradoxos, que demonstram, irrefutavelmente, que o movimento não existe, sabe-se que a lógica e a realidade não necessariamente seguem juntas.
André Sant’Anna escreve bem. Eis aí um paradoxo tão digno quanto qualquer outro elaborado pelo célebre discípulo de Parménides.
Tem meu aplauso, Sérgio. Realmente o nível do debate na Copa baixou muito, apesar dos esforços bem intencionados do Lucas. E, concordo, a idéia não é ruim, ruim é o nível de alguns participantes.
O futebol não é uma coisa ruim porque existem alguns (muitos) jogadores pernas-de-pau, certo?
O pseudo-crítico Sant’anninha virou um balde de estrume na própria cabeça, depois dessa.
Concordo plenamente com vc e com o Fernando. O Teatro tb precisa ser passado a limpo nestes termos.
Beijo, e parabéns pela audácia de botar o dedo na ferida e escarafunchar a podridão.
A Copa não morreu. O pulso ainda pulsa.
O Lucas paga um preço alto por ser extremamente democrático, e aí deparar-se com resenhistas (ou jurados, como queiram) babacas, cujos egos necessitam sobressair mais do que os livros analisados. Sem falar em muitos dos leitores, que postam agressões e impropérios e nem assim são censurados.
Acho que não é o caso de enterrar, mas apenas de corrigir o rumo.
O problema não é da Copa, nem dos escritores, mas sim dos brasileiros? Nós somos assim: se sofermos crítica -por mais fundadas que sejam-, achamos que o crítico nos odeia e tem algo contra nós; se recebemos elogios -ainda que fundados-, todos acham que os recebemos por motivos extra-literários…
realmente, às vezes as críticas e os elogios têm fundamentos que não a obra, o que é uma porcaria e uma besteira, mas, em muitos casos -como, inclusive, na Copa- a crítica é bem fundamentada….
POrtanto, de tudo isso concluo que o brasileiro continua aquele ser patriarcalista, o homem cordial do Sérgio Buarque, incapaz de desenvolver uma persona pública descolada da persona privada…xingar a minha obra é me xingar e ponto final….
Por isso os jovens escritores brasileiros escrevem tanta porcaria condescendente e auto referencial…..
Eu acho que faz uns quatro ou cinco posts que os resenhistas aderiram ao espírito de porco dos comentaristas, dentre os quais me incluo pois, ao discordar de uma resenha, fui agredido e respondi quando devia ter tirado o time. Não ofendi, mas meu nome está lá. Assumo.
Uma atira livros na parede, o outro faz ganhar o amigo legal. No ano passado, achei estranha a vitória do apenas simpático “Música Perdida”. Não me manifestei; mas este ano, apesar da presumível vitória do Tezza, o que foi perdida foi a Copa. Uma pena.
Se tivesse ficado quieto e não visitasse mais o site, teria feito melhor. Burro, eu.
Grande post, Sérgio, tens 110% de razão.
Fiquei pensando.
Uma iniciativa dessas, que acaba ferindo egos de autores e leitores, precisa ter algo mais do que resenhistas cultos, conhecedores de literatura.
Ela precisa de um MODERADOR. Baixou o nível, corta. Só que chegou a um tal nível que o moderador teria que moderar até os resenhistas… Mas é exatamente isso que ele devia ter feito. A “crítica” do André Sant’Anna e mais três nunca poderiam ter sido aceitas. Se outras eram primárias, a do André nem isso era. Tais pessoas desqualificaram a iniciativa.
Abraço.
Em ficção, um recurso, bastante útil por sinal , é o exagero ( de situações, personagens etc) como forma de questionamento (arte, não esqueçamos, é questionamento).
Levando-se isso em consideração, penso, que a resenha de André, o resenhista “generoso”, se não teve a real intenção de questionar (através do exagero) a maioria das resenhas que lemos por aí, acabou acertando no que não viu.
“É só isso tudo”: não se estressem, leiam a resenha como ficção.
Ficção tolinha, né, Cláudio? E falando de pessoas reais…
Boa tentativa, Claudio, mas não cola. O Daniel é bondoso ao chamar isso de tolice.
Caro Milton, dê uma olhada no comentário que o Tiago A. publicou agora à noite lá na Copa. É perfeito, dá um belo alento. Mas concordo que, mesmo que ganhe o Tezza, o ano da Copa está perdido. Redenção só ano que vem, se ano que vem houver.
Abraços a todos.
Puxa, eu estou guardando todos os emails da Copa pra ler de uma vez, mas agora desanimei. Não sei o que o André Sant’Anna escreveu, mas me lembrei que ano passado já houve uma bizarrice, se não me engano na rodada com o livro do Sérgio. Não foi “Sementes de Flowerville” que passou à próxima rodada por um tipo de sorteio feito pelo jurado? O cara não chegou a conclusão nenhuma sobre qual livro era melhor, tirou no palitinho e aprovou o Sérgio. Na boa, esse tipo de coisa ofende a minha inteligência. Abraços
Foi isso mesmo, Isabel. Logo na primeira rodada o Sementes de Flowerville (que depois acabaria chegando à semifinal) ganhou de Corpo Estranho, da Adriana Lunardi, na moedinha. O que foi bem desagradável para mim – e imagino que mais para a Adriana – mas, convenhamos, ainda é infinitamente mais honesto que o método sérgio-buarquiano (assumido como galhofa ou não, mas quem está rindo?) que foi usado agora. Um abraço.
Daniel, saiba que esse tipo de ficção (a de “seres não imaginários”) é até uma tendência, já há algum tempo.
Sérgio, infelizmente, sua decepção, a meu ver, era inevitável (”É preciso fé para acreditar na eficiência dos prêmios literários”, diz o próprio texto da Copa). Se não existem critérios de avaliação objetivos, cada um escolhe o seu, meu caro.
Seria mais simples se ao avaliador fosse sugerido “leia o manual e siga as instruções” (que, em termos gerais, poderiam sim seguir os 5 tópicos que você lista em seu post).
Desde a escolha dos livros, não existiu um critério científico, se não leiamos: “Dezesseis livros, escolhidos de forma bem pouco científica entre os romances brasileiros…” Também está lá no “Sobre a CLB”.
E nem precisava, concordo com o Lucas, afinal, não esqueçamos: a Copa é apenas um jogo, e o esquema tático (a expressão é apenas ilustrativa, claro) era: “bem, pessoal, recebendo a bola, tentem resolver as partidas…”
Mudando um pouco o rumo da prosa, outra coisa que me chama à atenção, nas últimas semanas, é a instituição na mídia de uma quase obrigatoriedade de que o livro de Tezza ganhe todos os prêmios literários instituídos no Brasil.
Se alguém lá de Portugal chia, gritam: “cortem-lhe a cabeça!”; se o livro é preterido no Jabuti, gritam novamente apontando 10 dedos para os jurados, “cortem-lhes as cabeças!”
Não quero acreditar que o autor, ele próprio, fique tão revoltado quando não ganha, sabe que isso faz parte do jogo da vida.
Sejamos razoáveis. Muitos livros bons (e aqui, mesmo não desprovido de alguma lógica, não fujo à minha dose de subjetivismo) são escritos no Brasil e não chegam às prateleiras, jornais, logo, ao público e aos “prêmios”.
Gostaria muito que as resenhas (caso não seja realmente uma peça ficcional do Sant’Anna, sério, ainda acho que o seja) fossem diferentes, que a qualidade e não o compadrio fosse o critério base, mas, em termos gerais, também não vejo nada que se aproxime disso por aí… (ah, esse maldito subjetivismo…, inclusive o que me escorre pelos dedos e aciona estas teclas…)
Claudio, nos desentendemos em alguns pontos, e aproveito para deixar bem claro: nunca cobrei nem cobraria “critérios científicos”, que até onde estou informado não existem na literatura. Os prêmios literários nunca foram “eficientes” (a não ser acidentalmente) e a Copa também não o seria. O que me decepciona no clima instalado lá, um clima que o texto-piadinha do AS agravou – sabe sala-de-aula-quando-o-professor-sai? – é que, como escreveu brilhantemente o Tiago A., a hora não é de piada. Vista como piada a literatura brasileira já é, pela maior parte do público. Ver alguém, com o apoio entusiástico de uma parcela dos comentaristas, dar uma de modernista enfezado com 85 anos de atraso para chutar um cachorro já se desfez em cinzas é, na boa, o fim da picada.
Uma leitora lá me tresleu, como é habitual, e disse que eu estou buscando criar um consenso para o meu próximo livro (gargalhadas)!!! Como se pudesse existir – ou mesmo como se fosse desejável, o que não é o caso – consenso nesses assuntos. Critério cada um tem o seu, ainda bem. O que acho triste é que os critérios não sejam expressos num idioma comum, só isso.
Sérgio, só pra dizer que compartilho tua preocupação e que assino tua carta. Abraço. Ernani Ssó
IMHO, foi uma tentativa de fazer a resenha brilhar mais que os livros. Uma pena mesmo. Mas não dá para acertar todas… é só o segundo ano da copa, não é isso? Vivendo e aprendendo. É só ajustar um critério ou outro como “está proibido cara ou coroa e zerinho ou um” :). Infelizmente a gente só percebe alguns obstáculos quando já está em cima deles.
Acho importantíssimo que a crítica recupere seu papel. Não de determinar a verdade absoluta, mas de colocar ordenadamente em um texto uma opinião de prós e contras, ajudar no processamento da informação, não deixar que ela caia no vazio. Sei que eu montei uma listinha de livros que deixaria passar se não fosse a Copa de Literatura!