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“É muito difícil pensar em ’ser escritor’ quando se nasce num país em
que ninguém lê: os pobres porque não sabem ou porque não possuem
meios para adquirir conhecimentos, e os ricos porque não sentem
vontade. Numa sociedade assim, querer ser escritor não é optar por
uma profissão, mas por um ato de loucura.” MARIO VARGAS LLOSA

30/10/2008 - 11:20

Por que Tezza ganhou o Portugal Telecom

A vitória de Cristovão Tezza no Portugal Telecom, confirmada ontem à noite em São Paulo, foi uma das mais previsíveis da curta história do mais importante prêmio literário do país. Isso é chato? Não, isso é muito bom.

Se, no método científico, a capacidade de sustentar previsões é prova fundamental da validade de uma teoria, no discurso sobre a literatura, que de científico não tem nada, previsões que se confirmam podem nos dar a sensação quase eufórica de que ainda somos capazes de falar a mesma língua após (ou no meio de?) um longo inverno de cada-um-por-si pós-modernista, com sua galeria de luminares que não dura(va)m mais que uma Flip, dois meses ou três quarteirões.

Romance em que o experiente escritor catarinense, no auge da forma, se transforma em personagem para tematizar com coragem e sem pieguice sua relação com Felipe, seu filho com síndrome de Down, “O filho eterno” (Record, trecho aqui) foi, disparado, o livro brasileiro lançado em 2007 que equilibrou com maior sucesso os pinos malabares freqüentemente antagônicos da legibilidade (aquilo que ganha o público) e do rigor estético (aquilo que ganha a crítica); da alta voltagem emocional (que atrai leitores) e do trabalho maduro de linguagem (que atrai elogios).

Fez isso com tanta naturalidade e desenvoltura que deixa no ar uma pergunta incômoda: os tais pinos precisam mesmo se repelir ou nós é que, por comodidade, incompetência ou vício, os tratamos assim?

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria Tags:

25 comentários para “Por que Tezza ganhou o Portugal Telecom”

  1. Eric: Você me conhece, eu sou um moleque. A Idade do Saint não foi colocada em questão. Mas a minha ineperiencia.

    Rodrigo: Posso ter me confundido. Mas algum dia o Chico Cantou essa. Mas acho que o que é dele (com nome de Julinho da Adelaide) é “Chame o ladrão.”

    Acho mesmo que eu caí naquele erro de atribuir todas as frase pro Jabor, Chico ou Einstein.

  2. Marcos Bonfim disse:

    Este livro é sensacional. O melhor em muito tempo que a literatura brasileira produziu. E tem toda a cara de um clássico da produção nacional de todos os tempos – afinal, não é por acaso que há tanta repercussão crítica em torno dele. E também não é por acaso que ganhou tantos prêmios. Aliás, pelo jeito, ainda ganhará mais. Hoje à noite tem o livro do ano do Prêmio Jabuti. E, em novembro, o prêmio São Paulo de Literatura. Isto é algo para ser comemorado: se ganhamos um livro para o cânone brasileiro, fazia tempo que isto não acontecia.

    Abs,
    Marcos.

  3. Laura disse:

    Não li ainda o livro, mas confio no que vc diz, vou conferir.
    Tb escrevo, e é difícil sustentar estes pinos :)
    É preciso consistência e saber escrever.
    Bom te reencontrar aqui, hj descobri seu espaço novo ao acaso.
    Abs
    Laura
    http://www.lauravive.blogspot.com

  4. Chico disse:

    Kummel, otimo paralelo. Realmente o Tezza lembra algo do protagonista de Boyhood e Youth – mas para ai, pois a linguagem a maneira de narrar eh totalmente diferente. Lembra também Protnoy e outros, dos romaces antigos do Roth. Ou seja, o Tezza não tem pena de seu protagonista. Nao o trata com carinho e por isso o livro, no geral, se torna bom. Pois convenhamos, ca pra nos, um enredo onde o protagonista eh uma crianca com Down e o pai um literato alcoolatra, poderia facilmente incorrer em bobagens lacrimejantes, na facilidade do piegas, do “vejam como sofro…” e… no intelectualismo barato.

    Mas… quase chego a concordar com o Claudio sobre a falta de necessidade de alguns paragrafos inteiros que me dao a impressao de so estarem ali para afirmar a personalidade pedante e egocentrica de um protagonista repelente. Falta de voz da filha e da mae.

    Ao contrario do Claudio, nenhuma vez cai na tentacao de abandonar o livro – o que eh um bom barometro para me convencer de que o livro eh bom – mas concordo que o livro eh apenas um bom livro vencedor e apenas remotamente memoravel. Concordo: ha 1/4 do final, parecia nao haver mais nada a ser dito.

  5. Crítica exata, perfeita. É o melhor de 2007, sem dúvida.

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