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“É muito difícil pensar em ’ser escritor’ quando se nasce num país em
que ninguém lê: os pobres porque não sabem ou porque não possuem
meios para adquirir conhecimentos, e os ricos porque não sentem
vontade. Numa sociedade assim, querer ser escritor não é optar por
uma profissão, mas por um ato de loucura.” MARIO VARGAS LLOSA

26/10/2008 - 14:02

Começos (ainda) inesquecíveis: Rodrigo Lacerda

Publicado em 10/12/2006:

Eu, Valfredo Margarelon, subscrevo esta declaração no intuito de recolocar a justiça acima dos boatos e restaurar a fachada honrosa do brasão de minha família, sordidamente maculada por três elementos nocivos à ordem e aos bons costumes do reino inglês. Meu espírito simples, desabituado à lida com as palavras, vem a público para desmentir as ignominiosas calúnias feitas contra minha prima, Maria Margarelon, por um desclassificado de nome João Manningham, em conluio com o autor teatral Guilherme Shakespeare, integrante da companhia Homens do Lorde Camarista, e outro chamado Ricardo Burbage, ator na mesma companhia. Juntos, os três espalharam boatos deturpados e desonrosos, que alteram o curso da verdade e mancham a honra de minha prima e irmã de criação. Eu afirmo, perante Deus e a justiça real, que tais aleivosias nasceram de suas mentes imundas e tiveram divulgação a partir de tavernas e bordéis, sítios tão infectos quanto indecorosos. Provarei aqui como sua versão dos fatos é caluniosa, além de muito deturpada pela arrogância que caracteriza o círculo teatral e os que nele perambulam.

O primeiro parágrafo anuncia com todas as letras a delícia que é a novelinha farsesca “O mistério do leão rampante” (Ateliê Editorial, 1995), livro de estréia de Rodrigo Lacerda – até hoje, em minha opinião, não superado por ele. Andei especulando por aqui que a literatura brasileira, tão queixosa da indiferença do público, talvez fizesse bem em se despir de uma certa sisudez para cair na gandaia (do texto), cuidando em primeiro lugar de divertir à larga – e de forma inteligente, claro – o pobre do leitor. “O mistério do leão rampante” faz isso com a maior elegância.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria Tags:

3 comentários para “Começos (ainda) inesquecíveis: Rodrigo Lacerda”

  1. Cezar Santos disse:

    Sérgio, concordo em gênero , número e grau…
    Esse livrinho é uma delícia, e realmente o Rodrigo não se superou em relação a ele. Tanto que o relançou há pouco tempo com modificações, acréscimos, me parece, numa edição luxuosa.
    Meu exemplar é da primeira edição e já voltei a ele umas três vezes…

  2. Rafael Guerra disse:

    Exelente, li alguns textos do seu blog e gostei muito. Da forma como escreve, de como usa as palavras. Se gostar de poesia, visite o meu blog, são simples, mas espero que agrade.

    http://www.memoriasdeumapalavra.blogspot.com

    Obrigado

  3. Joao Gomes disse:

    off-topic, mas necessario.

    Acho que existe muito mais “infectados” com a incurável doenca da escrita nos dias de hoje do que no passado. As novas tecnologias de informacao e comunicacao permitem que prolifere de maneira exponencial o alastramento da epidemia.

    http://www2.uol.com.br/vivermente/artigos/a_incuravel_-doenca-_da_escrita.html

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