iG
iBest BrTurbo

Publicidade

Publicidade

“É muito difícil pensar em ’ser escritor’ quando se nasce num país em
que ninguém lê: os pobres porque não sabem ou porque não possuem
meios para adquirir conhecimentos, e os ricos porque não sentem
vontade. Numa sociedade assim, querer ser escritor não é optar por
uma profissão, mas por um ato de loucura.” MARIO VARGAS LLOSA

03/10/2008 - 11:32

A literatura como coisa de doido, ou Adriana Calcanhotto

Matéria de capa da Ilustrada de hoje revela (só para assinantes) que a excelente cantora Adriana Calcanhotto, por causa de um surto psicótico – induzido por medicamentos – que sofreu durante viagem a Portugal, descobriu-se escritora. Com objetivos terapêuticos, enquanto era sitiada por ataques de pânico e delírio, Adriana começou a escrever feito uma doida e quando reparou, olha só, tinha nas mãos um livro chamado “Saga lusa”. Um livro que está prestes a ser lançado por uma editora nanica.

Adriana brinca, já se imaginando na Academia Brasileira de Letras, mas no fim volta a falar sério e decreta que a canção “é superior” à literatura. Tudo muito leve, divertido. Daria uma boa nota de coluna social, quem sabe até uma materinha de interesse humano, daquelas que os nacionalistas mais ferrenhos chamam de feature.

Pena que, tendo ido parar no espaço nobre da capa da Ilustrada, o surto psicótico-logorréico de Adriana Calcanhotto em Portugal deixe de soar como uma anedota para se tornar sintoma de uma síndrome grave: a da transformação da arte, qualquer arte, num acessório cada vez mais desimportante – e às vezes até ridículo, merecedor de todos os achincalhes – no magnífico desfile da Fama.

Vale a pena fazer um exercício. Imaginemos que, sei lá, Milton Hatoum desandasse um belo dia a cantar no banho e, empolgado com seus recém-descobertos dós de peito, acabasse gravando um CD caseiro, apenas para declarar ao fim da aventura que “o romance é superior à canção”. Mereceria o talentoso escritor amazonense o mesmo tapete vermelho na festa do jornalismo cultural?

É evidente que não. Na lógica da Síndrome, Hatoum mal existe, não é uma celebridade como Adriana. Aliás, em nosso país a literatura – coisa de gente maluca, como se viu – não costuma gerar celebridades; a música popular, sim. Não será justamente isso que Adriana Calcanhotto quer dizer quando afirma que a canção é “superior”?

E ainda nem mencionei o traço mais insidioso da Síndrome: com seu jeito fofo, simpaticão, faz a gente parecer apenas mal-humorado quando resolve chamá-la pelo nome certo.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria Tags:

42 comentários para “A literatura como coisa de doido, ou Adriana Calcanhotto”

  1. Todo blog de audiência significativa tem filtros. O Todoprosa sempre teve. Infelizmente, o volume diário de lixo não deixa alternativa. Mas se é verdade que seu comentário chegou a ser publicado e depois desapareceu, o caso é realmente insólito e merece investigação. Quando foi isso? Não vi nenhum comentário seu antes desses aí.

  2. Thiago, seu silêncio sugere que as coisas não se passaram exatamente da forma que você, em sua exaltação, sustentou de início. Acontece, qualquer um pode se enganar. Mas da próxima vez tenha mais cuidado antes de fazer uma acusação tão grave.

Deixe um comentário:

Antes de escrever seu comentário, lembre-se: o iG não publica comentários ofensivos, obscenos, que vão contra a lei, que não tenham o remetente identificado ou que não tenham relação com o conteúdo comentado. Dê sua opinião com responsabilidade!

Os campos com * são de preenchimento obrigatório






Voltar ao topo