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“É muito difícil pensar em ’ser escritor’ quando se nasce num país em
que ninguém lê: os pobres porque não sabem ou porque não possuem
meios para adquirir conhecimentos, e os ricos porque não sentem
vontade. Numa sociedade assim, querer ser escritor não é optar por
uma profissão, mas por um ato de loucura.” MARIO VARGAS LLOSA

01/10/2008 - 15:00

Auto-Ajuda Picareta e Caricata (AAPC)

Uma vez, falando aqui no blog sobre o escritor suíço (radicado em Londres) Alain de Botton, autor de “Como Proust pode mudar sua vida” (Rocco), eu disse que ele tinha praticamente inventado um novo gênero literário, que batizei de Auto-Ajuda Podre de Chique (AAPC). A leitura que se faz do gênero é a mesma da auto-ajuda mais rasteira, isto é, uma leitura utilitária: “Como este livro pode adiantar o meu lado?”. Ao mesmo tempo – eis o golpe de mestre – há uma aura de refinamento intelectual que impede o leitor de se sentir um filisteu.

Contudo, estou reavaliando meu juízo sobre o homem depois que li esta notícia no “Mais!” do último domingo (só para assinantes). Alain de Botton é sócio de uma certa Escola da Vida, que acaba de ser inaugurada em Londres com uma proposta espantosa. Como diz o texto assinado por Pedro Dias Leite:

A idéia é a seguinte: o cliente preenche uma ficha com informações sobre sua história, suas aspirações e seus hábitos e, a partir de uma consulta com um especialista, recebe indicações de leitura que o ajudem a enfrentar uma nova fase, encarar uma etapa importante ou simplesmente aproveitar um momento da vida.

A consulta, segundo a reportagem, custa o equivalente a R$ 120, e pode resultar em algo como os seguintes exemplos:

Para aqueles que se preocupam com a morte: “Nothing to Be Frightened of” (Nada a Temer), do escritor britânico Julian Barnes

Para aqueles em busca de sua própria companhia: “Man Alone With Himself” (”Homem a Sós Consigo”, parte de “Humano, Demasiado Humano”), de Nietzsche.

Para aqueles que ficaram profundamente e inesperadamente apaixonados: “Fragmentos de um Discurso Amoroso” (ed. Martins Fontes), de Roland Barthes.

Depois dessa, estou pensando em rebatizar a AAPC: Auto-Ajuda Picareta e Caricata parece um nome mais adequado.

Sempre disposto a fomentar o empreendedorismo, porém, deixo algumas sugestões nativas a quem, inspirado na vanguarda londrina, quiser montar por aqui sua própria tendinha biblioterápica:

Para aqueles que estão planejando uma festança inesquecível de réveillon: “Feliz ano novo”, de Rubem Fonseca

Para aquele pai zeloso cuja filha está prestes a se casar: “O casamento”, de Nelson Rodrigues

Para quem deseja encarar um caso extraconjugal sem medo: “A cartomante”, de Machado de Assis

Para quem morreu e não sabe: “Memórias póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis

Se alguém quiser contribuir com outras idéias, o guichê está aberto.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria Tags:

45 comentários para “Auto-Ajuda Picareta e Caricata (AAPC)”

  1. Para quem quer fazer terapia: Cosnciêcia de Zeno – Italo Svevo

    Para quem quer voltar para casa ou afiar lâminas: Conversa na Sicília – Elio Vitorinni

    Para quem não se reconhece no Espelho: Um, Nenhum e Cem mil – Pirandello

  2. Everton Lodetti de Oliveira disse:

    Para candidatos a representante comercial: A Morte do Caixeiro Viajante – Arthur Miller;

    Para mulheres ambiciosas: As Aventuras da Menina Má – Vargas Llosa

    Para pastores frustados: A Guerra do Fim do Mundo – Vargas Llosa

    Para os ansiosos: O Amor nos Tempos do Cólera

    []’s

  3. Chico (quase ex-carioca) disse:

    Para todos: Aurelio
    Para os prosas: The Art of Fiction e Cartas a um Jovem Escritor
    Para os marxistas: O Cobrador
    Para o concupiscente: Le Rouge et le noir
    Para viver no Rio do lado de ca do Reboucas: Manual do Guerrilheiro Urbano
    Para os mineiros: Primeiras Estorias
    Para quem le Paulo Coelho: Armadilha para Lamartine e O Autor mente muito
    Para quem leva a vida na flauta: L’Education sentimentale
    Para quem sofre: A História do Clube de Regatas do Flamengo
    Para se entender: Raizes do Brasil, Casa-grande e senzala, Sermoes e epistolario do Pe. Vieira, 3 talagadas de Salinas antes da janta, 2 valiums antes de dormir

  4. Depois de todas as sugestões, Alain, que se cuide… :)

  5. chato disse:

    Olha, recomendação de leitura mediante paga, desde que esclarecido o frequês de que não se trata de nada além disso – recomendação de leitura – me parece não apenas mais sadio, como também mais honesto do que a empulhação dos psicanalistas, que além de escravizar emocional e financeiramente o freguês, ainda postulam ares de seriedade à sua picaretagem pseudo-científica e pseudo-curativa.

  6. Mr. WRITER disse:

    Para quem acha que está louco e fala com Deus: Valis de philip K. Dick…

  7. Anna May disse:

    Para quem sabe não tem capacidade e nem bagagem cultural para tanto, mas faz questão de se fazer passar por intelectual;
    O manual do cara de pau!!!

    Para quem está com a sensação de que o tempo passa e não consegue realizar nada que o tire da mediocridade: “As Cadeiras”, de Ionesco.

  8. Véio Rabugento disse:

    Para quem acredita nessas bobagens de desenvolvimento econômico, criação de empregos e distribuição de renda: 3000 dias no bunker.

  9. João Daltro disse:

    Todos esses dá para achar no sebo:
    Para os dentistas: Caninos Brancos, de Jack London.
    Para os oculistas: As Pupilas do Senhor Reitor, de Júlio Diniz.
    Para os mecânicos: A Volta do Parafuso, de Henry James.
    Para os jardineiros: As Flores do Mal, de Charles Baudelaire.
    Para os zoólogos: O Dia do Chacal, de Frederick Forsyth.
    Para os engenheiros: Os Sete Pilares da Sabedoria, de T. E. Lawrence.
    Para os botânicos: O Nome da Rosa, de Umberto Eco.
    Para os gramáticos: Amar, verbo intransitivo, de Mário de Andrade.
    Para figurinista de escola de samba: O Jogo das Contas de Vidro, de Hermann Hesse.
    Para quem está na dúvida se vai dar praia: As Nuvens, de Aristófanes.
    Para quem vai hospedar a sogra: A Megera Domada, de Shakespeare.
    Para qualquer um que seguir meus conselhos: O Bobo, de Alexandre Herculano.

  10. Raquel disse:

    Para quem detesta auto ajuda picareta e a maioria do que aí está pelas livrarias, “Sobre o ofício do escritor” do meu querido rabugento Schopenhauer (apresentação e notas de Franco Volpi, Martins Fontes). Risadas garantidas.

  11. angelo disse:

    Para quem quer enxergar melhor: “História do Olho”

  12. Emerson Moraes disse:

    Já que vc citou Nelson Rodrigues, sugiro a leitura de “Inveja – Saiba como tratar e se defender deste mal”. Deste modo, por meio da auto-ajuda podemos nos livrar de nosso “complexo de vira-lata” e deixar os ingleses em paz…

  13. marco disse:

    para quem quer ser barbeiro: o fio da navalha – de somerset maugham

  14. marco disse:

    para quem quer ser ecologista – Moby Dick – de Herman Melville.

  15. marco disse:

    para quem quer ser veterinário – Gata em Teto de Zinco Quente de Tennessee Williams

  16. marco disse:

    para quem quer ser diretor do zooológico – Il Gattopardo de Tomasi di Lampedusa

  17. marco disse:

    para quem quer ser miss – O Pequeno Príncipe de Saint-Exupéry.

  18. marco disse:

    para quem quer ser garota de programa – Jack the Ripper de Richard Wallace.

  19. marco disse:

    para quem quer viajar de navio – Afundem o Bismarck ! de
    C S Forester

  20. marco disse:

    para quem realmente ama as músicas dos beatles – Helter Skelter: The True Story of the Manson Murders
    por Vincent Bugliosi

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