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“Rasgar contos é algo irremediável, porque escrevê-los é como
despejar concreto. Em compensação, escrever um romance é
como colar ladrilhos. Isso quer dizer que se um conto não se
consolida na primeira tentativa é melhor não insistir. Um romance
é mais fácil: volta-se a começar.” GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ

01/10/2008 - 15:00

Auto-Ajuda Picareta e Caricata (AAPC)

Uma vez, falando aqui no blog sobre o escritor suíço (radicado em Londres) Alain de Botton, autor de “Como Proust pode mudar sua vida” (Rocco), eu disse que ele tinha praticamente inventado um novo gênero literário, que batizei de Auto-Ajuda Podre de Chique (AAPC). A leitura que se faz do gênero é a mesma da auto-ajuda mais rasteira, isto é, uma leitura utilitária: “Como este livro pode adiantar o meu lado?”. Ao mesmo tempo – eis o golpe de mestre – há uma aura de refinamento intelectual que impede o leitor de se sentir um filisteu.

Contudo, estou reavaliando meu juízo sobre o homem depois que li esta notícia no “Mais!” do último domingo (só para assinantes). Alain de Botton é sócio de uma certa Escola da Vida, que acaba de ser inaugurada em Londres com uma proposta espantosa. Como diz o texto assinado por Pedro Dias Leite:

A idéia é a seguinte: o cliente preenche uma ficha com informações sobre sua história, suas aspirações e seus hábitos e, a partir de uma consulta com um especialista, recebe indicações de leitura que o ajudem a enfrentar uma nova fase, encarar uma etapa importante ou simplesmente aproveitar um momento da vida.

A consulta, segundo a reportagem, custa o equivalente a R$ 120, e pode resultar em algo como os seguintes exemplos:

Para aqueles que se preocupam com a morte: “Nothing to Be Frightened of” (Nada a Temer), do escritor britânico Julian Barnes

Para aqueles em busca de sua própria companhia: “Man Alone With Himself” (”Homem a Sós Consigo”, parte de “Humano, Demasiado Humano”), de Nietzsche.

Para aqueles que ficaram profundamente e inesperadamente apaixonados: “Fragmentos de um Discurso Amoroso” (ed. Martins Fontes), de Roland Barthes.

Depois dessa, estou pensando em rebatizar a AAPC: Auto-Ajuda Picareta e Caricata parece um nome mais adequado.

Sempre disposto a fomentar o empreendedorismo, porém, deixo algumas sugestões nativas a quem, inspirado na vanguarda londrina, quiser montar por aqui sua própria tendinha biblioterápica:

Para aqueles que estão planejando uma festança inesquecível de réveillon: “Feliz ano novo”, de Rubem Fonseca

Para aquele pai zeloso cuja filha está prestes a se casar: “O casamento”, de Nelson Rodrigues

Para quem deseja encarar um caso extraconjugal sem medo: “A cartomante”, de Machado de Assis

Para quem morreu e não sabe: “Memórias póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis

Se alguém quiser contribuir com outras idéias, o guichê está aberto.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria Tags:

45 comentários para “Auto-Ajuda Picareta e Caricata (AAPC)”

  1. Klaus disse:

    Para quem quer comer a irmã: Lavoura Arcaica – Raduan Nassar

  2. Luciana disse:

    Divertida essa história da AAPC.

    Lembrei da atriz que disse numa entrevista que seu gênero de leitura favorito era a comédia. E completou dizendo que o livro que mais gostou de ler foi a Divina Comédia de Dante Alighieri.

    Minhas sugestões:

    Para quem quer ser prefeito mas não quer trabalhar: As Cidades Invisíveis

    Para quem quer saber o que colocar na mala para ir a país nórdico em janeiro: Se um viajante numa noite de inverno

    Para quem quer ser latifundiário: Terras do Sem Fim

    Para quem quer saber mais sobre o PMDB: Ulisses

  3. Elen Nishida disse:

    Para quem tem medo do futuro: Admirável Mundo Novo – Aldous Huxley
    Para quem tem medo de ficar feio: A Metamorfose – Kafka
    Para políticos: Ensaio sobre a lucidez – Saramago
    Para quem lê a bíblia: O evangelho segundo Jesus Cristo – Saramago
    Para quem confia nas pessoas: Quincas Borba – Machado de Assis

  4. Vladimir disse:

    Vc deveria citar uma das grandes obras dele, DESEJO DE STATUS, Desafio a qualquer pessoa a nao se enquadrar naquele livro. Ele consegue sintetizar muito bem o mal que aflige grande parte desta sociedade. E a coisa vai piorando, ainda mais em paises jovens como o Brasil que ainda se apegam a valores ja ultrapassados pela sociedade mais antiga, como na Europa. Digo isso com a maior tranquilidade pois vivo aqui em Londres e observo o comportamento social no meu dia a dia. Ahh, irei visitar a livraria ESCOLA DA VIDA..sem duvidas..nao tem nada de picareta, e originalidade pura. Livros de ajuda, ao menos tentam ajudar as pessoas. Melhor do que livros de romances enfadonhos, que nada de beneficio trazem a nossa vida. Temos que evoluir nosso lado emocional e nao apenas o intelectual!

  5. Vladimir disse:

    Vc deveria citar uma das grandes obras dele, DESEJO DE STATUS, Desafio a qualquer pessoa a nao se enquadrar naquele livro. Nao s ei quem tem coragem de dizer que e embuste. Pessoas que nunca fizeram nada de grandioso deveraim se abster de criticar grandes personalidades reconhecidas mundialmente. Muito pratico se esconder no seu mundinho e questionar os outros. O Alain de Botton consegue sintetizar muito bem o mal que aflige grande parte desta sociedade. E a coisa vai piorando, ainda mais em paises jovens como o Brasil que ainda se apegam a valores ja ultrapassados pela sociedade mais antiga, como na Europa. Digo isso com a maior tranquilidade pois vivo aqui em Londres e observo o comportamento social no meu dia a dia. Ahh, irei visitar ,sim, a livraria ESCOLA DA VIDA..sem duvidas..nao tem nada de picareta, e originalidade pura. Livros de ajuda, ao menos tentam ajudar as pessoas. Melhor do que livros de romances enfadonhos, que nada de beneficio trazem a nossa vida. Temos que evoluir nosso lado emocional e nao apenas o intelectual!

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