The Ax of Asisi
Nem foi preciso citar Woody Allen entre os admiradores americanos de Machado de Assis. Outro Allen, o Ginsberg, cumpriu para minha surpresa esse papel, com uma frase de 1961 em que compara o escritor carioca a Kafka – no que discorda de Philip Roth, que prefere o paralelo com Samuel Beckett. A esses nomes bastou juntar os suspeitos de sempre, como Susan Sontag e Harold Bloom, além de algumas vozes brasileiras, e o resultado foi a honesta e otimista reportagem sobre Machado que o “New York Times” (cadastro gratuito, em inglês) publicou na última sexta-feira.
Com o gancho da Semana Machado em Nova York, em que seminários se alternam com exibições de filmes para lembrar o centenário da morte do autor, o título “Depois de um século, uma reputação literária enfim floresce” anuncia um texto em que o correto Larry Rohter, o homem que Lula quis expulsar do Brasil, trata Machado como o gênio que ele é e especula sobre as razões de sua demora em penetrar no cânone internacional – por internacional entenda-se anglófono, of course.
Quando digo que a reportagem é otimista, refiro-me à presunção de que a longa batalha esteja vencida, como se, um século depois, Machado tivesse enfim encontrado o reconhecimento internacional que merece. Não encontrou, longe disso. Com o impulso da efeméride, talvez tenha ganhado uns palmos de terreno. Recuos virão. Não se escreve impunemente numa língua que a Bolsa de Valores Literários internacional situa em algum ponto entre o húngaro e o volapuque, uma posição injusta que, governo após governo, o Brasil não tem movido uma palha para mudar.
É curioso constatar que, mesmo incipiente, a descoberta de Machado por leitores estrangeiros parece incomodar alguns machadianos nativos, mais ou menos como ocorre com os velhos fregueses daquele botequim que de repente entra na moda e é invadido por hordas de forasteiros. É o que se vislumbra nesse trecho da reportagem de Rohter:
Entusiastas nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha “estão fazendo Machado se parecer cada vez menos com Machado”, afirmou mês passado o crítico e escritor Antônio Gonçalves Filho num simpósio em São Paulo. “Na verdade, o estão tornando branco, como Michael Jackson. De repente, ele virou um escritor “universal”.
Engraçado, e eu aqui achando que o primeiro a trabalhar no sentido dessa universalização ou, vá lá, “branqueamento” tinha sido o próprio Machado, que Joaquim Nabuco chamou de “grego”.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Uncategorized Tags:
Machado é o cara.
E a ABL (que não serve pra nada mesmo) não poderia servir pelo menos pra divulgar a obra daquele que deveria ser seu autor mais importante? Um projeto de publicação de suas obras completas – em português mesmo, já que não temos nenhuma edição pelo menos decente – seria pedir muito?
O Antônio Gonçalves Filho não está fazendo mais do que reproduzir o asneirol costumeiramente dito por Roberto Schwarz, que você mesmo ficou incensando aqui no blogue. Basta ver a reação de jumento bravo que Schwarz esboçou contra o português Abel Barros Baptista no congresso recentemente promovido pela Unesp no Auditório do MASP. Aliás, foi este tal de Antônio Gonçalves Filho que reproduziu, entusiasticamente, as palavras de Schwarz contra leituras estrangeiras em reportagem no Estadão.
Não sei o que vocês acham, mas este comentário abaixo me lembrou muito aquele comentário bêbado do Vanucci depois de o Brasil perder a Copa de 2006. Senti falta do “comida de leões”…
“Nosso maior escritor. Não há como contestar. Mainard…daqui a 100 anos…vermes só se ve de perto. Não misture critica literária com politicagem. Simplesmente sejamos todos profissionais.”
Uma vez, perguntaram a Carpeaux o que mais o surpreendeu quando chegou ao Brasil. Ele respondeu que já imaginava que por aqui houvesse um Machado e um Euclides. O que ele não contava é que houvesse uma frase como a seguinte, escrita por Machado:
” No meu tempo, já existiam velhos, mas poucos.”
Aí está o texto a que me referi, de onde o Harry Potter – digo, Larry Rohter – tirou a citação de Antônio Gonçalves Filho. O Gonçalves está apenas resumindo – grosseiramente – os argumentos do Schwarz:
O Machado universal e o punhal de Martinha
Antonio Gonçalves Filho
O Estado de S. Paulo – 27/8/2008
Era para ser uma saudação cordial aos estudiosos e críticos estrangeiros da obra de Machado de Assis, mas a abertura do Simpósio Internacional Caminhos Cruzados, promovido pela Unesp, segunda à noite, no Masp, virou uma advertência aos candidatos empenhados em formular novas teses sobre o autor de Memórias Póstumas de Brás Cubas. Logo após a saudação inicial, a cargo do escritor Milton Hatoum, o professor de Literatura Roberto Schwarz confrontou a interpretação “universalista” de Machado por um segmento da crítica internacional, que insiste em ignorar as críticas do escritor à sociedade brasileira, desprezando suas análises sobre o contexto político e social que ajudaram a construir uma obra sólida, independente de seu reconhecimento fora do País.
Desde que a feminista e tradutora norte-americana de Machado, Helen Caldwell, identificou em Dom Casmurro ecos do Otelo de Shakespeare, em The Brazilian Othello of Machado de Assis (publicado nos EUA em 1960 e traduzido no Brasil só 40 anos depois), acadêmicos de todo o mundo perseguem, assanhados, o bruxo de Cosme Velho. Buscam aqui e ali traços denunciadores da influência literária de Lawrence Sterne, da filosofia de Pascal e da ironia de Jonathan Swift, fazendo Machado cada vez menos parecido com Machado. Tornam o escritor, enfim, branco como Michael Jackson. De repente, ele virou “universal” – leia-se caucasiano do Hemisfério Norte. Mas, disposto a provar que Bentinho não é Otelo e Capitu não é Desdêmona, o professor Roberto Schwarz foi buscar numa antiga crônica de 1894, O Punhal de Martinha, as provas de que necessitava para mostrar que, antes mesmo dele, Machado já havia previsto sua apropriação indébita, escrevendo sobre o despropósito da comparação entre o que se passa abaixo do Equador e acima dele.
Nessa crônica, Machado parodia a prosa clássica, comparando um homicídio praticado na Bahia pela suspeita Martinha ao suicídio da virtuosa Lucrécia, ultrajada por Sexto Tarqüínio. Se, em Roma, o punhal da violada Lucrécia serve tanto a um propósito particular como a uma causa pública, provocando uma revolução contra a realeza, em Cachoeira, Bahia, o punhal enferrujado de Martinha apenas abrevia a vida do canalha João Limeira, a pedra no sapato da anônima brasileira. Entre a desconhecida Cachoeira e a universal Roma, observa Schwarz, prevalece o espírito de troça do satírico Machado, “cronista que deplora a sorte obscura dos compatriotas pobres e provincianos”.
Schwarz , antes de começar sua análise da crônica machadiana, fez referência a um texto do professor de Literatura Comparada Michael Wood, publicado no The New York Review of Books em 18 de julho de 2002, A Master Among Ruins (Um Mestre entre Ruínas). Como outros críticos estrangeiros, Wood vê Machado como autor universal, “como se a sua reputação tivesse crescido sem o apoio do Brasil”, observou o palestrante, concluindo que o escritor fez literatura “às custas de seu país”, cabendo o leitor perceber seu ressentimento contra a falta de repercussão de nossas coisas lá fora. Pode ser que ele não tenha garantido a Martinha o mesmo lugar de honra que Tito Lívio reservou a Lucrécia, mas seu posto na literatura terá de ser considerado por ensaístas e críticos dispostos a analisar a obra de Machado.
De certo modo, a introdução de Milton Hatoum ao tema do Machado universal mostrou que até mesmo para os portugueses o brasileiro representa uma “ameaça” à supremacia de seus monstros literários. O autor de Dois Irmãos contou uma história pessoal, a de uma aluna catalã que queria aprender português para contestar o amante lusitano, disposto a provar que Eça de Queiroz era superior a Machado. Um autor que, segundo o tal Soares, só sabia escrever sobre adultérios e imitar Almeida Garret.
Esse paralelo entre Tito Lívio e o Machado de Assis é engraçado. Será que não ocorreu ao autor (do artigo, esclareço) que Tito Lívio não tinha outra preocupação senão escrever a crônica de Roma? Tito Lívio não tinha a pretensão de ser “universal” (conceito, aliás, estranho aos romanos). Tornou-se ele “universal” porque seus pósteros o tomaram como base para suas reflexões sobre a História e os Homens. Fico aqui imaginando um Roberto Schwarz contemporâneo de Augusto, amigo de Tito Lívio, se indignando com a infame ousadia dos escritores do futuro, que tiveram o desplante de se apropriar do historiador romano, fazendo-o um modelo para suas reflexões. Só os romanos podem compreender Tito Lívio; só os brasileiros podem compreender Machado de Assis.
Todos aqui concordam que o juízo de Goethe sobre Shakespeare é inteiramente equivocado: somente os ingleses, com descedência britânica por, pelo menos, cinqüenta gerações, é que podem compreender Shakespeare.
O Schwarz sempre confunde europeu com universal, e mitifica a modernidade européia, que seria de verdade, em relação à modernidade brasileira, que seria capenga. Ou seja, não entende lhufas de história… E quer fazer análise histórica de Machado.
Aliás, se alguém se der ao trabalho de ler a crônica “O Punhal de Martinha”, vai descobrir, coisa de espantar, que o Schwarz não sabe ler.
Grande sacada Otto!