Arquivo de setembro, 2008
29/09/2008 - 14:43
Hoje, como todo mundo deve estar cansado de saber, faz cem anos que morreu Machado de Assis. Entre os incontáveis eventos comemorativos, cadernos especiais, exposições, tombamentos, livros sobre esse ou aquele aspecto de vida e obra do escritor genial, é bom tomar cuidado – o risco de enfado é grande. Vale a pena resistir a esse sentimento para ouvir a melhor notícia da temporada: o lançamento da nova – revista e ampliadíssima – edição das obras completas de Machado pela Nova Aguilar.
O que antes cabia em três volumes agora precisa de quatro, depois do acréscimo de 66 contos (a melhor novidade), uma atualizada fortuna crítica (que corrige o maior defeito da edição anterior) e mais uma enormidade de crônicas, cartas e peças de teatro.
Passada a espuma da efeméride, são esses quatro livros de capa dura que deixarão o Brasil melhor do que era antes de 2008. Pena que o pacote só seja vendido inteiro, nada de volumes avulsos, e custe R$ 550. Mais detalhes sobre o lançamento podem ser lidos no “Globo” de hoje – lamentavelmente, com acesso fechado no site do jornal.
Mas para não deixar o blog alheio ao único assunto literário possível nesta segunda-feira, e como já tinha antecipado minha homenagem particular ao homem, fui procurar alguma informação sobre algo que me parece pouco falado e que é, afinal, a motivação de todo esse burburinho: a morte de Machado de Assis. Que morte! Como, relendo o texto, não vi nada de muito errado com ele, reproduzo abaixo a notícia como ela foi dada na coleção “O Globo 2000”, uma série de fascículos de memória do século XX que Arthur Dapieve e eu editamos em 1999:
Joaquim Maria Machado de Assis, o maior escritor brasileiro, morreu às 3h20m da madrugada de 29 de setembro de 1908 em sua casa, no bairro carioca do Cosme Velho, aos 69 anos. Para os amigos que o cercavam em seu leito de morte, não havia dúvida de que o mestre começara a se despedir quatro anos antes, ao perder a mulher, Carolina Augusta, com quem tinha sido casado por 35 anos. Viúvo, Machado viveu apenas o suficiente para escrever seu adeus literário, o melancólico romance “Memorial de Aires”. O livro saiu em julho e, exatamente dois meses depois, o autor chegou ao ponto final – provocado, segundo o laudo médico, por “arteriosclerose agravada por uma enterite infecciosa”.
Era o fim da trajetória fulgurante de um homem que parecia um compêndio de circunstâncias desfavoráveis – infância pobre, orfandade precoce, pele mulata numa sociedade escravista, gagueira, epilepsia – e que, apesar disso, conheceu as mais altas honrarias já concedidas a um escritor no Brasil.
A morte de Machado de Assis foi um acontecimento. Depois do velório de dois dias na Academia Brasileira de Letras – fundada e presidida por ele – o cortejo, organizado pelo Governo, seguiu até o cemitério São João Batista puxado pela luxuosa carreta providenciada pelo Arsenal de Guerra para o transporte do caixão cravejado de ouro. Soavam as marchas fúnebres da banda do Corpo de Bombeiros e agitavam-se estandartes de diversas associações estudantis, diante de uma multidão embevecida.
Curiosamente, o escritor assim saudado com pompa de “artista oficial” não poderia ser menos oficialesco e beletrista. Autor de uma série de livros românticos bem comportados, como “Iaiá Garcia” e “Helena”, Machado, após convalescer de grave doença, deu uma guinada radical na carreira com o tragicômico “Memórias póstumas de Brás Cubas”, de 1881.
Seguiram-se “Quincas Borba”, “Dom Casmurro”, “Esaú e Jacó” e o já citado “Memorial de Aires”, romances em que uma ironia feroz abalava para sempre o pacto de confiança entre leitor e narrador, expondo o nervo da precária dignidade humana em meio às contradições de uma classe dominante hipócrita e seus agregados subservientes. Nada mais brasileiro e, ao mesmo tempo, universal.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria
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28/09/2008 - 10:04

Uma dobra no tempo traz de volta este post publicado em 18/10/2006:
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Devo à conjunção de um espelho e uma enciclopédia o descobrimento de Uqbar.
A primeira frase de “Tlön, Uqbar, Orbis Tertius”, o primeiro conto da coletânea “O jardim de caminhos que se bifurcam”, lançada em 1941, resume Jorge Luis Borges. Ou pelo menos o Borges dos labirintos, da erudição absurda, lúdica e ardilosa, dos tempos paralelos – tudo aquilo que daria origem ao borgianismo. O livro ganhou três anos depois o acréscimo de outros contos fundamentais, entre eles “Funes, o memorioso”, e o nome de “Ficções”. O melhor título do escritor argentino, na minha opinião. (Cito aqui a tradução que consta das “Obras completas”, editora Globo, 1998, mas com uma liberdade: no título do livro, prefiro “caminhos” a “veredas”, que pode até ser uma tradução mais precisa do original senderos, mas soa meio pesado.)
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria
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27/09/2008 - 09:52
Voto, do latim votum, é uma palavra que veio do vocabulário religioso para entrar no da política. Seu sentido original, que ainda conserva, é o de promessa, desejo íntimo, e por extensão o de oferenda com que se paga tal promessa, consagração. Do voto de castidade dos padres aos votos de boas festas, das velas votivas aos ex-votos com que os fiéis agradecem as graças que acreditam ter recebido de Deus ou de algum santo, não faltam exemplos da permanência desse núcleo semântico religioso na linguagem moderna.
De forma menos evidente, as bodas (casamento) também têm a mesma origem, segundo a maioria dos etimologistas. E a própria palavra devoção é descendente de votum, particípio do verbo latino vovere (obrigar-se, prometer), um termo de raiz indo-européia aparentado de outros do sânscrito e do grego.
Se a história do voto devocional vem de muito longe, seu sentido político hoje dominante – “modo de manifestar a vontade ou opinião num ato eleitoral ou assembléia”, segundo o Houaiss – é bem mais recente. Registrada em inglês a partir do século 15 ou 16, consta que essa acepção da palavra vote nasceu no parlamento da Inglaterra e logo foi importada pelas línguas latinas, a começar pelo francês.
O voto político tem em comum com os significados religiosos da palavra apenas o suficiente – a expressão de um desejo íntimo – para que seja possível compreender a lógica que determinou seu surgimento. Quem quiser ir um pouco mais longe e lhe atribuir também um certo ar solene, no sentido de que, ao votar, assumimos um compromisso com nossas escolhas, vai descobrir que a etimologia não lhe nega argumentos para sustentar esses arroubos poéticos. No entanto, convém parar por aí. A riqueza semântica da palavra não esconde o fato de que religião e política nunca deram boa mistura.
Publicado na “Revista da Semana”.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): A palavra é...
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26/09/2008 - 11:20
Imagine o processo de fazer um livro como se estivéssemos na indústria automobilística. Só faz sentido fabricar um carro se for para ele andar, certo? O livro também precisa andar, quer dizer, cumprir sua própria função. E qual é a função do livro, me diz?
Vender?
Que vender! Se fazer ler, é óbvio. Ser lido. Esta é a viagem, o passeio. Carros precisam andar. Podem se destacar por serem velozes, lentos mas confiáveis, elegantes, econômicos, seguros, bonitos, espaçosos, baratinhos, o escambau. O mundo dos quatro-rodas, como o da literatura, é infinitamente vário. Mas uma característica todos os carros compartilham: precisam andar. Se não andam, não são carros. Não são nada.
Sei.
O problema é que, quando você vai construir o seu carro, ou seu carrinho de rolimã, como quiser, ou puder, você tem que fabricar peça por peça. Tem o design, naturalmente: o projeto geral, a cara do bicho, a distância entre eixos, a, digamos, proposta. Isso é importante e até divertido. O problema que pouca gente leva em conta é que, para o carro andar, tem também um monte de parafusos e porcas e bielas e rolamentos e correias e engrenagens e travas e juntas e molas e rebites e porrinhas, peças que você vai ter que moldar feito um funileiro maluco, preste atenção – uma por uma! Acredite: a certa altura dá vontade de morrer, mudar de nome, ir à esquina comprar cigarros e nunca mais voltar. Sabe o que é que nos salva no fim?
Não faço a menor idéia.
É que nem todas as peças do carro você precisa fabricar sozinho. Escritores roubam, são cleptomaníacos, colecionadores de quinquilharias. Juntam pedacinhos de coisas quebradas para fazer seu próprio ninho, na feliz metáfora de Margaret Atwood: qualquer pedaço de barbante, araminho solto, ripa de papel nos serve.
Gambiarras, é?
Ô, você nem imagina.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sobrescritos
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25/09/2008 - 10:47

O choque, o luto e o avassalador sentimento de perda que dominaram a comunidade da Stock Car após a morte, aparentemente por suicídio, do escritor David Foster Wallace levou a NASCAR a cancelar o restante da temporada de 2008 em respeito ao aclamado mas atormentado autor de Infinite Jest, A Supposedly Fun Thing I’ll Never Do Again e Brief Interviews With Hideous Men. (…)
“Estou sendo invadido por sentimentos de – à falta de um conceito melhor – incongruência”, disse Jimmie Johnson, piloto do Chevrolet número 48 da equipe Lowe, que é conhecido no mundo das corridas por seu hábito de presentear os fãs com exemplares dos livros de Wallace.
O trecho acima é do jornal satírico The Onion, um “Planeta Diário” americano que se recusa a morrer. Beirando o mau gosto, como de hábito, acerta, também como de hábito, na mosca ao ampliar pela lente da caricatura um sentimento generalizado de luto pela morte do escritor americano de 46 anos.
O Arts & Letters Daily de hoje compila 22 links, entre eles o do “The Onion”, que dão uma idéia do alcance dessa epidemia de tristeza, confusão e – sim, parece ser o caso – leitura e releitura de David Foster Wallace.
Sendo o mundo o que é, só um ingênuo negaria que esse estupor se deve em parte ao fascínio que prostra a humanidade diante de artistas jovens desaparecidos tragicamente. Mas tudo indica que reduzi-lo apenas a isso seria de um cinismo idiota.
O que parece estar em curso, com o auxílio inestimável da internet, é um informal mas intenso programa de revalorização de um talento maior – que nas palavras de Lindesay Irvine no blog de livros do “Guardian”, em post ausente dos links mencionados acima, está finalmente recebendo “a atenção e o reconhecimento de que não desfrutou em vida, com exceção da breve histeria em torno de Infinite Jest”.
Com a certeza incômoda de ter participado de alguma forma desse déficit de atenção, também tenho sentido a atração das leituras e releituras. E devo dizer que David Foster Wallace parece cada vez maior.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sem categoria
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23/09/2008 - 16:36
O prêmio Jabuti de melhor romance foi anunciado agora há pouco para “O filho eterno”, de Cristovão Tezza, que sempre foi tratado aqui como o grande livro brasileiro do ano passado. A notícia merece comemoração: não é sempre que prêmios acertam assim.
É meio chato lembrar isso, mas há menos de três semanas fiz um exercício besta aqui no blog, constatando que apenas três romances lançados no Brasil em 2007 eram finalistas tanto do idoso Jabuti quanto do jovem Portugal Telecom: além do de Tezza, favoritíssimo, eram eles “O sol se põe em São Paulo”, de Bernardo Carvalho, e “Antonio”, de Beatriz Bracher. Uma magra faixa de interseção em meio a tiros para todos os lados.
E não é que o galardão quelônio escalou os três títulos no pódio, nessa ordem e tudo?
O que isso prova? Talvez nada. Mas torço para que reflita uma revalorização da convergência crítica, da busca de um solo comum de referências em que o debate literário possa voltar a rolar direito. Nada a ver com consensos autoritários, mas, depois de tantos anos de w.o. acadêmico e pulverização blogueira, um idioma comum tem nos feito falta.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Uncategorized
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22/09/2008 - 15:13
Com a partida entre “O amor não tem bons sentimentos”, de Raimundo Carrero, e “O sol se põe em São Paulo”, de Bernardo Carvalho, um clássico apitado por Nelson de Oliveira, começou finalmente a segunda edição da Copa de Literatura Brasileira.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Uncategorized
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21/09/2008 - 09:33
Como esquecer o dia em que Marte atacou? Post publicado em 14/4/2007:
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Ninguém teria acreditado, nos últimos anos do século XIX, que este mundo era atenta e minuciosamente observado por inteligências superiores à do homem e, no entanto, igualmente mortais; que, enquanto os homens se ocupavam de seus vários interesses, eram examinados e estudados, talvez com o mesmo zelo com que alguém munido de um microscópio examina as efêmeras criaturas que fervilham e se multiplicam numa gota d’água.
O começo do clássico de ficção científica “A guerra dos mundos” (Alfaguara, tradução de Thelma Médici Nóbrega, 2007), romance lançado em 1898 pelo escritor inglês H.G. Wells (1866-1946), impressiona pela precisão “científica” da prosa. A frieza do tom torna ainda mais sinistra a ameaça de invasão marciana que prenuncia.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Uncategorized
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20/09/2008 - 00:12
“Que crise?”, perguntou o presidente Lula. Bom, que tal essa crise-mamute que ameaça engolfar o mundo, levantando até especulações de que a de 1929, em comparação, pode acabar parecendo um piquenique? Provando que a interdependência global, embora tenha se acelerado nas últimas décadas, não é uma invenção contemporânea, a palavra saiu do grego krísis para o latim crisis e daí para o mundo. Chegou ao francês no século 15, ao inglês e ao alemão no 16, ao italiano no 17 e ao português no 18. Sem mencionar o sueco, o holandês, o turco etc. Globalização é isso. A diferença é que, hoje, a vertigem eletrônica tornaria o contágio lingüístico mais rápido, como tem tornado o financeiro.
A palavra nasceu no vocabulário da medicina. Referia-se ao momento na evolução de uma doença em que se definia para o médico o caminho que o paciente tomaria numa encruzilhada: de um lado a cura, do outro a morte. O grego krísis quer dizer decisão, definição e, por extensão, momento decisivo. O que explica também o sentido da palavra crítico (de arte, por exemplo), um profissional encarregado de decidir, de julgar o mérito de algo (no caso, uma obra). Foi apenas no século 19, segundo o Houaiss, que a crise ganhou aplicação no vocabulário da economia, no qual logo se sentiu à vontade.
Um mito resistente que cerca a crise é o de que a palavra chinesa weiji é um ideograma formado pela junção de perigo (wei) e oportunidade (ji). Consta que essa falsa pérola erudita, uma das mais famosas do baú mitológico conhecido como velha sabedoria oriental, foi transformada em modismo pelo presidente americano John Kennedy (1917-1963), que gostava de repeti-la em seus discursos. Filólogos chineses já denunciaram o equívoco: além de oportunidade, ji tem muitos sentidos – no caso, o de momento. Momento de perigo pode ter menos charme, mas é uma boa tradução de crise.
Publicado na “Revista da Semana”.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): A palavra é...
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18/09/2008 - 14:06
Na América Latina e na Espanha, o mais próximo que temos de um Deus da literatura se chama Paul Auster.
Essa frase do escritor boliviano Edmundo Paz Soldán em seu blog no site “Boomeran(g)” me fez engasgar com a pipoca. Está certo que opinião é mercadoria baratinha – um dos dramas da blogosfera. Está certo também que, do ponto de vista literário, o Brasil não fica exatamente na América Latina, embora faça fronteira com ela. Por fim, não é menos certo que o escritor do Brooklyn merece mais respeito do que ultimamente tem recebido da crítica: mesmo tendo parado de acompanhar seus lançamentos há alguns anos, quando seu lado mais pesadamente alegórico – seu pior lado, a meu ver – começou a prevalecer, já tive minha fase austeriana compulsiva; até hoje considero “Leviatã” um grande romance e “Trilogia de Nova York”, um livro-chave para entender a literatura dos anos 80. Feitas todas essas ressalvas, estarei exagerando ou “Deus da literatura”, com inicial maiúscula e tudo, soa como um dos maiores despautérios dos últimos anos?
Em tempo: um amigo meu, que de bobo não tem nada, gostou muito do último livro de Auster, “Homem no escuro” (Companhia das Letras). Estou coletando outras opiniões.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Uncategorized
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17/09/2008 - 16:58
A elegante revista literária “Arte e Letra”, de Curitiba, estreou em maio deste ano e, como tem periodicidade trimestral, está apenas no número dois – ou edição B, como preferem os editores. Mas já é um desses milagres ou acidentes editoriais que, sendo inteiramente imerecidos por nosso mercado leitor, só nos resta torcer para que não se acabem depressa demais. (O critério alfabético sugere uma expectativa de vida de no máximo vinte e poucas edições, ou seja, em torno de seis anos. É coisa à beça no gênero, mas acho que eu consideraria a infinitude dos números mais reconfortante.)
Embora o timing seja obviamente fortuito, o fato de a edição B trazer uma rara tradução de David Foster Wallace para o português é também eloqüente. Num momento em que o luto pesado pela morte prematura do talentoso escritor americano vai se espalhando para nublar o horizonte até de quem nunca o leu, os fragmentos do ensaio sobre o cineasta David Lynch (que consta do livro A Supposedly Fun Thing I’ll Never Do Again), com tradução de Caetano Waldrigues Galindo, lembram a importância de uma coisa chamada edição inteligente – ou inteligência editorial, tanto faz. Nunca é demais lembrar que DFW tem um único livro lançado no Brasil.
O mesmo número da “Arte e Letra” tem ainda H.L. Mencken, Luigi Pirandello, G.K. Chesterton, Miguel Sanches Neto, J.M. Coetzee e Machado de Assis.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Uncategorized
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16/09/2008 - 12:56
Nem foi preciso citar Woody Allen entre os admiradores americanos de Machado de Assis. Outro Allen, o Ginsberg, cumpriu para minha surpresa esse papel, com uma frase de 1961 em que compara o escritor carioca a Kafka – no que discorda de Philip Roth, que prefere o paralelo com Samuel Beckett. A esses nomes bastou juntar os suspeitos de sempre, como Susan Sontag e Harold Bloom, além de algumas vozes brasileiras, e o resultado foi a honesta e otimista reportagem sobre Machado que o “New York Times” (cadastro gratuito, em inglês) publicou na última sexta-feira.
Com o gancho da Semana Machado em Nova York, em que seminários se alternam com exibições de filmes para lembrar o centenário da morte do autor, o título “Depois de um século, uma reputação literária enfim floresce” anuncia um texto em que o correto Larry Rohter, o homem que Lula quis expulsar do Brasil, trata Machado como o gênio que ele é e especula sobre as razões de sua demora em penetrar no cânone internacional – por internacional entenda-se anglófono, of course.
Quando digo que a reportagem é otimista, refiro-me à presunção de que a longa batalha esteja vencida, como se, um século depois, Machado tivesse enfim encontrado o reconhecimento internacional que merece. Não encontrou, longe disso. Com o impulso da efeméride, talvez tenha ganhado uns palmos de terreno. Recuos virão. Não se escreve impunemente numa língua que a Bolsa de Valores Literários internacional situa em algum ponto entre o húngaro e o volapuque, uma posição injusta que, governo após governo, o Brasil não tem movido uma palha para mudar.
É curioso constatar que, mesmo incipiente, a descoberta de Machado por leitores estrangeiros parece incomodar alguns machadianos nativos, mais ou menos como ocorre com os velhos fregueses daquele botequim que de repente entra na moda e é invadido por hordas de forasteiros. É o que se vislumbra nesse trecho da reportagem de Rohter:
Entusiastas nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha “estão fazendo Machado se parecer cada vez menos com Machado”, afirmou mês passado o crítico e escritor Antônio Gonçalves Filho num simpósio em São Paulo. “Na verdade, o estão tornando branco, como Michael Jackson. De repente, ele virou um escritor “universal”.
Engraçado, e eu aqui achando que o primeiro a trabalhar no sentido dessa universalização ou, vá lá, “branqueamento” tinha sido o próprio Machado, que Joaquim Nabuco chamou de “grego”.
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14/09/2008 - 20:06
Essa página do “Los Angeles Times” reúne algumas entrevistas de David Foster Wallace disponíveis no YouTube – imagens que estão destinadas a serem vistas e revistas pelos fãs em busca de uma inexistente “explicação” para o fato de o escritor americano de 46 anos, um dos mais festejados de sua geração, ter se enforcado em sua casa na sexta-feira. Se David Foster Wallace já era um tipo de escritor que, mais que leitores, tinha seguidores, adeptos, conversos, o culto a seu nome deve ter vida longa garantida pelas circunstâncias de sua morte.
Seu único livro lançado no Brasil é a coletânea de contos “Breves entrevistas com homens hediondos” (Companhia das Letras, 2005). O romance que o transformou numa estrela da nova literatura americana dos anos 90, Infinite Jest, permanece inédito por aqui. Talvez por ser um tijolo de mais de mil páginas, ou quem sabe pelo mesmo motivo que, antes da página cem, me levou a abandonar – ou adiar para um futuro indeterminado, o que dá no mesmo – sua travessia: dono de um talento inegável, exuberante, Wallace era tão apaixonado por sua própria voz que fazia da auto-indulgência uma arte. Há quem goste, mas, definitivamente, sou de outra turma. Fico aflito querendo cortar, enxugar.
Mesmo assim, neste domingo chuvoso, triste pelo fim de um sujeito que eu não conhecia, me pego planejando uma nova investida: quem sabe agora, que sua obra ganhou um tamanho definitivo, o excesso de palavras se revele uma medida justa.
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14/09/2008 - 09:18
Quando morre um poeta, todos choram. Post publicado em 12/11/2006.
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Antes tenho de fazer a barba, disse ele, não quero ir ao hospital com uma barba de três dias, por favor, vá chamar o barbeiro, mora na esquina, é o senhor Manacés.
Mas não temos tempo, senhor Pessoa, replicou a zeladora, o táxi já está na porta, seus amigos já chegaram e estão à sua espera na entrada.
Não importa, respondeu ele, sempre há tempo.
Ajeitou-se na poltronazinha onde o senhor Manacés habitualmente lhe fazia a barba e pôs-se a ler as poesias de Sá-Carneiro.
O singelo início da novelinha “Os três últimos dias de Fernando Pessoa”, do italiano Antonio Tabucchi (Rocco, tradução de Roberta Barni, 1996), talvez não seja memorável para qualquer um. É para mim. E o que vem em seguida não é menos: no hospital, Pessoa é visitado por um séquito de heterônimos antes de morrer.
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