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“É muito difícil pensar em ’ser escritor’ quando se nasce num país em
que ninguém lê: os pobres porque não sabem ou porque não possuem
meios para adquirir conhecimentos, e os ricos porque não sentem
vontade. Numa sociedade assim, querer ser escritor não é optar por
uma profissão, mas por um ato de loucura.” MARIO VARGAS LLOSA

30/08/2008 - 00:15

Candidato

A palavra “candidato” vem do latim candidatus, termo derivado do adjetivo candidus, que significa, segundo o Houaiss, “branco, alvo, cândido; vestido de branco; radioso, brilhante; belo, formoso; sereno; feliz, ditoso”. Embora todo esse leque de conotações positivas fosse obviamente bem-vindo, o sentido de candidatus nasceu literal: queria dizer apenas vestido de branco.

Aqui estamos na fronteira entre a política e a moda: na Roma Antiga, os aspirantes a qualquer cargo público só se apresentavam diante dos eleitores metidos em togas imaculadamente alvas. O costume, tão arraigado que passou a nomear os próprios políticos em campanha, foi analisado da seguinte forma no início do século 18 por Rafael Bluteau, em seu Vocabulário Português e Latino, o primeiro grande dicionário da língua portuguesa:

“Candidato – Assim chamavam antigamente em Roma àqueles que pretendiam ser eleitos às dignidades, porque estes tais vestiam de branco, como se quisessem mostrar a candideza do seu ânimo na sua pretensão, dirigida só ao bem público; ou também porque queriam dar a entender que não fundavam nos seus merecimentos, mas na bondade e virtude dos que haviam de eleger, o sucesso da pretensão.”

Já começado o século 21, Márcio Bueno, autor de A origem curiosa das palavras, acrescentou que “o marketing político criou maneiras bem mais sofisticadas e eficientes de transmitir aos eleitores a mesma idéia que os candidatos romanos tentavam com suas singelas vestes brancas”.

Que os equivalentes contemporâneos da roupa branca são mais sofisticados, ninguém discute. Quanto a serem mais eficientes… É preciso levar em conta o drástico encurtamento na credulidade do eleitorado depois que, desde a Roma Antiga, gerações e gerações de políticos se encarregaram de sujar de todas as formas possíveis a toga simbólica do candidato.

Publicado na “Revista da Semana”.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): A palavra é... Tags:

2 comentários para “Candidato”

  1. Pablo disse:

    Infelizmente não resta nada de candura entre os nossos.

    Abraço,

    Pablo
    http://cadeorevisor.wordpress.com

  2. Sírio Possenti disse:

    Não se imagine, por favor, que os candidatos em Roma fôssem cândidos. Seria excesso de saudosismo. Como o texto deixa claro, a questão era o uniforme.

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