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“Rasgar contos é algo irremediável, porque escrevê-los é como
despejar concreto. Em compensação, escrever um romance é
como colar ladrilhos. Isso quer dizer que se um conto não se
consolida na primeira tentativa é melhor não insistir. Um romance
é mais fácil: volta-se a começar.” GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ

Arquivo de agosto, 2008

31/08/2008 - 10:20

Começos (ainda) inesquecíveis: Albert Camus

Logo depois de seu primeiro aniversário (hoje está perto de completar dois anos e meio), o blog zerou uma dívida importante. Post publicado em 23/5/2007:

*
Hoje, mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: “Sua mãe faleceu. Enterro amanhã. Sentidos pêsames”. Isso não esclarece nada. Talvez tenha sido ontem.

O Todoprosa completou um ano no início deste mês e paga agora uma dívida que tem a mesma idade: foi nas férias, pensando na vida, que me ocorreu o absurdo (palavrinha apropriada) de ainda não ter publicado nesta seção o primeiro parágrafo de “O estrangeiro” (Record, tradução de Valerie Rumjanek), novela lançada em 1942 pelo escritor franco-argelino Albert Camus (1913-1960). Parece que todo esse atraso teve algo a ver com a determinação de fugir do óbvio ou coisa parecida. Desculpa porca. Mais do que proporcionar ao leitor um começo realmente inesquecível, o narrador Mersault, ao anunciar a morte de sua mãe em tom tão frio, está escrevendo a epígrafe de uma época que ainda é a nossa.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Uncategorized Tags:
30/08/2008 - 00:15

Candidato

A palavra “candidato” vem do latim candidatus, termo derivado do adjetivo candidus, que significa, segundo o Houaiss, “branco, alvo, cândido; vestido de branco; radioso, brilhante; belo, formoso; sereno; feliz, ditoso”. Embora todo esse leque de conotações positivas fosse obviamente bem-vindo, o sentido de candidatus nasceu literal: queria dizer apenas vestido de branco.

Aqui estamos na fronteira entre a política e a moda: na Roma Antiga, os aspirantes a qualquer cargo público só se apresentavam diante dos eleitores metidos em togas imaculadamente alvas. O costume, tão arraigado que passou a nomear os próprios políticos em campanha, foi analisado da seguinte forma no início do século 18 por Rafael Bluteau, em seu Vocabulário Português e Latino, o primeiro grande dicionário da língua portuguesa:

“Candidato – Assim chamavam antigamente em Roma àqueles que pretendiam ser eleitos às dignidades, porque estes tais vestiam de branco, como se quisessem mostrar a candideza do seu ânimo na sua pretensão, dirigida só ao bem público; ou também porque queriam dar a entender que não fundavam nos seus merecimentos, mas na bondade e virtude dos que haviam de eleger, o sucesso da pretensão.”

Já começado o século 21, Márcio Bueno, autor de A origem curiosa das palavras, acrescentou que “o marketing político criou maneiras bem mais sofisticadas e eficientes de transmitir aos eleitores a mesma idéia que os candidatos romanos tentavam com suas singelas vestes brancas”.

Que os equivalentes contemporâneos da roupa branca são mais sofisticados, ninguém discute. Quanto a serem mais eficientes… É preciso levar em conta o drástico encurtamento na credulidade do eleitorado depois que, desde a Roma Antiga, gerações e gerações de políticos se encarregaram de sujar de todas as formas possíveis a toga simbólica do candidato.

Publicado na “Revista da Semana”.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): A palavra é... Tags:
28/08/2008 - 13:18

Patos em extinção

Sabemos que uma era geológica mental está chegando ao fim quando a revista do “Zio Paperone” (Tio Patinhas) deixa de ser publicada na Itália, um de seus maiores santuários – mote para a contextualização assinada por Marcus Ramone no site Universo HQ:

Ainda é cedo para afirmar que Donald, Tio Patinhas, Pateta, Mickey e demais personagens clássicos cairão de vez no limbo, preteridos por criações contemporâneas da Disney – incluindo as egressas dos desenhos animados 3D. Mas o número de cancelamentos de suas revistas vem acontecendo em um ritmo muito maior do que se imagina.

Em Portugal e em quase toda a América Latina, outrora contumazes mercados consumidores dessa turma, os personagens já não são mais publicados.

E os exemplos continuam. Por muito tempo populares no Egito e em outros países do Oriente Médio, os gibis Disney retornaram àquela região em 2005, após dois anos fora de circulação. Mais de dez títulos foram lançados na época, dos quais apenas quatro conseguiram sobreviver aos novos cancelamentos (um deles, para o público feminino, mostra somente as aventuras de Branca de Neve, Aurora, Bela e outras – as Princesas, que vêm fazendo sucesso no mercado de licenciamento ao redor do mundo).

Quando a esses fatos são somados exemplos como o fim da produção brasileira – que já foi uma das mais prolíficas do planeta –, as sucessivas descontinuações desses gibis no Brasil e a publicação minguada nos Estados Unidos (dois únicos títulos regulares sobraram da última leva de cancelamentos) o resultado é desanimador.

Para quem aprendeu a ler – literalmente – com “O Pato Donald”, pedra fundamental do império Abril, nem se fala.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Uncategorized Tags:
27/08/2008 - 14:13

L’Éducation Digitale

Quanto mais experiência eu ganho em minha arte, mais ela me atormenta. O problema é que a imaginação fica estacionada enquanto o gosto amadurece. Poucos homens, eu creio, terão sofrido tanto quanto eu pela literatura.

POSTED BY GUSTAVE FLAUBERT, 4 NOVEMBER, 1857

Se George Orwell conseguiu virar blogueiro 58 anos depois de morto, por que não?

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Uncategorized Tags:
26/08/2008 - 11:42

O Modesto Diagrama Universal da Arte


Para ser mais ambicioso, só se invadisse o terreno do divino. O diagrama acima busca dividir em tribos e agrupá-las em relação a eixos definidos por pares de valores opostos todos os praticantes de todas as formas de arte que jamais existiram. Ridículo, não? No entanto, depois que se começa a brincar com a idéia, não dá vontade de parar.

Em nome da justiça é preciso esclarecer que o tal diagrama, atração de hoje no blog de livros do “Guardian” (em inglês, acesso gratuito), não se apresenta com a pompa sugerida no parágrafo acima. Foi bolado por Scott McCloud, um estudioso de histórias em quadrinhos, aparentemente em veia lúdica, como instrumento para animar palestras. Mas é impossível olhar para ele sem cair na tentação de catalogar o mundo.

Para melhor apreciar o brinquedo, convém saber que a tribo dos “animistas” é definida como a dos artistas intuitivos, mais ou menos naïfs, que não têm – ou fingem não ter – consciência dos filtros que se interpõem entre a matéria bruta que arrancam das entranhas e o produto final. Aparecem no diagrama como cultores do “conteúdo” não tanto por escolha, mas porque mal enxergam outros valores na arte. Majoritária entre artistas adolescentes, acrescento eu, essa tribo perde representatividade à medida que se avança na escadinha etária.

Quanto às outras três categorias – classicistas (que cultuam acima de tudo a beleza), formalistas (o estilo) e iconoclastas (a verdade) –, sua definição é mais ou menos essa mesmo que você está pensando. O esquema não traz novidade nenhuma, seu charme é a simplicidade.

Mais do que as quatro categorias, o que dá consistência ao jogo são os dois eixos de valores opostos que delimitam seus campos: Arte x Vida e Tradição x Revolução. Quase todas as velhas brigas que, eternamente recicladas, animam os quebra-paus artísticos cabem aí. (Talvez a dicotomia comercial x cult, tão atual, seja uma exceção; nesse diagrama os autores assumidamente comerciais só podem ser classificados entre os animistas, o que parece meio insuficiente.)

Dizer que uma taxonomia desse tipo é chapada e empobrecedora seria dizer o óbvio. Todas são. Mas são também um exercício viciante – basta ver o sucesso feito pela brincadeira maluca de Jayme Ovalle em torno de dantas, onésimos, mozarlescos etc. Desde que não se atribua ao diagrama de McCloud o papel de oráculo, acredito que ele possa ser esclarecedor também, dando maior nitidez a certas tensões que normalmente ficam difusas no debate estético.

Antes que se desencadeie a fúria classificatória, uma ressalva: nenhum artista digno desse nome cabe integralmente em apenas um dos grupos, eis a graça da coisa.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Uncategorized Tags:
24/08/2008 - 09:20

Começos (ainda) inesquecíveis: Machado de Assis

Para que 2008 fosse o ano do homem também por aqui, faltava republicar este post de 3/9/2006:

*

AO LEITOR

Que Stendhal confessasse haver escrito um de seus livros para cem leitores, cousa é que admira e consterna. O que não admira, nem provavelmente consternará é se este outro livro não tiver os cem leitores de Stendhal, nem cinqüenta, nem vinte, e quando muito, dez. Dez? Talvez cinco. Trata-se, na verdade, de uma obra difusa, na qual eu, Brás Cubas, se adotei a forma livre de um Sterne, ou de um Xavier de Maistre, não sei se lhe meti algumas rabugens de pessimismo. Pode ser. Obra de finado. Escrevi-a com a pena da galhofa e a tinta da melancolia, e não é difícil antever o que poderá sair desse conúbio. Acresce que a gente grave achará no livro umas aparências de puro romance, ao passo que a gente frívola não achará nele o seu romance usual; ei-lo aí fica privado da estima dos graves e do amor dos frívolos, que são as duas colunas máximas da opinião.

Mas eu ainda espero angariar as simpatias da opinião, e o primeiro remédio é fugir a um prólogo explícito e longo. O melhor prólogo é o que contém menos cousas, ou o que as diz de um jeito obscuro e truncado. Conseguintemente, evito contar o processo extraordinário que empreguei na composição destas Memórias, trabalhadas cá no outro mundo. Seria curioso, mas nimiamente extenso, e aliás desnecessário ao entendimento da obra. A obra em si mesma é tudo: se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa; se te não agradar, pago-te com um piparote, e adeus.

BRÁS CUBAS

Muita coisa começou com essas poucas linhas publicadas em março de 1880 na “Revista Brasileira”, e em livro no ano seguinte. A mais óbvia: começava o romance “Memórias póstumas de Brás Cubas” (Nova Aguilar, Obra completa, volume I, 1985), de Joaquim Maria Machado de Assis. Começava também, após uma longa doença e uma espécie de “crise dos 40” que o deixara nove meses afastado da imprensa, a segunda e genial fase da obra de Machado – uma ruptura espetacular com o romantismo de suas primeiras narrativas longas. Por fim tinha início, naquele mesmo momento, a tão ansiada maioridade da ficção brasileira, até então esforçada mas capenga, periférica, quase sempre oscilante entre a imitação de modelos importados e a tentativa de se impor como “nacional” pelo método de encher as páginas de índios, caboclos e jandaias. Três começos inesquecíveis em um: só mesmo um certo receio de, digamos, chover no molhado explica que Machado tenha demorado tanto a aparecer nesta seção. Cousas.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Uncategorized Tags:
23/08/2008 - 10:04

Nepotismo

A notícia é excelente: o Supremo Tribunal Federal declarou ilegal o nepotismo, a prática de favorecer parentes com empregos públicos. Resta saber se isso bastará para extirpar uma crença tão trançada em nossa armação social – a crença no direito sagrado ao favorecimento, à mamata – que chega perto de constituir uma religião.

A palavra nepotismo desembarcou no português no início do século 18. Vinha em última análise, provavelmente via francês, do latim nepos, nepotis – “sobrinho ou neto”. Mesmo antes de ganhar um nome, a prática já se espalhava feito praga por todos os cantos do poder na então colônia portuguesa. Casava-se à perfeição com a lógica de uma sociedade escravocrata que praticamente desconhecia – e levaria ainda muito tempo para começar a reconhecer – o valor do trabalho livre.

A metáfora religiosa usada ali em cima é mais pertinente do que parece: a palavra nasceu para designar os privilégios de que gozavam os sobrinhos de certos papas na hierarquia da Igreja (netos não, apesar da ambigüidade da palavra latina, pois pelo menos em tese o Sumo Pontífice não devia tê-los).

Nas palavras do filólogo brasileiro Silveira Bueno, fica assim: “Nepotismo – Proteção aos sobrinhos, criação italiana visando aos exageros de proteção que alguns papas deram aos seus sobrinhos, fazendo-os príncipes, cardiais (sic), enriquecendo-os, no séc. XV e XVI”. Em tempo: como papas devassos abundam na história da Igreja, vale esclarecer que o sentido de sobrinho, aí, parece ser apenas familiar mesmo.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): A palavra é... Tags:
22/08/2008 - 15:42

Nada será como antes

Trechos dos romances finalistas do Booker poderão ser lidos – ou ouvidos – de graça no celular. Definitivamente, este é o ano em que o tradicional prêmio britânico decidiu desbundar de vez em forma e conteúdo: como comentado aqui, a “lista longa” dos finalistas inovou ao incluir um thriller assumido, “Criança 44”. Acessíveis por celular estarão apenas trechos dos livros da “lista curta”, a dos finalistas entre os finalistas, que será anunciada dia 9 de setembro.

É improvável que as frases frondosas de Salman Rushdie, considerado o favorito, façam tanto sucesso numa telinha de celular quanto a prosa escrita especialmente para o novo meio que causa furor no Japão. Em todo caso, para quem ainda duvida, é mais uma prova de que o chão está se mexendo.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Uncategorized Tags:
21/08/2008 - 14:58

Ponto-e-vírgula; morto?

Num artigo recente para o “Boston Globe” (em inglês, acesso gratuito), Jan Freeman comenta a queda em desgraça do ponto-e-vírgula, que não vem de hoje. Segundo um estudo restrito à língua inglesa, sua incidência teria despencado de 68,1 para 17,7 (por mil palavras) entre os séculos 18 e 19. O século 20 não é mencionado, mas suponho que um levantamento semelhante encontraria esse sinal de pontuação – “que indica pausa mais forte que a da vírgula e menos que a do ponto”, segundo o Houaiss – chegando perto de encostar no zero à medida que nos aproximássemos do 21.

Kurt Vonnegut, que chamava o ponto-e-vírgula de “travesti hermafrodita”, foi apenas um dos escritores que ajudaram a difamá-lo como figurinha pedante, esnobe, cricri, desprovida de sentido e até, na formulação machista de um de seus detratores, mariquinhas.

Acho um exagero. Embora procure usar o ponto-e-vírgula com a maior parcimônia possível – basicamente em enumerações em que um ou mais elementos contenham vírgulas internas, caso em que ele é indispensável à clareza – e não o recomende efusivamente a quem está em busca de um estilo, prefiro pensar nele como mais um recurso no arsenal da língua.

Se até a insuportável mesóclise deve ter – coisa rara, mas tese é tese – o seu lugar, não convém fazer como aquele crítico diante da rima e condenar o ponto-e-vírgula de forma inapelável. Recursos desgastados existem para que escritores de talento os reabilitem.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Uncategorized Tags:
20/08/2008 - 13:06

Ainda Kafka: a barata que não era

A recente aparição de Franz Kafka neste blog, embora talvez motivada por interesses menores (de um crítico inglês, não meus, como se pode conferir aqui embaixo), teve pelo menos um efeito divertido: o leitor Eric Novello explorou num comentário certa ambigüidade semântica característica do português brasileiro para declarar:

Nunca mais verei a barata do Kafka da mesma forma!

Claro que a piada seria inviável se Gregor Samsa tivesse virado um besouro. Acontece que virou – e agora estou falando sério. A discussão sobre qual bicho é aquele da novela “A metamorfose” não é brincadeira.

No primeiro parágrafo do livro, em que o Samsa insetificado faz sua brusca entrada em cena, Kafka é vago. O original fala em ungeheueren Ungeziefer, que quem conhece alemão – não é o meu caso – garante ser algo como “monstruoso inseto repulsivo”.

Em outros pontos da narrativa, porém, ligeiras pistas morfológicas parecem indicar que Kafka se refere a um inseto da família dos coleópteros, sem maiores detalhes além de suas dimensões avantajadas de monstro. Essa família inclui diversos tipos de besouro, joaninhas e vagalumes. Baratas não.

Para se ter uma idéia da gravidade dessa questão líterário-zoológica, ninguém menos que Vladimir Nabokov, admirador de “A metamorfose”, lhe deu atenção num ensaio-conferência sobre o livro (em inglês, acesso livre). Segundo o autor de “Lolita”, há na novela de Kafka apenas um personagem que chama Samsa de Mistkäfer, isto é, besourão, escaravelho, rola-bosta: a velha empregada da família. Mas Nabokov observa que a mulher provavelmente está tentando ser “simpática” – a realidade seria mais repugnante:

Ele não é, tecnicamente, um escaravelho. É apenas um beetle grande. (Devo acrescentar que nem Gregor nem Kafka enxergavam o bicho muito claramente.)

Vale ressaltar que a palavra beetle, genérico de besouro em inglês, é usada de modo informal também para baratas – embora estas sejam de família diferente. Não sei se o mesmo ocorre em alemão. Será que a lenda da barata começou com um erro de tradução?

De todo modo, é evidente que uma certa indeterminação estava nos planos de Kafka. E talvez fosse inevitável que a barata, por sua liderança incontestável entre os bichos escrotos deste mundo, terminasse por pousar nessa obra-prima para nunca mais sair.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Uncategorized Tags:
18/08/2008 - 15:20

Deixadinha

Quando João começou a namorar Letícia, todo mundo apostava numa relação de um mês ou dois, três no máximo. Ficava por aí a média dele. Galinha famoso na rede do Leblon que ambos freqüentavam, João era medíocre no vôlei de praia, mas compensava a insuficiência atlética com uma condição de semicelebridade artística – advinda de sua inclusão numa antologia de jovens contistas, quatro anos antes – para ir ampliando um currículo amoroso que beirava o lendário.

Letícia, nova e inexperiente, jogava o fino na areia, com um talento especial para as deixadinhas, mas a verdade é que tinha tudo para ser só mais uma naquele placar.

O jogo começou a virar quando, surpreendendo o pessoal da praia, Letícia passou a bater bola com João no campo dele. Nos e-mails que trocavam diariamente, a menina, quem diria, se revelou talentosa também com as palavras.

João, que preferia namorar atletas justamente por se saber indefeso diante de intelectuais, acusou o golpe. Ponto a ponto, seu bloqueio foi virando uma peneira. O terceiro mês de namoro passou, veio o quarto. O quinto.

O sexto já ia pelo meio quando, ao pé de uma mensagem despretensiosa em que Letícia contava ter dormido mal na noite anterior, João leu o seguinte:

O problema é que na janela do meu quarto há um defeito na cortina. Ela não corre e não se fecha portanto. Então a lua cheia entra toda e vem fosforescer de silêncios o quarto: é horrível.

Essa última frase acertou a cabeça de João com o efeito de uma bolada à queima-roupa. Ainda atordoado, ele releu:

Então a lua cheia entra toda e vem fosforescer de silêncios o quarto: é horrível.

Com uma mistura de dor e delícia nunca antes sentida, João foi obrigado a admitir o óbvio: aquilo era melhor do que qualquer coisa que ele já tivesse escrito ou pudesse um dia escrever. Tamanha condensação de beleza e horror na mesma frase, tão seco drible na expectativa do leitor…

…é horrível.

Em poucos minutos, sua vida inteira estava traçada. Pediu Letícia em casamento na mesma noite. Ela aceitou.

Nunca deixaram de freqüentar a rede do Leblon onde se conheceram, nem durante a gravidez nem depois que Joãozinho nasceu e Letícia era obrigada a interromper o jogo a todo momento para dar de mamar.

O casamento parece ir muito bem, e hoje todo mundo na praia aposta que vai durar para sempre. Letícia doou a uma escola pública do bairro seu exemplar de Água viva, e de qualquer maneira, como ela tinha suspeitado desde o início, João nunca foi um grande leitor de Clarice.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sobrescritos Tags:
17/08/2008 - 10:08

Começos (ainda) inesquecíveis: Franz Kafka

E já que falamos no homem… Post publicado em 23/9/2006:

*

Quando Gregor Samsa despertou, certa manhã, de um sonho agitado, viu que se transformara, em sua cama, numa espécie monstruosa de inseto.

Eis o primeiro parágrafo de “A metamorfose” (Civilização Brasileira, tradução de Brenno Silveira, 5.a edição, 1988), do escritor tcheco Franz Kafka (1883-1924). Sem comentários.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Uncategorized Tags:
16/08/2008 - 10:10

Recorde

A profusão de recordes batidos nos Jogos Olímpicos de Pequim e sua extensa cobertura põem em evidência uma dúvida de pronúncia que sempre acompanhou esse termo importado do inglês record. Afinal, devemos falar récorde, palavra proparoxítona, como a maioria dos locutores e comentaristas da TV? Ou, seguindo a recomendação de dez entre dez sábios, recórde, paroxítona?

Trata-se de um caso clássico em que a língua da vida real vai para um lado e a dos estudiosos para o outro. “Recorde”, estrangeirismo consagrado há décadas em todos os dicionários, pode ser substantivo – com o sentido de marca esportiva, desempenho a ser superado – ou adjetivo: tempo recorde, velocidade recorde. Até aí ninguém briga. A divergência começa na hora de definir a prosódia.

Em seu Dicionário de palavras e expressões estrangeiras, Luís Augusto Fischer observa com bom humor que há “duas pronúncias: a que os gramáticos preferem, rre-CÓR-dji, ou a do resto da humanidade, RRÉ-cor-dji”. É mais ou menos isso. Basta substituir, na frase de Fischer, “o resto da humanidade” por “a maioria dos brasileiros” que ela fica perfeita. Em Portugal, os falantes se inclinam por recórde. Uma possível explicação para o descompasso: os portugueses manteriam a pronúncia que record ganhou na França, de onde importaram o anglicismo por tabela; aqui, haveria uma ligação direta com o idioma de origem.

Como a língua falada sempre tem precedência sobre a escrita, é possível que um dia tal desacordo entre grafia e pronúncia seja resolvido com o acréscimo de um acento agudo. Mas também não é impossível que se eternize como idiossincrasia, algo comum na zona de fronteira das palavras que migram de um idioma a outro. Se show virou um vocábulo corriqueiro sem que sua estrangeiríssima grafia fosse – como provavelmente jamais será – adaptada, tudo pode acontecer.

Publicado na “Revista da Semana”.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): A palavra é... Tags:
15/08/2008 - 11:38

O que Kafka fazia no banheiro

É mais enrolada do que parece a última polêmica “literária” européia, que põe de um lado uma tropa de críticos de língua alemã e do outro, sozinho, o acadêmico e escritor inglês James Hawes, que publicou ontem a biografia “Excavating Kafka”, sobre o escritor tcheco (aqui, em inglês, acesso livre).

Sem ler o livro é impossível opinar sobre quem tem razão, se é que alguém tem, mas o resumo do arranca-rabo, em três tempos, é o seguinte:

1. Hawes dá destaque ao fato de Kafka ter sido assinante de revistas pornográficas chiques, algumas, segundo ele, de arrepiar.

2. Os kafkólogos de língua alemã se unem para acusar Hawes de puritanismo, marquetagem e até, de forma que parece um tanto obscura, anti-semitismo. Alegam que as revistas eram adultas, mas traziam imagens estilizadas, “artísticas” e não pornográficas.

3. Hawes contra-ataca falando em “conspiração de censura” e dizendo que seu foco não é bem o gosto de Kafka por pornografia, mas o fato de que gerações de críticos e biógrafos, tendo examinado com lupa cada bilhete banal jamais escrito pelo gênio de Praga na tentativa de decifrar sua personalidade esquisitona, tenha feito silêncio sobre um dado tão suculento.

Hmm. Em primeiro lugar, mesmo admitindo em tese que informações biográficas possam, sim, jogar alguma luz sobre a obra de escritores, especialmente de escritores tão originais quanto Kafka, confesso que minha primeira reação diante desses “escavadores” de segredos cabeludos é um bocejo de tédio.

Em segundo lugar vem a surpresa: então alguém se espanta de que Franz, com aquela cara, fosse chegado a um XXX? Em que mundo vivem essas pessoas?

O item 3 parece ser o que faz mais sentido nessa polêmica. Infelizmente, Hawes enfraquece sua própria posição ao dizer, sobre as revistas de Kafka, que “algumas coisas são bem pesadas, como animais cometendo fellatio e mulher-com-mulher”. Ao igualar bestialismo e homossexualismo, o cara deixa a impressão de que é mesmo um puritano, afinal.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Uncategorized Tags:
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