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“Rasgar contos é algo irremediável, porque escrevê-los é como
despejar concreto. Em compensação, escrever um romance é
como colar ladrilhos. Isso quer dizer que se um conto não se
consolida na primeira tentativa é melhor não insistir. Um romance
é mais fácil: volta-se a começar.” GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ

Arquivo de junho, 2008

30/06/2008 - 14:01

A ortographia de Paraty

Não fui à primeira Flip, em 2003, uma edição que ficou na história da festa como mito fundador, o Éden de gatos pingados que veio antes da Queda na massificação. No entanto, como descobri ao revirar meus arquivos agora há pouco, não deixei o assunto passar em branco. Num de meus primeiros artigos para o extinto NoMínimo, com o título acima, em agosto de 2003, falei da festa pelo ângulo de um quebra-pau supraliterário – ou infraliterário, pode escolher – que, embora não seja do tipo que muda a vida de ninguém, também não merece ser tratado como se não existisse. Afinal, a cidade se chama Parati ou Paraty?

Como a dupla grafia domina a imprensa até hoje, confundindo muita gente, reproduzo abaixo a crônica de (homessa!) cinco anos atrás, que tenta encontrar resposta um pouco mais ilustrada para uma questão normalmente resolvida com o recurso simplório a leis federais, municipais etc. Em tempo, prefiro escrever Parati por uma razão simples: morro de medo de um precedente que inspire vereadores numerólogos e/ou caipiras a rebatizar suas cidades de Floreepa, Cuyabah, Seaureaukabba…

*

Falou em ortografia, o pessoal se empolga logo. Muita gente tem escassa disposição para enfrentar questões de língua até surgir um “como é que se escreve mesmo?”. E logo se organizam Fla-Flus em torno de palavras “com ou sem tracinho” ou algo do gênero, como se a alma de uma língua residisse na epiderme, na camada superficial que a ortografia representa.

Não reside. Tal percepção distorcida tem a ver com um certo ensino preguiçoso, mas isso não explica tudo. A ortografia nos oferece também o consolo das respostas definitivas. Como ela é, ao contrário da maioria dos assuntos lingüísticos, regulada por lei, costuma admitir sentenças inapeláveis: “Isso está certo, aquilo está errado”. Brande-se um dicionário e pronto, fim de papo, os derrotados saem para um lado, os vitoriosos para o outro. Exercer a mesma assertividade em questões estilísticas ou gramaticais é quase sempre impossível. No mínimo, é empobrecedor.

Isso quer dizer que a ortografia não tem importância? É claro que tem. Quem escreve gato com jota pode ser um escritor de talento, mas enfrentará problemas imensos para ser levado a sério (a menos que tenha a seu serviço um bom revisor, e nesse caso pode até entrar para a Academia Brasileira de Letras). Para todos os efeitos práticos, convém ter alguma intimidade com as prescrições da ortografia oficial aprovada na sessão de 12 de agosto de 1943 pela ABL, e posteriormente simplificada pela Lei 5.765, de 18 de dezembro de 1971.

Nem tudo é epiderme na ortografia: existe também uma dimensão profunda no problema do “como é que se escreve”. Foi nela que mergulhou o poeta português Fernando Pessoa ao combater tenazmente as simplifações ortográficas em curso no início do século 20. Pessoa queria continuar escrevendo “pharmácia” como forma de manter viva a tradição de um idioma que, acreditava ele, estava destinado a conquistar o mundo. Na pior das hipóteses, insistia no livre-arbítrio: “Cada um tem direito a escrever na ortografia que quiser”.

Não foi esse o espírito que prevaleceu, como se sabe. O que é uma bênção: já imaginaram os problemas de comunicação que o cada-um-por-si poderia provocar numa época de troca tão acelerada de informações? Mas o voluntarismo à la Pessoa continua a se engalfinhar de vez em quando com a uniformização da ortografia regulada pelo Estado. Veja-se o caso de Parati, por exemplo.

Será que eu deveria escrever Paraty? Eis a questão. Se consultarmos gente que mergulhou de cabeça na bonita cidade histórica por ocasião da recente Festa Literária Internacional, nem vamos precisar sair do âmbito do NoMínimo para ficarmos confusos. Flávio Pinheiro e Arthur Dapieve escrevem “Paraty”. Paulo Roberto Pires prefere “Parati”. Zuenir Ventura optou pela grafia mais simples e, não bastasse a crise de identidade que arrumou por lá ao ser confundido com Saramago e Millôr, foi repreendido por uma leitora paratiense zelosa de seu ipsilone.

O site oficial da cidade conta a seguinte historinha. A comunidade paratiense não gostou da reforma de 1943, aquela exterminadora impiedosa de ipsilones, e continuou em grande parte a usar a grafia “Paraty”, que fora oficial até então. Em 1972 o senador Vasconcellos Torres apresentou ao Senado um projeto propondo que cidades e monumentos históricos recuperassem a grafia que tinham na velha ordem. O projeto foi rejeitado, provavelmente pelo receio de que Nichteroy gostasse da idéia, mas Parati resolveu assumir de vez a desobediência civil. E nesse pé estamos até hoje.

Aqui sou obrigado a retocar uma afirmação feita acima. Nem sempre as polêmicas ortográficas admitem sentenças inapeláveis. Quem optar pelo enfoque legalista dirá que “Paraty” é apenas um erro, uma idiossincrasia provinciana. Não há como negar. Mas não é desprovido de interesse o argumento de que, sendo uma cidade de exceção, ela tem direito a uma grafia extraordinária que espelhe tal condição. Fernando Pessoa gostaria disso.

Pois é, Fla-Flu embolado. E segue o jogo.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Uncategorized Tags:
29/06/2008 - 11:04

Começos (ainda) inesquecíveis: J.M. Coetzee

A retrospectiva da seção dá um salto no tempo para ir entrando no clima da Flip. Esse sul-africano esquisitão aí ao lado foi responsável pelo momento mais polêmico – para mim e outras cinco pessoas o melhor, para a maioria do público um desastre – da festa paratiense do ano passado. O post abaixo foi publicado em 3/3/2007.

*

Para um homem de sua idade, cinqüenta e dois, divorciado, ele tinha, em sua opinião, resolvido muito bem o problema de sexo. Nas tardes de quinta-feira, vai de carro até Green Point. Pontualmente às duas da tarde, toca a campainha da portaria do edifício Windsor Mansions, diz seu nome e entra. Soraya está esperando na porta do 113. Ele vai direto até o quarto, que cheira bem e tem luz suave, e tira a roupa. Soraya surge do banheiro, despe o roupão, escorrega para a cama ao lado dele. “Sentiu saudade de mim?”, ela pergunta. “Sinto saudade o tempo todo”, ele responde. Acaricia seu corpo marrom cor-de-mel, sem marcas de sol, deita-a, beija-lhe os seios, fazem amor.

E já que andamos falando do homem, vai aí o começo do tétrico romance “Desonra”, obra-prima do escritor sul-africano J.M. Coetzee (Companhia das Letras, 2a. edição, 2003, tradução de José Rubens Siqueira). O professor universitário David Lurie, personagem solitário, orgulhoso e triste, logo vai descobrir – a um preço alto – que não resolveu tão bem quanto imaginava “o problema de sexo”.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Uncategorized Tags:
28/06/2008 - 18:07

Propina

Num momento em que se teme uma explosão do mercado de propinas como efeito colateral da lei de tolerância zero para o álcool no trânsito, vale lembrar que a palavra, como se sabe, quer dizer gorjeta, gratificação extra por serviço prestado, mas não traz de berço conotações de prática escusa. Se no Brasil ela é empregada quase exclusivamente em contextos negativos, como parte do arsenal da corrupção, isso tem mais a ver com nossa cultura do que com sua etimologia.

A propina surgiu no século 17, vinda do latim tardio propina, “dar de beber”, termo saído por sua vez do grego por um caminho curioso. Quem explica é o dicionarista Rafael Bluteau, autor do clássico Vocabulário Português e Latino: “Propinar – Os latinos tomaram esta palavra dos gregos, os quais nos seus banquetes costumavam encher um copo de vinho, e depois de dizer Tibi propino, ‘Bebo à tua saúde, ou faço-te um brinde’, bebiam um trago, e logo davam o copo a algum dos convidados”.

Propina nasceu, assim, como o ato – legítimo e até elegante – de dar de beber e comer a quem se desejava agradar ou homenagear. Ninguém precisa ser cínico para enxergar aí o caldo de cultura em que fermentaria a “cervejinha do guarda”, mas o sentido logo transbordou do campo alimentar, como registra Bluteau: “Hoje se dá propina em dinheiro, ou em tantas varas de pano, e outras coisas usuais”.

Em Portugal, o sentido básico de propina é atualmente o de taxa legal paga ao Estado por certos serviços escolares. No entanto, o alcance semântico da palavra já foi mais amplo por lá. Mesmo sem aludir a procedimentos escusos, Bluteau atestava a importância da propina na sociedade lusa do início do século 18 ao dizer que “se dão propinas aos oficiais da Casa Real, aos tribunais, ao reitor, chanceler, lentes, licenciados, bedéis etc. da universidade”. Era o começo da farra.

Publicado na “Revista da Semana”.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): A palavra é... Tags:
27/06/2008 - 18:27

A ‘gratuidade magnífica’ de Jayme Ovalle

Muso, personagem e guru de Manuel Bandeira e uma penca de nomes estelares do modernismo brasileiro, Jayme Ovalle (1896-1955) é a mais curiosa figura daquela geração. Artista sem obra – ou quase isso, embora fosse compositor talentoso e tenha emplacado um clássico, “Azulão” –, encarnou como ninguém o espírito de gratuidade, boemia e improvisação dos que fazem da própria vida matéria de arte e estão, bem, bebendo e andando para organizar essa bagunça em nome da posteridade. Virou mito, mas pagou um preço alto: por trás da lenda, quase sumiu.

Não é exagero dizer que só agora, ao ganhar uma biografia, sua obra-vida fica completa. “O santo sujo – A vida de Jayme Ovalle” (Cosac Naify, 400 páginas, R$ 55) está saindo numa daquelas edições primorosas que viraram a marca da editora paulistana depois de custar a seu autor, o jornalista mineiro Humberto Werneck, quase duas décadas de trabalho – um trabalho repleto de interrupções e adiamentos, naturalmente, como o biografado seria o primeiro a compreender. Werneck, autor também de “O desatino da rapaziada – Jornalistas e escritores em Minas Gerais” (Companhia das Letras), estará na próxima quinta-feira numa mesa da Flip, ao lado de Xico Sá, para falar de Ovalle. Eu estarei na platéia. Mas adiantei algumas das perguntas que tinha planejado lhe fazer na ocasião:

Quanto tempo você levou para escrever o livro? Ovalle, o maior dos diletantes, aprovaria tanto trabalho e seriedade?

HUMBERTO WERNECK: Entre dar o primeiro passo na pesquisa e entregar a última linha do livro, foram 17 anos. Não de dedicação exclusiva, claro: durante esse tempo, o livro menos andou do que andou parado. Várias vezes desisti — mas toda vez que começava a explicar por que estava entregando os pontos, a figura de Ovalle voltava a me incendiar de entusiasmo. Uma doce sacanagem da parte dele, que certamente acharia um absurdo alguém investir tanto tempo e tanta energia nessa empreitada.

A espécie representada por ele — a do artista cuja obra é apenas a vida, o resto é subproduto — ainda tem lugar no mundo profissionalizado de hoje? O mundo poderia ser mais ovalliano?

HW: Temo parecer nostálgico (até por saber, como Simone Signoret em suas memórias, que a nostalgia não é mais o que ela era…), mas confesso que, olhando o espetáculo em torno, não vejo espaço para a gratuidade magnífica de Jayme Ovalle. O que é uma pena.

Você é um contista de talento, como mostra no livro (quase clandestino) “Pequenos fantasmas”. Será que esse é um modo de encarar a literatura à la Ovalle?

HW: Não é bem um lance ovalliano. É mais aquilo que o Hélio Pellegrino dizia a respeito do Otto Lara Resende, em quem ele, psicanalista além de poeta, diagnosticava um Complexo de Jonas: você tenta nadar para longe, mas acaba engolido pela baleia da literatura. Sem me sentir especialmente dotado para a ficção, estou achando que vou terminar no mesmo território por onde comecei. Depois de 40 anos de apuração jornalística, talvez tenha chegado a hora de apurar para dentro…

Na Flip, você estará ao lado de Xico Sá numa mesa chamada Conversa de Botequim. Boemia é isso. O que vão servir aos convidados?

HW: O Xico Sá, com sua verve, certamente servirá comes-e-bebes espirituais e espirituosos de primeira qualidade, ressaltando e ilustrando a importância das pérolas que surgem na mais vadia das conversas de boteco, e de cuja riqueza Jayme Ovalle é um exemplo superior. O que, para proveito geral, me dispensará de abrir o bico, a não ser para beber cerveja — a minha e a dele.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Uncategorized Tags:
26/06/2008 - 12:24

Os mais traduzidos

Em primeiro lugar, Walt Disney. Em segundo, Agatha Christie.

Para provar que a língua inglesa é forte mas não é tudo, o pódio é completado por Jules Verne.

Em quarto lugar, à frente de Shakespeare, uma surpresa saborosa: Lênin.

A lista completa dos cinqüenta autores mais traduzidos do mundo desde 1932 segundo a Unesco, com o número de edições em línguas estrangeiras de cada um, pode ser consultada aqui. (Via blog da “New Yorker”.)

Como curiosidade, está valendo. Não tenho nada contra essa promiscuidade de ficção e não-ficção, literatura “literária” e de massa. Mas que há algo de profundamente injusto em pôr a corporação do empresário Disney para brigar com autores de verdade, há.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Uncategorized Tags:
25/06/2008 - 10:55

Lendo ‘Chiquita’ em Havana

Graças aos amigos que colhi através deste blog, chegou às minhas mãos o romance “Chiquita”, ganhador do Prêmio Alfaguara deste ano. É provável que eu tenha um dos poucos exemplares que há na Ilha, o que me obriga a lê-lo depressa e passá-lo à fila de amigos que esperam por ele. As mais de quinhentas páginas escritas por Antonio Orlando Rodrigues são atraentes não só pela história que narram, mas pelo círculo de mistério que envolve o próprio livro. Basta dizer que os meios oficiais cubanos ainda não anunciaram que um compatriota ganhou tão importante galardão.

Os encantos do festejadíssimo – com razão – blog Generación Y, da cubana Yoani Sánchez, brotam da superposição de dois mundos inconciliáveis: a vida em Cuba, com seus milhões de anacronismos, e a consciência planetária de sua autora, uma jovem cevada na blogosfera sem porteiras do século 21. Essa superposição, livre de deslumbramento capitalista ou ranço programático, está na base do leque de efeitos que Yoani obtém: patéticos, cômicos, às vezes tristes de doer, em outras surpreendentemente ternos; quase sempre amargos, mas nunca derrotistas. Fidel Castro acaba de passar recibo.

O post sobre o romance “Chiquita” (nada a ver com as “Chiquititas” da TV) é um bom exemplo do que move Yoani: por ser de autoria de um exilado cubano, o livro é tratado pela máquina estatal como não existente mesmo sem conter, segundo ela, nada que possa ser visto como crítica ao regime. Uma espécie de censura no piloto automático. A certa altura ela sugere que, num país cujo sistema educacional trata Cabrera Infante como figura não existente, submeter o novo ganhador do Alfaguara ao mesmo tratamento é fácil, ainda que cada vez mais inútil.

Difícil é lidar com as Yoanis da vida.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Uncategorized Tags:
23/06/2008 - 16:33

Palavras jogadas fora

Há risco de um autor como Guimarães Rosa ser esquecido ou ficar elitizado?

Penso que é o contrário: o que não fica é o que é superficial, fraco e ruim. O dicionário “Houaiss” tem 400 mil palavras. O rádio, a televisão, o jornal, a literatura que se faz hoje não chegam a 20 mil: estão jogando fora 380 mil.

Em entrevista (só para assinantes) à “Folha de S.Paulo”, a crítica literária Walnice Nogueira Galvão defende uma causa justa, a permanência de Guimarães Rosa, com o inacreditável argumento acima.

Para começar, o “Houaiss” tem apenas “cerca de 228.500” verbetes, segundo a apresentação de Mauro de Salles Villar, da Academia Brasileira de Filologia, um dos diretores de sua equipe editorial. Mas isso não é o mais importante.

A lógica quantitativa da autora de “Mínima mímica” (Companhia das Letras), recém-lançada coletânea de ensaios rosianos, me fez pensar num depoimento de Josué Montello sobre Machado de Assis, arquivado na Academia Brasileira de Letras:

Certa vez, um mestre meu, Lourenço Filho, resolveu fazer o levantamento do vocabulário do “Dom Casmurro” e teve essa surpresa: não passava de 2 mil palavras. Com essas 2 mil palavras, Machado de Assis conseguira dizer tudo, só não disse – e isto é uma coisa que ficou para a nossa imaginação – o que fez a Capitu.

Embora o tal “levantamento” de Lourenço Filho também seja suspeito – não contei, mas o vocabulário do “Dom Casmurro” parece distante dessa economia de Hemingway ou Sabino que ele sugere –, é inegável que chega bem mais perto da compreensão de como as línguas funcionam. Em nenhuma época, em país algum, escritores saíram por aí recitando dicionários. Felizmente.

Dicionários são depósitos de palavras: incluem vocábulos caídos em desuso, regionalismos de alcance restrito, termos técnicos, sinônimos preciosistas etc. A língua da vida real – inclusive a literária, por mais rebuscada que possa ser – é outra coisa. Um escritor que tentasse usar todo o dicionário não seria apenas ininteligível. Seria um demente.

Ampliar o dicionário, como faz Rosa, não tem nada a ver com esgotá-lo.

Se cruzarmos as contas do professor de Montello com as da professora Walnice, Machado estaria “jogando fora” 398 mil palavras. Ou seja: “o rádio, a televisão, o jornal, a literatura que se faz hoje”, com seus 20 mil vocábulos, representariam um avanço cultural extraordinário.

Mas é claro que tal conclusão seria absurda. Números desse tipo, gordos ou magros, dizem tanto sobre a qualidade de um texto quanto a gramatura do papel em que ele está impresso: dizem nada. E se mesmo assim o sujeito for acometido da tentação doentia de abarcar o dicionário, basta lembrar Ernesto Sabato:

Um bom escritor expressa grandes coisas com pequenas palavras; ao contrário do mau escritor, que diz coisas insignificantes com palavras grandiosas.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Uncategorized Tags:
22/06/2008 - 10:02

Começos (ainda) inesquecíveis: Rubens Figueiredo

Este post foi publicado pela primeira vez em 24/11/2006:

*

Não não. Papel, não. Ninguém vai falar de papel aqui. Não é coisa que se fale. Papel. Mas já reparou como tem papel por aí, espalhado, empilhado, grampeado, no mundo inteiro, um mundo de papel. Olha bem. Papel de parede, lenço de papel, papel-moeda, toda hora a gente está pegando ou olhando para um papel.

Que nem você aí parado.

E não precisa nem se mexer porque é aqui perto, bem pertinho, nessa página mesmo, que tem uma pessoa a um passo e a poucas páginas da maior complicação da sua vida por causa de um punhadinho bobo de papel.

Não conheço muita gente que concorde comigo, mas lamento que Rubens Figueiredo tenha abandonado tão definitivamente o estilo efervescente de seus três primeiros livros, “O mistério da samambaia bailarina”, “Essa maldita farinha” e “A festa do milênio” – em que brincava desvairadamente com a linguagem em farsas rebuscadas e divertidíssimas –, para se dedicar aos meios-tons melancólicos de obras como “As palavras secretas”, “Barco a seco” e “Contos de Pedro”. Sim, foi esta segunda fase, sem dúvida competente, que tornou Rubens respeitado pela crítica brasileira. Mas eu, que sempre tive medo de confundir seriedade com sisudez, confesso sentir falta de abrir um livro dele e encontrar um início empolgante como o de “Essa maldita farinha” (Record, 1987).

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Uncategorized Tags:
21/06/2008 - 08:21

Dunga

Dunga é o maioral, o ás, o bambambã, o batuta, o melhor de todos, o rei da cocada preta, o chefão. E para evitar que se interprete a frase anterior como uma defesa do contestado técnico da seleção brasileira, convém esclarecer que antes de ser o nome profissional do gaúcho Carlos Caetano Verri, capitão da equipe tetracampeã mundial em 1994, e mesmo antes do anão da Branca de Neve, dunga já era um regionalismo brasileiro, substantivo comum e adjetivo, com os sentidos listados acima. Ironia?

Pode-se ler assim, claro. O próprio uso popular do termo dunga se presta a isso. Sua primeira acepção, de “sujeito sem igual em sua especialidade, exímio”, ganhou no Nordeste, segundo o dicionário Houaiss, um emprego irônico como “homem de influência local, chefe, mandão”. Convenhamos que, desde os tempos em que desfilava nos gramados suas qualidades de volante raçudo e dotado de forte espírito de liderança, Dunga, jogador de técnica limitada, estava mais para a segunda acepção do que para a primeira.

Como a sonoridade não nega, dunga veio da África, afirma Nei Lopes, estudioso da cultura afro-brasileira e autor do Novo dicionário banto do Brasil. Lopes foi buscar sua origem no quicongo (língua da família banta) ndunga, “pessoa de grande porte”. Mas vamos com calma: grande porte, o Dunga? E como fica o anão do conto de fadas nessa história?

No terreno da ironia feroz. Quando o filme da Disney foi lançado, em 1937, batizando finalmente os sete anões anônimos dos irmãos Grimm, aquele orelhudo simpático de roupa verde, mais frágil que os companheiros, ganhou no Brasil esse nome mordaz. Acabou virando o primeiro e mais famoso dos Dungas com maiúscula, responsável por tantos apelidos. Em inglês, chamava-se Dopey, gíria que significa abobalhado, burro. Quem quiser ver aí algum tipo de justiça poética ou futebolística, pode.

Publicado na “Revista da Semana”.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): A palavra é... Tags:
20/06/2008 - 11:08

Bolaño + metrô = Porsche?

O subtítulo da reportagem de Leon Neyfakh para “The New York Observer” (via Gawker) torna a leitura simplesmente obrigatória: “Carregar ‘2666’ de Bolaño é como dirigir um Porsche conversível”.

Como? Onde? Que paraíso é esse em que a prova de um romance charmoso que ainda não foi lançado (lá, claro) tem o mesmo poder de atração sobre o sexo oposto que os maiores símbolos de status jamais fabricados pelo engenho humano?

Segundo a reportagem, o metrô de Nova York. Um lugar tão coalhado de belos jovens livrescos de ambos os sexos que um livraço inédito discretamente exibido vale mais que uma rebuscada dança do acasalamento.

Bom, acaba que a história não é bem assim. O texto é muito divertido e sai testando sua hipótese com homens e mulheres, todos ligados à indústria editorial ou ao jornalismo cultural – quem mais teria acesso a provas tipográficas que valem por um carrão? O resultado é o retrato de um mundo de sonhos para ratos de livraria: quem disser que a literatura não tem nada a ver com sedução (como demonstra a pesquisadora) está mentindo.

Excitante, mas alienígena. Não adianta tentar repetir o truque entre Botafogo e Central.

De qualquer forma, a hipótese do repórter fica longe de ser cabalmente provada no fim:

Enquanto isso, Ali Heifetz, editora assistente da Norton, disse que, embora nunca tenha sido levada a abordar alguém com base na prova que a pessoa estava lendo, não descarta a idéia. “Se e quando eu visse um cara bonito lendo uma prova no metrô”, ela disse, “ele me pareceria mais atraente do que o mesmo cara sem ler uma prova.”

Até aí, tudo bem.

“Mas menos atraente do que o mesmo cara carregando um estojo de guitarra”, acrescentou ela.

Pô, ainda esse papo de guitarra? Só faltou falar em saxofone. Coisa mais antiga…

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Uncategorized Tags:
19/06/2008 - 13:51

Por que os leitores se mudaram para Cabul

Li o esboço de um debate interessante, embora incipiente, nas entrelinhas do “Rascunho” de junho. De um lado, o carioca Nelson Motta, de cuja literatura não sou propriamente um fã, diz numa longa entrevista coisas sensatas como esta:

Faço uma literatura de entretenimento, uma literatura pop. Minha grande ambição é alegrar, divertir as pessoas, emocioná-las um pouco, esclarecer uma coisa ou outra. É para isso que eu rezo literalmente, todo dia, antes de escrever: para que meu trabalho possa alegrar, divertir e esclarecer. (…) Já é muito difícil você conseguir essas coisas. Muita gente que quer fazer arte não consegue sequer fazer um bom entretenimento. E, às vezes, naquilo que tem o espírito de entreter com leveza, você também encontra arte e profundidade.

Do outro lado – num artigo que, a meu ver, acaba atirando em alvos demais – o pernambucano Raimundo Carrero, escritor de vôo estético mais longo e ambicioso, passa em certo momento por um caminho que corta o de Nelson Motta num ângulo inesperado. Carrero parte de um lugar-comum: fala de uma ficção “que se dilacera entre a obra de arte e a obra voltada apenas para o leitor, transformada em mercadoria”. Chega a criticar de passagem o “medíocre romance norte-americano de hoje”, como se tal juízo polêmico dispensasse defesa. No entanto, em vez de optar pelo previsível autismo dos escritores que dizem não dever satisfação alguma ao mundo exterior, Carrero apresenta o germe de uma proposta curiosa de conciliação entre os anseios de autoria do autor e os imperativos de leitura do leitor:

Na simplicidade, o romance deve chegar aos olhos do leitor com tal leveza que não exija nenhum tipo de quebra-cabeça, tornando-se cada vez mais leve. Aí está o segredo. No entanto, isto não quer dizer que o escritor abdicará das técnicas interiores, que se revelarão na sofisticação.

A proposta é incipiente, como eu disse, pelo menos da forma como foi apresentada no jornal. Carrero promete um desenvolvimento em seu livro “As estratégias do narrador”, ainda inédito. Mas gostei dessa mistura de sofisticação com leveza: me fez pensar nas “Seis propostas para o próximo milênio”, de Italo Calvino.

Convém lembrar que receita para escrever ficção nunca houve nem haverá, claro. O que não quer dizer que a literatura brasileira possa dispensar um bom – e já tardio – debate sobre o que a levou a se estranhar com seus leitores de tal forma que de repente, em nossa geopolítica maluca, Cabul lhes parece uma terra mais próxima, mais familiar, mais carregada de sentido que Nova Iguaçu.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Uncategorized Tags:
17/06/2008 - 18:38

Um personagem para chamar de eu

Num artigo para a revista The Chronicle of Higher Education (via Arts & Letters Daily), o crítico americano Michael Dirda conta que, há algum tempo, perguntaram-lhe numa sala de aula que personagem dos livros gostaria de ser. A resposta esperada, diz ele, era certamente “literária”, algo como Odisseu (Ulisses) ou Huckleberry Finn. Mas ele respondeu: “Bond, James Bond”. E explica por quê: “Ele tem os melhores brinquedos, atrai mulheres lindas e vence em todos os jogos, seja golfe, bacará ou – em Devil may care – tênis”.

São todas boas e másculas razões, sem dúvida. Só faltou dizer que Bond tem que matar gente, muita gente, o que, para alguns de nós, basta para estragar tudo. Mesmo que os mortos sejam todos “malvados”, há quem prefira manter distância dessa prática.

Fiquei pensando se a literatura brasileira tem alguém que eu gostaria de ser. Houve um tempo em que talvez respondesse Mandrake sem hesitação. Hoje não sei. Será que nossa galeria de heróis, quase todos atormentados, não se presta a esse tipo de brincadeira?

Aceito sugestões.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Uncategorized Tags:
16/06/2008 - 10:45

A pesquisadora

Ela deu um meio sorriso de olhos baixos, como se tentasse ler desígnios superiores nos volteios dos pedaços de limão esmagados no fundo do copo, e disse que a maior ofensa que se costuma fazer às de sua espécie é supor como móvel de sua busca sem fim uma ilusão vizinha da loucura ou da imbecilidade – a de que os homens que dedicam a vida a simular outras vidas por escrito são mais gostosos ou tesudos, mais misteriosos ou desafiadores do que os mortais comuns. O meio sorriso virou uma gargalhada seca, tão áspera e alta que metade do bar se voltou na nossa direção, inclusive todos os garçons. Ela aproveitou para erguer o copo vazio com a mão esquerda e bater nele com a unha comprida do indicador direito, esmalte carmim, três pancadinhas que tilintaram longamente dentro do segundo de silêncio instaurado por seu riso. O garçom mais próximo assentiu com a cabeça e fez meia-volta. Se houver alguma relação, ela prosseguiu, é bem o contrário, escritores tendem a ser piores de cama do que a média dos homens: mais broxas, mais ejaculadores precoces, além de mais inseguros, mais ciumentos, mentirosos, desleais, descuidados, caspentos, fedidos, barrigudos, egoístas, frios, estúpidos, babacas… Tudo aquilo que os homens em geral costumam ser, escritores têm tendência a ser um pouco mais. Eu posso dizer, ela disse, porque já fiz muita pesquisa de campo, qualitativa e quantitativa, e no entanto… Me fixou com seus olhos negros e acrescentou: Não pense que é por masoquismo que eu prefiro dormir com escritores. Muito longe disso. Fiquei aguardando ela me dizer por que, então, preferia dormir com escritores, mas o silêncio se prolongou. O garçom veio com a nova caipirinha. Ela retirou o canudo do copo, depositou-o sobre o guardanapo e tomou um gole longo. Aproveitei para observá-la: brincos em forma de serpente chegando quase aos ombros nus, sutiã corajosamente ausente. Tinha idade para ter conhecido a poesia marginal, calculei, tateando metáforas bêbadas: se existe algo como uma mão encarregada de passar o bastão entre as gerações literárias, então ela usa esmalte escarlate e está diante de mim bem agora. Apesar de sentir uma ponta de curiosidade, decidi não perguntar por que ela preferia dormir com escritores. Me intrigava mais naquele momento o fato de escritores toparem dormir com ela. Seria, talvez, porque assim se sentiam escritores na plenitude da palavra – escretores, excretores – essa condição fugidia e enganadora, vaidosa e mesquinha, que ao contrário do que se pensa é infinitamente mais fácil assumir perante o mundo do que na própria alma? Aí ela vinha e assinava embaixo: és escritor, sim; por que outro motivo eu estaria aqui fazendo o papel de tinteiro para a tua pena? Foi então que o teto do bar despencou sobre nossas cabeças. Com o corpo subitamente envolto num filme de suor gelado, joguei uma nota de vinte sobre a mesa e me levantei. Sabia que, ao proceder assim, puxava mais para baixo a nota dos escritores na pesquisa dela, mas não tinha escolha. Se corresse, talvez conseguisse chegar ao banheiro antes de vomitar.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sobrescritos Tags:
15/06/2008 - 08:34

Começos (ainda) inesquecíveis: Hilda Hilst

Publicado pela primeira vez em 7/9/2006:

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Deus? Uma superfície de gelo ancorada no riso. Isso era Deus. Ainda assim tentava agarrar-se àquele nada, deslizava geladas cambalhotas até encontrar o cordame grosso da âncora e descia em direção àquele riso. Tocou-se. Estava vivo sim. Quando menino perguntou à mãe: e o cachorro? A mãe: o cachorro morreu. Então atirou-se à terra coalhada de abóboras, colou-se a uma toda torta, cilindro e cabeça ocre, e esgoelou: como morreu? como morreu? O pai: mulher, esse menino é idiota, tira ele de cima dessa abóbora. Morreu. Fodeu-se disse o pai, assim ó, fechou os dedos da mão esquerda sobre a palma espalmada da direita, repetiu: fodeu-se. Assim é que soube da morte.

Começa assim “Com os meus olhos de cão” (Editora Globo, 2001), novela lançada em 1986 pela escritora paulista Hilda Hilst (1930-2004). Ou assim começa sua parte em prosa: tomei a liberdade de excluir os doze versos curtos que a antecedem para ir direto a esse monumental, enigmático Deus “ancorado no riso”. Observa Alcir Pécora, organizador das obras reunidas de Hilda, que “o obsceno é nome do cordame grosso com que se desce a este fundo”. Acrescentar alguma coisa? Eu não. Ancorado no silêncio, leio.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Uncategorized Tags:
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