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“Rasgar contos é algo irremediável, porque escrevê-los é como
despejar concreto. Em compensação, escrever um romance é
como colar ladrilhos. Isso quer dizer que se um conto não se
consolida na primeira tentativa é melhor não insistir. Um romance
é mais fácil: volta-se a começar.” GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ

Arquivo de maio, 2008

31/05/2008 - 01:06

‘Granta’: perto daqui

Outra boa notícia para quem se preocupa com o coeficiente literário do país (a semana está pródiga): a edição brasileira da “Granta” conseguiu manter sua promessa de semestralidade, feito digno de festa num mercado em que, quanto menor e mais sofisticado o público, mais tudo tende a virar devezenquandário – quando não a sumir de vez.

Franquia da revista trimestral britânica que acaba de chegar ao número 101 e tem a reputação de ser uma das principais publicações literárias do mundo, a “Granta” brasileira, editada pela Alfaguara/Objetiva, estreou em novembro do ano passado com um número inteiramente traduzido do inglês, dedicado a escritores americanos com menos de 35 anos.

O número 2 chega às prateleiras com o “preço sugerido” de R$ 36,90 – o que é mais uma boa notícia: o número de estréia era onze reais mais caro – e é o primeiro em que a revista põe em prática seu compromisso de misturar conteúdo traduzido (60%) e nacional (40%). Traz como tema as viagens, sob o título “Longe daqui”.

Os primeiros brasileiros a saírem na “Granta” são os cineastas Cacá Diegues e Arnaldo Jabor, com relatos memorialísticos; os ficcionistas Ignácio de Loyola Brandão e Ricardo Lísias, com contos; e o quadrinista e ficcionista Lourenço Mutarelli, com um capítulo do romance sem nome que está escrevendo para a coleção Amores Expressos – quem se lembra dela?

Entre os estrangeiros, garimpados em edições antigas da revista, estão Paul Theroux, Edmund White e Ismail Kadaré.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Uncategorized Tags:
30/05/2008 - 11:29

1968, 1975, 2008 e além

Tentar estabelecer relações entre momento histórico-social e literatura é pedir para derrapar em terreno traiçoeiro. Claro que as relações existem, mas jamais serão simples e diretas. É possível que só uma distância mínima de, sei lá, cem anos permita enxergar sem óculos ideológicos mais grosseiros os mecanismos desse relógio. Feita a ressalva, achei inspirador esbarrar hoje, no blog do “Guardian”, com um pequeno artigo (em inglês) de Gary Younge em que, a propósito de celebrar mais uma vez (alguém ainda agüenta isso?) o que teve de revolucionário o ano de 1968, ele se espanta que os reflexos daquela agitação não tenham aparecido de forma fulgurante nos livros dos anos subseqüentes:

…em termos de literatura os anos 70 produziram relativamente pouco que tivesse um grande e duradouro interesse. Será que os 60 deram maior voz a uma geração de escritores – mulheres, de países em desenvolvimento, negros, gays e assim por diante – que ainda precisariam de uma década para amadurecer?

Sim, o cheiro de “estudos culturais” dessas linhas é forte. E também não estou convencido de que, no quadro da literatura internacional, os anos 70 tenham sido tão fracos assim. Se achei o artiguete inspirador foi porque ele me levou a resgatar uma tese jornalística que lancei no blog em setembro de 2006, sustentando para a literatura brasileira uma idéia diametralmente oposta: a de que 1975 foi um ano memorável, aquele em que colhemos nossa última grande safra.

Quem quiser conhecer o argumento pode ler aqui o post, chamado “O ano em que a literatura transbordou”, e a discussão que ele provocou na época entre os leitores. Só adianto que em 1975 saíram “Feliz ano novo”, “Lavoura arcaica”, “Zero”, “O ovo apunhalado”, “A faca no coração”, “A morte de D.J. em Paris” – além de, como lembrou um leitor, ampliando uma lista que eu pretendera restringir à ficção, o maravilhoso “Poema sujo”. E foram terminados outros livros marcantes, que chegariam ao público no ano seguinte: “Reflexos do baile”, “Essa terra” e “A festa” – este, se não tiver a ver com 68, tem pelo menos o maior 69 da literatura brasileira.

Nada disso prova que Gary Younge esteja errado. Ou que eu esteja errado. Não duvido que estejamos errados os dois. Mas é interessante pensar que aquelas relações complicadas a que me referi ali em cima permitiriam tranqüilamente, pelo menos em tese, que a literatura vivesse um ano de ouro no Brasil enquanto atravessava um período de vacas magras no resto do mundo. Por que não? Vale lembrar que hoje, para muita gente, ocorre o inverso.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Uncategorized Tags:
29/05/2008 - 18:56

Enfim, o nosso Booker?

A Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo vai lançar nos próximos dias o mais bem pago prêmio literário do Brasil. O Prêmio São Paulo de Literatura pagará R$ 200 mil para o melhor livro de ficção do ano, mais R$ 200 mil para o melhor livro estreante, também ficção. A primeira edição levará em conta livros de autores brasileiros publicados no ano passado.

A quantia ultrapassa com folga os valores máximos de outras láureas já concedidas no país, como o prêmio Portugal Telecom (R$ 100 mil), o Zaffari & Bourbon (R$ 100 mil), da Jornada de Passo Fundo, e o Jabuti (R$ 30 mil), o mais antigo e tradicional de todos.

A matéria de Eduardo Simões publicada hoje na “Folha de S. Paulo” (só para assinantes) é uma ótima notícia, e não apenas pela grana. Outro dia eu comentava aqui que não temos no Brasil um prêmio literário que chegue perto do peso cultural do Goncourt ou do Rómulo Gallegos, do tipo que vale manchete e faz os leitores correrem para as livrarias. Agora teremos, pelo menos, mais um concorrente à vaga.

A inspiração para o prêmio, segundo o secretário paulista de Cultura, João Sayad, é o britânico Booker – um bom começo. Naturalmente, para virar um galardão tradicional é preciso primeiro, como direi, tradição. Leva tempo, e as armadilhas no caminho são muitas e conhecidas. Politicagem e irrelevância estética são apenas duas das mais comuns.

Vou torcer pelo São Paulo – o prêmio, não o time. Por falar nisso, o nome não podia ser um pouquinho mais criativo?

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Uncategorized Tags:
29/05/2008 - 10:23

Amazônia

Assim como o estado da federação, a floresta que alguns gringos gostariam de internacionalizar deve seu nome ao rio. Tudo começou com um potamônimo, palavrão que quer dizer “nome de rio”. Coube ao explorador espanhol Francisco de Orellana, o primeiro a descer o Amazonas de ponta a ponta, rebatizar em 1542 aquele marzão doce – a princípio chamado pelos colonizadores, justamente, Rio Santa Maria de la Mar Dulce – de Rio (das) Amazonas, após enfrentar uma tribo de ferozes guerreiras armadas de arco e flecha às suas margens.

A preposição foi tragada pelo tempo, e as certezas também. Seriam tapuias? Segundo uma tese, as “guerreiras” de Orellana eram na verdade mancebos cabeludos. De uma forma ou de outra, a maioria dos estudiosos é firme ao sustentar que o mito grego das amazonas está por trás de tudo, tratando como mera curiosidade a tese alternativa de que a palavra teria vindo de amassunu, termo indígena para “águas ruidosas” (e não “águias”, erro reproduzido em muitos sites brasileiros).

Como a etimologia é um campo de batalha em que pululam versões e mal-entendidos, a palavra amazona também carrega um qüiproquó de origem. O vocábulo foi provavelmente importado do iraniano ha-mazan (“guerreiras”), mas, adotado no grego, ganhou o apoio da chamada etimologia popular, aquela que parte de uma idéia falsa ou de uma aproximação sonora para alterar o curso de uma palavra: amazona foi interpretada como ligada a a + mazos, isto é, “sem seios”. Espalhou-se então a crença de que tais guerreiras se mutilavam para melhor manejar o arco. Em todas as representações artísticas da Antiguidade, porém, as amazonas aparecem, digamos, inteiraças.

Fica faltando explicar o porquê de Amazônia, mas isso é o mais simples. Basta aplicar às amazonas o sufixo latino indicativo de lugar que é usado em Itália, Lusitânia, Brasília etc.

Publicado na “Revista da Semana”.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): A palavra é..., Uncategorized Tags:
28/05/2008 - 15:33

Um escritor no hospício

Os cursos de escrita, especialmente quando envolvem a palavra “criativa”, são os novos hospícios. Uma das coisas que se nota é que, toda vez que ligamos a televisão e um estudante enlouqueceu com uma metralhadora em algum campus dos Estados Unidos, é sempre um aluno de um desses cursos.

Hanif Kureishi, autor do roteiro de “Minha adorável lavanderia” e do romance “O buda do subúrbio”, estava atacado em sua palestra no Festival de Hay, matriz galesa da Flip – notícia completa no “Guardian”, em inglês. Professor de um dos cursos que criticou, na Kingston University, Kureishi deve saber o que diz. E diz o seguinte:

A fantasia é que todos os estudantes vão se tornar escritores de sucesso, e ninguém os desilude. Quando você usa a palavra “criativo” e a palavra “curso”, há algo de enganador nisso.

Os chutes de Kureishi não miraram apenas o pau da barraca das oficinas de ficção. Outros alvos foram a superficialidade da imprensa…

Vêm e tiram fotos das escrivaninhas dos escritores. Eles não vêm e tiram fotos das suas escrivaninhas, vêm? É como se o talento estivesse na escrivaninha.

…e sua própria vida, quando revelou o que pensa ao se sentar para escrever, a cada manhã:

Por que estou fazendo isso? Devo cometer suicídio?

E aí, meninos? Têm certeza de que querem ser colegas desse sujeito?

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Uncategorized Tags:
27/05/2008 - 17:33

Risoto de cavaquinha na Pomerânia

Por que tenho de diminuir as minhas horas em frente à televisão e começar a ler alguma coisa?

Não tem, não. Apenas deveria. Pela mesma razão que deveria comer menos cachorro quente e mais risoto de cavaquinha ao limão siciliano.

Se livros são tão bons, por que ninguém dá bola pra eles?

Não dar bola é relativo. Conheço um monte de gente que mataria por um conto, pularia no abismo por um poema. Quem não conhece os livros tende a lhes dedicar um desprezo semelhante ao que sentimos pela Pomerânia. É uma região historicamente fascinante, mas como saber disso se nunca estivemos lá?

Entre a ficção e a realidade, com quem você se casaria?

Com a realidade, sem dúvida. Não só me casaria como me casei. Ficção é para ler e, além disso, com suas Bovarys e Capitus, pode tornar sua vida um inferno.

Gostei muito da entrevista de bolso que Henrique Araújo fez comigo para o jornal “O Povo”, de Fortaleza. Não é séria, mas é.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Uncategorized Tags:
26/05/2008 - 11:35

Uma revolução em dez capítulos

O jornalista Robert McCrum, que assumiu o cargo de editor de literatura do jornal inglês “Observer” em 1996 e acaba de deixá-lo, escreveu um artigo (acesso livre, em inglês) em que tenta explicar como e por que o mundo literário “virou do avesso” ao longo desses anos:

Tudo isso foi alimentado por uma mistura explosiva de comércio global e tecnologia. Em termos simples, pode-se dizer que Amazon mais Microsoft é igual a uma nova estratosfera literária. Dois fatores complicam essa equação. Primeiro, apesar da consistente evolução da tipografia para a digitalização, o livro impresso conseguiu se manter firme frente às opções eletrônicas. É como se, depois da decolagem, a missão Apollo se revelasse não uma nave espacial, mas um Spitfire.

Em segundo lugar, continua sendo um paradoxo da rede mundial de computadores que, se esta foi a década em que milhões encontraram uma voz por meio da internet, apenas uma minoria descobriu uma platéia. A auto-expressão se democratizou, mas livros e escritores continuam enfrentando a mesma velha batalha ancestral para conquistar leitores. Como chegam lá ainda é um mistério, mas na alquimia do sucesso literário o “boca-a-boca” permanece essencial.

Em seguida vem uma lista de dez tópicos – “capítulos”, segundo o autor – que tentam resumir a história das transformações que sacudiram o mundo das letras nos últimos anos: “Sangue novo: Zadie Smith”, “Amazon”, “JK Rowling”, “Festivais”, “Prêmios”, “Ian McEwan”, “Blogs versus resenhas” são alguns deles.

Tudo muito anglófilo, como se vê. Pudera: os abalos tiveram como epicentro indiscutível a língua de Jeff Bezos. Não é à toa que McCrum termina o texto congratulando sua turma, num tom irritante mas compreensível: “Ser um escritor de língua inglesa hoje é ser um dos mais afortunados entre os seres vivos”. Guardadíssimas as proporções, porém, boa parte dos tópicos encontra tradução para o ambiente brasileiro.

O artigo não traz nenhuma novidade dramática sobre o assunto, mas produz um apanhado interessante. Seu maior mérito é o olhar sensato, inegavelmente otimista, mas sem perder um grão de ceticismo. McCrum não é um apóstolo do cheiro de tinta, cigarro e bebida forte (nas palavras dele) da literatura pré-1996, nem um fanático da “revolução digital”. Acaba nos ajudando a entender como aqui, no mundo histórico de verdade, as grandes eras e suas idéias sempre se misturam nas bordas, promíscuas, velho e novo formando combinações imprevisíveis – como o leite e o sangue do leiteiro confundido com um assaltante no poema de Drummond.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Uncategorized Tags:
25/05/2008 - 09:11

Começos (ainda) inesquecíveis: Charles Dickens

Todo domingo, o leitor encontrará aqui uma retrospectiva da seção mais querida do blog. O post de hoje foi publicado pela primeira vez em 30/6/2006.

*

Aquele foi o melhor dos tempos, foi o pior dos tempos; aquela foi a idade da sabedoria, foi a idade da insensatez, foi a época da crença, foi a época da descrença, foi a estação da Luz, a estação das Trevas, a primavera da esperança, o inverno do desespero; tínhamos tudo diante de nós, tínhamos nada diante de nós, íamos todos direto para o Paraíso, íamos todos direto no sentido contrário (…)

Eis o melhor dos começos, o pior dos começos: o começo de “Um conto de duas cidades”, lançado em 1859 por Charles Dickens (Nova Cultural, 2002, tradução de Sandra Luzia Couto).

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Uncategorized Tags:
23/05/2008 - 19:15

O choro de Saramago

O link já anda circulando por aí, mas merece circular mais. José Saramago chorou quando terminou de assistir ao filme “Blindness”, baseado em seu romance “Ensaio sobre a cegueira”. Enquanto rolavam os créditos finais, disse que estava tão feliz quanto ao terminar de escrever o livro. O diretor Fernando Meirelles, ao seu lado, sapecou-lhe um beijo na careca. O alívio de Meirelles foi tão evidente que parece ter valido mais que uma possível – embora improvável, a julgar pelo mau humor da crítica internacional – Palma de Ouro em Cannes neste domingo.

A bonita cena está no YouTube (dica de André Gonçalves, do Farinhada).

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Uncategorized Tags:
22/05/2008 - 14:42

A ira implosiva de Fernando Vallejo

Será que só eu achei uma chatice sem tamanho a iconoclastia marqueteira de Fernando Vallejo, escritor colombiano que virá à Flip? Vallejo tem despejado na imprensa brasileira vitupérios em série contra tudo o que se move: de Chávez a Uribe, do papa a Fidel, da Colômbia ao Brasil, de García Márquez ao que você quiser imaginar – isto é, se a essa altura o tédio não tiver congelado sua imaginação. Tudo com mão tão pesada, tão obviamente calculado para épater le bourgeois – um burguês que não está nem aí, claro – que fiquei pensando: terá a literatura chegado a tal ponto de rebaixamento frente ao mercado que, como uma puta velha, precisa desses atavios cada vez mais espalhafatosos, desses esgares grotescos que tentam se passar por sorrisos? Ou o cara é assim mesmo?

Como sei que Vallejo já ganhou o prestigiado prêmio Rómulo Gallegos e é levado a sério pelos críticos de língua espanhola, não me espantei de ver que o “Estadão” de sábado embarcou em sua conversa sem o menor traço de distanciamento irônico, mencionando sua “ira explosiva”. “O Globo” de ontem não ficou atrás e disse que Vallejo “atirou, com cinismo e humor, contra as hipocrisias”. Entre explosões e tiros, o lado bom da batalha foi que corri para subtrair “O despenhadeiro” (Alfaguara, tradução de Bernardo Ajzenberg, 176 páginas, R$ 28,90) da minha fila de leituras pré-flipescas. Sei que corro o risco de ser injusto, que a boa literatura pode vir de qualquer lugar – inclusive de bufões. Mas sabe como é, a vida é curta, a fila é longa, a crítica é volúvel… Se um pobre leitor não puder confiar em seu instinto para as afinidades eletivas, vai confiar em quê?

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Uncategorized Tags:
21/05/2008 - 09:57

Casal (gay)

“Casal gay está certo?”, perguntam-me de vez em quando. Por trás da curiosidade lingüística, mal se esconde o desejo de encontrar no idioma um solo “natural” onde enraizar uma noção nada natural: a de que, se os pares homossexuais não têm sequer o direito legítimo à denominação de casal, outros direitos também não devem ter. No entanto, não há nada errado, do ponto de vista da etimologia, com a expressão casal gay.

Nenhuma língua é natural, mas sempre uma construção histórica. Reflete todas as facetas da sociedade que a fala, inclusive preconceitos, mas também costuma conter os antídotos para esses preconceitos – é só procurar. Longe de ser uma ciência exata, o estudo das palavras está mais para ciência política.

A acepção mais corrente de casal é mesmo “par composto de macho e fêmea, ou marido e mulher” (Aurélio), o que exclui os gays. Mergulhando na história da palavra, porém, vamos descobrir que o sentido original de casal era bem diferente: casa pequena e rústica ou conjunto de habitações desse tipo. Foi por extensão de sentido que a palavra passou a nomear também quem ali morava. Como diz o filólogo Antenor Nascentes: “No sentido de par de animais de sexos diferentes, (casal) vem da idéia de viverem eles juntos no mesmo casal”. Já se vê que o foco não é o gênero – é o endereço. Claro que na Idade Média, quando surgiu a palavra, leis e costumes não permitiam aplicá-la a parceiros do mesmo sexo. Mas estamos no século 21.

E que tal fazer o caminho inverso, avançando na história em vez de recuar? Encontraremos uma dilatação semântica mais recente que transformou casal em sinônimo de par, novamente sem referência a gênero. O Houaiss usa a seguinte fórmula: “duas coisas iguais; par, parelha”. Atenção para o adjetivo “iguais”. Casal gay encontra sustentação tanto de uma forma quanto da outra.

Publicado na “Revista da Semana”.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): A palavra é... Tags:
20/05/2008 - 14:18

Mais polêmica: Machado, o enganador

O Sr. Machado de Assis passa atualmente pelo mestre incomparável do romance nacional. (…) Mas é preciso romper o enfado que me causa este romântico em desmantelo, despi-lo à luz meridiana da crítica. Esse pequeno representante do pensamento retórico e velho no Brasil é hoje o mais pernicioso enganador, que vai pervertendo a mocidade. Essa sereia matreira deve ser abandonada.

Está bem, pode ser que as polêmicas literárias já tenham sido mais elevadas. Mas não eram necessariamente mais lúcidas e inteligentes. E nem é preciso ler motivações sexuais reprimidas nessa história de “despi-lo à luz meridiana da crítica”.

Em 1885, três anos depois das espantosas narrativas curtas de “Papéis avulsos” – entre elas O alienista – e quatro após “Memórias póstumas de Brás Cubas”, talvez Machado de Assis já tivesse produzido o suficiente para ser considerado o maior escritor brasileiro da história. Mesmo que dali até sua morte, exatamente cem anos atrás, não fizesse o que fez. Mesmo que não existisse Capitu. Pois foi naquele ano que um dos mais renomados críticos brasileiros de todos os tempos, o sergipano Sílvio Romero, que não era um idiota, resolveu pregar em si mesmo um nariz de palhaço, pendurar no pescoço uma sineta de muar, colar nos fundilhos uma rabiola de papel por toda a posteridade:

O Sr. Machado simboliza hoje o nosso romantismo velho, caquético, opilado, sem idéias, sem vistas, lantejoulado de pequeninas frases, ensebadas fitas para efeito. Ele não tem um romance, não tem um volume de poesias que fizesse época, que assinalasse uma tendência. É um tipo morto antes do tempo na orientação nacional.

Motivação? Bom, a de sempre – provavelmente o fato de Machado ter escrito anos antes, a propósito de um livrinho de poemas, que Romero não levava jeito para versejador. O ataque de 1885 não chegou a virar uma polêmica clássica porque Machado, fiel ao seu estilo, deixou-o sem resposta. Responderam por ele. No fim da vida, Romero moderaria as críticas, mas era tarde. O nariz de palhaço, a sineta e a rabiola são irremovíveis.

Moral da história: antes de estraçalhar um desafeto literário, certifique-se de que ele não é o Machado de Assis.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Uncategorized Tags:
19/05/2008 - 17:45

Temporada de polêmicas

Anda quente a temporada de quebra-paus literários.

Primeiro foi a mãe de Michel Houellebecq, a senhora Lucie Ceccaldi, que decidiu se vingar do retrato ultrajante que o filho traça dela – sem sequer alterar seu nome – na hippie hedonista de “Partículas elementares”. Em sua recém-publicada autobiografia, “L’Innocente”, a encantadora velhinha de 83 anos promete, segundo o blog da revista “New Yorker”, ir às vias de fato: “Se ele puser meu nome outra vez em uma das suas coisas, vai levar uma bengalada na cara que lhe quebrará os dentes, isso eu garanto!”.

Mais educados, Salman Rushdie e a crítica Ruth Morse têm trocado insultos polidos ou nem tanto (em que categoria se encaixa “ataque feminista primitivo”?) na seção de cartas – aqui e aqui – do “Times Literary Supplement”. Tudo começou com a resenha negativa que ela publicou sobre o último livro de Rushdie, “The enchantress of Florence”.

Para não deixar o Brasil fora dessa, Marcelo Mirisola publica hoje um artigo desancando o psicanalista Contardo Calligaris, que na semana passada, em sua coluna na “Folha de S.Paulo”, fez aquilo que o intelectual Carlos Maçaranduba chamaria de “duvidar da masculinidade” de Ernest Hemingway. “Almanaque de psicanálise para analfabetos iniciantes”, sentencia Mirisola.

Polêmicas vãs, argumentará o leitor cansado dessas manifestações de som e fúria, quase sempre encenadas diante de uma platéia bocejante. Difícil discordar. Só desconfio que seja uma idealização do passado imaginar que as polêmicas literárias foram mais elevadas um dia.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Uncategorized Tags:
18/05/2008 - 12:32

Começos (ainda) inesquecíveis: Italo Calvino

A seção que se tornou a maior marca registrada do Todoprosa está perto de completar dois anos, mas não é só por isso que dou início hoje a uma retrospectiva dos mais inesquecíveis começos inesquecíveis. A razão principal é que os leitores que estão descobrindo o blog agora, no iG, merecem ser inteirados do que passou. Mesmo porque os começos são inesquecíveis mas não infinitos – embora sejam imortais enquanto durem. Coube a este aqui, publicado em 13/06/2006, abrir a série.

*

Você vai começar a ler o novo romance de Italo Calvino, Se um viajante numa noite de inverno. Relaxe. Concentre-se. Afaste todos os outros pensamentos. Deixe que o mundo a sua volta se dissolva no indefinido. É melhor fechar a porta; do outro lado há sempre um televisor ligado. Diga logo aos outros: “Não, não quero ver televisão!”. Se não ouvirem, levante a voz: “Estou lendo! Não quero ser perturbado!”. Com todo aquele barulho, talvez ainda não o tenham ouvido; fale mais alto, grite: “Estou começando a ler o novo romance de Italo Calvino!”. Se preferir, não diga nada; tomara que o deixem em paz.

Você acaba de ler o primeiro parágrafo de “Se um viajante numa noite de inverno”, de Italo Calvino (Companhia das Letras, 1999, tradução de Nilson Moulin).

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Uncategorized Tags:
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