Machado e Rosa (não os que você está pensando)
No “Rascunho” de março, o bom escritor Rubem Mauro Machado, autor, entre outros livros, do premiado mas pouco conhecido romance “A idade da paixão”, investia contra a mistura de despreparo e descaso do jornalismo cultural brasileiro para lidar com o crescente volume de livros de autores nacionais:
Vamos ser bem sinceros: a grande mídia (embora ela não possa ou não ouse confessar isso abertamente) está se lixando para a cultura brasileira e, dentro dela, especialmente para a literatura brasileira. (…) E no entanto é importante que se proclame: avaliar a obra de um autor brasileiro não é um favor que se faz a ele – é um direito legítimo que ele tem, do mesmo modo que o público tem todo o direito de saber que existe essa obra na qual ele poderá se refletir, ou não; o leitor deve ter acesso à informação, embasada e isenta, para decidir. Como os suplementos se transformaram em larga medida numa ação entre amigos (“você me elogia, depois retribuo”) ou numa extensão dos departamentos de mídia das editoras, a reproduzir releases, quase toda crítica que trazem vem hoje eivada de suspeição.
Pode ser verdade, mas, como costuma ocorrer, não toda a verdade. Quem se encarrega de nos lembrar disso, elevando o drama dos escribas muito acima do lodaçal das “mazelas nacionais”, é a boa escritora espanhola Rosa Montero, autora do conhecidíssimo “A louca da casa”, no último “Babelia” (em espanhol, acesso livre):
Por isso eu digo que escrever romances é resistir. É suportar o desdém dos editores, os adiantamentos freqüentemente miseráveis, as cifras de venda muitas vezes ridículas, as críticas que podem ser ferozes, a destruição da edição porque não vende, a falta total de eco na imprensa, o desinteresse geral engolindo e sepultando seu livro como uma camada de lava estorricante. Os fogos de artifício do mercado e os olhos caídos de Paul Auster fizeram o pessoal acreditar que esse negócio de ser romancista é um ofício glamouroso, mas na vida real a imensa maioria dos escritores precisa suportar uma infinidade de humilhações. E quando são autores de raça, quando o que os move é realmente a paixão pela literatura, com que impavidez se deixam maltratar pelo bem de sua obra!
Depois da visão quase religiosa de Rosa Montero, com seus autores carregando cruzes sob as cusparadas de críticos e leitores na esperança de subirem aos céus ao terceiro dia (ou terceiro livro), será que devemos lançar a descompostura que Rubem Mauro passa em nossa frágil imprensa na conta de puro mau humor, uma vez que escrever é um ofício ingrato mesmo?
De jeito nenhum. Escritores são mais chorões que certas torcidas bicolores, verdade, mas a descompostura tem razão de ser. Bastaria o fato de não termos na imprensa brasileira um suplemento literário digno de engraxar as botas madrilenhas do “Babelia” para indicar que não faltam motivos a Rubem Mauro para fechar seu foco na cena nacional. Mas também é verdade que a “resistência” de que fala Rosa Montero fica mais nobre e fácil de encarar quando se sabe que é feita contra a entropia universal, e não apenas contra aquele editor moderninho de barbicha que pensa que Cervantes é o inventor do sanduíche de lombinho com abacaxi.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Uncategorized Tags:
Interesting to know.