Perdoem-nos por nos trairmos
Não sei se o sobrenome tem algo a ver com isso, mas vira e mexe eu preciso tomar a bênção do Nelson. Começou quando publiquei em 2000, no livro “O homem que matou o escritor”, um conto chamado O argumento de Caim, que tem o cara como personagem. O primeiro conto do meu primeiro livro, que bandeira. Angústia da influência? Não, prefiro influência da angústia. Ou só brincadeira, como nesta crônica escrita de encomenda semana passada:
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O político sobe ao palco com solene lentidão, acompanhado da mulher. Uma saraivada de flashes torna a cena estroboscópica. Ele pára diante da tribuna de madeira maciça, dá duas pancadinhas para testar o microfone, pigarreia e diz:
– Bom dia. Tive experiências extraconjugais. Traí minha mulher e não me orgulho disso. Minha mulher também me traiu. Mas nunca gastamos um centavo de dinheiro público para nosso deleite pessoal. O bordel de high school girls foi pago com meu salário suado, Madame Luba Jones está aí para comprovar. Venho confessar tudo de público antes que…
Um murmúrio percorre a platéia composta de dezenas de jornalistas. Bloquinhos, gravadores e câmeras ondulam como um mar revolto.
– Quem traiu primeiro? – grita uma moça ruiva na primeira fila.
– Eu! – a mulher do político levanta a mão, com um sorrisinho travesso.
– Verdade – o tribuno ergue a voz treinada em milhares de discursos, tratando de retomar o controle da situação. – Mas a culpa foi toda minha, percebem? Eu tinha problemas, eram obscenos os miolos da minha cabeça. Olhava e via os amantes da minha mulher escorrendo como águas nas paredes infiltradas. Aí já viu: foi batata. Mas isso… Quero deixar bem claro que fui eu mesmo que criei a cena dantesca. Sim, eis a verdade óbvia e fatal: fundei o Guantánamo do meu próprio martírio. Depois, quando caí por terra e implorei a meninas recém-saídas da puberdade que me chamassem de reserva moral da nação, eu estava apenas me punindo.
Na pausa dramática feita pelo político, o silêncio no salão é ensurdecedor. Então ele começa a gritar, vermelho:
– Recitava para aquelas pobres crianças as mais torpes lições de física: os elétrons, o núcleo do átomo, o núcleo do átomo! Não passava de um anelídeo, totalmente apartado de Deus e da família. Um farrapo! Desci ao piso, ao fundo do fundo. Mas agora…
– Querido – a mulher lhe toma uma das mãos entre as suas, enchendo-a de palmadinhas tranqüilizadoras.
– Já pedi perdão ao amor da minha vida por ela ter me traído – e o político, meio engasgado, olha carinhosamente para a mulher antes de se voltar, profissional, para o batalhão de repórteres. – Mais alguma coisa?
– Amor – ela diz – não esqueça os anões búlgaros.
– Ah, sim. Cabeça a minha: os anões. Naquela fase conjugal difícil, vocês precisam entender, andamos loucos, tivemos experiências que o cidadão médio pode considerar…
– E teve o swing no escuro – emenda a mulher –, os dildos teleguiados, o hamster…
– O quê?! Hamster?
– Não lembra, querido? No clube sadomasô?
– Eu…
– O nome do bichinho era Jeremiah.
– Você se enganou, meu amor. Nesse dia eu não estava.
Os repórteres anotam tudo, atarefados. A mulher solta a mão do marido, parecendo confusa. Abre a bolsinha de crocodilo e puxa uma caderneta rosa, que folheia apressadamente.
– Tem razão – e voltando-se para os jornalistas: – Corrijam, por favor: o hamster foi uma coisa só minha.
Os repórteres das filas da frente julgam ver, pela primeira vez, um brilho de perplexidade e quem sabe até – mas seria mesmo? – de ódio no olhar que o político dirige à mulher. Mas ele logo se recompõe. Abanando a cabeça numa negativa incrédula, abre um sorriso radioso atrás do microfone:
– Você vive vinte anos com uma pessoa e pensa que a conhece…
Risadas gerais dissolvem a tensão. O casal troca beijinhos para fotógrafos e cinegrafistas antes de deixar o palco de braços dados, sob um dilúvio de aplausos.
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Publicado em “O Globo”, seção Logo, em 21/3.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Uncategorized Tags: