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“É muito difícil pensar em ’ser escritor’ quando se nasce num país em
que ninguém lê: os pobres porque não sabem ou porque não possuem
meios para adquirir conhecimentos, e os ricos porque não sentem
vontade. Numa sociedade assim, querer ser escritor não é optar por
uma profissão, mas por um ato de loucura.” MARIO VARGAS LLOSA

22/03/2008 - 12:40

Arthur C. Clarke e os limites da razão

…quando se trata dos textos canônicos da moderna ficção científica, e da assombrosa geração de proféticos inovadores formada por seus contemporâneos – Isaac Asimov, Robert A. Heinlein e Ray Bradbury – os escritos do Sr. Clarke eram os mais bíblicos, os mais prontos a amplificar a razão com a convicção mística, os mais religiosos no sentido mais amplo da religião: especular sobre começos e fins, e como fazemos para ir de uns aos outros.

Demoro um pouco a saber o que fazer dessa observação de Edward Rothstein em seu artigo sobre Arthur C. Clarke (1917-2008) no “New York Times” (em inglês, acesso gratuito). Passada a surpresa inicial, ela me ajuda a acertar contas com minha própria admiração adolescente – esquecida por décadas, mas essas coisas não morrem – por um escritor cujas fabulações me pareciam, naquele tempo, infinitamente superiores ao lirismo piegas de Bradbury e ao vale-tudo imaginoso, mas meio tosco, de Asimov. Paro por aqui as comparações, reconhecendo os limites estreitos de minha erudição no gênero. No meu caso, a paixão pela FC arrefeceu com a idade adulta, e o que dela restou já tinha migrado para as graphic novels quando chegou a vez de minha própria geração revolucionar o gênero ao seu modo, criando o ciberpunk.

Esse distanciamento não me impede de saber que, no reino das verdades prontas, o autor de “2001” costuma ser visto – nos últimos tempos, com bem mais que uma ponta de desprezo – como o menos poético, o menos viajante, o mais apegado a minúcias científicas desnecessariamente realistas entre todos os autores de FC de sua geração. Portanto, dizem, o mais datado, o mais preso na moldura das décadas de 60 e 70, com seu interesse doentio em viagens à Lua e coisas do gênero. De fato, Clarke é um modelo de contenção e sobriedade entre seus pares. Talvez fosse isso que já então me seduzia nele: o rigor auto-imposto de criar dentro de limites de verossimilhança, como se tivesse mais graça vencer num jogo de regras estritas do que no Calvinbol.

A prova de que tal rigor nunca significou aridez e falta de imaginação, como querem seus críticos, é a freqüência com que Clarke leva o racionalismo a trombar violentamente contra as paredes invisíveis do campo magnético que o confina. Eis o ardor místico de que fala Rothstein, simbolizado naquilo que têm de indecifrável tanto o monolito de “2001” quanto o mundo alienígena auto-suficiente, perfeito e indiferente com que cruzam, perplexos, os astronautas da pequena obra-prima chamada “Encontro com Rama”. Em Arthur C. Clarke, a razão aponta sempre para o que está fora dela.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Uncategorized Tags:

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