Arquivo de março, 2008
31/03/2008 - 11:38
Mas se toda a obra de Steinbeck está em catálogo quarenta anos depois de sua morte (em 1968), e apesar da dieta forçada de seus livros imposta a centenas de milhares de estudantes – e da canonização oficial pela Library of America –, por que será que ele está tão decisivamente excluído do mapa literário? Além de Brad Leithauser, que em 1989 publicou uma perspicaz homenagem ao qüinquagésimo aniversário de “As vinhas da ira”, quem nos Estados Unidos o leva a sério hoje, com exceção de meia dúzia de acadêmicos steinbeckianos e alguns entusiastas locais em Monterey?
O duro artigo de Robert Gottlieb em “The New York Review of Books” (via Arts & Letters Daily), a propósito da conclusão, pela Library of America, da “consagradora” edição da obra de John Steinbeck, me deixou aqui pensando se algum escritor brasileiro estaria em papel semelhante – ao mesmo tempo literariamente morto e respirando por aparelhos nos currículos escolares.
Alguém disse José de Alencar? Tá legal, passa no mínimo perto. Só não vou assinar embaixo com entusiasmo irrestrito por reconhecer meu fraco kitsch e quase lacrimejante por aquela prosa poética de Iracema, “Verdes mares bravios de minha terra natal, onde canta a jandaia nas frondes da carnaúba”. Coisa de louco, sô. E se alguém leu ironia aqui, recomendo ler de novo.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Uncategorized
Tags:
28/03/2008 - 12:06
A palavra “maiô” parecia destinada a ter sabor nostálgico para sempre. Nome de um traje feminino de banho inteiriço tornado conservador pela explosão mundial do duas-peças, ou biquíni, o maiô nunca desistiu de tentar rentrées periódicas. Foi necessária, porém, uma mudança de praia – ou piscina – semântica para que invadisse triunfalmente o século 21. Não mais como peça feminina, mas unissex. Não mais estrela em passarelas, mas artigo de alta tecnologia no esporte de competição.
“Maiô” foi resultado da aclimatação em português, em algum momento da primeira metade do século 20, do francês maillot. A palavra dava conta entre nós dos cada vez mais ousados trajes de banho femininos. Em sua língua original, maillot era um vocábulo vetusto, mas com diferentes acepções. Começara sua carreira no século 16 como sinônimo de cueiro ou fralda, pano de enrolar recém-nascido. Só no início do 19 surgiria a acepção de malha de balé, que, na primeira década do século passado, se expandiu para abarcar trajes colantes de banho. Maillot veio, em última análise, do latim macula, ancestral de “malha” e “mancha”.
A adaptação da grafia e o lugar confortável ocupado pela palavra em português nada têm de raros. Inúmeros vocábulos franceses no campo da moda e dos cuidados pessoais tiveram o mesmo destino em diferentes épocas, e hoje mal se pensa neles como galicismos: maquiagem, sutiã, jaqueta, broche, botina, soquete, laquê, lamê, manicure…
Alguém disse biquíni? Não, nesse caso a história é outra. O duas-peças herdou seu nome do Atol de Bikini, no Pacífico, onde em 1946 os EUA deram início a testes nucleares noticiados com estardalhaço, detonando uma bomba debaixo d’água. Naquela época, uma certa novidade indecente – portanto também explosiva – estava fazendo barulho na Riviera Francesa. O biquíni começou como metáfora.
Publicado na “Revista da Semana”.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): A palavra é..., Uncategorized
Tags:
26/03/2008 - 00:18
Não sei se o sobrenome tem algo a ver com isso, mas vira e mexe eu preciso tomar a bênção do Nelson. Começou quando publiquei em 2000, no livro “O homem que matou o escritor”, um conto chamado O argumento de Caim, que tem o cara como personagem. O primeiro conto do meu primeiro livro, que bandeira. Angústia da influência? Não, prefiro influência da angústia. Ou só brincadeira, como nesta crônica escrita de encomenda semana passada:
.
O político sobe ao palco com solene lentidão, acompanhado da mulher. Uma saraivada de flashes torna a cena estroboscópica. Ele pára diante da tribuna de madeira maciça, dá duas pancadinhas para testar o microfone, pigarreia e diz:
– Bom dia. Tive experiências extraconjugais. Traí minha mulher e não me orgulho disso. Minha mulher também me traiu. Mas nunca gastamos um centavo de dinheiro público para nosso deleite pessoal. O bordel de high school girls foi pago com meu salário suado, Madame Luba Jones está aí para comprovar. Venho confessar tudo de público antes que…
Um murmúrio percorre a platéia composta de dezenas de jornalistas. Bloquinhos, gravadores e câmeras ondulam como um mar revolto.
– Quem traiu primeiro? – grita uma moça ruiva na primeira fila.
– Eu! – a mulher do político levanta a mão, com um sorrisinho travesso.
– Verdade – o tribuno ergue a voz treinada em milhares de discursos, tratando de retomar o controle da situação. – Mas a culpa foi toda minha, percebem? Eu tinha problemas, eram obscenos os miolos da minha cabeça. Olhava e via os amantes da minha mulher escorrendo como águas nas paredes infiltradas. Aí já viu: foi batata. Mas isso… Quero deixar bem claro que fui eu mesmo que criei a cena dantesca. Sim, eis a verdade óbvia e fatal: fundei o Guantánamo do meu próprio martírio. Depois, quando caí por terra e implorei a meninas recém-saídas da puberdade que me chamassem de reserva moral da nação, eu estava apenas me punindo.
Na pausa dramática feita pelo político, o silêncio no salão é ensurdecedor. Então ele começa a gritar, vermelho:
– Recitava para aquelas pobres crianças as mais torpes lições de física: os elétrons, o núcleo do átomo, o núcleo do átomo! Não passava de um anelídeo, totalmente apartado de Deus e da família. Um farrapo! Desci ao piso, ao fundo do fundo. Mas agora…
– Querido – a mulher lhe toma uma das mãos entre as suas, enchendo-a de palmadinhas tranqüilizadoras.
– Já pedi perdão ao amor da minha vida por ela ter me traído – e o político, meio engasgado, olha carinhosamente para a mulher antes de se voltar, profissional, para o batalhão de repórteres. – Mais alguma coisa?
– Amor – ela diz – não esqueça os anões búlgaros.
– Ah, sim. Cabeça a minha: os anões. Naquela fase conjugal difícil, vocês precisam entender, andamos loucos, tivemos experiências que o cidadão médio pode considerar…
– E teve o swing no escuro – emenda a mulher –, os dildos teleguiados, o hamster…
– O quê?! Hamster?
– Não lembra, querido? No clube sadomasô?
– Eu…
– O nome do bichinho era Jeremiah.
– Você se enganou, meu amor. Nesse dia eu não estava.
Os repórteres anotam tudo, atarefados. A mulher solta a mão do marido, parecendo confusa. Abre a bolsinha de crocodilo e puxa uma caderneta rosa, que folheia apressadamente.
– Tem razão – e voltando-se para os jornalistas: – Corrijam, por favor: o hamster foi uma coisa só minha.
Os repórteres das filas da frente julgam ver, pela primeira vez, um brilho de perplexidade e quem sabe até – mas seria mesmo? – de ódio no olhar que o político dirige à mulher. Mas ele logo se recompõe. Abanando a cabeça numa negativa incrédula, abre um sorriso radioso atrás do microfone:
– Você vive vinte anos com uma pessoa e pensa que a conhece…
Risadas gerais dissolvem a tensão. O casal troca beijinhos para fotógrafos e cinegrafistas antes de deixar o palco de braços dados, sob um dilúvio de aplausos.
.
Publicado em “O Globo”, seção Logo, em 21/3.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Uncategorized
Tags:
24/03/2008 - 16:00
Fundir literatura e internet – uma fusão profunda que use as ferramentas digitais para revolucionar o próprio modo de narrar e não apenas para divulgar textos lineares – é, para muita gente, uma obsessão. É possível que esse caminho acabe levando cedo ou tarde a uma obra-prima. Embora eu não consiga ver o texto-texto se tornando obsoleto, nada impede que novas formas de contar histórias ganhem vida própria, sem precisar tomar o lugar das já existentes.
O certo é que as freqüentes tentativas de acelerar essa fusão in vitro têm sido, na melhor das hipóteses, esforçadas. A última é um projeto inglês chamado We tell stories (Nós contamos histórias), patrocinado pela Penguin. Seis jovens escritores foram convidados a criar, ajudados por programadores de games, “web-histórias” inspiradas em livros tradicionais. A primeira experiência já está no ar: assinada por Charles Cumming, chama-se The 21 steps e se baseia no livro “Os 39 degraus”, de John Buchan, que Hitchcock transformou num filme homônimo de 1935.
Se eu gostei? Longe disso: achei canhestro, tatibitate e colossalmente chato. É claro que novas formas de narrar criam novos tipos de leitores e, bem, eu jamais serei um deles. Mesmo assim The 21 steps deixa a sensação de que os profetas da literatura digital ainda precisam galgar umas boas dezenas de degraus.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Uncategorized
Tags:
22/03/2008 - 12:40
…quando se trata dos textos canônicos da moderna ficção científica, e da assombrosa geração de proféticos inovadores formada por seus contemporâneos – Isaac Asimov, Robert A. Heinlein e Ray Bradbury – os escritos do Sr. Clarke eram os mais bíblicos, os mais prontos a amplificar a razão com a convicção mística, os mais religiosos no sentido mais amplo da religião: especular sobre começos e fins, e como fazemos para ir de uns aos outros.
Demoro um pouco a saber o que fazer dessa observação de Edward Rothstein em seu artigo sobre Arthur C. Clarke (1917-2008) no “New York Times” (em inglês, acesso gratuito). Passada a surpresa inicial, ela me ajuda a acertar contas com minha própria admiração adolescente – esquecida por décadas, mas essas coisas não morrem – por um escritor cujas fabulações me pareciam, naquele tempo, infinitamente superiores ao lirismo piegas de Bradbury e ao vale-tudo imaginoso, mas meio tosco, de Asimov. Paro por aqui as comparações, reconhecendo os limites estreitos de minha erudição no gênero. No meu caso, a paixão pela FC arrefeceu com a idade adulta, e o que dela restou já tinha migrado para as graphic novels quando chegou a vez de minha própria geração revolucionar o gênero ao seu modo, criando o ciberpunk.
Esse distanciamento não me impede de saber que, no reino das verdades prontas, o autor de “2001” costuma ser visto – nos últimos tempos, com bem mais que uma ponta de desprezo – como o menos poético, o menos viajante, o mais apegado a minúcias científicas desnecessariamente realistas entre todos os autores de FC de sua geração. Portanto, dizem, o mais datado, o mais preso na moldura das décadas de 60 e 70, com seu interesse doentio em viagens à Lua e coisas do gênero. De fato, Clarke é um modelo de contenção e sobriedade entre seus pares. Talvez fosse isso que já então me seduzia nele: o rigor auto-imposto de criar dentro de limites de verossimilhança, como se tivesse mais graça vencer num jogo de regras estritas do que no Calvinbol.
A prova de que tal rigor nunca significou aridez e falta de imaginação, como querem seus críticos, é a freqüência com que Clarke leva o racionalismo a trombar violentamente contra as paredes invisíveis do campo magnético que o confina. Eis o ardor místico de que fala Rothstein, simbolizado naquilo que têm de indecifrável tanto o monolito de “2001” quanto o mundo alienígena auto-suficiente, perfeito e indiferente com que cruzam, perplexos, os astronautas da pequena obra-prima chamada “Encontro com Rama”. Em Arthur C. Clarke, a razão aponta sempre para o que está fora dela.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Uncategorized
Tags:
19/03/2008 - 16:39
Como ocorre nos engarramentos, que se espalham rapidamente embora sua origem nem sempre seja fácil de determinar, a idéia de que os carros retidos num congestionamento de trânsito estão presos como o líquido numa garrafa, ocupando todos os espaços e condenados a sair lentamente, por um gargalo estreito, é uma metáfora que se espalhou pelas línguas latinas ali pelo início do século passado.
Provavelmente jamais saberemos com certeza qual foi o país que, diante daquele efeito colateral do desenvolvimento urbano, usou primeiro a imagem da garrafa (palavra antiqüíssima, vinda ao que tudo indica do árabe). O certo é que a idéia existe também no francês embouteillage, no espanhol embotellamiento e no italiano imbottigliamento. Todos eram termos existentes desde o século 19 em sua acepção literal de “ato de meter em garrafas”, mas passaram a fazer hora extra como sinônimo de tráfego lento ou bloqueado quando os automóveis começaram a se popularizar.
Os primeiros registros desse uso em francês datam dos anos 1920. Um pouco antes, por volta de 1917, começara a fazer sucesso no inglês a expressão traffic jam, que carrega o mesmo sentido e evoca imagem semelhante: a palavra jam tem entre suas acepções a de atochar, comprimir algo num recipiente até a borda (desse tipo de acondicionamento surgiu o significado de “geléia”). Como os carros que se espremem numa via pública até nenhum deles poder se mexer.
A palavra é antiga, o desconforto também, mas não o pânico. A garrafa que nossos avós julgavam cheia na época do Ford Bigode parece, agora sim, prestes a explodir de tão abarrotada. A tal ponto que uma inusitada imagem poética cunhada por Aldir Blanc em 1972, na canção Transversal do tempo (“acho que o amor é a ausência de engarrafamento”), soa cada vez mais como expressão de uma utopia romântica: bela, mas inatingível.
Publicado na “Revista da Semana”.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): A palavra é..., Uncategorized
Tags:
17/03/2008 - 10:57
Entrou no ar neste fim de semana o site da segunda edição da Copa de Literatura Brasileira. Como um dos jurados deste ano, tive direito a voto, mas nem por isso me considero suspeito para elogiar a lista dos dezesseis concorrentes, que me parece sensata, eclética e representativa. Não faltará quem torça o nariz, alegando que a literatura brasileira não produz dezesseis bons romances por ano. Concordo. Mas o que importa é que os livros realmente relevantes estão lá. E se a Copa for tão divertida quanto a do ano passado, terá valido a pena.
*
Muito bom o texto do crítico Alcir Pécora na “Folha” de sábado (só para assinantes) sobre o livro de contos “Putas assassinas” (Companhia das Letras), de Roberto Bolaño:
De repente, percebe-se que a paisagem é de horror, na iminência tensa de um desastre. A natureza do desastre é potencializada na injustiça e crueldade da América Latina, acumulada sobre um fundo primitivo de traição, dor e vingança. A violência contra mulheres, índios, velhos e crianças são evidências da devastação em curso, mas não é para os políticos que Bolaño aponta em primeiro lugar o dedo acusador, e sim para a cumplicidade que a literatura estabelece com eles: a literatura dos poetas nacionalmente celebrados, cujo serviço sujo seria disfarçar a violência e o sofrimento em pitoresco latino-americano, gesto tanto mais imperdoável, quanto se iguala ao de negação de uma chance de vida real.
Seguindo nessa linha, Pécora acaba por escalar outro autor da mesma editora, em grande evidência neste momento, como anti-Bolaño: Jorge Amado.
*
Distraído que sou, só tomei conhecimento do bom programa de rádio Laboratório de Leitura, no ar desde o início do mês passado, ao ser entrevistado por Diego Franco para a mais recente edição. Recomendo.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Uncategorized
Tags:
14/03/2008 - 12:27
Um novo livro do amazonense Milton Hatoum é sempre uma notícia a ser festejada. Foram poucos desde que ele estreou em 1990 com “Relato de um certo Oriente”: até este “Órfãos do Eldorado” (Companhia das Letras, 112 páginas, R$ 29) eram apenas três romances, todos de alguma forma substanciais, carnudos no vocabulário e na simbologia, com algo de amazônico e transbordante em sua fé na arte de narrar – “como os romances de antigamente”, ouvi certa vez de um leitor, e era elogio. Aliada ao talento de Hatoum, a falta de pressa se traduziu num padrão de qualidade elevado que o transformou em bicho-papão de prêmios literários. Com justiça.
No novo livro, lançado apenas três anos depois de “Cinzas do Norte”, os temas habituais de Hatoum – o território conflagrado das relações familiares, a paisagem amazônica como pano de fundo e metáfora de um profundo desencanto, o acerto de contas com um passado perigoso que a memória busca mas teme empreender – são retomados em chave diferente. Novela curta, escrita por encomenda para uma série internacional sobre temas mitológicos, “Órfãos do Eldorado” se deixa ler velozmente e com prazer. Só no fim é que me vi às voltas com uma suspeita incômoda: a de que, embora sejam bem-vindos os momentos em que a busca de concisão levou Hatoum a comprimir sua prosa até aproximá-la da (boa) poesia, todo esse enxugamento pode atrapalhar mais do que ajudar seu projeto ficcional.
O problema não é técnico e sim, digamos, de temperamento. Mesmo que a oralidade do narrador, um contador de histórias, funcione mais em tese que na prática, o descarnamento necessário a uma novela é conduzido com habilidade pelo autor. Historinha de fundo mítico, entre o sonho e a vigília, sobre um amor infeliz que engole a vida inteira do protagonista, a narrativa acelerada e cheia de elipses de “Órfãos do Eldorado” tem um travo de irrealidade e vertigem que lhe cai bem. Ao mesmo tempo deixa a sensação de que Hatoum, depois do passeio por esse afluente estreito, vai se sentir mais feliz e confortável quando conduzir seu barco de volta ao leito mais caudaloso e lento do romance-romance, com suas camadas de subtramas e caracterizações detalhadas, no qual navega como poucos.
Leia abaixo um trecho do meio do livro, o único momento em que o narrador, Arminto Cordovil, chega perto de satisfazer seu desejo pela misteriosa Dinaura.
Acordei de boca aberta, respirando como um asmático. Apalpei a camisa molhada e vi o rosto de Florita.
Ouvi uns gritos de afogado e vim te socorrer.
Quando ela falava assim, parecia adivinhar meus sonhos. Fiquei assustado com as palavras de Florita. Medo de alguém que nos conhece. Para disfarçar, pedi a ela que perfumasse a banheira com essência de canela. Quando me viu na pinta e perfumado, disse que eu não devia sair de casa.
Por quê?
Não respondeu. E eu confiei na minha intuição. Antes das cinco, fui até a Ribanceira e fiquei encostado no tronco da cuiarana, o lugar onde vi Amando morrer. No chão, flores arrancadas pela ventania. Um céu que nem o desta tarde: nuvens grandes e grossas. A rua do Matadouro, deserta. Estava tão ansioso que tremi ao ouvir as cinco batidas do sino. Então ela apareceu sozinha, usando um vestido branco, os braços nus. Sentamos sob a árvore, o tronco cheio de flores. Acariciei os braços e os ombros de Dinaura, e admirei o rosto dela. O desejo no olhar cresceu. Não fiz pergunta, nem disse nada. Qualquer palavra era inútil para o amor urgente. Ventava com força. Ela não se assustou com as trovoadas, nem se esquivou do meu abraço. Eu guardava as palavras no meu pensamento. Um dia viajaríamos juntos, conheceríamos outras cidades. Ela olhava a outra margem do Amazonas, como num sonho. Íamos casar e depois viver em Manaus ou em Belém, quem sabe no Rio. A chuva se aproximou com uma zoada de cachoeira. parecia que estávamos sozinhos na cidade e no mundo. Ela deitou na terra molhada, o pano do vestido colado na pele morena; se despiu sem pressa, a anágua, o corpete e o sutiã, ficou de pé, nua, e tirou minha roupa e me lambeu e chupou com gana; depois rolamos na terra até a mureta da Ribanceira, e voltamos para perto da árvore, amando como dois famintos. Não sei quanto tempo ficamos ali, acasalados, sentindo a quentura nas entranhas da carne. mal pude ver a beleza do corpo, abismado com o jeito dela, de amar. Dançarina. O ciúme me queimou. Quis esquecer isso e olhei o céu, a árvore, a torre da igreja. As flores caíam molhadas e cobriam meus olhos. Acordei com os estalos da chuva no rosto, e cometi a imprudência de beijar Dinaura com um desejo quase violento. Queria tocar a pele, beijar o corpo dela. Queria mais. os olhos diziam não. Encostei o ouvido nos lábios de Dinaura, mas a chuva me ensurdecia. E o que pude nos nos lábios: uma história. Qual? Ela se vestiu e fez um gesto: que a esperasse, voltava logo. Saiu correndo, como se fugisse de uma ameaça. Fui atrás dela e parei no meio da praça. Voltei, me vesti, esperei por ela no mesmo lugar. Ainda chovia quando alguém apareceu na entrada do colégio. Chamei por Dinaura, me aproximei e vi um homem caído. De joelhos. O mendigo recadeiro segurava um guarda-chuva preto. Estropiado. Iro soltou uns gemidos, ele esperava restos de comida do refeitório do colégio. Tirei do bolso uma nota molhada e joguei na barriga do homem.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Primeira mão, Uncategorized
Tags:
12/03/2008 - 18:32
Os brasileiros que se queixaram de ter sido chamados de “cachorros” por agentes da imigração espanhola podem ter cometido um erro de tradução. Foi o que argumentou na terça-feira, em reunião com membros da comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional do Senado, o embaixador da Espanha no Brasil. “Cachorro em espanhol é diferente, significa filhote”, afirmou Ricardo Peidró.
Mais uma exibição do velho esporte diplomático do “nó em pingo d’água”? Sim e não. A distinção não deve ser suficiente para amenizar a dor de quem se viu barrado injustamente no aeroporto, mas o fato é que, do ponto de vista lingüístico, esta curiosidade se impõe: Peidró está certo sobre a assimetria semântica de “cachorro” nos dois lados do Atlântico.
Além da Espanha, Portugal também usa o termo apenas para animais filhotes. Do latim catulus (filhote de cão), com o acréscimo da terminação basca orro, foi no português brasileiro que o significado de “cachorro” se expandiu até se confundir com o de cão (em espanhol, perro). Isso parece ter obedecido a razões de religiosidade ou superstição: como “cão” é um dos nomes do diabo, a idéia era evitar seu uso.
E daí? Bem, uma conseqüência dessa distinção é que, da desusada acepção “indivíduo de classe inferior, escravo” a “pessoa vil, mau-caráter”, para não mencionar a libertina “cachorra”, personagem de sucesso na cultura funk carioca, os sentidos pejorativos que se grudaram na palavra parecem ser um fenômeno mais característico do Brasil, atenuado em Portugal e inteiramente ausente do dicionário da Real Academia Española.
Esse argumento filológico dificilmente comoverá quem acredita que a Espanha está fazendo uma cachorrada e que o Brasil deve instruir a Polícia Federal a soltar os cachorros em cima dos turistas vindos de lá. Mas ajuda a matizar um caso que é multifacetado demais para admitir sentenças simplistas.
Publicado na “Revista da Semana”.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): A palavra é..., Uncategorized
Tags:
10/03/2008 - 14:08
Autores como Guimarães Rosa, quando morrem fisicamente, morrem também literariamente. O Rosa não vai durar muito tempo, ele hoje só é lido nas universidades. Porque ele saiu dos trilhos, exagerou. Aconteceu isso também com o Mário de Andrade que, quando escreveu “Macunaíma”, queria ser o Dante da língua portuguesa. Quem me chamou a atenção para isso pela primeira vez foi o Graciliano Ramos.
É possível saber tudo de língua e nada de literatura? A entrevista do “imortal” Evanildo Bechara ao “Jornal do Brasil” (acesso livre) revela um gramático de 80 anos que, em suas idéias sobre o idioma, conserva-se surpreendentemente jovem e arejado – bem mais que a maioria dos jornalistas de 30 que eu conheço. Motivo de festa maior que este, só o fato de Bechara não ser crítico literário.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Uncategorized
Tags:
07/03/2008 - 08:15
Palavrinha adorável, “grátis” nunca saiu de moda, mas alguns anos atrás pouca gente teria sido capaz de prever que a internet a transformaria em carro-chefe. Mera – e antiga, já registrada em 1502 – transposição para o português do latim gratis, é derivada do adjetivo latino gratus, que tem sentido ativo (“que agrada, que delicia”) e passivo (“agradecido, reconhecido”). A gratuidade traz do berço, portanto, a idéia de que aquilo que é oferecido livre de custo busca agradar, é um favor, geralmente em reconhecimento ao valor de alguém. O que significa dizer que, do outro lado do balcão, de frente para o grátis, existe sempre uma pessoa que deve se sentir grata.
A ambivalência ativo-passivo se transmitiu a outros termos da família: olhando bem, é possível ver a presença do mesmo “grat” latino na gratificação e no agradecimento, ou seja, dando conta tanto do que agrada quanto de quem, sendo agraciado, demonstra gratidão. Engraçado? Juro que esse grande congraçamento de palavras aparentadas, talvez gracioso para uns, mas certamente uma desgraça de etimologista doido para outros, não está aqui gratuitamente, só para fazer graça.
As palavras grifadas no parágrafo anterior – algumas, como “grátis”, vindas diretamente do latim, enquanto outras se formaram no português com base na matriz latina a partir do século 15 – traduzem a complexidade das relações envolvidas na idéia de gratuidade. Apesar de sua força poética, free, vocábulo inglês que quer dizer livre e também grátis, isto é, livre de custos, não traduz imediatamente essas relações. E são elas, com menos ênfase na idéia de favor e mais na de reconhecimento, que tornam possível a previsão de Chris Anderson, da Wired, sobre o futuro gratuito – para o consumidor final, enquanto o dinheiro corre solto por outros fios da rede – da economia digital.
Publicado na “Revista da Semana”.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): A palavra é..., Uncategorized
Tags:
05/03/2008 - 08:01
O que mais nos deve inquietar no chamado “escândalo dos escritores Jerominho” não é saber que eles – todos os sete – se sujeitaram a este triste papel, assinar seus nomes numa literatura que, se tem um autor, esse autor só pode ser o falecido Jerônimo Mayrink.
Como se sabe, os escritores Jerominho, cujos nomes a recente notoriedade do caso me dispensa de declinar, compraram – por dez mil dólares a unidade – um produto anunciado aos sussurros no submundo literário como espetacular, uma espécie de pedra filosofal dos escritores. A coisa cheirava a picaretagem de longe, só que, surpreendentemente, funcionou: até o escândalo estourar, todos os clientes de Jerônimo Mayrink eram vistos como autores sérios, entrevistados por jornais e TVs, fartamente lidos – isto é, lidos no clubinho dos leitores de ficção nacional, uma turma que poderia fazer assembléia numa Kombi, mas essa é outra história.
Batizado de MUSA (Mayrink’s Ultimate Simulator of Authorship), o programa podia não ser barato, mas mostrou-se genial. Essa máquina de escrever ficção usa algoritmos para “alterar” a prosa de autores consagrados, embaralhar frases, trocar palavras-chave, fundir dois ou mais textos, enfim, promover uma remixagem geral. “É mais ou menos como preparar um carro de passeio para torná-lo uma máquina de corrida perfeita”, disse Jerominho na única entrevista que concedeu, dois dias antes de aparecer enforcado na garagem de sua casa, em Jacarepaguá.
Não me perguntem como uma engenhoca dessas pode funcionar. Funciona. Das mil e tantas páginas que o MUSA produz a partir de coordenadas simples fornecidas pelo “autor”, que também é responsável por escolher os textos que servirão de matéria-prima, um clique final comanda a destilação de cento e oitenta, duzentas paginetas de uma prosa em que jamais ocorreria a ninguém – como não ocorreu mesmo, até Jerominho tomar um porre e falar demais numa festa – vislumbrar a menor relação com o livro ou livros originais.
Não fica nisso: em seus piores momentos, a ciberprosa assim produzida é perfeitamente decente, e aqui e ali exibe felicíssimos, memoráveis pontos altos. Deve-se reconhecer que isso dá e sobra para tornar a literatura Jerominho melhor que a maior parte da literatura-literatura lançada entre nós nos últimos tempos.
E finalmente aí está, como eu ia dizendo, o que mais nos deve inquietar no caso Jerominho: mais que a falsidade comprovada de meia dúzia de celebridades “literárias”, a conspícua suspeita de falsidade que paira desde então sobre a própria literatura.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sobrescritos
Tags:
03/03/2008 - 08:01
Lendo o Babelia (em espanhol, acesso gratuito), encontro uma reveladora entrevista de Ian McEwan: “Muitos acreditam que o romance perfeito é ‘Madame Bovary’. Eu o reli há dois anos e pensei: não é. ‘Madame Bovary’ morreu. (…) Dizem que quando Emma morre, Flaubert chorou. Agora entendo por que não gosto. Ele estava envolvido demais com a história. Deveria ter permanecido muito mais frio, distante, com algo de gelo”.
Meu susto nada tem a ver com a frieza que o escritor inglês confessa. Mais prosaico, deve-se ao fato de que só agora On Chesil Beach está chegando ao efervescente mercado editorial espanhol, oito longos meses depois de dar as caras por aqui.
A propósito: para McEwan, o romance que mais se aproxima da perfeição é “Ana Karenina”.
*
Lendo o Prosa & Verso (só para assinantes), o susto é com as seguintes palavras do jornalista José Castello sobre a novelinha “A morte e a morte de Quincas Berro D’Água”, de Jorge Amado: “jóia até hoje desprezada que, lançada seis anos antes de ‘Cem anos de solidão’, de Gabriel García Márquez, antecipa o realismo mágico”.
Hein? Promovido abruptamente de maior nome da “escola” que se costuma chamar de realismo mágico a seu solitário – e, em 1967, tardio – inventor, García Márquez, descobrimos agora, ainda teve Jorge Amado como precursor, viva nós! É como se nunca tivessem existido, entre outros, Alejo Carpentier e seu “real maravilhoso”, Juan Rulfo e seus mortos falantes, Miguel Ángel Asturias com “O senhor presidente”, e muito menos aquele Arturo Uslar Pietri que, já em 1948, importava da crítica de artes plásticas dos anos 20 para a literatura latino-americana o rótulo “realismo mágico” – dezenove anos antes de “Cem anos de solidão” e treze à frente do ótimo livreto de Amado. Que, aliás, veste meio mal esse figurino todo.
Quincas tinha razão: “impossível não há”.
*
Lendo a revista eletrônica Slate (em inglês, acesso gratuito), levo o maior susto de todos com a história do romance inacabado que o genial Vladimir Nabokov, às vésperas de morrer, em 1977, mandou seu filho e único herdeiro queimar. O manuscrito de The original of Laura, que uns poucos estudiosos já leram e que muita gente aposta ser uma espécie de pós-escrito – mais explícito! – a “Lolita”, dorme até hoje no cofre de um banco suíço enquanto Dmitri, o filho, se dilacera em dúvidas: ser fiel ao desejo do pai ou à curiosidade do mundo, eis a questão.
A novidade desse novelão fascinante, segundo o artigo assinado por Ron Rosenbaum, é que Dmitri, aos 73 anos, parece ter finalmente chegado a uma decisão. Alega haver sido aconselhado pelo fantasma do próprio Nabokov, num imaginário diálogo hamletiano travado recentemente: “Por que não faturar uma grana com esse troço?”.
Se for este mesmo – um tanto cínico – o capítulo final da intriga, daí para as prateleiras não deve demorar muito. E eu vou comprar.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Uncategorized
Tags:
Voltar ao topo