Dieta
Eis uma das lições que o estudo da origem das palavras nos ensina: somos menos moderninhos do que imaginamos. Dada a obsessão de nosso tempo com o corpo esbelto e saudável, quase se poderia desculpar quem, sem parar para pensar muito, imaginasse ser a palavra “dieta” uma invenção do século 20, quem sabe até adaptada do inglês diet. Quase se poderia desculpar – se não fosse um erro imperdoável.
Em português, “dieta” nasceu no século 15, mas sua matriz chega perto de se perder num passado imemorial. A palavra veio do latim diaeta, “parcimônia à mesa”, um dos requisitos da mens sana in corpore sano, “mente sã em corpo são”. Diaeta, por sua vez, era derivada do grego díaita, “modo de viver”. Convém não esquecer que o culto ao corpo esbelto e saudável nasceu na antiga Grécia, e que talvez fosse ainda mais importante para eles que para nós.
Não surpreende que a primeira acepção de dieta em velhos dicionários já tivesse, portanto, fumaças científicas. Tratava-se do regime pregado por uma certa corrente da medicina, visando ao equilíbrio total do organismo. Incluía, além de comida e bebida, “o exercício, a quietação, o ar que respiramos, as paixões d’alma, as evacuações e retenções cotidianas” (dicionário de Rafael Bluteau, início do século 18).
Ao longo da história a palavra se espalhou por sentidos correlatos: conjunto de alimentos ingerido habitualmente por uma pessoa ou grupo de pessoas, abstenção alimentar e até, por metonímia, assembléia política (derivado de reuniões realizadas à mesa, segundo a maioria dos filólogos). Nada disso obscurece a ligação entre os primórdios do vocábulo e o sucesso das atuais dietas de grife, como as de Atkins, Sonoma, South Beach, Beverly Hills, Hay e até Jesus. A mudança foi de método e escala, não de substância. Como se disse, somos menos moderninhos do que imaginamos.
Publicado na “Revista da Semana”.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): A palavra é..., Uncategorized Tags: