Arquivo de janeiro, 2008
30/01/2008 - 17:23
Eis uma das lições que o estudo da origem das palavras nos ensina: somos menos moderninhos do que imaginamos. Dada a obsessão de nosso tempo com o corpo esbelto e saudável, quase se poderia desculpar quem, sem parar para pensar muito, imaginasse ser a palavra “dieta” uma invenção do século 20, quem sabe até adaptada do inglês diet. Quase se poderia desculpar – se não fosse um erro imperdoável.
Em português, “dieta” nasceu no século 15, mas sua matriz chega perto de se perder num passado imemorial. A palavra veio do latim diaeta, “parcimônia à mesa”, um dos requisitos da mens sana in corpore sano, “mente sã em corpo são”. Diaeta, por sua vez, era derivada do grego díaita, “modo de viver”. Convém não esquecer que o culto ao corpo esbelto e saudável nasceu na antiga Grécia, e que talvez fosse ainda mais importante para eles que para nós.
Não surpreende que a primeira acepção de dieta em velhos dicionários já tivesse, portanto, fumaças científicas. Tratava-se do regime pregado por uma certa corrente da medicina, visando ao equilíbrio total do organismo. Incluía, além de comida e bebida, “o exercício, a quietação, o ar que respiramos, as paixões d’alma, as evacuações e retenções cotidianas” (dicionário de Rafael Bluteau, início do século 18).
Ao longo da história a palavra se espalhou por sentidos correlatos: conjunto de alimentos ingerido habitualmente por uma pessoa ou grupo de pessoas, abstenção alimentar e até, por metonímia, assembléia política (derivado de reuniões realizadas à mesa, segundo a maioria dos filólogos). Nada disso obscurece a ligação entre os primórdios do vocábulo e o sucesso das atuais dietas de grife, como as de Atkins, Sonoma, South Beach, Beverly Hills, Hay e até Jesus. A mudança foi de método e escala, não de substância. Como se disse, somos menos moderninhos do que imaginamos.
Publicado na “Revista da Semana”.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): A palavra é..., Uncategorized
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28/01/2008 - 12:01
Li este artigo do escritor e blogueiro Garth Risk Hallberg na revista eletrônica Slate (em inglês, acesso gratuito) como se estivesse diante de uma ótima peça cômica: entre uma risada e outra, um incômodo zumbido de apreensão ao fundo.
O artigo é curto e o assunto rende pelo menos um livro – que provavelmente não demorará a ser escrito. Mas basta para indicar alguns caminhos para a desconstrução do mito dos “resenhistas amadores” da Amazon.com. De uns anos para cá, essas figuras desalojaram críticos profissionais como os principais “produtores de conteúdo” da megalivraria virtual e foram saudados pela vanguarda do deslumbramento tecnológico como guerreiros da geração Web 2.0, aquela em que profissionais embolorados são varridos do mapa por gente-como-a-gente, leitores-escritores cujo diletantismo radical é garantia de integridade e frescor.
“Que monte de esterco!”, diriam os menos ingênuos numa tradução pudica. Hallberg delineia os previsíveis jogos de interesse, luta por prestígio, troca de favores, lobby editorial, desonestidade intelectual gritante e outras trapaças que, sob a falta de transparência patrocinada pela própria Amazon, transformam a recente instituição dos principais resenhistas amadores (sim, há um ranking) num puteiro de alta produtividade. Basta dizer que a número 1 da lista, chamada Harriet Klausner, detém a média de 45 livros resenhados por semana. Isso mesmo: seis livros e meio por dia – incluídos os domingos.
Eu sei que os tempos estão mudando, coisa e tal. Mas não vai ser tão fácil assim, moçada.
Via Arts & Letters Daily.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Uncategorized
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25/01/2008 - 15:40
A palavra “motoboy” parece ter vindo do inglês, mas é uma criação brasileira – mistura de motoqueiro e office boy (contínuo), esta sim uma locução importada. Tudo indica tratar-se de um vocábulo que teve gestação lenta e gradual na agitação urbana de São Paulo, mas que, uma vez pronto, atingiu o estrelato da noite para o dia: em agosto de 1998, “motoboy” ganhou fama nacional na esteira dos crimes de Francisco de Assis Pereira, apelidado pela imprensa de “Maníaco do Parque”, que tinha essa profissão. O dicionário Houaiss aposta justamente em 1998 como ano de surgimento ou consolidação da palavra em nosso vocabulário, no que parece acertar, embora prefira a desusada grafia “motobói”.
O caso de motoboy bagunça uma certa visão de mundo apocalíptica, infelizmente de larga difusão no país, em que o português brasileiro é retratado como dodói e indefeso diante do bombardeio de palavras importadas do inglês. Ao revelar um idioma em plena posse de suas faculdades criativas, trabalhando com peças de qualquer origem que estejam à disposição e dando-lhes uma feição própria, “motoboy” atropela a idéia de uma língua apática, mera receptadora de mercadoria contrabandeada.
Lançado há quatro anos, o curioso livrinho “Inglês Made in Brasil” (editora Campus), de Ron Martinez, um americano residente no Recife, tem como objeto principal de estudo justamente esses vocábulos que, parecendo simples itens da pauta de importações lingüísticas, são na verdade coisas nossas. “Motoboy” está lá, claro. Mas nem sempre se trata da criação de uma nova palavra. Mais comuns são os casos de adaptação de sentido ou mesmo de classe gramatical, como o de outdoor, um adjetivo (de outdoor advertising, “publicidade ao ar livre”) que aqui se consagrou como substantivo, com um significado que na língua original é reservado à palavra billboard.
Publicado na “Revista da Semana”.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): A palavra é..., Uncategorized
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23/01/2008 - 14:21
– Você vai passar o resto dos seus dias numa ilha deserta e pode levar um livro – ela diz.
– Um só?
– Um só. Qual você escolhe?
Ele pensa um pouco.
– Nenhum.
– Como, nenhum?
– Nenhum. Não vou ler, morto não lê.
– Não – ela ri – quê isso, na ilha tem comida à vontade, você não morre. Só fica lá de bobeira, vivendo superbem e… lendo um livro.
– Pode ser que você fique lá, lendo esse livro. Eu não fico porque me mato antes.
– Se mata…
– Mato, mato. Um livro só? Mil vezes a morte.
Ela fica meio desconcertada porque é a primeira vez que um homem bagunça assim o seu teste, mas acaba decidindo que gostou, gostou muito, mais até do que se ele dissesse Estrela da vida inteira, Em busca do tempo perdido ou outra das respostas que ela costumava classificar como “certas”. Olhando para o homem do outro lado da mesa do restaurante, vê alguém que nunca viu antes. Pela primeira vez tem vontade de beijá-lo e pensa, sentindo uma moleza nos joelhos, que a noite promete.
Enquanto isso, ele fica matutando que a idéia de um único livro sobreviver ao fim do mundo deve ser mesmo insuportável. Está até um pouco espantado, quase eufórico: caramba, acho que não dei apenas uma resposta espirituosa, isso é uma tremenda verdade! Um livro só? Melhor morrer. Quer anotar a idéia num guardanapo, depois desiste, distraído com o decote que se descortina do outro lado da mesa. E também pensa que a noite promete.
Agora a promessa já se cumpriu. Na cama dele, sob o lençol amarfanhado, ela ronrona, cabelos espalhados em seu peito, enquanto ele fuma. É o momento daquela volta lenta ao mundo da linguagem articulada, depois da rendição momentânea aos grunhidos da selva. Foi bom, foi muito bom. E ele fala:
– Sabe aquela história da ilha deserta?
– Hmm.
– Eu disse que me matava se tivesse só um livro…
– Ah, eu adorei. Nunca ninguém me respondeu assim.
Ele fica uns segundos em silêncio, espreme o cigarro no cinzeiro.
– E se fosse um game?
– O quê?
– Se em vez de um livro eu pudesse levar um videogame. Um só. Sabe qual seria?
Ela ergue a cabeça do travesseiro peludo do peito dele. Sente frio de repente.
– Hmm.
– Sonic 2. Sou louco pelo Sonic 2. É antiguinho, mas eu podia ficar a vida inteira fazendo aquele porco-espinho pular…
Diz isso e, com um sorriso, se deixa levar pelo sono: menos de um minuto depois está ressonando.
Ela pula da cama. Arrepiada de frio, sai andando nua pelo apartamento, que mal teve tempo de ver quando chegaram, ocupados que estavam em se morder, arrancar as roupas e atravessar a sala na direção do único quarto.
A sala tem um sofazinho de dois lugares. Uma poltrona, jornais espalhados pelo chão. Uma estante pequena com prateleiras tomadas por garrafas de cachaça, licor, uísque, canecão de chope com o escudo do Flamengo, CDs. Ah, sim, um livro também. Um livro solitário. Ela se aproxima, temerosa, e lê na lombada, à luz fraca da rua que entra pela janela: Onze minutos, de Paulo Coelho.
Mas já é tarde demais.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sobrescritos, Uncategorized
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21/01/2008 - 12:27
Steve Jobs, da Apple, no blog de tecnologia do “New York Times”, falando sobre o Amazon Kindle e por que devem esperar sentados os que aguardam para breve o lançamento de um Mac E-Reader:
Não importa se o produto é bom ou ruim, o fato é que as pessoas não lêem mais. Quarenta por cento das pessoas nos Estados Unidos leram um livro ou menos no ano passado. A concepção como um todo está corrompida de saída, porque as pessoas não lêem mais.
Há quem lamente, há quem concorde. Mas há também os que apostam, lembrando que alguns anos atrás Jobs declarou os telefones celulares igualmente fora dos planos da empresa, que a engenhoca está quase pronta.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Uncategorized
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18/01/2008 - 11:44
O Brasil está de parabéns pelo apagão. Não, o colunista não pirou. Motivo de orgulho é a palavra e não aquilo que ela nomeia – o catastrófico colapso de energia que passou raspando em 2001 e que agora, quase sete anos de imprevidência depois, uma nova estiagem volta a transformar em ameaça. Uma ameaça que os sucessivos desmentidos do governo, saindo pela culatra, tornam cada dia mais palpável.
Nomear uma coisa é o primeiro passo para dominá-la, eis a história da humanidade. É nesse sentido que o apagão merece ser comemorado. É fácil esquecer, mas entre nós a palavra surgiu outro dia mesmo. O dicionário Houaiss aposta em 1988 como data de “nascimento”. Pode ser, mas a novidade pegou aos poucos: no “Jornal do Brasil”, para ficar em um único exemplo, a palavra estreou em 1996.
Até então nossa língua dispunha apenas de “blecaute” – forma aportuguesada do inglês black-out – quando queria condensar num só vocábulo o horror de uma crise de escassez de energia. Nada contra blecaute, anglicismo bem plantado em nossa cultura popular graças ao nome artístico do cantor – negro, naturalmente – Otávio Henrique de Oliveira (1919-1983), intérprete das marchinhas “General da Banda”, “Maria Candelária” e outros antigos sucessos do carnaval. Mesmo assim, a superioridade de apagão é clara.
Não por ser uma palavra “nativa”, é bom frisar. A xenofobia lingüística do deputado Aldo Rebello, autor de um projeto de lei que prevê punição para quem usar termos estrangeiros, não vem ao caso aqui. Mesmo porque tudo aponta para mais uma influência de fora: o espanhol apagón é a matriz provável de nosso apagão. O que importa é que, com esse ão ambíguo – meio de exaltação, meio de gozação – pelo qual a cultura brasileira tem evidente predileção, conseguimos finalmente tomar posse da escuridão. Pena que as rimas não sejam (ainda) a solução.
Publicado na “Revista da Semana”.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): A palavra é..., Uncategorized
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16/01/2008 - 13:15
Me chamem de Ismael. Alguns anos atrás – não importa precisamente quantos – tendo pouco ou nenhum dinheiro na bolsa, e nada que me interessasse particularmente em terra firme, decidi navegar um pouco por aí e ver a parte aquosa do mundo. É um jeito que tenho de espantar a melancolia e regular a circulação do sangue. Sempre que me pego ficando amargo, mandíbula tensa; sempre que em minha alma se faz um novembro chuvoso e cinzento; sempre que me vejo detendo involuntariamente o passo diante de agências funerárias e seguindo a cauda de todo cortejo fúnebre que encontro; e especialmente sempre que minha hipocondria leva a melhor sobre mim de tal forma que só um forte princípio moral me impede de sair à rua e, deliberadamente e com método, aplicar murros na cara dos passantes – nesses momentos, sei que está na hora de me fazer ao mar o mais depressa possível.
Há uma única e melancólica razão para que o início de “Moby Dick”, de Herman Melville, o começo mais “inesquecível”, citado e parodiado da literatura americana, tenha demorado quase dois anos para vir parar nesta seção: a insistência com que os tradutores brasileiros que conheço vertem a famosíssima frase de abertura do livro, Call me Ishmael, nesta fórmula criminosa: “Chamai-me Ismael”. Ressonâncias bíblicas, alegais em vossa defesa, ó escribas? E desde quando isso é motivo para decepar logo na primeira linha o barato de gerações e gerações de brasileiros diante de um livro de aventuras empolgante e, de certa forma, simples feito água? Será que o pernóstico imperativo na segunda pessoa do plural, que nos soa pomposo ou ridículo há séculos, tem alguma afinidade com o humor moderno de Melville em geral e especialmente neste parágrafo, em que o narrador confessa o desejo gratuito de sair à rua e “aplicar murros na cara dos passantes” – ou melhor ainda, no original, knocking people’s hats off?
Para mim, a resposta sempre foi não, de jeito nenhum. E foi assim que “Moby Dick” se manteve ao largo do blog, rodeando-o, arisco e furioso feito um cachalote ferido, até me ocorrer agora há pouco a idéia óbvia de traduzir o trecho eu mesmo. E já que estava pondo mãos à obra, achei melhor dar logo vazão a um ardor modernista que, sei muito bem, incorre no pecado do anacronismo: “Me chamem de Ismael”, com o pronome pessoal átono abrindo a frase – e, escândalo dos escândalos, o livro! É claro que o Brasil, proclítico por natureza, só começaria a se encarar no espelho ali por volta de 1922, mais de meio século, portanto, após o nascimento da baleia branca de Melville. Até então, engolíamos vossas ênclises disciplinadamente, escribas, para não mencionar vossos pronomes pessoais em desuso, como bons macaquinhos amestrados. Mas deixai estar, deixai estar, que o que se perde no anacronismo é restituído com juros na adequação do tom.
Quem for menos dado a traquinagens de estilo pode optar por um discreto “Chamem-me Ismael” – curiosamente (ou não?), uma solução que parece ser mais comum entre tradutores portugueses do que entre brasileiros.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Uncategorized
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14/01/2008 - 11:10
“Se for um livro, eu não li, não estudei, ou estudei e não lembro”. Essa é a resposta de uma aluna do terceiro ano do curso de Relações Públicas da Universidade de São Paulo para a seguinte pergunta: “Quem escreveu Macunaíma?”
Para a mesma questão, outros palpites: “José de Alencar”, diz um aluno de Engenharia Agrícola da Unicamp; “Guimarães Rosa”, arrisca uma estudante de Publicidade e Propaganda da Faculdade Cásper Líbero; “João Cabral”, afirma uma jornalista formada pela FIAM; “Camilo Castelo Branco”, aposta um jovem engenheiro mecânico recém-graduado pela Unicamp. Um aluno de Economia da Faculdade de Campinas responde com outra pergunta: “Tem opções?”
Dos 30 jovens que entrevistamos nessa pequena pesquisa, apenas oito souberam dizer que Mário de Andrade era o autor de Macunaíma, um dos mais importantes títulos da literatura nacional.
Começa assim o texto publicado por Luísa Pécora no site da revista “Cult” a propósito dos 80 anos de “Macunaíma”, em que a autora ouve professores para tentar entender por que o romance, “um dos mais importantes títulos da literatura nacional”, é tão pouco lido hoje. As intenções são nobres, como se vê, mas o início dificilmente poderia ser mais equivocado.
Paremos para pensar. Se oito universitários paulistas em trinta acertaram o nome do autor de “Macunaíma” (26,666%, número que tem ressonâncias apocalípticas, mas isso não vem ao caso), estamos diante de uma marca a ser festejada com fogos, dança e bebedeira noite adentro. Livros mais resistentes ao tempo, mais lidos, mais vivos na cabeça das novas gerações de brasileiros, como “Memórias póstumas de Brás Cubas” e “Vidas secas”, dificilmente atingirão esse grau de reconhecimento no oceano de ignorância que caracteriza o sistema nacional de ensino.
Talvez a pergunta devesse ser, então, procurada no avesso do artigo da “Cult”: por que “Macunaíma”, romance-tese de inegável interesse histórico que ninguém mais lê, ainda é tão lembrado? Por causa do filme? Da peça? Do clichê em que se transformou a expressão “herói sem nenhum caráter”? E, se é verdade que ninguém mais o lê – vamos lá, não custa nada encarar a questão – estaremos mesmo diante de “um dos mais importantes títulos da literatura nacional”?
Aqui no meu canto, e antes que venham as pedras, declaro acreditar que a resposta seja sim. Romance-tese é um gênero necessário, especialmente em momentos de fundação, mesmo que tenda a envelhecer mal. Apenas me parece que, diante das circunstâncias, a “importância” superlativa de “Macunaíma” não faz avançar em nada a discussão – nem contribui para despertar o interesse de jovens leitores além daquela marca de 26,666% – quando é escalada no papel de cristalina premissa.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Uncategorized
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11/01/2008 - 11:01
Estação brasileira por excelência, eixo em torno do qual giram, nesta terra bronzeada, os sonhos de lazer e as engrenagens de indústrias como as da moda, do turismo e da boa forma, o verão parece tão essencial e eterno quanto a própria natureza. Engano. As estações como as conhecemos se firmaram em nossa língua a partir do século 16, semeando confusão por todo o 17 e vitimando, no início do 18, o primeiro grande dicionarista da língua portuguesa, Rafael Bluteau, que abre assim seu verbete Verão: “Querem alguns que essa palavra signifique Primavera”.
Acontece que antes disso, quando era comum encontrar o verão na grafia ueerãão, a divisão das estações não estava consolidada num sistema científico em torno de dois equinócios e dois solstícios – momentos em que o Sol está respectivamente mais próximo e mais distante da linha do Equador – mas fundada em percepções empíricas. Isso fazia com que, no castelhano, em que tais palavras se firmaram primeiro, as fases do ano fossem cinco, segundo o filólogo catalão Joan Corominas.
Nessa conta torta, a metade do ano correspondente ao calor e ao “bom tempo” se dividia em três segmentos: primavera (do latim primo + vere, o primeiro bom tempo, equivalente aos dois terços iniciais da estação que hoje leva este nome), verano (de veranum tempus, tempo bom, que abarcava o fim da atual primavera e o início do atual verão) e estío (de aestivum tempus, tempo de calor forte, auge e parte final do verão como o conhecemos).
Estranho? Se pensarmos que a linguagem é sempre uma construção cultural, mesmo em seus aspectos mais “naturais”, nem tanto. Basta lembrar que uma das acepções de “verão” no Nordeste brasileiro é a dura e nada excitante “estação da seca”. E que o jornalista Paulo Francis costumava brincar que no Rio de Janeiro só havia duas estações: verão e inferno.
Publicado na “Revista da Semana”.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): A palavra é..., Uncategorized
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09/01/2008 - 14:16
Já que a pergunta “por que você escreve, escritor?”, mote de um pequeno conto (ou coisa que o valha) na nota anterior, parece ter furado um inesperado veio de polêmica entre os leitores do Todoprosa, cai bem lembrar um trecho marcante do discurso do turco Orhan Pamuk (aqui em inglês) na cerimônia do Nobel de 2006 – mais tarde publicado em forma de livreto pela Companhia das Letras, ao lado de dois outros discursos do homem, com o título “A maleta do meu pai”. A releitura desse trecho me levou a duas constatações, a primeira óbvia, a outra nem tanto: o jornalismo glória-maria não é exclusividade do Brasil; é possível, sim, levar a sério essa “pergunta de mil respostas”, de preferência enumerando, como Pamuk, uma infinidade de razões parciais em que a força do conjunto e de certos achados parece ter o poder de anular a banalidade dos lugares-comuns que lá vão de cambulhada. Aproveitem:
A pergunta que, com maior freqüência, é dirigida a nós, escritores, a pergunta favorita, é: por que vocês escrevem? Escrevo porque tenho uma necessidade inata de escrever. Escrevo porque não posso ter um trabalho normal como as outras pessoas. Escrevo porque quero ler livros iguais aos que eu escrevo. Escrevo porque estou irritado com todo mundo. Escrevo porque adoro ficar sentado numa sala, escrevendo o dia todo. Escrevo porque só consigo tomar parte da vida real transformando-a. Escrevo porque quero que os outros, o mundo inteiro saiba que tipo de vida nós vivíamos e continuamos a viver, em Istambul, na Turquia. Escrevo porque amo o cheiro de papel, caneta e tinta. Escrevo porque acredito na literatura, na arte do romance, mais do que em qualquer outra coisa. Escrevo porque é um hábito, uma paixão. Escrevo porque tenho medo de ser esquecido. Escrevo porque gosto da glória e do interesse gerados pelo ato de escrever. Escrevo para ficar sozinho. Talvez eu escreva porque espero entender por que estou tão, tão irritado com todo mundo. Escrevo porque gosto de ser lido. Escrevo porque, tendo começado um romance, um ensaio, uma página, eu quero terminar. Escrevo porque todo mundo espera que eu escreva. Escrevo porque tenho uma crença pueril na imortalidade das bibliotecas e na maneira como meus livros ficam na estante. Escrevo porque é instigante transformar todas as belezas e riquezas da vida em palavras. Escrevo, não para contar uma estória, mas para compor uma estória. Escrevo porque desejo escapar do mau presságio de que há um lugar aonde eu devo ir, mas aonde – como num sonho – não posso chegar por completo. Escrevo porque nunca consegui ser feliz. Escrevo para ser feliz.
(Pela tradução, meus agradecimentos a Tiago A., embora ele sustente que ela foi feita por seu cachorro.)
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Uncategorized
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07/01/2008 - 11:03
Ele perguntou a ela por que ela escrevia e ela respondeu que escrevia porque tinha vontade, e ele falou, muita gente tem vontade, vontade não basta, e ela disse mas então você está me perguntando como eu consigo escrever, é isso?, e ele ficou em dúvida e ela, eu achei que você tinha perguntado por que eu escrevo e não como eu faço para escrever o que eu escrevo, aí ele ficou um tempo em silêncio e depois riu e disse tá certo, touché, então ela olhou para baixo e notou que ele estava se assanhando outra vez, ah, a juventude, tocou nele e disse, como se fosse um eco na caverna, touché, e pronto, começaram tudo de novo, e só bem mais tarde, de madrugada, o apartamento já quase sem provisões, quando estavam bebendo o vinho velho que ela tinha separado para cozinhar e sorvendo por um buraco na lata o leite condensado encontrado por milagre no fundo da despensa, aquela mistura sensacional de caldo ultradoce e vinho avinagrado, mas um bom vinho avinagrado, chileno, só então ela disse, com os olhos bem encaixados nos dele, eu escrevo porque isso faz homens bonitos e gostosos que nem você gostarem de mim, quererem me comer, aí cruzou os olhos, língua roxa, e falou me come, e ele até que tentou, tentou bastante, mas tinha acabado a pilha.
*
O repórter, um garoto espigado, um Clark Kent mais moreno, quase mulato, óculos redondos, beiços fartos, perguntou de gravador estendido por que ele escrevia. Era a mais tolinha das perguntas do manual, mas o velho escritor famoso olhou para o garoto em silêncio, e continuou olhando até ele desviar os olhos e começar a suar no buço. Então pegou o gravador da mão dele, desligou-o e, após devolvê-lo, disse:
- Eu escrevo porque tenho um monstro dentro de mim que, se eu não escrever, vai pular em cima de todos os meninos tesudos feito você que cruzarem o meu caminho, e aí já viu… Para acalmar a fera só tem duas coisas: escribir y joder, ou melhor, ser jodido.
E o jovem repórter ficou respirando forte e olhando para o escritor um tempão. Aí guardou o gravador na bolsa e disse:
- Vamos?
*
Em Parati:
- Escrevo porque sou testemunha. Escrevo para dar voz a quem não tem voz. Escrevo porque meu país está aprendendo a ler – respondeu um baixinho grisalho, provavelmente comunista.
- Escrevo porque não sei tocar saxofone – disse o quarentão barrigudo que estava ficando careca, mas ainda tentava disfarçar. Provavelmente brocha.
- Não tenho the slightest fucking idea ! – gritou a jovem paulistana de roupa fashion e cabelos picotados. Provavelmente idiota.
- Engraçado, nunca ninguém me fez essa pergunta – rosnou o gringo entediado. – Acho que escrevo porque sou muito bom nisso. – Certamente babaca.
- Escrevo porque escrevo porque escrevo porque escrevo – mas isso ela já nem lembra quem falou, porque a essa altura desistiu de impressionar seu novo namorado intelectual e partiu sozinha para Trindade numa traineira que tinha o seu nome, Anna O., até a inicial era a mesma, e por dois ou três meses não teve vontade de escrever nem bilhetinho para colar na geladeira.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sobrescritos, Uncategorized
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04/01/2008 - 18:30
O ótimo crítico James Wood discorre (em inglês) sobre Diary of a bad year, de J.M. Coetzee (Señor C é o personagem principal do livro, alter ego do autor):
No último verbete do romance, “Sobre Dostoiévski”, Señor C escreve:
“Li mais uma vez ontem à noite o quinto capítulo da segunda parte de Os irmãos Karamazov, o capítulo em que Ivan devolve seu ingresso para o universo que Deus criou, e de repente me vi soluçando incontrolavelmente.”
Não é o poder da argumentação de Ivan, diz ele, que o arrebata, mas as “entonações da angústia, a angústia pessoal de uma alma incapaz de suportar os horrores deste mundo”. Podemos ouvir a mesma nota de angústia pessoal na ficção de Coetzee, mesmo que essa ficção sustente que não está nos oferecendo uma confissão, mas apenas a representação de uma confissão. Seus livros fazem todos os barulhos pós-modernos corretos, mas a força deles repousa na relação atônita que mantêm com uma tradição mais antiga, dostoievskiana, em que sentimos a marca do autor confessional, por mais recôndita e velada que seja.
O texto, que faz uma análise brilhante do Formidável – mas sempre um tanto Enigmático – Sr. C., é leitura recomendável para todo mundo e imperdível para admiradores mais cascudos do autor de “Desonra”. A “New Yorker” fez sem dúvida a grande contratação do ano passado ao levar Wood, que vê algo de, mais que metafísico, intensamente religioso na “prosa casta, exata e cinzenta” do sul-africano. Uma prosa que pode, observa ele, “parecer o próprio borralho da contenção, mas acaba sempre atraída para extremos passionais”. (Tarde demais me lembrei que desta vez, só para variar, eu estava determinado a não ser tão ávido na leitura do novo Coetzee. Mas depois de ler isso já o encomendei na Amazon.)
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Uncategorized
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03/01/2008 - 01:07

A excelente revista eletrônica americana Words Without Borders se dedica à tradução para o inglês de escritores do mundo inteiro. Mereceria uma recomendação aqui de qualquer jeito, mesmo que a edição de janeiro de 2008, “Os sete pecados mortais”, não trouxesse um conto meu (brilhantemente traduzido por Fernanda Abreu), The Man Who Killed the Writer.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Uncategorized
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