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“É muito difícil pensar em ’ser escritor’ quando se nasce num país em
que ninguém lê: os pobres porque não sabem ou porque não possuem
meios para adquirir conhecimentos, e os ricos porque não sentem
vontade. Numa sociedade assim, querer ser escritor não é optar por
uma profissão, mas por um ato de loucura.” MARIO VARGAS LLOSA

27/12/2007 - 12:00

Para fechar um bom ano: leituras, desleituras etc.

sementes-jpg.JPGFlowerville é um condomínio de luxo, com arquitetura e infra-estrutura modernas, mas comandado por senhor que age como um grande patriarca, um caudilho. O empreendimento só foi possível por causa de uma escusa troca de favores feita durante o governo militar, lembrando de como o capital no Brasil esteve vezes demais ligado ao Estado. Essa mistura de moderno e antigo integra toda a narrativa e, apesar do esforço da cúpula de Flowerville em continuar “saltando à frente” e ignorar os problemas ainda abertos, é o passado que ditará os rumos do enredo.

A epígrafe do livro sobre a “máscara de puro sonho” é tirada da série de quadrinhos Sandman, de Neil Gaiman. Mais do que uma citação, a referência simultânea aos quadrinhos e ao universo onírico é incorporada profundamente na linguagem e na história. O grotesco e o absurdo não aparecem como uma exceção, mas como parte do modus operandi de Flowerville. Mais uma vez, tal como a mistura do moderno e arcaico, essa é uma abordagem que serve muito bem para o Brasil em geral, um lugar em que, hora ou outra, recebem-se notícias como uma adolescente encarcerada com homens. Enfim, o absurdo é produto da nossa “maquinaria nacional”, e infelizmente não podemos pensá-lo como um desvio isolado.

Em clima de retrospectiva pessoal deslavada, um motivo de alegria nesta terra em que, como comprovam dados oficiais, os escritores sobrepujam numericamente os leitores: “As sementes de Flowerville”, novela satírica que lancei pela editora Objetiva aos 42 minutos do segundo tempo de 2006, germinou em 2007 e, para completar o bom ano, foi parar entre os quatro semifinalistas da primeira edição da Copa de Literatura Brasileira. Mas quem costuma aparecer neste blog já sabe disso.

O que eu ainda não disse é que, além dos debates que rolaram no site da competição, gostei de ler a pequena resenha acima no blog de Marco Polli. Não, ela não contém quase nada daquela substância opiácea conhecida como “elogio”, mas é uma leitura sagaz e isso, acredite quem quiser, vale mais que um caminhão de adjetivos.

Polli foi um dos jurados da CLB, com a missão de julgar outros livros, mas leu um punhado deles porque quis e escreveu em seu blog sobre cada um resenhas curtíssimas, que seria melhor chamar de notas: “Boris e Doris”, “Mãos de cavalo” e “O movimento pendular”, além do meu. Ler esses textinhos leva menos de dois minutos, e nenhum segundo é perdido. Arguto mas curiosamente sóbrio, econômico em “declarações de gosto pessoal”, ali está um… leitor!

Sobre OMP, de Alberto Mussa, é certeiro:

Mesmo que nunca chegue a acontecer, a traição amorosa joga uma sombra que é determinante para moldar os relacionamentos. Ela está sempre lá, em maior ou menor intensidade, e os parceiros realizam mentalmente os seus cálculos de probabilidades.

Para mim, o melhor foi ver destacada a liga de futuro e passado que é uma marca de Flowerville, fonte de mal-entendidos em leituras mais simplórias – um tempo cubista. O fato é que nada, bandas de rock ou programas de TV, bate cronologicamente naquele mundo: Kikos Marinhos, Franz Ferdinand, celulares proibidos, o pior período da ditadura militar, a data da demonstração do teorema de Fermat, nada. Sobre a mesa de trabalho de um personagem importante há uma metonímia desse efeito: um monitor de LCD ao lado de um telefone preto daqueles antigos, pesadões.

Não: em vez de futuro, melhor pensar na cara-de-pau do futurismo low budget de Godard em “Alphaville”. E se isso for alguma clamorosa indução de leitura, à qual nenhum autor deveria sucumbir jamais, peço desculpas, mas esse fim de ano, mas esse conhaque, botam a gente comovido como o diabo.

Feliz 2008 a todos.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Uncategorized Tags:

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