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“Rasgar contos é algo irremediável, porque escrevê-los é como
despejar concreto. Em compensação, escrever um romance é
como colar ladrilhos. Isso quer dizer que se um conto não se
consolida na primeira tentativa é melhor não insistir. Um romance
é mais fácil: volta-se a começar.” GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ

Arquivo de dezembro, 2007

31/12/2007 - 10:37

Pequim/Beijing

Os Jogos Olímpicos de 2008 serão disputados em Pequim ou em Beijing? Esta promete ser a questão lingüística mais candente do ano que vai começar. Como no caso Birmânia/Mianmar, já abordado aqui, um lado acusa o outro de estar “errado”, mas pouca gente sabe por que pensa assim. Não cabe falar em “erro”, mas em opção. A minha é pela forma consagrada em português há séculos – Pequim.

A semelhança com a polêmica birmanesa é superficial. Para que Pequim se visse transmudado em Beijing (e Cantão em Guangzhou, Hong-Kong em Xianggang etc.), não houve a criação de um novo nome. Deu-se apenas, em 1979, a adoção pela República Popular da China – mas não por Taiwan (Formosa) – de um novo sistema de romanização, ou seja, de transliteração do mandarim para o alfabeto latino: o sistema Pinyin.

A intenção era boa: acabar com a sopa de letrinhas que corria o mundo. Muitos sistemas vigoraram ao longo da história. O mais influente foi o de Wade-Giles, criado no século 19 e dedicado à anglicização, à adaptação para o inglês, que deu em Peking. (O português nada deve a ele. Pequim já era Pequim desde as grandes navegações.)

Ocorre que país algum legisla sobre a ortografia alheia. Se chamamos Köln de Colônia, por que a afoiteza em obedecer aos chineses? Há boas cabeças nos dois lados. O jornalista Sérgio Augusto defendeu há dois meses, no “Estadão”, a forma “Beijing”. O professor de português Cláudio Moreno, do site Sua Língua, discorda, apontando a longa história cristalizada nos adjetivos cantonesa (cozinha) e pequinês (cachorro). “Assim vivemos felizes por meio milênio”, diz, “e não vamos trocar tudo isso apenas por causa de uma lei chinesa.”

Apoiado. No entanto, como os EUA aderiram ao Pinyin, pode ser razoável, para não desorientar o leitor nesses tempos globalizados, propor um empate: que venham os Jogos de Pequim (Beijing). Nesta ordem.

Publicado na “Revista da Semana”.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): A palavra é..., Uncategorized Tags:
29/12/2007 - 11:43

Que tal uma lista de piores listas?

“Estes são os autores americanos mais importantes de todos os tempos”, proclamou há alguns Natais a revista francesa Lire: “Raymond Chandler, Faulkner, John Fante”. Há poucas semanas, Michel Tournier (que não tinha até agora reputação de idiota) elegeu como livro do ano em The Times Literary Supplement o novo romance de Amèlie Nothomb, Ni d’Eve ni d’Adam, que já havia proposto, naturalmente sem sucesso, para o Prêmio Goncourt. Em certo jornal italiano, um célebre crítico de cujo nome não quero me lembrar coroou como melhor livro de 2007 a obra completa de Dario Fo, “o Shakespeare do século 20”, juízo que, se exato, faria de Shakespeare o Dario Fo do século 17. “Sobre gostos não há nada escrito”, escreveu alguém que nunca abriu um suplemento literário.

Oscar Wilde argumentou que fazer listas do que se deve ler é uma tarefa inútil ou perniciosa, uma vez que um autêntico apreço pela literatura é sempre questão de temperamento e não pode ser ensinado. Propôs, em vez disso, listas do que não se deve ler: as obras teatrais de Voltaire, a Inglaterra de Hume, a História da filosofia de Lewes… Seguindo seu exemplo, Mark Twain opinou que a melhor forma de começar uma biblioteca é evitar os romances de Jane Austen. Prevenir, dizem, é melhor que remediar. Será que nossos suplementos literários se atreverão a alternativas tão ousadas?

Alberto Manguel apronta uma saudável e bem-humorada zoeira com as onipresentes listas de “melhores livros do ano” no Babelia de hoje, retratando os críticos como pequenos Noés que, diante do dilúvio de esquecimento prometido por um novo ano apinhado de lançamentos, lutam para salvar em suas frágeis arcas de papel um certo número de animais prediletos.

O melhor de tudo é que, para provar que essas instituições da imprensa literária, mesmo furadas em princípio e desde sempre, continuam sendo irresistíveis, o mesmo suplemento do “El País” que as critica traz a sua, com os dez livros mais importantes lançados na Espanha em 2007.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Uncategorized Tags:
27/12/2007 - 12:00

Para fechar um bom ano: leituras, desleituras etc.

sementes-jpg.JPGFlowerville é um condomínio de luxo, com arquitetura e infra-estrutura modernas, mas comandado por senhor que age como um grande patriarca, um caudilho. O empreendimento só foi possível por causa de uma escusa troca de favores feita durante o governo militar, lembrando de como o capital no Brasil esteve vezes demais ligado ao Estado. Essa mistura de moderno e antigo integra toda a narrativa e, apesar do esforço da cúpula de Flowerville em continuar “saltando à frente” e ignorar os problemas ainda abertos, é o passado que ditará os rumos do enredo.

A epígrafe do livro sobre a “máscara de puro sonho” é tirada da série de quadrinhos Sandman, de Neil Gaiman. Mais do que uma citação, a referência simultânea aos quadrinhos e ao universo onírico é incorporada profundamente na linguagem e na história. O grotesco e o absurdo não aparecem como uma exceção, mas como parte do modus operandi de Flowerville. Mais uma vez, tal como a mistura do moderno e arcaico, essa é uma abordagem que serve muito bem para o Brasil em geral, um lugar em que, hora ou outra, recebem-se notícias como uma adolescente encarcerada com homens. Enfim, o absurdo é produto da nossa “maquinaria nacional”, e infelizmente não podemos pensá-lo como um desvio isolado.

Em clima de retrospectiva pessoal deslavada, um motivo de alegria nesta terra em que, como comprovam dados oficiais, os escritores sobrepujam numericamente os leitores: “As sementes de Flowerville”, novela satírica que lancei pela editora Objetiva aos 42 minutos do segundo tempo de 2006, germinou em 2007 e, para completar o bom ano, foi parar entre os quatro semifinalistas da primeira edição da Copa de Literatura Brasileira. Mas quem costuma aparecer neste blog já sabe disso.

O que eu ainda não disse é que, além dos debates que rolaram no site da competição, gostei de ler a pequena resenha acima no blog de Marco Polli. Não, ela não contém quase nada daquela substância opiácea conhecida como “elogio”, mas é uma leitura sagaz e isso, acredite quem quiser, vale mais que um caminhão de adjetivos.

Polli foi um dos jurados da CLB, com a missão de julgar outros livros, mas leu um punhado deles porque quis e escreveu em seu blog sobre cada um resenhas curtíssimas, que seria melhor chamar de notas: “Boris e Doris”, “Mãos de cavalo” e “O movimento pendular”, além do meu. Ler esses textinhos leva menos de dois minutos, e nenhum segundo é perdido. Arguto mas curiosamente sóbrio, econômico em “declarações de gosto pessoal”, ali está um… leitor!

Sobre OMP, de Alberto Mussa, é certeiro:

Mesmo que nunca chegue a acontecer, a traição amorosa joga uma sombra que é determinante para moldar os relacionamentos. Ela está sempre lá, em maior ou menor intensidade, e os parceiros realizam mentalmente os seus cálculos de probabilidades.

Para mim, o melhor foi ver destacada a liga de futuro e passado que é uma marca de Flowerville, fonte de mal-entendidos em leituras mais simplórias – um tempo cubista. O fato é que nada, bandas de rock ou programas de TV, bate cronologicamente naquele mundo: Kikos Marinhos, Franz Ferdinand, celulares proibidos, o pior período da ditadura militar, a data da demonstração do teorema de Fermat, nada. Sobre a mesa de trabalho de um personagem importante há uma metonímia desse efeito: um monitor de LCD ao lado de um telefone preto daqueles antigos, pesadões.

Não: em vez de futuro, melhor pensar na cara-de-pau do futurismo low budget de Godard em “Alphaville”. E se isso for alguma clamorosa indução de leitura, à qual nenhum autor deveria sucumbir jamais, peço desculpas, mas esse fim de ano, mas esse conhaque, botam a gente comovido como o diabo.

Feliz 2008 a todos.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Uncategorized Tags:
24/12/2007 - 08:02

Mais um conto de Natal

Morreu meu pai, sentimos muito, etc.

Ano passado, o conto natalino do blog foi o insuperável “Natal na barca”, de Lygia Fagundes Telles – quem perdeu pode clicar aqui. Este ano é a vez de O peru de Natal, de Mario de Andrade, que já seria ótimo se não tivesse nada além da frase acima.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Uncategorized Tags:
22/12/2007 - 09:17

Senado

Da novela que estorricou o ex-presidente da casa, Renan Calheiros, à que terminou com a derrota do governo na votação da CPMF, a sombra do Senado estende-se, comprida, sobre o ano de 2007. A palavra é derivada do latim senatus, “conselho de anciãos”, o que torna o Senado parente de vocábulos respeitáveis como senhor e sênior, mas também de termos menos lisonjeiros, como senectude e senilidade. O Senado brasileiro comemorou 180 anos em 2006.

A origem da idéia de que os idosos, mais sábios, são indicados para guiar a coletividade perde-se no passado. Rafael Bluteau, patrono dos dicionaristas da língua portuguesa, registrou no início do século 18 que “os egípcios e os persas, à imitação dos hebreus, compuseram o seu Senado de homens velhos, e os lacedemônios e cartaginenses observaram esta circunstância tão rigorosamente que, entre eles, para chegar a ser senador, era preciso ter chegado aos sessenta anos de idade”.

(Talvez fosse uma boa idéia, não? Renan, que em setembro fez 52 anos, nem teria pisado naquele carpete azul. Brincadeiras à parte, o “conselho de anciãos” ficou no passado: no Brasil, a idade mínima para que alguém se candidate ao Senado é de 35 anos, enquanto para a Câmara dos Deputados é de 21.)

Alguns cientistas políticos discutem se a própria instituição do Senado não terá ficado – com trocadilho, claro – politicamente senil. Mesmo assim, a maioria das democracias do mundo adota alguma forma de bicameralismo, com o Legislativo dividido em duas casas: uma “baixa”, a dos deputados, todos eleitos, que em tese é mais agressiva e ágil; e uma “alta”, a dos senadores, teoricamente mais conservadora, em que uma parte ou mesmo a totalidade dos membros pode prescindir do voto. As diferenças de função entre as duas casas podem ser maiores ou menores, dependendo do país, mas tendem a crescer no parlamentarismo.

Publicado na “Revista da Semana”.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): A palavra é..., Uncategorized Tags:
20/12/2007 - 11:19

Livros? Me vê meia dúzia

Prólogo: peço desculpas se esta nota vem meio em cima do laço, mas, caso seja tarde para municiar as compras de Natal, acredito que pelo menos as listas de livros para as férias ainda estejam, no geral, abertas à negociação.

Não sei se os seis romances abaixo são “os melhores do ano” – existirão mesmo tais coisas? Só posso garantir que são, em minha imodesta opinião, os melhores que li e comentei no blog. Nessa retrospectiva 2007 garimpada nos arquivos do Todoprosa, basta clicar no título para ler uma pequena resenha, publicada aqui na época do lançamento, além de, na maioria dos casos, um trecho da obra.

O filho eterno, de Cristovão Tezza.

Na praia, de Ian McEwan.

As Benevolentes, de Jonathan Littell.

A cada um o seu, de Leonardo Sciascia.

O sol se põe em São Paulo, de Bernardo Carvalho.

Arthur & George, de Julian Barnes.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Uncategorized Tags:
18/12/2007 - 13:40

Esse passatempo esotérico

Não há razão alguma para pensarmos que a leitura e a escrita estão à beira da extinção, mas alguns sociólogos especulam que ler livros por prazer será um dia o território de uma “classe leitora” especial, em grande medida como ocorria antes do advento do letramento em massa, na segunda metade do século XIX. Mas, eles advertem, a leitura provavelmente não mais recuperará o prestígio que vinha com a exclusividade; poderá acabar se tornando “um passatempo cada vez mais esotérico”.

Numa visão mais ampla, não é o abandono da leitura que precisa ser explicado, e sim o fato de que sejamos sequer capazes de ler. “O ato de ler não é natural”, Maryanne Wolf escreve em “Proust and the Squid”
[“Proust e a Lula”, atenção para o artigo feminino], um relato sobre a história e a biologia da leitura.

Amantes da leitura que tenham problemas cardíacos ou qualquer tipo de hipersensibilidade nervosa devem evitar este artigo (em inglês, acesso gratuito) de Caleb Crain na revista “New Yorker”, a propósito de um livro sobre a história da leitura. Não pela platitude de que “o ato de ler não é natural” (o mesmo pode ser dito de escovar os dentes, usar roupas de baixo, jogar futebol, trocar presentes de Natal etc.), mas pelas evidências acachapantes de decadência da leitura que, década após década, vêm sendo registradas em diversos países. Tudo indica que o mundo que Marçal Aquino vive antevendo, aquele em que os leitores de ficção formarão uma seita, chegará cedo ou tarde. Provavelmente cedo.

O lado bom? Bem, é a primeira vez na história da leitura que o Brasil está na vanguarda de algum processo: o passatempo, aqui, já é esotérico faz tempo; talvez sempre tenha sido.

Para um ponto de vista diferente, vale dar uma conferida no discurso de Doris Lessing na cerimônia do Nobel (disponível em inglês, francês, alemão e sueco). A escritora contrasta o apetite cada vez maior por livros em certos países africanos com o abandono da leitura pelas sociedades afluentes ocidentais, culpando a internet e chegando perto de transformar a “decadência da leitura” em sinônimo de “decadência” pura e simples.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Uncategorized Tags:
14/12/2007 - 19:18

Greve de fome

A palavra “greve”, aquilo que o bispo Luiz Flávio Cappio voltou a fazer, vem – como tantas inconveniências, diria um ultraconservador – do francês. Sua história começa no século 12 com o vocábulo grève, “praia, terreno de areia ou cascalho à beira-mar ou beira-rio”. Antes de adquirir seu sentido político, a palavra passou a batizar uma praça de Paris, à beira do Sena, que por ter piso arenoso e sem calçamento era chamada de Place de Grève (hoje Place de l’Hôtel-de-Ville).

Segundo o Houaiss, o local era “ponto de reunião de trabalhadores e operários sem emprego ou descontentes com as suas condições de trabalho; daí a expressão faire grève (1805)” – isto é, “fazer greve”, já então com o sentido de interromper coletivamente o trabalho como forma de protesto ou reivindicação, que mais tarde seria ampliado para outras modalidades de recusa, entre elas a greve de fome. E por que os trabalhadores se reuniam naquela praça? Explica Márcio Bueno, autor do bom livrinho “A origem curiosa das palavras” (José Olympio): “Nesse local funcionou durante muito tempo a Bolsa do Trabalho, órgão encarregado de cadastrar desempregados”.

O primeiro registro de “greve” em português é de 1873, mas até as primeiras décadas do século 20 o galicismo (termo oriundo do francês) era bombardeado pelos puristas, que insistiam no uso de “parede” em seu lugar. Hoje ninguém questiona a palavra, mas certos patrulheiros do idioma, sucessores espirituais dos puristas, já ensaiam submeter a expressão “greve de fome” à mesma campanha pela qual passou “risco de vida”. Fórmula consagrada e perfeita (risco de vida = risco para a vida), essa expressão foi tão atacada por professores de mente literal que boa parte dos jornais e revistas a substituiu por “risco de morte”. Ora, a greve de dom Cappio é de fome ou de comida? Aguardem a próxima ação da patrulha.

Texto publicado na “Revista da Semana”.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): A palavra é..., Uncategorized Tags:
12/12/2007 - 14:19

Eles são os caras

Ao trazer o mineiro Luiz Vilela no entrevistão do Paiol Literário e o gaúcho Sergio Faraco na seção Dom Casmurro, com a íntegra do conto “O céu não é tão longe”, a edição de dezembro do “Rascunho” junta dois dos maiores contistas brasileiros vivos. Ambos são leitura mais recomendável que nunca neste momento de vale-tudo estético e inflação contística galopante, em que qualquer texto cotó vem tirando onda de “conto”.

Nenhuma palavra dos editores indica que, ao juntar os dois mestres, o jornal curitibano quis fazer uma homenagem a essa brilhante geração de contadores de histórias – Faraco nascido em 1940, Vilela em 1942. Mas fez, e isso basta.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Uncategorized Tags:
10/12/2007 - 21:12

Começos inesquecíveis: Javier Cercas

Foi no verão de 1994, já faz agora mais de seis anos, que ouvi falar pela primeira vez do fuzilamento de Rafael Sánchez Mazas. Três importantes acontecimentos tinham então acabado de se produzir em minha vida: meu pai havia morrido, minha mulher me abandonara e eu abandonara minha carreira de escritor. Minto. Dessas três ocorrências, as duas primeiras eram exatas, exatíssimas; a terceira não era tanto assim. Na verdade, minha carreira de escritor nunca decolou; portanto, dificilmente poderia tê-la abandonado.

Grande parte do apelo do romance “Soldados de Salamina”, sucesso internacional do espanhol Javier Cercas (Francis, 2002, tradução de Wagner Carelli), está no seu jeito – despretensioso só na aparência – de alternar constantemente o foco entre a História (mundial) e uma história (pessoal). O efeito ganha profundidade ao longo de 240 páginas, com outro par de opostos – realidade e ficção – para complicar. As primeiras linhas do livro expõem todo o projeto como miniatura.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Uncategorized Tags:
07/12/2007 - 16:19

Dólar

Apesar dos gráficos que lhe dão um ar intimidador, o futurismo é uma ciência tão inexata em matéria econômica quanto no futebol. Sim, o dólar pode estar se aproximando do fim de seu ciclo como âncora cambial da economia mundial, mas também pode estar atravessando uma turbulência passageira. Quem sabe? O mergulho na origem da palavra revela pelo menos uma verdade: também do ponto de vista lingüístico, nada é eterno, tudo tem começo e – naturalmente – fim.

Sinônimo universal de dinheiro para várias gerações, moeda mitológica que, sobretudo desde o fim da Segunda Guerra Mundial, está na base das relações de amor e ódio travadas entre o império americano e o restante do mundo, o dólar dos EUA inspirou o batismo da moeda de uma penca de países, da Austrália ao Zimbábue. Diante de tal exuberância, é fácil esquecer que há mais de dois séculos ele nasceu humilde, da costela de outra unidade monetária.

O ancestral mais antigo de dollar é o alemão taler, moeda cunhada com prata das minas da cidade denominada Vale de São Joaquim, na região da Boêmia, a partir do início do século 16. Hoje a cidade fica na República Tcheca e se chama Jáchymov, mas na época era conhecida pelo nome alemão Sankt Joachimsthal, e a moeda cunhada ali, joachimstaler – na forma abreviada, taler. Até hoje a palavra “táler” está viva em nosso idioma, no vocabulário de colecionadores, para designar a velha moeda alemã.

Foi a forma holandesa daler, derivada de taler, que os colonos norte-americanos importaram para, com a grafia dollar, nomear moedas de prata – sobretudo o peso espanhol, de grande circulação naquelas bandas do Novo Mundo. Dois anos depois da independência, em 1785, ao adotarem oficialmente o dólar, de valor inicialmente idêntico ao do peso, os EUA reconheciam de forma realista a importância desta moeda em sua economia.

Publicado na “Revista da Semana”.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): A palavra é..., Uncategorized Tags:
05/12/2007 - 15:30

Debate literário

Quem não gosta de João Stepanides é um jumento.

Quem leva Manoel Tibúrcio a sério é uma anta.

Quem nunca leu Carmen Clara é uma ameba lobotomizada.

Quem não gosta de Manoel Tibúrcio sabe menos que a idiota da Carmen Clara.

Quem leva João Stepanides a sério não vale o que come.

Tibúrcio leva Stepanides a sério, logo merece morte lenta e excruciante.

Stepanides não tem o menor respeito por Tibúrcio, mas comeu Carmen Clara.

(E quem não?)

Nenhum dos animais acima mencionados chega aos pés de Bill Chakapov.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sobrescritos, Uncategorized Tags:
03/12/2007 - 11:53

E a Copa, hein?

A primeira edição da Copa de Literatura Brasileira terminou hoje com a vitória de “Música perdida”, de Assis Brasil, sobre “Um defeito de cor”, de Ana Maria Gonçalves, por 9 x 5 – placar de futebol de areia. É que, pelas regras da final, todos os jurados das rodadas anteriores têm direito a voto. Confiram lá.

Entre os muitos temas de discussão que a brincadeira deixa no ar, um dos mais interessantes é esta (aparente) contradição: a vitória de um romance clássico, para muita gente até conservador (não o li), numa competição off-off organizada por jovens blogueiros.

Será que daqui a pouco surgirão teorias sobre os romances “copeiros”, aqueles que por terem uma personalidade menos agressiva, menos crivada de arestas, acabam se dando bem numa competição mata-mata?

Quaisquer que sejam as conversas que a Copa já inspirou e ainda vai inspirar, das mais relevantes às mais tolinhas, não tenho dúvida de que estamos diante de uma das melhores notícias surgidas ultimamente no front sonolento do debate literário brasileiro. Vida longa a ela.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Uncategorized Tags:
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