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“É muito difícil pensar em ’ser escritor’ quando se nasce num país em
que ninguém lê: os pobres porque não sabem ou porque não possuem
meios para adquirir conhecimentos, e os ricos porque não sentem
vontade. Numa sociedade assim, querer ser escritor não é optar por
uma profissão, mas por um ato de loucura.” MARIO VARGAS LLOSA

28/11/2007 - 18:16

Ficção científica

futuro-do-livro-3.JPGPara não mudar de assunto, aí vai o pequeno texto que escrevi para o belo livro de arte “O futuro do livro – sessenta visões”, que comemora os 60 anos da Ipsis Gráfica e Editora e que está sendo lançado hoje em São Paulo. Os exercícios de futurologia feitos por nomes como Milton Hatoum, Luis Fernando Verissimo, Marçal Aquino, Muniz Sodré, José Mindlin, Ziraldo, Gilberto Gil e Heloísa Buarque de Hollanda, para citar uma pequena fração da turma de convidados, acabam montando um painel de pontos de vista que faz justiça à polêmica suscitada pela nota aí embaixo. Quem, depois daquele post, quiser ler a seguinte historinha como uma prova de minha irremediável indecisão diante do tema, pode.

O argumento é de ficção científica, mas não inverossímil: certo dia, um Grande Pulso Eletromagnético varre a Terra. Vem do espaço, o Pulsão, como logo fica conhecido, talvez provocado por algum evento cósmico de escala inconcebível como o espirro de uma estrela mil vezes maior que o Sol – jamais teremos certeza.

Uma das razões pelas quais jamais teremos certeza é que o Pulsão, ao lamber nosso planeta e seguir viagem infinito adentro, apaga num segundo toda a memória digital acumulada pela humanidade em décadas de farra eletrônica. Assim, deixam de funcionar os telescópios que nos ajudariam a entender o fenômeno. Viram sucata junto com satélites, sistemas de controle de tráfego aéreo e terrestre, elevadores “inteligentes”, cadastros de pessoas físicas e jurídicas, bases de dados de cartões de crédito, memórias de celulares e computadores. Em poucos instantes vem abaixo um mundo alicerçado – irresponsavelmente, descobrimos então, mas é tarde – na informação digital. Morre mais gente nesse dia do que em todas as guerras dos séculos XX e XXI.

A reconstrução da vida na Terra será tarefa dura. Chega a parecer impossível, mas então os sobreviventes descobrem, um tanto surpresos, que conservam intactas as memórias armazenadas em seus cérebros biológicos. E que ainda têm – sim, em museus, porões, servindo como escora de porta – aqueles objetos quase esquecidos, herança de seus avós, chamados livros. Grande achado tecnológico. Estão meio corroídos, mas o que são larvas e brocas perto de pulsos eletromagnéticos?

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Uncategorized Tags:

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