Livro
Que editores e livreiros percam o sono, é compreensível. Mais difícil é entender o nervosismo que domina o debate entre simples leitores sobre “o fim do livro impresso”. O clima costuma ficar tenso dos dois lados da linha que, numa simplificação caricatural, divide a humanidade entre os deslumbrados da eletrônica e os luditas de Gutenberg.
Embora seja cedo para dizer se a engenhoca chamada Kindle será mesmo um marco na história da leitura, é certo que o livro impresso em papel, um achado tão genial que há cinco séculos se mantém inalterado na essência, está à espera de seu próprio iPod. Encontrado um suporte prático e popular, a leitura mergulhará numa era inevitável: a da transferência de bibliotecas inteiras para discos minúsculos. Questão de tempo – as vantagens são grandes demais. Isso não quer dizer que o livro como o conhecemos vá desaparecer. Na pior das hipóteses, deve ter sobrevivência garantida como objeto fetichista de consumo sofisticado, convivendo com os Kindles da vida pelos próximos séculos.
Para desfazer um equívoco comum nessa discussão – o de que a era eletrônica decretará o fim da própria idéia de “livro” – a história da palavra é instrutiva. “Livro” vem do latim liber, membrana vegetal encontrada sob a casca das árvores e usada como suporte de escrita na Antiguidade. Curiosamente, o inglês book também se relaciona com uma árvore, por meio da raiz germânica bok (faia).
Como se vê, o suporte vegetal – mais tarde organizado sob a forma de rolo e depois de códice, formato encadernado que prenunciava o do livro impresso – deixou gravada nas línguas ocidentais desde os primórdios sua vitória sobre peles e tabletes de argila. Por todos esses meios, o livro como sinônimo de obra, coleção de idéias expressas de forma escrita, passou assobiando. Pode passar por mais um.
Texto publicado na “Revista da Semana”.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): A palavra é..., Uncategorized Tags: