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“O fato é que o valor intrínseco do livro, peça ou
qualquer outra coisa que o autor esteja tentando vender
é o último e menos importante fator da transação. É provável
que não haja outro ramo da indústria em que seja tão tênue
a relação entre lucro e valor real, ou em que a pura sorte
tenha papel tão destacado.” GEORGE BERNARD SHAW

Arquivo de novembro, 2007

30/11/2007 - 19:05

De onde você é?

Cansado de experiências de criação literária online? Eu também, um pouco, mas isso não quer dizer que não haja formatos novos por descobrir. Um dos mais curiosos estreou esta semana: o site Estrangeiros, uma idéia da escritora brasileira Daniela Abade, reúne sete autores – além da própria Daniela, a argentina Florencia Abbate, a austríaca Claudia Chibici-Revneanu, o italiano Max Mauro, o canadense David McGuire, o australiano Matt Rubinstein e o mexicano Gonzalo Soltero. Em cinco idiomas, cada um com o seu, e sem tradução, eles escrevem posts fictícios sobre cidades situadas no país de um dos colegas. Cidades que nunca visitaram.

Daniela, autora do romance “Crônicos” (Agir), tem experiência nesse tipo de invenção. Ficamos amigos em 2004, durante a ambiciosa, divertida (para nós com certeza, mas acho que também para os leitores que entraram no clima) e absurda Cadeia de Palavras.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Uncategorized Tags:
28/11/2007 - 18:16

Ficção científica

futuro-do-livro-3.JPGPara não mudar de assunto, aí vai o pequeno texto que escrevi para o belo livro de arte “O futuro do livro – sessenta visões”, que comemora os 60 anos da Ipsis Gráfica e Editora e que está sendo lançado hoje em São Paulo. Os exercícios de futurologia feitos por nomes como Milton Hatoum, Luis Fernando Verissimo, Marçal Aquino, Muniz Sodré, José Mindlin, Ziraldo, Gilberto Gil e Heloísa Buarque de Hollanda, para citar uma pequena fração da turma de convidados, acabam montando um painel de pontos de vista que faz justiça à polêmica suscitada pela nota aí embaixo. Quem, depois daquele post, quiser ler a seguinte historinha como uma prova de minha irremediável indecisão diante do tema, pode.

O argumento é de ficção científica, mas não inverossímil: certo dia, um Grande Pulso Eletromagnético varre a Terra. Vem do espaço, o Pulsão, como logo fica conhecido, talvez provocado por algum evento cósmico de escala inconcebível como o espirro de uma estrela mil vezes maior que o Sol – jamais teremos certeza.

Uma das razões pelas quais jamais teremos certeza é que o Pulsão, ao lamber nosso planeta e seguir viagem infinito adentro, apaga num segundo toda a memória digital acumulada pela humanidade em décadas de farra eletrônica. Assim, deixam de funcionar os telescópios que nos ajudariam a entender o fenômeno. Viram sucata junto com satélites, sistemas de controle de tráfego aéreo e terrestre, elevadores “inteligentes”, cadastros de pessoas físicas e jurídicas, bases de dados de cartões de crédito, memórias de celulares e computadores. Em poucos instantes vem abaixo um mundo alicerçado – irresponsavelmente, descobrimos então, mas é tarde – na informação digital. Morre mais gente nesse dia do que em todas as guerras dos séculos XX e XXI.

A reconstrução da vida na Terra será tarefa dura. Chega a parecer impossível, mas então os sobreviventes descobrem, um tanto surpresos, que conservam intactas as memórias armazenadas em seus cérebros biológicos. E que ainda têm – sim, em museus, porões, servindo como escora de porta – aqueles objetos quase esquecidos, herança de seus avós, chamados livros. Grande achado tecnológico. Estão meio corroídos, mas o que são larvas e brocas perto de pulsos eletromagnéticos?

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Uncategorized Tags:
26/11/2007 - 13:18

Livro

Que editores e livreiros percam o sono, é compreensível. Mais difícil é entender o nervosismo que domina o debate entre simples leitores sobre “o fim do livro impresso”. O clima costuma ficar tenso dos dois lados da linha que, numa simplificação caricatural, divide a humanidade entre os deslumbrados da eletrônica e os luditas de Gutenberg.

Embora seja cedo para dizer se a engenhoca chamada Kindle será mesmo um marco na história da leitura, é certo que o livro impresso em papel, um achado tão genial que há cinco séculos se mantém inalterado na essência, está à espera de seu próprio iPod. Encontrado um suporte prático e popular, a leitura mergulhará numa era inevitável: a da transferência de bibliotecas inteiras para discos minúsculos. Questão de tempo – as vantagens são grandes demais. Isso não quer dizer que o livro como o conhecemos vá desaparecer. Na pior das hipóteses, deve ter sobrevivência garantida como objeto fetichista de consumo sofisticado, convivendo com os Kindles da vida pelos próximos séculos.

Para desfazer um equívoco comum nessa discussão – o de que a era eletrônica decretará o fim da própria idéia de “livro” – a história da palavra é instrutiva. “Livro” vem do latim liber, membrana vegetal encontrada sob a casca das árvores e usada como suporte de escrita na Antiguidade. Curiosamente, o inglês book também se relaciona com uma árvore, por meio da raiz germânica bok (faia).

Como se vê, o suporte vegetal – mais tarde organizado sob a forma de rolo e depois de códice, formato encadernado que prenunciava o do livro impresso – deixou gravada nas línguas ocidentais desde os primórdios sua vitória sobre peles e tabletes de argila. Por todos esses meios, o livro como sinônimo de obra, coleção de idéias expressas de forma escrita, passou assobiando. Pode passar por mais um.

Texto publicado na “Revista da Semana”.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): A palavra é..., Uncategorized Tags:
23/11/2007 - 00:07

Contra e a favor de ‘Pugnus’, de Cecilio Giovenazzi

O lançamento do livro de memórias “Pugnus” faz do professor Cecilio Giovenazzi, 78 anos, renomado latinista da Unicamp, nada menos que “o maior memorialista do onanismo no Ocidente”, nas palavras do crítico Teodoro Spitz:

Dono de uma memória digna de desafiar a do caipira de Borges, e com a vantagem de borrifar perfeitas citações em latim pelo caminho, esse escritor profundamente original nos brinda com relatos épicos de uma vida dedicada ao squirt-n-spurt. Tão ricos são os episódios em detalhe, circunstância, iluminação, grau de intumescimento, têm as cenas um tal rendilhado de sentimentos e sensações que fazem empalidecer, por infantil ou tosco, o mais impudente cronista de bacanal. Na multiplicidade de sessões febris ambientadas em banheiros, cozinhas, salas de estar, cabines telefônicas, elevadores, escadas de serviço, confessionários – ou mesmo, temerariamente, ao ar livre, em praças, parques, piscinas, terrenos baldios, ruas desertas de madrugada, no meio da multidão –, o que em todos esses cenários se conta é uma bela história de amor-próprio. Os jorros reflexivos de Giovenazzi atingem insuspeitada altitude filosófica. “Então me digam que metáfora do solitário, pungente, imaginoso ofício de escrever pode, nesta vida cachorra, superar o velho manutigium?”, perora o autor. Um livro seminal.

De Spitz discorda seu colega Adolfo Pinho Rosa, frontalmente e até com certa brutalidade, ao sentenciar:

Tremenda punheta.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sobrescritos, Uncategorized Tags:
21/11/2007 - 00:21

De Leon Tolstói a Woody Allen

benevolentes.jpgTerminei de ler “As Benevolentes” (Alfaguara, tradução de André Telles, 912 páginas, R$ 79,90) no sábado, mas até agora há pouco, como uma jibóia que tivesse engolido um boi, fui incapaz de escrever uma única linha sobre o tijolaço de Jonathan Littell. Impossível negar que se trata de um grande livro, um livro perturbador e sobretudo relevante – talvez o adjetivo mais caro que a prosa de ficção, empurrada a contragosto para uma zona de frivolidade, possa almejar hoje em dia. Como sempre, destrinchar por que é assim será tarefa mais difícil do que simplesmente enunciá-lo. Tão difícil quanto compreender por que, com tanto a seu favor, o romance atola antes de se tornar uma obra-prima.

O narrador Maximilien Aue, oficial SS que participa de momentos cruciais do extermínio de judeus na Segunda Guerra Mundial, não cabe no figurino arendtiano da “banalidade do mal” (aliás, segundo ele mesmo, tampouco Adolf Eichmann, personagem importante do livro – mas essa é outra história). Nem tão eficiente como funcionário, embora cheio de fé nacional-socialista, também não parece que precisasse do empurrãozinho do regime nazista para acabar comprando um camarote no Inferno. Aue não é um homem comum, o pacato pai de família que, a serviço de um Estado enlouquecido, comete burocraticamente atrocidades de tirar o fôlego. É um homem doente, infeliz, assustador. Para um livro que se dedica primordialmente – como o autor declarou numa entrevista citada aí embaixo, e eu confirmo – a investigar “a natureza do crime de Estado”, é um herói inesperado. Longe de ser inocente, tem alma de artista e é capaz de vomitar as tripas depois de presenciar execuções, ou de ir às lágrimas com a mera lembrança de certa adolescente enforcada no Leste, mas também tira proveito do ambiente de morticínio e caos da guerra para praticar um bom número de barbaridades de sua própria lavra.

Pode-se discutir se Max Aue seria o que é sem o clima peculiaríssimo em que se vê mergulhado, aquela Alemanha histérica. Até que ponto ele teria cedido a suas próprias maluquices num momento menos conturbado da História? Seja como for, o fato é que as maluquices estavam lá desde o início, e eram consideráveis. Não sendo, assim, a testemunha perfeita contra o poder corruptor do totalitarismo, Aue ganha contornos tridimensionais ao se distanciar do lugar-comum jornalístico. Humano, e humano culto, tem uma perversa autoridade para refrasear com novo vigor o que, mesmo ameaçando virar um clichê, permanece uma das verdades mais duras que a desgraceira dos anos 1940 nos jogou na cara: qualquer um no lugar dos alemães, nas devidas circunstâncias, teria feito o mesmo. (Mas foram eles que o fizeram.)

De todo modo, não é o estudo do impacto de um regime criminoso sobre o caráter de um homem que interessa ao autor. A psicologia tem escassa aplicação em “As Benevolentes”. Littell a troca de bom grado por súbitos clarões no breu do inconsciente ou do recalque: sonhos, sintomas físicos dolorosos, delírios (como o do casarão na Pomerânia, a mais memorável cena literária que leio desde a transa na biblioteca em “Reparação”). É como se o homem em si já não interessasse tanto, por ter sido condenado antes do livro começar – ou antes de nascer. É à teia do sistema que o autor dedica a maior parte da narrativa e todo o peso de sua pesquisa vasta. Nomes de acidentes geográficos, patentes militares, divisões e órgãos da máquina de guerra alemã se enfileiram na página, minuciosos, expostos com rigor e sobriedade.

O que a princípio parece um exagero cansativo acaba sustentando o livro em pé: a materialização daquela rede de ordens, despachos, relatórios, meandros burocráticos, conflitos de poder entre siglas, promoções e expurgos, todo um Estado que de repente se vê dedicado a esta tarefa singela – exterminar pessoas. A prosa de Littell parece querer lhe dar um corpo, a esse grande culpado. Grande, abrangente, mas evasivo. O autor tem êxito na empreitada, apenas para descobrir no fim das contas que o Estado é frio, vazio. Não quer dizer nada. Sua única lógica é o próprio movimento. Não temos perdão.

“As Benevolentes” é um livro ambicioso que chega perto de cumprir integralmente suas promessas. O que, como se sabe, não é pouco. Curiosamente, o maior problema – responsável por sobrecarregar o aparelho digestivo daquela jibóia ali de cima – surge em sua diminuta fração final, depois da página 880, quando o narrador tem um encontro bizarro com Adolf Hitler. Nesse momento, por alguma razão que não consigo situar num plano geral coerente, Littell joga no lixo o tom que lhe servira tão bem até então – o de um realismo minucioso e extenuante, cada vez mais contaminado por alucinações, é verdade, mas sem jamais abandonar a clave de uma certa verossimilhança. Troca-o de repente por um estilo burlesco, com coincidências absurdas em fila indiana conduzindo a um fim certinho demais. É como se, nos acréscimos do juiz, o autor tivesse se cansado de jogar no esquema “Guerra e Paz” e passasse a se dedicar a firulas de “A última noite de Bóris Grushenko”. Se já não tivesse construído a essa altura uma boa goleada, teria posto tudo a perder.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Uncategorized Tags:
19/11/2007 - 18:08

Tupi

“Tupi or not Tupi, that is the question.” A provocação lançada pelo escritor modernista Oswald de Andrade em seu “Manifesto antropófago”, de 1928 – uma brincadeira com o “ser ou não ser” de Hamlet – tem ressonâncias profundas na história do Brasil. Mais profundas do que podem parecer neste início de milênio em que Tupi, para a maioria dos brasileiros, é pouco mais que o nome indígena de um campo da Petrobras na Bacia de Santos, onde foram encontradas reservas que podem transformar o Brasil em exportador de petróleo.

As reservas vocabulares deixadas pelo tupi no português brasileiro também são vastas, estimadas em torno de dez mil palavras. O tronco tupi compreende dez famílias lingüísticas que ainda sobrevivem espalhadas pela América do Sul, com maior concentração no Brasil. Durante os primeiros séculos da colonização portuguesa, porém, sua vitalidade impressionava.

Na vertente tupinambá, da família tupi-guarani (da qual se tornaria uma palavra sinônima), o tupi teve sua gramática sistematizada pelos jesuítas. Depois de incorporar traços da cultura invasora, deu origem às “línguas gerais”, as mais faladas no dia-a-dia da colônia: a paulista, disseminada pelos bandeirantes, e a amazônica, também chamada nheengatu (“língua boa”) ou tupi moderno. As línguas gerais foram declaradas ilegais em meados do século 18 pelo Marquês de Pombal. Só a última ainda vive.

Sobre a origem de “tupi”, há uma fartura de teses. Nenhuma é tão aceita quanto a de Teodoro Sampaio, autor de “O tupi na geografia nacional”, para quem o termo é tu-u’pi, “o pai supremo”. Hove quem partisse daí para ver na palavra uma variante de tupã, deus dos povos tupis – o trovão. Já Silveira Bueno interpretou “o pai supremo” como “a língua primeira, a mais antiga”, provavelmente projetando nos índios uma preocupação filológica que era sua.

Texto publicado na “Revista da Semana”.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): A palavra é..., Uncategorized Tags:
14/11/2007 - 10:10

Referendo

Na linguagem comum, as palavras “referendo” e “plebiscito” são sinônimos, mas há uma diferença nem tão sutil entre essses dois instrumentos da chamada democracia direta. Segundo a legislação brasileira, no plebiscito submete-se ao voto popular uma questão antes que ela ganhe forma de lei, ou seja, “com anterioridade a ato legislativo ou administrativo”. Exemplo: a votação sobre o sistema de governo brasileiro prevista pela Constituição de 1988, realizada em 1993 e vencida pela república presidencialista, foi um plebiscito.

No referendo, ao contrário, a consulta se dá após a tramitação de uma matéria, como última instância. Dessa forma, uma decisão prévia pode ser ratificada ou rejeitada na íntegra ou em parte. Como ocorreu na consulta popular de 2005, em que a população repeliu o artigo do Estatuto do Desarmamento, aprovado pelo Congresso, que proibia a comercialização de armas de fogo.

Essa distinção não é suficiente para eliminar o fato de que nunca foi pacífico o que diferencia um plebiscito de um referendo, mas ajuda a entender por que vem sendo chamada preferencialmente de referendo a consulta à população venezuelana sobre as mudanças constitucionais talhadas para dar superpoderes ao presidente Hugo Chávez. Ainda assim, o parentesco profundo entre as duas palavras fica claro quando se chama o sistema venezuelano de “democracia plebiscitária”.

A palavra “referendo” exibe um bonito traço do latim que o português não herdou – não diretamente, embora tenhamos várias palavras formadas a partir dele: o gerundivo, um tipo de gerúndio que funciona como particípio passivo futuro. Assim, referendum é “aquilo que deve ser referendado, submetido a alguém”; formando, “aquele que vai se formar em breve”; memorando, “o que deve ser lembrado”. Já a palavra plebiscitum tem origem literalmente menos nobre: surgiu com o sentido de “lei aprovada pela plebe”.

Texto publicado na “Revista da Semana”.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): A palavra é..., Uncategorized Tags:
12/11/2007 - 09:58

Pequena nota esportiva

Começou muito bem a semana: o Flamengo em terceiro lugar no Brasileirão e “As sementes de Flowerville” nas semifinais da Copa de Literatura Brasileira.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Uncategorized Tags:
10/11/2007 - 11:59

Norman Mailer (1923-2007)

Norman Mailer morreu hoje, de falência renal, aos 84 anos. “Se ele nunca chegou a conseguir produzir o que chamava de ‘o livrão’ – o Grande Romance Americano – não foi por falta de tentativas”, anota o obituário do New York Times (em inglês, mediante cadastro gratuito).

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Uncategorized Tags:
09/11/2007 - 14:16

Verissimo estréia (!) no romance

Entrevistando Luis Fernando Verissimo ao lado de Valéria Lamego num dos encontros do Circuito Cultural Banco do Brasil, quarta-feira à noite, no belo centro de artes Dragão do Mar, em Fortaleza, arranquei do homem um pequeno furo de reportagem que, tendo escapado ao faro da imprensa cearense, destaco aqui para que não se perca: aos 71 anos, com três milhões de exemplares vendidos de meia centena de títulos, Verissimo está escrevendo seu primeiro romance espontâneo.

Convém explicar: até hoje, o maior cronista brasileiro vivo lançou cinco narrativas longas, entre a novela e o romance. O primeiro desses livros – e para mim o melhor – é “O jardim do diabo”, de 1988, comentado aqui no blog. O último, “A décima segunda noite”, do ano passado – idem. A faixa de qualidade desses exercícios, todos com um pé na literatura policial e o outro num certo jogo intertextual brincalhão, vai do brilhante ao no mínimo divertido. Mas todos nasceram de encomendas – o primeiro da agência de publicidade MPM, os demais de editoras. É a primeira vez que Verissimo se dedica ao gênero sem ser, digamos, coagido. Para quem costuma dizer que não é bem um escritor, que prefere desenhar e tocar saxofone, trata-se de um grande passo.

Verissimo adianta as linhas gerais do projeto: “O livro tem o título provisório de ‘Espiões’ e conta a história de um sujeito que trabalha numa editora e recebe um original excelente de uma mulher misteriosa que vive no interior. Para descobrir quem é a autora, ele despacha espiões para a cidadezinha. É uma homenagem ao John le Carré, um autor de quem eu gosto muito”.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Uncategorized Tags:
07/11/2007 - 08:32

Começos inesquecíveis: Sérgio Sant’Anna

Entre todas as histórias possíveis, certamente já terá acontecido alguma como esta.

Um rapaz de dezessete anos, viciado em drogas (já chegou a roubar e prostituir-se para comprá-las) e com pretensões rimbaudianas a poeta maldito, tem um ciúme doentio da mãe divorciada, principalmente de um caso que ele desconfia que ela mantém com um homem muito mais jovem. Uma noite, a vê chegar em casa parecendo ligeiramente alegre de bebida, e com ares de quem veio de um encontro amoroso, usando uma blusa decotada e saia justa. Enquanto ela se despe em seu quarto, ele ali entra, abruptamente, vestido apenas com uma bermuda, e observa o sutiã vermelho e a calcinha preta que ela usa.

– Isso é roupa de vagabunda.

– Não fala assim da sua mãe.

Ele puxa o corpo dela para si e o aperta:

– Quem sabe você faz comigo também?

E já que a seção entrou definitivamente na era do conto, aí vai o início do espantoso Um conto nefando?, um dos mais surpreendentes do excelente “O vôo da madrugada” (Companhia das Letras, 2003), de Sérgio Sant’Anna.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Uncategorized Tags:
05/11/2007 - 09:01

Copa

O futebol internacional se profissionalizou de tal forma que a segunda Copa do Mundo que o Brasil sediará, em 2014, deve ter pouco em comum com a primeira, de 1950, vencida pelo Uruguai – principalmente no resultado da final, espera-se. Entre essas diferenças, uma das mais curiosas está à vista de todos: se naquele tempo a Copa era uma copa propriamente dita, em 2014 não será mais.

Convém explicar. Como anda na moda em certos círculos agarrar palavras pelo pé da letra, pregando-se a substituição de expressões legítimas como “risco de vida” (por risco de morte) e “greve de fome” (por greve de comida), é de admirar que ainda não tenham disparado o alarme: no reino do literalismo, faz tempo que a Copa do Mundo é uma ficção.

De fato, Copa-copa era no tempo da Jules Rimet, quando a taça tinha a forma de uma taça, na qual se podia até beber champanhe. E bebeu-se mesmo: na comemoração do título de 1958 na Suécia, a Jules Rimet passou de boca em boca. Quem recorda é Pelé no livro que lançou ano passado (“Pelé, a autobiografia”, editora Sextante). Acrescenta que limitou-se a assistir: aos 17 anos, estava abaixo da idade legal para aquele tipo de celebração.

O uso era irreverente, mas perfeito. A palavra “copa” é derivada do latim cupa ou cuppa, “vasilha grande”, que deu ainda nos nossos copo e cuba, no inglês cup e no italiano coppa, entre outros herdeiros mundo afora. Mas depois que o Brasil garantiu em 1970 a posse da Jules Rimet (para sempre, imaginávamos, até que ladrões a derreteram), o troféu da Fifa perdeu o côncavo necessário para se qualificar literalmente como copa.

Felizmente, tudo isso tem apenas valor de curiosidade. Faz tempo que o sentido de copa, tendo se expandido da taça para a disputa esportiva eliminatória em que ela é posta em jogo, estendeu-se também a troféus de formas variadas. Assim caminham as línguas. Já não existem discos em aparelhos de telefone, mas continuamos a “discar” números. Há anos a “novela das oito” começa às nove. E a Copa do Mundo é um globo.

Texto publicado na “Revista da Semana”.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): A palavra é..., Uncategorized Tags:
01/11/2007 - 12:33

Machado, Borges, Perrone-Moisés

leyla-perrone.jpgNo recém-lançado “Vira e mexe, nacionalismo” (Companhia das Letras, 248 páginas, R$ 45,50), a melhor coleção de ensaios literários brasileiros que leio em muito tempo, Leyla Perrone-Moisés reflete a certa altura sobre a curiosa semelhança, quase ponto a ponto, entre os argumentos de Machado de Assis e Jorge Luis Borges em seus textos teóricos sobre (e contra) o nacionalismo literário – respectivamente, “Instinto de nacionalidade” (1873) e “El escritor argentino y la tradición” (1956). Não à toa, os dois universais escritores latino-americanos são também os mais universalistas (“devemos pensar que nosso patrimônio é o universo”, escreveu Borges) e sofreram, ambos, ataques pesados por uma suposta deficiência de “cor local”.

Escreve Leyla Perrone-Moisés:

Tanto Machado de Assis como Borges são demasiadamente lúcidos para aceitar a nacionalidade como uma essência ontológica. Perfilado por detrás da persona do Conselheiro Aires, tão finório quanto este, o romancista brasileiro encara o problema com ironia (…) Ambos os escritores são finos cultores da ironia, justamente aquela que falta aos nacionalistas; uma falta de ironia decorrente de sua incapacidade de distanciamento e de seu apego a uma mitologia metafísica que conduz à guerra, ou simplesmente ao ridículo.

Num momento em que as metrópoles culturais renovam pela cartilha do multiculturalismo suas velhas exigências de visto de entrada para autores de culturas periféricas ou, como anda na moda dizer, pós-coloniais (“encham seus livros de cor local, selvagens!”), o paralelo traçado pela ensaísta entre Machado e Borges é de uma riqueza estonteante. Mesmo a obsessão ficcional de Antonio Fernando Borges, que reúne os dois autores em seu romance “Memorial de Buenos Aires”, tinha me deixado cego para as semelhanças, digamos, de estratégia literária entre eles, por mais que o resultado estético tenha sabor diferente – ou, em certos casos, nem tanto.

Universalistas, Machado e Borges não são subservientes copistas. Pelo contrário: sua arrogância de reescritores do mundo é monstruosa. A síntese universal que buscam a partir de uma cátedra caudatária (de sul-americanos, ora pitombas!) pode ser impossível de antemão, mas se realiza por inteiro, gloriosamente, no plano da ironia.

Machado:

Os séculos desfilavam num turbilhão, e, não obstante, porque os olhos do delírio são outros, eu via tudo o que passava diante de mim – flagelos e delícias –, desde essa cousa que se chama glória até essa outra que se chama miséria, e via o amor multiplicando a miséria, e via a miséria agravando a debilidade. Aí vinham a cobiça que devora, a cólera que inflama, a inveja que baba, e a enxada e a pena, úmidas de suor, e a ambição, a fome, a vaidade, a melancolia, a riqueza, o amor, e todos agitavam o homem, como um chocalho, até destruí-lo, como um farrapo.

Borges:

Nesse instante gigantesco, vi milhões de atos prazerosos ou atrozes; nenhum me assombrou tanto como o fato de que todos ocupassem o mesmo ponto, sem superposição e sem transparência. (…) Vi o populoso mar, vi a aurora e a tarde, vi as multidões da América, vi uma prateada teia de areia no centro de uma negra pirâmide, vi um labirinto roto (era Londres), vi intermináveis olhos próximos perscrutando-me como num espelho, vi todos os espelhos do planeta e nenhum me refletiu…

Eu vi o Aleph no delírio de Brás Cubas.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Uncategorized Tags:
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