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“É muito difícil pensar em ’ser escritor’ quando se nasce num país em
que ninguém lê: os pobres porque não sabem ou porque não possuem
meios para adquirir conhecimentos, e os ricos porque não sentem
vontade. Numa sociedade assim, querer ser escritor não é optar por
uma profissão, mas por um ato de loucura.” MARIO VARGAS LLOSA

29/10/2007 - 16:19

Malevolência

Em que anda metido agora?

Em nada. Mal tenho tempo para me concentrar em coisas sérias com tudo isso.

Mas está escrevendo?

Não.

Não quer escrever outro romance?

Veremos. Passo o tempo todo envolvido em coisas ligadas a esse maldito livro, estou farto.

Maldito livro? Já o odeia?

Não, tê-lo escrito, não. Mas tudo isso. Repetir esta entrevista 30 ou 40 vezes…

Você não dá muitas…

Demasiadas, considerando as que eu gostaria de conceder. Não vejo sentido nisso a não ser que surjam coisas novas. É preciso fazer, é parte do seu trabalho também, devem vender jornais, é puro comercialismo, não tem nada a ver com outra coisa. Fiz algumas entrevistas interessantes em que surgiram alguns elementos novos, e nesse caso valem.

Nesta você disse algo novo?

Não.

Pois acrescente-o.

Não tenho mais nada a acrescentar.

Se fosse apenas pelo final amargo, que na rapidez das raquetadas lembra uma partida de pingue-pongue de competição, já valeria a pena ler a longa entrevista do Babelia, suplemento literário do jornal espanhol “El Pais”, com Jonathan Littell, autor de “As Benevolentes” (Alfaguara, tradução de André Telles). Mas há outros atrativos na entrevista, entre eles o de questionar Littell sobre um certo “excesso” do romance – uma crítica que eu, tendo cumprido até aqui um terço da jornada de 900 páginas, julgo procedente. Fica mesmo uma certa impressão de que o autor, após fazer uma pesquisa exaustiva sobre seu tema, teve dó de desperdiçar qualquer migalha de informação e tratou de despejar tudo no livro. Curiosamente, trata-se da mesma crítica que costuma ser dirigida a outro romance de 900 páginas que, como “As Benevolentes”, também vai se firmando como tema de debate entre os leitores à revelia de nossa brava imprensa literária: “Um defeito de cor” (Record), de Ana Maria Gonçalves.

Não quero me estender na crítica por enquanto. Com menos páginas, o efeito pretendido pelo autor teria ficado mais nítido ou, pelo contrário, se perdido? Aquela impressão de afogamento em detalhes factuais que acomete o leitor é intencional? Tudo isso é complexo demais para que um pitaco disparado do meio da leitura seja qualquer coisa além de irresponsável. Prometo voltar ao assunto na hora certa. (Que, infelizmente, acabo de atrasar em cinco dias, tempo que passei de cama profunda na companhia de uma gripe cuja malevolência faz Maximilien Aue parecer uma donzela – se bem que ele parece mesmo uma donzela… Em situações desse tipo, o inferno fica próximo demais para que um livro como “As Benevolentes” seja tolerável. Mas passou.)

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Uncategorized Tags:

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