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“É muito difícil pensar em ’ser escritor’ quando se nasce num país em
que ninguém lê: os pobres porque não sabem ou porque não possuem
meios para adquirir conhecimentos, e os ricos porque não sentem
vontade. Numa sociedade assim, querer ser escritor não é optar por
uma profissão, mas por um ato de loucura.” MARIO VARGAS LLOSA

23/10/2007 - 10:19

Download

(E já que entramos no assunto…)

Download é uma das palavras mais saidinhas que importamos do inglês nos últimos anos, membro da onipresente família informática. Diferentemente dos verbos “deletar” e “escanear”, porém, tem sido refratária ao aportuguesamento. Daunloude? O Google mostra que há quem force essa barra, mas a solução parece canhestra. Tal rebeldia está longe de ser alarmante. Se a regra é a adaptação, há vocábulos anglófonos que se abancaram confortavelmente em nossa língua sem tocar num fio de cabelo da grafia original: show nunca virou “chou” nem “xou”, apesar das tentativas da Xuxa.

No inglês, download nasceu verbo, mas hoje – o que é comum no idioma de Steve Jobs – faz dupla jornada e atua também como substantivo. Entre nós é sempre substantivo. Para expressar a ação associada a ele, temos a forma “fazer (ou dar) um download”. Em casos mais raros e ousados de hibridismo lingüístico, encontra-se também “downlodear” ou “downlodar”, mas essas soluções parecem se justificar mais pelo desleixo lingüístico – ou por uma intenção brincalhona – do que por uma real necessidade de expressão.

Como verbo, o nativíssimo “baixar” está vencendo a guerra. É uma boa tradução. Download quer dizer “carregar para baixo” ou “baixar a carga”, ou seja, descarregar, copiar um arquivo de uma rede ou servidor para uma estação local. Opõe-se a upload, que designa o movimento inverso e é de uso bem menos freqüente, pouco difundido além do círculo dos programadores, embora nosso jargão informático já registre a ocorrência das curiosas formas “upar” e “upear”.

Tudo isso parece dar razão aos partidários do deputado Aldo Rebelo, autor de um projeto de lei, felizmente congelado, que prevê multa para quem usar palavras estrangeiras. A história, porém, mostra que a xenofobia acaba perdendo. Um intenso tráfego de downloads e uploads (figurados) de palavras sempre fez parte do comércio lingüístico mundial, dando razão à máxima “o que não mata, engorda”. O tempo se encarrega de limar os excessos, e o que sobra vira riqueza.

Texto publicado em minha coluna na “Revista da Semana”.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): A palavra é..., Uncategorized Tags:

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