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“O fato é que o valor intrínseco do livro, peça ou
qualquer outra coisa que o autor esteja tentando vender
é o último e menos importante fator da transação. É provável
que não haja outro ramo da indústria em que seja tão tênue
a relação entre lucro e valor real, ou em que a pura sorte
tenha papel tão destacado.” GEORGE BERNARD SHAW

Arquivo de agosto, 2007

31/08/2007 - 19:07

Pirataria ou obscuridade?

Nos últimos anos eu me tornei, para minha considerável surpresa, romancista em tempo integral. Como ganho a vida com a venda de meus livros, pode parecer estranho que eu esteja neste momento publicando em capítulos na internet um novo romance, Beasts of New York, para quem quiser ler, inteiramente grátis.

Por quê? Porque, para citar o editor Tim O’Reilly, “a maior ameaça que um artista enfrenta é a obscuridade, não a pirataria”. Não me preocupo com as pessoas que lêem meu trabalho sem pagar. Preocupo-me com as que não sabem que meus livros existem.

O escritor canadense Jon Evans, um autor de “thrillers de viagem” desconhecido no Brasil, deve ter ficado menos popular entre as editoras por este artigo no blog de livros do “Guardian”, mas é difícil negar que o raciocínio tem fundamento. Me lembrou a reação curiosa do espanhol Enrique Vila-Matas quando descobriu que um de seus primeiros títulos tinha sido pirateado e estava disponível online: ficou agradecido, porque o livro, sendo do tempo da máquina de escrever, ainda não existia em arquivo digital. Claro que resta a questão, inteiramente aberta, de como o escritor profissional do futuro comprará o leitinho das crianças. John Updike já declarou temer que seja com cachês para comparecer a eventos, sorrir e apertar mãos – algo como um Alemão do Big Brother com cérebro.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Uncategorized Tags:
30/08/2007 - 10:06

Mensalão

A entrevista do deputado Roberto Jefferson publicada pela “Folha de S. Paulo” naquela segunda-feira, 6 de junho de 2005, marcou um fato raro no mundo das palavras: o momento exato em que nascia uma nova acepção, um novo sentido. No caso, um sentido destinado a fazer tanto sucesso que hoje deixa num pálido segundo plano a acepção até então exclusiva de mensalão – “recolhimento facultativo que pode ser efetuado pelo contribuinte para antecipar o pagamento do imposto devido na Declaração de Ajuste Anual”, segundo o site da Receita Federal.

Pouco antes de Jefferson detonar sua bomba, o mensalão já circulava fora do jargão tributário, mas apenas como gíria brasiliense para um novo esquema de corrupção centrado na compra – prática antiga, mas talvez nunca tão literal – de apoio parlamentar pelo governo. Tinha feito uma breve aparição no “Jornal do Brasil” em 2004, mas faltava ganhar as ruas, a corrente principal da língua. Tudo indica que ganhou. Pouco mais de dois anos depois de nascer, a palavra acaba de ser reconduzida ao posto de grande estrela do vocabulário político pelo Supremo Tribunal Federal.

É razoável supor que a aparência bonachona contribuiu para o sucesso do termo mensalão. Fascinado pela intimidade de diminutivos e aumentativos, o português brasileiro se dá bem com ambivalências desse tipo, entre a familiaridade complacente e a rejeição irônica. O sociólogo Sérgio Buarque de Holanda sabia o que estava falando quando chamou o brasileiro de “cordial” no clássico “Raízes do Brasil”. Não quis dizer, como muitos acreditam até hoje, que somos bonzinhos, e sim que tendemos a nos pautar pelo coração, pela afetividade, em nossas relações com aliados e inimigos.

Se a ambigüidade do tom é inevitável, o duplo sentido mais explícito de mensalão recomenda cuidado no uso da palavra. Vale notar que suas duas acepções se relacionam com o dinheiro do contribuinte, mas em sentidos dramaticamente opostos: uma no momento (legítimo) da arrecadação, a outra na ponta (criminosa) da malversação.

Texto publicado em minha nova coluna, Palavra da Semana, na “Revista da Semana”, da editora Abril, cujo primeiro número chega às bancas hoje.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): A palavra é..., Uncategorized Tags:
28/08/2007 - 20:58

Começos inesquecíveis: Michel Laub

Hoje o futebol está morto, e duvido que alguém ainda chore por ele, mas não era assim no dia 12 de fevereiro de 1989.

“O segundo tempo”, de Michel Laub (Companhia das Letras, 2006), um dos bons livros brasileiros do ano passado, tem uma frase inicial ainda melhor. Digna de antologia ou manual para escritores, ela consegue condensar em pouquíssimas palavras, com a falsa simplicidade que a ocasião exige, uma apresentação clássica de tom, tema e marcos temporais (de passado e presente) entre os quais se estenderá a corda da narrativa. Não falta ainda uma sutil estranheza – como assim, o futebol está morto? – que fica zumbindo ao fundo enquanto nos damos conta de que o defunto pode ser outro.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Uncategorized Tags:
27/08/2007 - 10:28

Entre em forma com Harold Robbins

Imperdoável. Depois de séculos de procura, o pessoal finalmente descobre uma utilidade clara para a ficção – sobretudo para a ficção cheia de ação e sexo, o que é uma forma de unir o útil ao agradável – e este blog franga a notícia.

Única desculpa para minha distração: por aqueles dias eu andava envolvido com um programa de musculação baseado no levantamento de The Complete Pelican Shakespeare.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Uncategorized Tags:
24/08/2007 - 20:16

A estrada antes do asfalto

De toda a fanfarra pelo aniversário de 50 anos da publicação de On the road (“Pé na estrada”, na tradução de Eduardo Bueno para a L&PM), de Jack Kerouac, a parte realmente interessante do ponto de vista literário é a publicação do manuscrito original, não editado, com pontuação esparsa e dando aos personagens seus nomes verdadeiros. On the road: the original scroll, que acaba de sair nos EUA, reproduz o livro exatamente como, segundo a lenda, ele foi batucado freneticamente à máquina num único rolo de papel, ao longo de três semanas e tendo como combustível um caminhão de anfetamina – parece que a parte química não foi bem assim, mas lenda é lenda.

É uma história antiga a suposta superioridade da versão bruta, escrita em 1951, sobre a que acabou publicada em 1957, depois de penteada e domesticada por Kerouac sob a orientação de seus editores, com alguns cortes e a adição de incontáveis pontos, vírgulas e floreios “literários”. Um ano depois, quando o livro já era um sucesso arrasador, o poeta Allen Ginsberg lamentou num artigo o que teria sido um crime de lesa-literatura.

É claro que o mito da pureza de um texto incendiário conspurcada por editores caretas combina tão bem com o papo beat que convém desconfiar. Mas, em resenha publicada esta semana no “New York Times”, Luc Sante dá razão a Ginsberg, dizendo que o original, em sua crueza, é “mais autenticamente literário”. E num artigo para a revista “Vanity Fair”, Joyce Johnson usa o ponto de vista privilegiado de quem tinha um envolvimento amoroso com Kerouac na época do lançamento de On the road para dizer que ele sofria em silêncio com o sucesso de um livro que já não via como inteiramente seu.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Uncategorized Tags:
23/08/2007 - 14:17

Desastre na primeira curva

crash.jpgCrash, evidentemente, não tem a ver com um desastre imaginário, embora iminente, mas com um cataclismo pandêmico que a cada ano mata centenas de milhares de pessoas e fere milhões. Será que enxergamos, no desastre de carro, um sinistro presságio de um casamento de pesadelo entre o sexo e a tecnologia? A moderna tecnologia nos proporcionará meios até hoje não sonhados de dar vazão a nossas próprias psicopatias? (…)

Ao longo de Crash, usei o carro não apenas como uma imagem sexual, mas como uma metáfora total da vida do homem na sociedade de hoje. Assim, o romance tem um papel político bem separado de seu conteúdo sexual, mas eu ainda gostaria de pensar que Crash é o primeiro romance pornográfico baseado na tecnologia.

Quando peguei ontem o romance “Crash”, lançado em 1973 pelo inglês J.G. Ballard (Companhia das Letras, tradução de José Geraldo Couto, 240 páginas, R$ 42), com a tranqüila disposição de lê-lo, o livro tinha muito a seu favor: o rasgo de imaginação perverso e possivelmente brilhante de retratar desastres automobilísticos como experiências cheias de tesão, reputação cult, adaptação para o cinema (chatíssima, mas…) assinada David Cronenberg e o diabo. Sobretudo o diabo. Infelizmente tinha também, logo na introdução, um constrangedor texto de 1995 em que o autor explica o livro, as intenções do livro, a simbologia do livro, tudo o que ele quis dizer com o livro. Puxa, é mesmo? E por que não passou um telegrama?

Não quero dizer com isso que escritores não possam refletir sobre seus escritos. Devem. Fiquei pensando em Edgar Allan Poe contando passo a passo como escreveu “O corvo” no brilhante e imperdível ensaio “A filosofia da composição”. Em Italo Calvino e suas “Seis propostas para o próximo milênio”, conferências que contêm pelo menos cinco chaves de sua obra (ficou faltando uma). Em Umberto Eco e o “Pós-escrito a O nome da rosa”. Processos, bastidores, moldura de referências, tudo pode ser esmiuçado. Mas explicar a “mensagem” de uma obra, pondo legendas for dummies em seus efeitos, é uma vergonha.

Pois é. Como eu também tenho direito à minha cota de preconceitos e rabugices gratuitas – alguém aí achou que detinha o monopólio, hein? –, cultivo o hábito de perder o respeito por ficcionistas que viram babás de seus livros, em vez de agüentar com dignidade enquanto o mundo se dedica às leituras que quiser e puder, por mais estapafúrdias que elas sejam. E depois fica pior: bom moço, Ballard acha necessário se distanciar do universo doentio de seus personagens, avisando que o “papel” do romance é “preventivo, um alerta”.

Quando terminei de ler a introdução, tudo o que restava do livro era um monte de ferragens retorcidas. “Crash” nunca mais.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Uncategorized Tags:
22/08/2007 - 11:01

O leitor morreu. Viva o escritor!

Agora é quase oficial. Há alguma coisa poderosa e ainda pouco estudada corroendo os alicerces da milenar relação entre escritores (poucos) e leitores (muitos, ou pelo menos não tão poucos). Uma tendência que aponta para a mais edênica utopia internética ou a mais louca distopia tragicômica, dependendo do ponto de vista: a transformação de cada leitor-lagarta do mundo em escritor-borboleta. Um escritor-borboleta sem leitores, é claro – por definição.

Lançado o narigão-de-cera, vamos aos fatos. Uma pesquisa feita na Grã-Bretanha (em inglês, acesso livre) pelo instituto YouGov acaba de esbarrar numa descoberta bizarra: o trabalho de escritor é o mais cobiçado pela população. Sim, o mais cobiçado. Cerca de 10% dos entrevistados declararam sonhar com ele em primeiro lugar, quando imaginam uma forma de fugir de suas vidas medíocres. Na lista de preferências, vêm em seguida ídolo esportivo, piloto de avião, astronauta e organizador de eventos (!!). Reparem que astro de cinema não pegou top five.

Sim, todo mundo por lá está dizendo que a gata borralheira J.K. Rowling tem muito a ver com isso. E não, ninguém é ingênuo de acreditar que essa multidão conseguirá transformar seu sonho maluco em realidade – embora uma parte tente mesmo, provocando a multiplicação de oficinas literárias mundo afora. O que me chama a atenção na notícia é a sustentação que ela parece dar a algo de que eu suspeito há algum tempo: tem mais gente por aí sonhando com a glória literária do que lendo. Por quê? Que sentido faz uma coisa dessas?

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Uncategorized Tags:
20/08/2007 - 19:52

A blogueira e o estruturalista

O DJ retrô contratado pelo shopping center enchia os corredores com a voz grossa de Renato Russo cantando “Eduardo e Mônica” quando a blogueira perguntou as horas ao estruturalista na fila do caixa da megalivraria. Mais tarde, ao se lembrar desse momento e observar que a trilha era simplesmente perfeita, ela o ouviria responder corado com a falta de prática que não, não, perfeita é você.

Quando a blogueira o abordou, fingindo não saber quem ele era, o estruturalista tinha meia dúzia de livros fora de catálogo e uma reputação longamente esquecida de analista rigoroso de João Cabral, Guimarães Rosa e Osman Lins. A aposentadoria federal como professor titular de literatura lhe propiciava uma vida tediosa mas tranqüila de viúvo sem ambição, sem desejo e sem arrependimento, como achava que devia ser.

Se alguma coisa incomodava o estruturalista àquela altura, além de certos padecimentos próprios da idade como dor nas costas e insônia, era o fato de já não conseguir ler. Poesia, prosa, clássico, contemporâneo, coisa nenhuma. E não por ter ficado cego como Borges: nada havia em sua visão que lentes bifocais não emendassem, era interna a escuridão do estruturalista. Que jamais tocava no assunto, tentando ser estóico diante do que, embora parecesse de uma crueldade diabólica com quem dedicara a vida à literatura, provavelmente não passava de mais um engodo simples no quadro de um logro muito maior.

A blogueira tinha, além de um fotolog estudadamente sexy, um blog supercool de autoridade 237 no Technorati onde publicava quase todos os dias poemas trocadilhescos de três versos e minicontos mais ou menos confessionais. Em conjunto, os dois empreendimentos virtuais a situavam no topo da pirâmide formada pelas poucas centenas de pessoas que, desdobrando-se em milhares de nicks para confundir (com sucesso) a velha imprensa de papel, faziam a glória da chamada blogosfera literária nacional, um meio em que a blogueira era ridiculamente famosa.

O estruturalista não saberia dizer por que aceitou o convite da blogueira, de quem jamais ouvira falar, para tomar um café no mezanino da livraria. Ela sabia por que o tinha convidado, ou acreditava saber, mas no início era vago o plano concebido de estalo na fila do caixa. Depois de reconhecer o estruturalista como alguém que um dia tinha sido importante na literatura brasileira, pelo menos assim dizia o programa sobre Grandes Críticos que vira algum tempo atrás na TV educativa, achou que na pior das hipóteses descolaria um post tragidoce ou agricômico sobre o tempo, os tempos. Como se o homem pertencesse à Rússia tsarista e ela fosse uma improvável bolchevique compreensiva.

A blogueira e o estruturalista eram nada parecidos, ela era um tesão e ele tinha setenta e três, mas do expresso passaram pro scotch, da megalivraria pro barzinho penumbroso, do engov pro viagra, e na manhã seguinte ele abriu os olhos primeiro em sua cama de casal e teve vontade de chorar com a visão daquela barriguinha morena espetada com alfinete entre os lençóis. A blogueira acordou sem graça pensando no que diriam seus amigos se soubessem, fetiche, doença, seventy-plus.com, e com essa zoeira na cabeça foi talvez até um pouco rude ao se despedir. Mas aquela tarde, quando o estruturalista ligou, seu coração bateu mais forte e ela disse que sim, sim, sins, tô indo.

O estruturalista leu os poemas trocadilhescos de três versos e os minicontos mais ou menos confessionais da blogueira e achou tudo uma merda, mas disfarçou e disse, sorriso amarelo, que a culpa era dele mesmo, dinossauro chato. A blogueira folheou os livros de páginas manchadas do estruturalista e quase morreu de tédio, pensando, se literatura é isso, tô fora. Diante dele, porém, preferiu bancar a burrinha dizendo que parecia tudo muito bonito e complexo e importante, mas além da sua compreensão.

Um ano depois, enquanto o estruturalista definhava numa cama de hospital, linfoma não-Hodgkin, a blogueira ficou ao seu lado dia e noite, num convívio íntimo com a morte que durou cinco semanas e a levou a repensar a vida inteira com um misto de vergonha do passado e ânsia de futuro. Na madrugada em que o estruturalista morreu e ela se acabou de chorar, estava madura a decisão de trocar o blog pela faculdade de enfermagem.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sobrescritos, Uncategorized Tags:
18/08/2007 - 12:46

Literatura é uma caixinha de surpresas

Não deixe de ler as resenhas e de comentar os resultados, mesmo que você não tenha lido os concorrentes (eu mesmo só li dois), discursa Lucas Murtinho, o cartola. E, se uma resenha despertar seu interesse, não confie no jurado nem nos comentaristas, compre os livros e decida por si mesmo. E divirta-se. Nós, aqui dos bastidores, já estamos nos divertindo.

Está no ar o site da Copa de Literatura Brasileira.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Uncategorized Tags:
17/08/2007 - 20:44

Os guardanapos

Não sei se o Napkin Fiction Project (Projeto Ficção no Guardanapo), uma idéia da revista Esquire, rendeu algum miniconto genial. Só visitei um punhado deles, e seria preciso ler as dezenas de textos disponíveis no site da revista para saber se algum escritor conseguiu rabiscar em seu guardanapo de papel mais do que pura diversão. De qualquer modo, por ser o tipo de pretexto que consegue reunir à mesa dois irmãos cada vez mais distantes – apelo jornalístico e charme literário –, vale divulgar a idéia. Já copiamos piores.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Uncategorized Tags:
16/08/2007 - 15:29

Precisa-se de editor

No admirável mundo novo da autopublicação, os editores são uma espécie ameaçada. Isso não é de todo ruim. É bom que qualquer pessoa que queira publicar e tenha acesso a um computador não encontre hoje barreira alguma. E certos blogueiros não precisam mesmo de editores: sua prosa é fluente, coloquial, e os leitores não esperam que o trabalho seja elegante ou finamente cinzelado. Sua função principal é comunicar com clareza. Não tem o objetivo de durar.

Mesmo assim, os editores e a edição se tornarão cada vez mais importantes à medida que a era da Internet avançar, em sua velocidade de foguete. O mundo online não tem apenas milhões de escritores recém-nascidos exultando com seus poderes. Tem também milhões de leitores que precisam se orientar nesse universo infinito e decidir que escritores vale a pena ler. Quem vai selecionar os excepcionais? Editores de alguma espécie. Algum grupo esperto de pessoas terá que separar o joio do trigo. E quanto mais refinado for o processo de separação, mais talento – e talvez mais experiência – ele exigirá.

Nós já usamos outros leitores para classificar as coisas por nós: meus bookmarks são, em sua maioria, de escritores em quem aprendi a confiar. Alguns utópicos podem sonhar com a vitória de um modelo anarco-Wikipedia, em que uma vasta democracia de amadores, autocorrigindo-se, terminará por encaminhar os leitores para as obras mais meritórias. Mas isso é apenas “edição” em sua forma mais tosca e genérica – isso é selecionar. No novo e caótico universo online, o sistema antiquado, elitista e não-democrático de classificar informação vai se tornar cada vez mais importante, na pior das hipóteses porque garantirá uma redução saudável do maciço número de opções disponíveis, em que a mente se afoga. O verdadeiro problema é a superabundância, e isso só vai piorar.

Devo ter andado distraído. Está no ar desde o dia 24 de julho na revista eletrônica Salon um ótimo artigo de Gary Kamiya. Com o título provocativo de Agora vamos enaltecer os editores (acesso livre, em inglês), o texto expõe com clareza algumas idéias “reacionárias” que costumam me ocorrer diante dos entusiastas mais acríticos do grande Big Bang literário da internet. Note-se que Kamiya está falando de editores de texto, em qualquer suporte – não necessariamente de livros. O artigo faz avançar alguns passos a discussão levantada pela nota “Publicar, verbo reflexivo?”, aqui embaixo.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Uncategorized Tags:
14/08/2007 - 11:14

Da arte de não colecionar autógrafos

pynchon.jpgSempre fui – e digo isso sem orgulho, apenas uma daquelas constatações plácidas que vêm com o autoconhecimento – impermeável à emoção de pedir, que dirá colecionar, autógrafos. Uma dedicatória sincera garatujada por um amigo de fama literária restrita a dois quarteirões e meio sempre teve, na escala afetiva das minhas estantes, muito mais valor do que uma assinatura fria e carrancuda que possa ser arrancada de, sei lá, J.M. Coetzee himself numa noite memorável em Parati.

hgwells.jpg Se essa inapetência me poupa de uma extensa quilometragem em filas, sem dúvida desvalorizará minha biblioteca em sebos futuros. A troca parece justa. O desapego aos rabiscos famosos, porém, não impedirá ninguém de se divertir com essa coleção online (via blog da Amazon). Dedicada quase exclusivamente ao universo da literatura anglo-americana, com alguns escritores de outras nacionalidades e nomes nada literários engrossando o caldo, ela permite o exercício deliciosamente barato de comparar, por exemplo, a assinatura ilegível de Thomas Pynchon, com seus traços que tentam se esconder atrás de si mesmos, com o floreado todo pimpão de H.G. Wells. Mais do que dois autógrafos, duas atitudes diante da literatura?

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Uncategorized Tags:
13/08/2007 - 11:40

Publicar, verbo reflexivo?

Não é novidade: fazer e escrever livro no Brasil é um péssimo negócio. Autores, editores e livreiros vivem de um mercado sem lógica. Para cada sucesso há incontáveis fracassos. Incontáveis e injustificáveis. Livros muito bons, com ótimo apelo comercial e qualidade literária passam nas mais brancas nuvens e dois anos depois do lançamento são vendidos a quilo ao papeleiro, porque nem as lojas americanas nem as superbancas de jornal se interessaram em adquirir aquele título para revender a 9,90.

Então eu queria entender melhor por que tantos autores-blogueiros, por exemplo, gostariam tanto de ter os seus livros publicados por uma editora grande. Em que isso contribui, exatamente? Eu não consigo achar que ter o seu livro exposto numa boa livraria por alguns dias (porque as livrarias são pouco mais do que hotéis onde os livros dormem um dia ou dois) faça muito mais pelo seu sucesso literário do que divulgá-lo na internet, por exemplo. O que se quer? Ser lido ou fazer da literatura o seu ganha-pão?

Hmm, e se a resposta for “nem uma coisa nem outra, mas ser carimbado oficialmente como escritor num mercado em que a informalidade costuma se confundir com a irrelevância” – não ficaria mais claro esse quadro?

São boas as ponderações de Anna V. em seu blog Terapia Zero (dica do Bom dia, França) acerca do debate eterno – e, nos últimos meses, mais aceso do que nunca – sobre a dificuldade que autores novos encontram para publicar seus escritos por editoras tradicionais.

Para tornar a pintura mais completa, acho que ficaram faltando umas poucas pinceladas:

1. Nunca foi diferente. A novidade de nosso tempo é propiciar à famosa figura do “autor inédito desprezado pela alta burguesia editorial insensível e covarde” dois trunfos até pouco tempo atrás impensáveis: um palanque muito melhor do que o velho botequim para se queixar da sorte, chamado blog; e a possibilidade de atingir um público expressivo em sua própria e baratíssima plataforma pessoal de publicação, chamada – outra vez, veja só – blog.

2. A situação não é muito diferente em países de cultura literária e mercado editorial quinhentas vezes mais maduros. Vale a pena dar uma olhada no quebra-pau que rolou há poucos dias no blog de livros do “Guardian” – aqui, em inglês. As semelhanças entre a insatisfação britânica e a nossa são maiores do que as diferenças.

3. E por último: sem base em pesquisa nenhuma, assim no olhômetro, parece evidente que nunca na história deste país os autores novos tiveram tanta facilidade de se lançar por casas editoriais mais ou menos tradicionais quanto nos últimos cinco anos. Agora que a febre dessa gincana maluca – quem vai achar o próximo gênio? – parece estar passando, os comentários de Anna V. se provam ainda mais oportunos.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Uncategorized Tags:
09/08/2007 - 13:55

Literatura brasileira com merchandising (II)

“Das mais surpreendentes
é a vida de tal faca:
faca, ou qualquer metáfora,
pode ser cultivada.

E mais surpreendente
ainda é sua cultura:
medra não do que come
porém do que jejua.

Podes abandoná-la,
essa faca intestina:
jamais a encontrarás
melhor que Tramontina.”

***

“Aos 16 anos matei meu professor de lógica. Invocando a legítima defesa – e qual defesa seria mais legítima? – logrei ser absolvido por cinco votos contra dois, e fui morar sob uma ponte do Sena, embora nunca tenha estado em Paris. Mas um dia hei de ir – nas asas da Air France, ça va sans dire!

***

“Na planície avermelhada os juazeiros alargavam duas manchas verdes. Os infelizes tinham caminhado o dia inteiro, estavam cansados e famintos. Ordinariamente andavam pouco, mas como haviam repousado bastante na areia do rio seco, a viagem progredira bem três léguas. Fazia horas que procuravam uma sombra. A folhagem dos juazeiros apareceu longe, através dos galhos pelados da catinga rala. Ao pé deles, degustaram com delícia sua cota de Maxi Goiabinha.”

***

“Ai de ti, Copacabana, porque a ti chamaram Princesa do Mar, e cingiram tua fronte com uma coroa de mentiras; e deste risadas ébrias e vãs no seio – belo seio! – da noite a caminho da Barbarella, ali na Viveiros de Castro.”

***

“E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja de Zippo enquanto dure.”

.

Mais Literatura brasileira com merchandising.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sobrescritos, Uncategorized Tags:
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