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“É muito difícil pensar em ’ser escritor’ quando se nasce num país em
que ninguém lê: os pobres porque não sabem ou porque não possuem
meios para adquirir conhecimentos, e os ricos porque não sentem
vontade. Numa sociedade assim, querer ser escritor não é optar por
uma profissão, mas por um ato de loucura.” MARIO VARGAS LLOSA

23/07/2007 - 20:02

Começos inesquecíveis: Daniela Abade

Foram os óculos de sol. Os meus começaram a se desmantelar depois que saí do carro e atravessei a rua para visitar um cliente – um pino se soltou e me vi obrigada a ficar de quatro no asfalto, juntando pedaços de armação. Os dele não existiam e foi exatamente a ausência dessa proteção que o cegou momentaneamente quando contornava a esquina com seu caminhão.

Outras teorias, algumas mais científicas, outras mais supersticiosas, surgiram durante semanas, mas de forma alguma elas mudam ou mudarão o fato principal desta história: eu, Carla de Souza Almeida, morri. Aos 30 anos, solteira, com uma carreira promissora pela frente e o péssimo hábito de comprar óculos de sol em liquidação.

Narradores defuntos são um truque literário antigo, mas mesmo assim o par de parágrafos que abre “Depois que acabou” (Editora Gênese, 2003), romance de estréia da escritora santista Daniela Abade, é de tirar o chapéu. Em sua precisão tragicômica, deve ser no mínimo um sério candidato a melhor início de romance da tal “jovem literatura brasileira”. Pouca gente prestou atenção.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Uncategorized Tags:

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