Do quartinho dos fundos ao salão de baile
Como pouquíssimos outros acontecimentos promovidos no Brasil, a Flip foi capaz de concentrar no mesmo espaço e em torno dos mesmos interesses parte significativa do capital econômico, político, social e cultural do país. Desde sua primeira edição, fez com que presidentes de banco, ministros de Estado e figuras de diversos segmentos da cultura vissem ali motivos suficientes para compensar o deslocamento e a pouca familiaridade com a obra da maioria dos convidados. (…)
Além das peculiaridades de sua organização, ajuda a explicar o caráter do evento o contexto de ampliação do debate acadêmico em que ele se insere. Nesse sentido, importa ver a Flip como participante de um processo que envolve a intensificação de cursos livres em diversas cidades do país, a promoção de ciclos de palestras e o sucesso de estabelecimentos destinados a ensinar filosofia e outros temas “nobres” para um público de alto poder aquisitivo.
O artigo intitulado A fetichização do conhecimento, publicado na revista Trópico pelo jornalista Flavio Moura, é o melhor que já li sobre a Festa Literária Internacional de Parati, cuja quinta edição começa amanhã. Em sua tentativa de entender os porquês dessa festa de gala para a literatura num país em que no resto do ano ela ocupa – de favor – o quartinho dos fundos, o texto mobiliza tantos argumentos e se equilibra tão bem entre as duas reações habituais ao evento, a deslumbrada e a ressentida, que nem parece ter sido escrito no segundo semestre de 2005, após a terceira Flip. Nada nos impede de lê-lo como se trouxesse a data de hoje:
Vai aqui uma digressão apressada, mas não parece descabido supor que a proliferação desses espaços revele sinais de esgotamento da universidade. Se nos anos 1950 e 1960 a criação de departamentos especializados em literatura e em diversas áreas das ciências sociais concentrou a produção intelectual no âmbito universitário, hoje ele parece depender mais das instâncias extra-acadêmicas do que há 20 anos. Seja porque as revistas especializadas andam à míngua, têm poucos leitores e não respondem com agilidade à pauta cultural do país, seja porque as crescentes disputas políticas dos departamentos bloqueiam canais não-viciados de comunicação ou até mesmo por causa do aviltamento dos salários, o fato é que professores de carreira consolidada têm procurado com freqüência espaços de diálogo como esses.
Parece razoável supor que o crescimento do mercado editorial e o aumento da capacidade de consumo não sejam suficientes para explicar o surgimento dessas alternativas. Pelo visto, é preciso encarar esse processo ao lado de um culto a determinadas disciplinas que parece se travestir, com o perdão da expressão, numa “fetichização” do conhecimento. A boa acolhida de público de palestras promovidas em torno de temas como a “história categorial em Marx”, não raro retransmitidas pela TV; a disponibilidade de setores da burguesia paulistana em pagar somas consideráveis para assistir a cursos breves sobre temas na linha “o amor em Platão”; a permanência no mercado de uma editora como a Cosac Naify, pródiga na feitura de edições que parecem almejar à condição de objeto único e recusar a produção em escala industrial; ou até mesmo a inclusão de quadros sobre filosofia no programa “Fantástico” são alguns dos elementos que permitem pensar nessa direção.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Uncategorized Tags: