Arquivo de julho, 2007
30/07/2007 - 15:44
Corte, montagem, simultaneidade, monólogo interior. A literatura teria inventado o cinema sem se dar conta disso? E depois, conscientemente, teria se voltado para o que inventou para se reinventar (escrevendo adaptações literárias de filmes)? Para deslocar seu ponto de vista para a sudação interior dos rostos?
Ou o cinema inventou-se a si mesmo? Fez-se a si mesmo, tal como a literatura, a poesia, a música, a pintura? E se assim foi (a invenção continuando a se inventar), as artes no século XX inventaram com o cinema novas formas de percepção do espaço e do tempo? Ou, como propõe Carlos Fuentes, apenas desenvolveram outros instrumentos para prosseguir “la pugna del arte desde el Renacimiento”?
A notícia da morte do cineasta sueco Ingmar Bergman (leia mais no blog irmão do Calil, aqui) me pega às voltas com as provocações do crítico cinematográfico José Carlos Avellar – um dos ídolos da minha geração aspirante a uma vaguinha no jornalismo cultural, lá se vai um quarto de século – no recém-lançado “O chão da palavra – cinema e literatura no Brasil” (Rocco, 438 páginas, R$ 48,50).
Além de ser leitura recomendada a todos os interessados em literatura, cinema ou ambos, o livro também deve agradar a quem não se dedica a nenhuma dessas artes em especial, mas sabe apreciar ensaios inteligentes que insistem em sondar as profundezas de tudo aquilo que a cultura contemporânea, com estranha volúpia, garante ser mais superficial e chapado que propaganda de cerveja.
O que o genial Bergman tem a ver com isso? Tudo. Inclusive o fato de não me ocorrer, assim de estalo, um exemplo de cineasta mais literário e cinematográfico ao mesmo tempo.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Uncategorized
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27/07/2007 - 12:11
Uma das maiores dificuldades de ir envelhecendo no jornalismo – meninos, eu vi! – é a inevitabilidade de uma descoberta que a princípio nos choca, mas em seguida vira matéria de tédio profundo: de tempos em tempos, a maior parte da imprensa acaba fazendo exatamente o que tinha feito algum tempo atrás. Igual. E não estamos falando apenas de “textos criativos” sobre a chegada do inverno.
No jornalismo cultural, um tipo especialmente irritante de besteirol periódico é o do “manuscrito de autor consagrado enviado anonimamente para as editoras sem noção e, ora vejam só, rejeitado”. Machado de Assis passou por isso no Brasil há alguns anos. Semana passada foi a vez de Jane Austen na Inglaterra – leia aqui, em inglês.
Como tenho fugido do besteirol periódico – tanto o alheio quanto o meu –, não vou repetir por que acho esse truque jornalístico uma tremenda enganação. Já disse isso aqui.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Uncategorized
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25/07/2007 - 13:35
Qual é o maior problema da literatura brasileira?
( ) Os escritores não sabem escrever.
( ) Os leitores não sabem ler.
( ) Os críticos não sabem criticar.
( ) Os blogueiros se acham escritores.
( ) Os comentaristas de blog se acham críticos.
( ) Os críticos dos comentaristas de blog se acham.
( ) Os críticos dos comentaristas dos críticos dos comentaristas de blog… hã, onde estávamos mesmo?
( ) Ser brasileira demais.
( ) Não ser suficientemente brasileira.
( ) Não ser literatura.
( ) Literatura brasileira? Onde?
( ) Vai ler um livro e não me enche o saco.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sobrescritos, Uncategorized
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24/07/2007 - 19:25
Um prêmio que se vende como capaz de escolher regularmente o melhor livro do ano não pode expor ao público nem os gostos dos seus jurados, nem as falhas do seu processo. Mas se a idéia é, como acredito que sempre seja, simplesmente falar de livros, por que não mostrar o processo por inteiro? Por que não dar voz e espaço a cada jurado para explicar sua escolha? E, se escolher o melhor é estatisticamente impossível, por que não tornar o prêmio mais emocionante com um regulamento em que, como nos torneios esportivos, os livros se enfrentam um ao outro até que reste apenas um?
Essa é a idéia da Copa de Literatura Brasileira. Dezesseis livros se enfrentam em quinze jogos. Cada jogo é decidido por um jurado, que explica e justifica sua decisão para o público. O campeão talvez seja o melhor romance brasileiro do ano, talvez não. Provavelmente não. O importante é que o campeonato seja divertido e o debate, inteligente.
Taí, gostei. Muito antes de ser um dos 16 concorrentes, sou um membro da enorme tribo dos que nunca entenderam por que o Brasil simplesmente não consegue criar prêmios literários – com a possível exceção do Portugal Telecom, mas convém aguardar mais um ou dois anos para ter certeza – que tenham relevância cultural, que não sejam meros joguinhos políticos entre editores e livreiros, que mobilizem leitores. Desejo sucesso e vida longa à divertida idéia que Lucas Murtinho acaba de lançar em seu blog Bom dia, França. A relevância cultural eu não garanto, mas o potencial de barulho parece bom.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Uncategorized
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23/07/2007 - 20:02
Foram os óculos de sol. Os meus começaram a se desmantelar depois que saí do carro e atravessei a rua para visitar um cliente – um pino se soltou e me vi obrigada a ficar de quatro no asfalto, juntando pedaços de armação. Os dele não existiam e foi exatamente a ausência dessa proteção que o cegou momentaneamente quando contornava a esquina com seu caminhão.
Outras teorias, algumas mais científicas, outras mais supersticiosas, surgiram durante semanas, mas de forma alguma elas mudam ou mudarão o fato principal desta história: eu, Carla de Souza Almeida, morri. Aos 30 anos, solteira, com uma carreira promissora pela frente e o péssimo hábito de comprar óculos de sol em liquidação.
Narradores defuntos são um truque literário antigo, mas mesmo assim o par de parágrafos que abre “Depois que acabou” (Editora Gênese, 2003), romance de estréia da escritora santista Daniela Abade, é de tirar o chapéu. Em sua precisão tragicômica, deve ser no mínimo um sério candidato a melhor início de romance da tal “jovem literatura brasileira”. Pouca gente prestou atenção.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Uncategorized
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20/07/2007 - 15:46
O grande escritor siciliano Leonardo Sciascia (1921-1989) andava negligenciado pelas editoras brasileiras há alguns anos. Terá saído de moda a literatura engajada, sempre às voltas com temas políticos, de um escritor que acabaria mesmo se lançando na política partidária – inicialmente pelo PCI e depois pelo Partido Radical? É possível. Quantos leitores jovens saberão sequer que seu sobrenome é pronunciado Xaxa ? Seja como for, essa ausência temporária torna ainda mais digno de comemoração o lançamento do romance “A cada um o seu” (Alfaguara, tradução de Nilson Moulin, R$ 26,90, 136 páginas).
Na superfície, trata-se de uma história policial de leitura compulsiva, curta e seca, imperdível para os fãs do gênero. Mas basta cavar um palmo para encontrar um estudo penetrante e uma denúncia feroz da lógica mafiosa, com sua rede de silêncios, corrupção e violência – tema em que o autor não tem rival. Lançado na Itália em 1966, “A cada um o seu” traz Sciascia em grande forma e em dose concentrada.
A carta chegou com a entrega da tarde. O carteiro apoiou antes no balcão, como de costume, o maço colorido dos folhetos de propaganda; depois, com cuidado, como se houvesse perigo de vê-la explodir, a carta: envelope amarelo, e colado nele um pequeno retângulo branco com o endereço impresso.
– Não gosto desta carta – disse o carteiro.
O farmacêutico ergueu os olhos do jornal, tirou os óculos; perguntou:
– O que foi? – incomodado e curioso.
– Estou dizendo que não gosto desta carta. – No mármore do balcão, empurrou-a com o indicador, lentamente, para o farmacêutico. Sem tocar nela, o farmacêutico inclinou-se para observá-la; levantou-se, voltou a pôr os óculos, observou-a de novo.
– Por que não gosta?
– Foi postada aqui, ontem à noite ou de manhã cedo; e o endereço foi cortado de um papel timbrado da farmácia.
– É – constatou o farmacêutico, e encarou o carteiro, constrangido e inquieto, como se esperasse uma explicação ou uma decisão.
– É uma carta anônima – disse o carteiro.
– Uma carta anônima – repetiu o farmacêutico. Sequer a tinha tocado, mas a carta já lacerava sua vida doméstica, caía como um raio, reduzindo a cinzas uma mulher não bonita, meio opaca, um tanto desmazelada, que, na cozinha, preparava o cabrito que ia pôr no forno para o jantar.
– Aqui, a mania das cartas anônimas não acaba – disse o carteiro. Tinha deixado a bolsa numa cadeira e se apoiado no balcão: aguardava que o farmacêutico decidisse abrir a carta. Ele a entregara intacta, não a abriu antes (com todas as precauções, é claro), confiando na cordialidade e ingenuidade do destinatário: “Se abrir e for um caso de chifre, não vai me dizer nada; mas se for uma ameaça ou coisa diferente, aí ele me mostra.” De qualquer jeito, não ia embora sem saber. Tinha tempo.
– Uma carta anônima para mim? – indagou o farmacêutico, depois de um longo silêncio, pasmo e indignado no tom, mas aterrorizado na aparência. Pálido, olhar perdido, gotas de suor no lábio. E, mais do que a curiosidade vibrante que o paralisava, o carteiro partilhou o estupor e a indignação daquele bom homem, de coração aberto; alguém que, na farmácia, vendia fiado a todos e, no campo, nas terras que recebera como dote da mulher, deixava os camponeses à vontade. Nunca havia escutado, ele, o carteiro, nenhuma maledicência que envolvesse a senhora.
De estalo, o farmacêutico se decidiu: pegou a carta, abriu-a, desdobrou a folha. O carteiro viu aquilo que esperava: uma carta escrita com palavras recortadas de um jornal. Leia mais »
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Primeira mão, Uncategorized
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19/07/2007 - 14:28
O problema de Demóstenes Bastião era que ele escrevia em preto-e-branco. Não num preto-e-branco estiloso ou expressionista. Num preto-e-branco cinza, cinza-e-branco, cinza-e-cinza. Chiadeira das mais invernosas, sua prosa era mais cacete que a palavra “cacete” usada como adjetivo, mais morrinha que um daqueles lençóis de vapor que uma vez por década envelopam o mundo por semanas, meses, sem chover nem sair de cima, até os canários virarem limo e os orgasmos, perebas. Desprovida de quaisquer efeitos poéticos, dramáticos ou cômicos que soassem minimamente autênticos, a prosa de Demóstenes Bastião era sem lustro, sem lastro, sem risco, sem gosto, sem gusto. Nada iluminava, nada movia. Movia-se, só, e penosamente. Era como se desafiasse o leitor a cada advérbio preciosista, a cada contorno de frase corretíssimo e vão: se você não desistir, não espere que desista eu. Renitente, isso não dá para negar que a escrita de Demóstenes Bastião fosse. Feito um vírus combalido que, de uma hora para a outra, ao descuido mais bobo, pode ser mortal. E aqui não se trata de metáfora, infelizmente. Consta que houve mesmo seis ou sete casos funestos. Está certo que o sujeito acabar de ler um livro de Demóstenes Bastião e morrer ali mesmo, olhos vidrados, duro na poltrona, podia ser só uma coincidência, vá lá, da primeira vez. Mas a repetição macabra deveria ter bastado para nos abrir os olhos.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sobrescritos, Uncategorized
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18/07/2007 - 13:12
Corajoso é o experiente jornalista e semelhante meu, a nível de literato, Mario Sabino, chefe do crítico literário Jerônimo Teixeira, ao atrair para si, a nível de chefe de revista burra para consumidores médios de revistas nacionais que se julgam inteligentes, o ressentimento de seus semelhantes literatos, aos quais trata com desprezo monumental, com um grande desprendimento de vaidade, já que possui a coragem de assumir publicamente, a nível de programa inteligente de literatura da televisão, programa que só gente inteligente, a nível de se interessar por literatura, assiste, que ele, o maduro jornalista, o inteligente semelhante meu, a nível de universo literário, é melhor, superior, a todos os seus, dele, do chefe formador da opinião de seus subalternos formadores de opinião com alto poder de penetração nacional, alto poder de viver uma vida legal, vida de formador de opinião, em São Paulo, de noite, assim no inverno, aquele friozinho, aqueles bares legais, um grupo novo de amigos, o crítico literário, lá, desbravando aos poucos as entranhas da grande capital, da cultura multidisciplinar do friozinho de inverno, na noite de São Paulo, aquelas sacadas sobre a literatura, a arte, a morte, os semelhante inferiores, semelhantes literatos. Pô, se o Mario Sabino escreve melhor do que os outros, por que não assumir publicamente essa superioridade?
Os muito graves que me desculpem, mas para a multidão que acha que sem um potin essa vida literária perra não tem nada de fun – traduzindo: que também sem a cachaça, ninguém segura esse rojão –, é uma experiência bem bacana ler o texto de André Sant’Anna no “Rascunho” deste mês. Enxovalhado num artigo publicado há mais de um ano na revista “Veja” pelo jornalista Jerônimo Teixeira, Sant’Anna demonstra acreditar que a vingança é um prato que se come gelado, mas rindo.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Uncategorized
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17/07/2007 - 10:54
E não é que aquele mago quatro-olhos (veja a nota abaixo) ainda é capaz de conjurar boas discussões?
Mas uma pergunta que pode ser respondida sem apelar para o gosto é: a diminuição de horas de leitura por prazer e o poder de atração dos grandes sucessos são mesmo um problema cultural grave? Se eu tivesse que responder agora, diria não. Grave é não saber ler, ser incapaz de decodificar um texto, mas cada vez menos pessoas sofrem desse problema. Passar desse ponto é uma questão de gosto. Leitores fanáticos podemos ficar tristes pela pequena popularidade do nosso passatempo, mas não devemos esquecer que literatura é isso, um passatempo, e que preferir fazer outra coisa não é tão mal assim.
Comentário de Lucas Murtinho — July 17, 2007 @ 9:38 am
Discordo, Lucas: acho um tanto grave sim, embora admita que é difícil sustentar minha tese com argumentos frios. Quem valoriza a leitura – e especialmente a leitura de ficção – como mais que um mero “passatempo” tende a se revoltar contra sua evidente perda de peso cultural por razões, antes de mais nada, irracionais, defensivas, talvez preconceituosas mesmo. Até aí eu concordo. Temos, afinal, o cinema, a música, os videogames, os reality shows, o Imagem & Ação… Por que precisaríamos especificamente de livros?
Reconheço que também sou movido antes de mais nada por aquele desconforto, mas acho mais vantajoso tentar compreender esse sentimento do que rejeitá-lo em bloco. E fico me perguntando se haverá em nossa cultura um substituto à altura para a ficção quando se trata de incentivar o que Amós Oz chamou, na melhor mesa da Flip, de “capacidade de imaginar o outro”.
Será que o escritor israelense estava só vendendo o seu gefilte fish? Ou é mesmo incomparável o poder que tem a literatura de transportar o leitor para qualquer mundo – mundo, aqui, entendido como um ambiente reconstituído com uma riqueza tão “completa” de texturas que faz o cinema parecer um teatrinho de sombras? E o que dizer da sua característica de exigir do leitor uma parcela de imaginação ativa, quase de co-autoria, como nenhum outro meio exige?
Por tudo isso a literatura – especialmente a ficção – seria, segundo Oz, a melhor vacina disponível no estoque da humanidade contra qualquer forma de fanatismo político ou religioso.
Para mim, soa verdadeiro. O problema com tal linha de raciocínio é que, com freqüência, o passo seguinte acaba levando justamente a um certo fanatismo pró-literatura, e à certeza ingênua de que bastam campanhas de incentivo à leitura ou uma geração melhor de escritores para sermos salvos da barbárie ou coisa parecida. E é claro que a tal “crise da leitura” deve ser lida como, ao mesmo tempo, causa, conseqüência e sintoma dentro de um quadro cultural muito maior.
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16/07/2007 - 15:27
Sim, eu sei: o assunto costuma render debates lamentáveis. Lixo para alguns, maravilha para outros, Harry Potter pode ser uma prova cabal do emburrecimento do mundo ou a melhor coisa que acontece para a popularização da leitura desde que Gutenberg inventou sua máquina sujona. Para quem tende a achar que a verdade imprime melhor em meios-tons, essa polêmica já soa vazia há alguns anos. Mais um motivo para ler o artigo (acesso livre, em inglês) que o crítico literário Ron Charles publicou ontem no “Washington Post”. Aproveitando a deixa dada por sua filha de dez anos – que, entediada, lhe pediu que parasse de ler os livros da série para ela –, Charles tenta entender por que os números da indústria editorial e de institutos de pesquisa indicam que não, Harry Potter não está estimulando a leitura de ficção de um modo geral, mas apenas a leitura de… Harry Potter:
Talvez mergulhar o mundo numa orgia histérica de marketing não encoraje o tipo de contemplação, independência e solidão que o verdadeiro envolvimento com livros exige – e recompensa. Deve-se considerar que, com o lançamento de cada novo volume, os leitores de Rowling vêm sendo levados não apenas a surtos mais intensos de entusiasmo, mas também a uma sincronização mais precisa uns com os outros. Por meio de um prodígio de edição moderna, publicidade e distribuição, milhões de pessoas receberão The Deathly Hallows no mesmo dia. Há algo de excitante nesse tipo de unidade, só que ela quase nada tem a ver com o prazer ímpar de ler um romance: aquela oportunidade cada vez mais rara de pular fora de sincronia com o mundo, de experimentar algo íntimo e privado, a sensação de que você e um autor estão conspirando por algumas horas para recriar um lugar por sua própria conta – sem versão para o cinema nem coleção de bonecos. Rowling não tem culpa nisso, mas a febre Potter treina crianças e adultos para esperar a algazarra do coliseu, uma experiência de comunicação de massa que nenhum outro romance tem a menor possibilidade de lhes oferecer.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Uncategorized
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13/07/2007 - 10:07
Antes de designar a venda ilegal de favores por representantes do poder público, corrupção é deterioração, decomposição física, apodrecimento. “Corrupto” vem do latim corruptus, particípio de “corromper”: é o corrompido, o podre, o que se deixou estragar.
Como se vê, nossa linguagem condena a corrupção com uma veemência muito maior do que seria de esperar numa sociedade inclinada a pagar a cerveja do guarda sem pensar duas vezes. Pior: a palavra pode nos induzir ao erro quando dá a entender que a prática é uma espécie de acidente ou queda, desvio lamentável num caminho feito para ser reto e solar. E se ela estiver mais próxima de ser um sistema?
(Este texto, que eu já nem recordava, me abordou cheio de marra agora há pouco, quando eu buscava outra coisa aqui na memória do computador. Compreendo-lhe a ansiedade. Talvez seja mais atual hoje do que quando foi publicado pela primeira vez, pouco mais de dois anos atrás.)
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12/07/2007 - 17:04
Eu sobrevoava com o meu helicóptero os caminhões despejando areia no limite do imenso mar de gelatina verde. Sobrevoei a praia que estava sendo construída e o helicóptero passou sobre o caminhão de gasolina onde um negro experimentava o lança-chamas. Eu falei com o piloto do meu helicóptero apontando o caminhão de gasolina, e o helicóptero fez uma manobra sobre o caminhão-tanque e pousou alguns metros adiante. Eu saltei do helicóptero e gritei para o enorme negro que verificava o lança-chamas: “Hei!” Eu perguntei a ele como estava o lança-chamas para funcionar como coluna de fogo. O preto disse que eu me afastasse alguns metros e ligou o lança-chamas para o alto. O lança-chamas esguichou para cima um jato de fogo e o enorme negro fazia sinais para o homem que controlava a gasolina junto ao carro-tanque. Eu gritei para o negro que estava ótimo, que era exatamente aquilo que eu desejava. O negro foi controlando a saída de gasolina e a enorme nuvem de fogo erguida para cima foi diminuindo até se extinguir. Eu perguntei ao negro se ele sabia onde ele ia se esconder com o lança-chamas. O negro respondeu que o engenheiro já havia construído uma pequena elevação no mar de gelatina verde, e o esconderijo já estava cuidadosamente construído. “E o Burt?”, perguntei. O preto disse que não sabia, quando eu vi surgir do fundo de um edifício um caminhão trazendo Burt Lancaster com duas enormes asas brancas sobre os ombros. O caminhão estacou e eu perguntei: “Tudo bem, Burt?” “Péssimo!…”, respondeu Burt de cima do caminhão, com seus trajes brancos e as duas asas de anjo para cima.
A homenagem póstuma deste blog ao escritor paulistano José Agrippino de Paula (1937-2007), que morreu de enfarte na quarta-feira da semana passada e estaria completando 70 anos nesta sexta, vem na forma do trecho inicial de um brilhante – e rigoroso – delírio pop chamado “PanAmérica”, de 1967 (Editora Papagaio, 3.a edição, 2001).
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11/07/2007 - 20:33
Oficina literária de melhor custo/benefício eu não conheço: comprar num sebo (os preços, na Estante Virtual, começam em R$ 5) um exemplar do livro de contos “A face horrível”, do escritor mineiro Ivan Ângelo (Nova Fronteira, 1986), e ir direto às três últimas histórias, chamadas “Dénouement”, “Entrevero do autor com seu conto” e “Final”.
As três histórias são, de certa forma, uma só. Eis a oficina.
Convém explicar. Como a maior parte dos contos de “A face horrível” foi publicada pela primeira vez na juventude do autor, em 1961, num livro chamado “Duas faces” (em parceria com Silviano Santiago), Ivan Ângelo avisa num curto prefácio que deu uma retocada em todos eles, coisa leve.
O caso de “Dénouement” é o único em que a intervenção do autor maduro foi radical – e, felizmente, feita para todo mundo ver. Primeiro lemos a história como ela foi escrita em 1959. Depois, no “Entrevero…”, o mesmo conto é dissecado impiedosamente, entremeado de anotações críticas em itálico. Por fim, em “Final”, lá está a mesma (?) história, agora em sua versão moderna, sem dúvida superior.
Para quem escreve ou quer escrever ficção a sério, uma delícia de exercício. Talvez a única desvantagem na comparação com as oficinas literárias que andam na moda seja a improbabilidade de se comer alguém dessa forma.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Uncategorized
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09/07/2007 - 15:53
Quando finalmente cheguei a Parati, era fim de tarde de sexta-feira e o trem já ia lá na frente, puxado por uma locomotiva desembestada chamada Will Self, com seu rastro fumegante de gozações agressivas com tudo e com todos, no geral e no particular – da própria literatura ao mediador de sua mesa, Arthur Dapieve, a quem terminou propondo galhofeiramente que tivessem um caso e fugissem para a Amazônia, onde se dedicariam ao esporte nacional de “derrubar árvores”.
Meu amigo Dapi disse ter ficado à vontade com isso – a experiência de contracenar com Marcelo Madureira na TV deixa qualquer um preparado para gozações pesadas – mas a Flip pareceu se dividir diante do anarquismo meta-arrogante da persona maluca que Self criou para si (dizem que é afável na “vida real”). De acordo com uma pesquisa informal que conduzi, o espetáculo selfish divertiu e revoltou o público em partes mais ou menos iguais.
Fiquei com a impressão de ter sido esta a minha maior perda na quinta edição do evento. Sou admirador das sátiras de Will Self – brilhantes nos melhores casos e pelo menos curiosas nos menos felizes – desde que esbarrei com seu livro de estréia em Londres há quinze anos e decidi comprá-lo com base apenas no título excelente, The quantity theory of insanity (“A teoria quantitativa da insanidade”). Ainda é meu Self preferido, mas permanece inédito no Brasil, onde sua literatura, na verdade, nunca pegou. A Geração Editorial tentou por algum tempo e agora é a vez da Objetiva/Alfaguara, que pôs nas prateleiras os romances “Grandes símios” e “Como vivem os mortos”. O recente The Book of Dave é o próximo da fila, mas, como vem ocorrendo também em outros países, ainda não encontrou um tradutor suficientemente masô para enfrentar o desafio de recriar a língua futurista inventada pelo autor. Consta que o tradutor francês desistiu depois de um colapso nervoso.
A conferir: será que o misto de hilaridade e ódio despertado por Will Self na Flip vai finalmente inscrevê-lo na agenda dos leitores brasileiros ou será, pelo contrário, seu beijo da morte?
*
Peguei o bonde andando, pois é – tanto que não me senti à vontade para sair disparando posts em cima do laço. E não podia ter embarcado numa região mais distante do anarquismo niilista de Self. Para mim, a Flip começou com a mesa em que a sul-africana Nadine Gordimer, que já ganhou o Prêmio Nobel, e o israelense Amós Oz, que se houver um pingo de justiça neste mundo ainda o ganhará, mostraram um entrosamento digno de Pelé e Coutinho para protagonizar a mesa que foi considerada por quase todo mundo a melhor, a mais densa, a mais emocionante e a mais “literária” desta Flip. Dentro do pouco que vi, concordo.
Oz leu um trecho de suas memórias, falando do dilema enfrentado por sua família numa Jerusalém ainda ocupada pelos britânicos, no início dos anos 40, entre comprar queijo dos colonos judeus ou de seus vizinhos árabes – dúvida insolúvel em que um argumento a favor de um lado sempre engendrava um contra-argumento igualmente válido, ad infinitum, como num quarto de espelhos. Foi um espanto. Esse pequeno texto de humor político é nada menos que uma peça de gênio. O conflito israelense-palestino cresceu exponencialmente desde a infância do autor, mas de alguma forma já estava tudo ali, em embrião, no prosaico dilema do queijo.
“Durante muitos anos eu achei que tragédia e comédia fossem dois planetas distantes”, disse Oz. “Hoje eu sei que são duas janelas através das quais se descortina a mesma paisagem.”
Saí da Tenda dos Autores feliz, reconciliado – momentaneamente pelo menos – com a idéia de que a ficção ainda pode, sim, ter o peso cultural e a relevância histórica que tinha no tempo de Tolstói. E intrigado com o fato de ainda haver quem descarte a Flip como um passatempo de socialites e deslumbrados, traição mercantilista ao verdadeiro espírito da literatura. Como se fosse o queijo do vizinho numa terra dividida.
*
Antes de Nadine e Oz, o mexicano Guillermo Arriaga, que só vi de passagem no telão da Tenda da Matriz, parece ter se sagrado o campeão de suspiros femininos da festa. O que é estranho. O roteirista do abominável “Babel” me pareceu muito menos espontâneo e desarmado do que seu companheiro de mesa, o americano Dennis Lehane. Enfileirou uma série claramente ensaiada de frases de efeito (sobre a mulher menstruada carregar dentro de si o paradoxo da vida e da morte, além de outras bobagens “sensíveis”). Mais tarde, conversando com Marçal Aquino, o mediador do encontro, ouvi dele uma tese respeitável sobre o sucesso de Arriaga com as moçoilas: “Hoje em dia basta o menor sopro de virilidade para o cara se destacar”.
*
No sábado, a psicanalista Maria Rita Kehl passou o tempo todo tentando deitar no divã o romance de amor “O passado”. Felizmente, seu autor, o articuladíssimo argentino Alan Pauls, soube manter a conversa nos trilhos da literatura. A vontade de ler o catatau de 500 páginas lançado pela Cosac Naify – que vem sendo elogiado por todo mundo que o atravessa – ganhou ainda o impulso do belo e climático trailer do filme inédito de Hector Babenco baseado na obra, que foi exibido antes da mesa.
*
Nessa minha passagem abreviada por Parati, me despedi das mesas no sábado à noite e em grande estilo: vendo e ouvindo o sul-africano/australiano J.M. Coetzee – que, aprendi lá, pronuncia-se Coutsía, vê se pode – ler longos trechos de seu próximo livro, Diary of a bad year. Numa nota aí embaixo, chamada “O melhor da Flip – de graça”, eu tinha sugerido que a antecipação de um excerto do mesmo livro pela “New York Review of Books” tirava parte da graça daquilo que o Nobel de 2003 apresentaria em Parati. Estava enganado.
Sim, houve quem saísse irritado com o formato da apresentação, inédito na história da Flip: sozinho no palco, em pé diante de uma tribuna de madeira escura e vestido como um agente funerário, Coetzee limitou-se a falar durante um ou dois minutos do livro, nada além do suficiente para contextualizar aquilo que leria em seguida – em sua maior parte, trechos diferentes e melhores do que os antecipados pela “NYRB”. Terminada a leitura, virou as costas e deixou o palco. Nenhuma pergunta, nenhuma resposta. Nenhum sorriso.
Quem considerou aquilo um insulto à honra pátria, quase uma versão literária do “Welcome to the Congo” daquele idiota americano – sim, houve gente nesse caso –, deixou de levar em conta algumas coisas a meu ver fundamentais. Primeiro: fora anunciado exaustivamente que a apresentação seria assim. Segundo: o formato que para nós parece o cúmulo da antipatia tem tradição em países de língua inglesa; quem se lembra da cena de “Capote” em que um Truman de terno preto – como o de Coetzee, aliás – lê seu ainda inédito “A sangue frio” de cabo a rabo num teatro? E terceiro: que importância teria saber se Coetzee costuma escrever antes ou depois de escovar os dentes de manhã, se usa esferográfica, Olivetti ou computador, de onde “tira suas idéias” ou qualquer dessas bobagens flipescas – que relevância teria isso diante da prosa de acachapante qualidade que ele apresentou com dicção perfeita e uma sobriedade sob medida, que apenas quem não conhece a contenção de suas frases, provavelmente as mais secas e energéticas da literatura contemporânea, poderia confundir com falta de talento dramático?
Pela segunda noite consecutiva saí da Tenda dos Autores feliz, embora, dessa vez, bem mais apressado. Havia aproximadamente cento e setenta pessoas por metro quadrado em Parati no sábado, o que agravava o drama dos restaurantes permanentemente lotados a tal ponto que jantar depois da meia-noite já começava a parecer uma perspectiva razoável.
Felizmente, um casal de amigos tinha achado a apresentação de Coetzee uma chatice e saído no meio. Fazia algum tempo que estavam acomodados numa mesinha do belo restaurante tailandês da cidade, à qual, gentis, me cederam um canto. Se eles não tivessem implicado com Coetzee, eu, que almoçara muito mal, teria provavelmente desmaido de fome e rachado a cabeça naquele calçamento hostil antes que as filas terminassem de se dissipar.
Ainda bem que esse negócio de literatura é subjetivo às pampas.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Uncategorized
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