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“Então me digam que metáfora do solitário, pungente,
imaginoso ofício de escrever pode, nesta vida cachorra,
superar o velho ‘manutigium’?” CECILIO GIOVENAZZI

25/06/2007 - 15:42

Finais inesquecíveis

O NoMínimo vira história – em todos os sentidos – dentro de poucos dias, mas a frase de Tom Stoppard não está aí em cima por acaso. O Todoprosa ficará no ar. Aguardem notícias de seu novo paradeiro.

Não gosto de choradeira (não em público, pelo menos), mas não custa tentar corrigir algumas distorções na reta final. No fim de semana, pensando nesta etapa que se encerra, me ocorreu o desequilíbrio gritante em que o blog incorreu. Sabemos que o mundo é feito de tal forma que o número de começos, no fim das contas, é sempre exatamente igual ao número de fins. Por definição. Se não é igual, é porque o “fim das contas” ainda não chegou.

Traduzindo: depois de tantos Começos Inesquecíveis, me ocorreu o tamanho da dívida de Finais Inesquecíveis que acumulei. Tento saldar parte dela agora, enquanto é tempo. Com algum atropelo e, naturalmente, sem pretender fazer uma lista de “melhores” – como nunca foi a intenção dos Começos Inesquecíveis, aliás –, aí vai uma pequena antologia descaradamente impressionista. No mínimo, ficamos no clima da semana.

Alguns finais são melancólicos:

E assim prosseguimos, barcos contra a corrente, arrastados incessantemente para o passado.

(F. Scott Fitzgerald, “O grande Gatsby”)

Outros gelam a espinha:

Mas, de pé no quarto já quase totalmente escuro, verifiquei que Ana Meneses não existia mais. Inclinei-me para cerrar-lhe as pálpebras e, não sei, julguei perceber que no seu semblante não havia nenhum sinal dessa paz que é tão peculiar aos mortos.

(Lúcio Cardoso, “Crônica da casa assassinada”)

Há os apocalípticos:

No momento em que os seus últimos representantes vão desaparecer, achamos legítimo render à humanidade esta última homenagem; homenagem que também acabará por apagar-se e perder-se nas areias do tempo; deve-se, entretanto, ao menos uma vez, fazê-la. Este livro é dedicado ao homem.

(Michel Houellebecq, “Partículas elementares”)

Haverá uma explosão enorme que ninguém ouvirá, e a Terra, retornando à sua forma original de nebulosa, errará pelos céus, livre dos parasitas e das enfermidades.

(Italo Svevo, “A consciência de Zeno”)

Os metafísicos:

Caminhou contra as línguas de fogo. Elas não morderam sua carne, elas o acariciaram e o inundaram sem calor e sem combustão. Com alívio, com humilhação, com terror, compreendeu que ele também era uma aparência, que outro o estava sonhando.

(Jorge Luis Borges, “As ruínas circulares”)

Também os tristes, mas esperançosos:

Encerro hoje, aqui, este volume malfadado do meu Diário. Não posso imaginar volume pior, com a morte da camarada Camila!

Quero que amanhã, um dia qualquer, sem nada de especial, assinale o começo de nova vida para mim.

São quatro horas da tarde.

O dia continua frio, mas firme de tempo.

(Carlos Sussekind, “Que pensam vocês que ele fez”)

Os luminosos:

E a mulher amada, de quem eu já sorvera o leite, me deu de beber a água com que havia lavado sua blusa.

(Chico Buarque, “Budapeste”)

E a vida que segue, lambona, deliciosa:

– Sh, sh! – disse ela, e botando a língua para fora me lambeu o rosto. – Criaturinha querida, adorável!

– Au, au! Au, au! – lati. – Au! Au, au, au!

(Henry Miller, “Sexus”)

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts Tags:

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88 comentários para “Finais inesquecíveis”

  1. HRP disse:

    Nunca escrevi aqui, sou lá dos lados do Fiúza, mas hoje venho a esse blog conceituado deixar minha triteza expressa e pedir a turma que não deixe o Nominimo acabar!
    Um grande abraço e ficarei na expectativa de para aonde vão esses blogs maravilhosos….

  2. “…Mas, ao terminar este livro com a incômoda sensação de que tenho de deixar o meu leitor no ar, e não vendo maneira de evitar o mal, percorri com os olhos do espírito esta minha longa narrativa, a ver se poderia ter inventado melhor fim, e com surpresa verifiquei que sem a menor intenção, eu não escrevera nada mais nada menos que uma história de sucessos. Sim, pois todas as pessoas de quem me ocupei conseguiram o que almejaram… E, por mais desdenhosas que sejam as críticas dos intelectuais, nós o público, no fundo do coração amamos uma história que, acaba bem. Donde se conclui que talvez o meu final não seja assim tão pouco satisfatório.”
    ( Somerset Maugham – O fio da navalha)

    Um abraço e aguardo o novo endereço.

  3. Mr. WRITER disse:

    Alguém lá em cima falou de “O castelo”…
    Excelente final… muito bom meso… aquele vazio, aquela ausência de ponto… impressionante… Aquela frase “mas o que ela disse” assim seca, sem nada após deixa um dos maiores vácuos da literatura universal. Kafka era um gênio…

  4. Te disse:

    Que bom, Saint-Clair! Eu também vou com minha malinha literária pro novo blog. Nos vemos lá! Como disseram acima, não vamos nos dispersar!

  5. HRP disse:

    Leia em http://www.bluebus.com.br
    O Nominimo pode não acabar!
    Parceria Unibanco/Nominimo+ Estadão pode dar certo e continuaremos com este espaço!
    Bom dia!

  6. Aaaaaaaaaaaaaaah, bem que eu estava desconfiado que essa choradeira toda era meio jogo-de-cena.

    O que me deixa triste nisso tudo é que nesse país o que não tem dinheiro da Família Marinho tem dinheiro da Família Moreira Salles (não é Companhia das Letras?) Mas se for esse o preço a pagar pra continuar tendo o NoMínimo, vou relaxar e gozar! (Valeu Ministra Martha!)

  7. monica maia disse:

    Deixo meu registro do desalento diante da despedida de No.mínimo. Mas festejo a notícia de que nosso Todo Prosa e sua brava equipe de comentadores se reunem em breve, em algum lugar do futuro…
    Aquele abraço, Sergio!
    Monica Maia

  8. Cássia Salles disse:

    O Jardim dos Finzi-Contini tem, em minha opinião, o segundo (*) melhor final de todos os tempos:
    “O certo é que, quase pressentindo o fim próximo, seu e de sua família, Micòl sempre repetia, também a Malnate, que ela não dava a menor importância ao futuro democrático e social dele, que o futuro, em si mesmo, a aborrecia, preferindo muito mais ‘le vierge, lê vivace et lê bel aujourd’hui’, e o passado ainda mais, ‘o caro, o doce, o sagrado passado’.
    E já que estas, eu sei, não eram mais que palavras, as mesmas palavras enganadoras e desesperadas que apenas um verdadeiro beijo poderia impedi-la de proferi-las, com elas, portanto, e não com outras, seja aqui concluído o pouco que o coração soube recordar.”
    __________________________________

    (*) O melhor final de todos ainda não foi publicado: será o último post do Todoprosa no nomínimo, aposto todas as minhas fichas nisso. Alguém discorda?

  9. Cássia Salles disse:

    “Une immobilité fait d’inquietude” (*): é como me sentí ao terminar de ler o Jardim dos Finzi-Contini e como me sinto diante do fim próximo do nomínimo.
    ________________________________
    (*) Não me lembro o autor da frase, alguém saberia?

  10. Vivi disse:

    Esse clima de despedida está me entristecendo muito.
    Que bom que, pelo menos, o Todo Prosa não termina aqui.
    Ficarei atenta para acompanhar as novas aventuras dos meus colunistas preferidos. Espero não perder o rumo de ninguém.

  11. Gostei da lembrança do Borges, mas estranhei a ausência do final dos Buendía, em Cem anos de Solidão.

  12. Renato Gonçalves disse:

    Aqui jaz NoMínimo.
    Existem raras coisas que nunca poderiam acabar, este blog é um deles.
    Deixa viúvas e filho órfãos das idéias aqui descritas e comentadas.
    Como realmente não existe “viveram felizes para sempre” fica aqui um “foi bom enquanto durou.”

  13. Uma amiga portuguesa acaba de me avisar que morreu o poeta Bruno Tolentino…

  14. nominimon. ligado.

  15. Daniel Brazil disse:

    Se a memória não me falha, Salinger encerra o Apanhador no Campo de Centeio dizendo que mal acabamos de falar com as pessoas (ou será sobre?), sentimos saudades delas.
    Alguém tem o livro aí à mão, para uma transcrição exata? Me parece apropriado.

  16. Paula disse:

    Belo trabalho realizado.
    :)

  17. Paula disse:

    Belo trabalho realizado.
    :)

  18. fat james disse:

    A frase “Une immobilité fait d’inquietude” é de Victor Hugo, Cássia.

  19. Cássia Sales disse:

    Agradecida, Fat James

  20. joao gomes disse:

    Para Réquiem

    Um final inesquecível de: Assim Falava Isabel Habsburgs

    Então uma noite no programa da TV Educativa (estatal) Isabel Habsburgs fez um discurso inflamado reconhecendo a resistência, defendendo os princípios de reforma social e econômica. Afirmou “que a humanidade havia passado de um sistema político corporativo e estreitamente vinculado ao clã para a dominação do poder da força ou violência; seguindo pela fase do poder ideológico por excelência sob os tentáculos da religião e agora pela dominância dos negociadores globais e empresários das organizações de alta tecnologia e mass media. Por fim declarou que era necessário dar corda ao relógio porque ele havia parado… entre 2000 e 2050 nós perdemos o rumo…”

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