Finais inesquecíveis
O NoMínimo vira história – em todos os sentidos – dentro de poucos dias, mas a frase de Tom Stoppard não está aí em cima por acaso. O Todoprosa ficará no ar. Aguardem notícias de seu novo paradeiro.
Não gosto de choradeira (não em público, pelo menos), mas não custa tentar corrigir algumas distorções na reta final. No fim de semana, pensando nesta etapa que se encerra, me ocorreu o desequilíbrio gritante em que o blog incorreu. Sabemos que o mundo é feito de tal forma que o número de começos, no fim das contas, é sempre exatamente igual ao número de fins. Por definição. Se não é igual, é porque o “fim das contas” ainda não chegou.
Traduzindo: depois de tantos Começos Inesquecíveis, me ocorreu o tamanho da dívida de Finais Inesquecíveis que acumulei. Tento saldar parte dela agora, enquanto é tempo. Com algum atropelo e, naturalmente, sem pretender fazer uma lista de “melhores” – como nunca foi a intenção dos Começos Inesquecíveis, aliás –, aí vai uma pequena antologia descaradamente impressionista. No mínimo, ficamos no clima da semana.
Alguns finais são melancólicos:
E assim prosseguimos, barcos contra a corrente, arrastados incessantemente para o passado.
(F. Scott Fitzgerald, “O grande Gatsby”)
Outros gelam a espinha:
Mas, de pé no quarto já quase totalmente escuro, verifiquei que Ana Meneses não existia mais. Inclinei-me para cerrar-lhe as pálpebras e, não sei, julguei perceber que no seu semblante não havia nenhum sinal dessa paz que é tão peculiar aos mortos.
(Lúcio Cardoso, “Crônica da casa assassinada”)
Há os apocalípticos:
No momento em que os seus últimos representantes vão desaparecer, achamos legítimo render à humanidade esta última homenagem; homenagem que também acabará por apagar-se e perder-se nas areias do tempo; deve-se, entretanto, ao menos uma vez, fazê-la. Este livro é dedicado ao homem.
(Michel Houellebecq, “Partículas elementares”)
Haverá uma explosão enorme que ninguém ouvirá, e a Terra, retornando à sua forma original de nebulosa, errará pelos céus, livre dos parasitas e das enfermidades.
(Italo Svevo, “A consciência de Zeno”)
Os metafísicos:
Caminhou contra as línguas de fogo. Elas não morderam sua carne, elas o acariciaram e o inundaram sem calor e sem combustão. Com alívio, com humilhação, com terror, compreendeu que ele também era uma aparência, que outro o estava sonhando.
(Jorge Luis Borges, “As ruínas circulares”)
Também os tristes, mas esperançosos:
Encerro hoje, aqui, este volume malfadado do meu Diário. Não posso imaginar volume pior, com a morte da camarada Camila!
Quero que amanhã, um dia qualquer, sem nada de especial, assinale o começo de nova vida para mim.
São quatro horas da tarde.
O dia continua frio, mas firme de tempo.
(Carlos Sussekind, “Que pensam vocês que ele fez”)
Os luminosos:
E a mulher amada, de quem eu já sorvera o leite, me deu de beber a água com que havia lavado sua blusa.
(Chico Buarque, “Budapeste”)
E a vida que segue, lambona, deliciosa:
– Sh, sh! – disse ela, e botando a língua para fora me lambeu o rosto. – Criaturinha querida, adorável!
– Au, au! Au, au! – lati. – Au! Au, au, au!
(Henry Miller, “Sexus”)
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts Tags:
Morte de Bruno Tolentino
http://jbonline.terra.com.br/extra/2007/06/27/e270623752.html
Sérgio, sei que o assunto aqui é prosa, mas a morte do gigante Bruno Tolentino não pode passar em branco num blog de tão elevado jaez.
E segue o clima de despedida, menos um nos que já eram tão poucos. Segue um belo final para tudo: amor, vida, esperança…
“Eu sinto o tempo crestando
em sua fogueira fria
aquela dor que doía
e agora já não dói tanto”
Bruno Tolentino
Não passa em branco, Clélio, mesmo porque leitores como você e o matador, a quem agradeço o link, não deixam. É uma grande perda o Tolentino.
Hilário esse link do JB Online sobre a morte do Bruno Tolentino. Senão, vejamos:
“Apesar de ser conhecido por sua poesia, Tolentino também foi jornalista, professor e polemista.” Qua qua qua qua, então polemista é profissão?
Continua:
“Nascido em 12 de novembro de 1940, em uma tradicional família carioca, desde criança conviveu com intelectuais e escritores, aprendendo a falar inglês e francês com fluência. Em 1964, com o golpe militar, foi viver na Europa. Na Inglaterra, Bruno ocupou o cargo de professor nas Universidades de Oxford e Essex. Em 1987, sob a acusação de tráfico de drogas, foi condenado a 11 anos de prisão. Durante 22 meses cumpriu sentença em Dartmoor. Retornou ao Brasil em 1993, causando grande barulho com ataques tanto ao concretismo – em especial, os irmãos Campos, Haroldo e Augusto – como a letristas da MPB como Chico Buarque e Caetano Veloso.”
Barra-pesa o Tolentino, não? De professor em Oxford & Essex a traficante perigoso num átimo! E que audácia! Justo na terra de Nossa Majestade Santíssima, a Elizabeth (Segunda).
Tolentino? (Risos)
A maior fraude da literatura brasileira contemporânea. Chegou ao Brasil contando vantagem: que era famosíssimo na Europa, elogiado por Starobinski e o caralho, mas basta ir ao Google que a verdade aparece: NENHUMA ocorrência do seu nome em qualquer site que não seja brasileiro. Piada!
Uma antiga professora minha o conheceu na Inglaterra, quando ele era ALUNO em Essex (nunca professor). Segundo ela, passava os dias bêbado, não estudava nada.
Outro final que não pode ser esquecido:
“O vento uiva, fazendo matraquear as vidraças. Bibiana Terra Cambará sorri, leva o indicador aos lábios, como a pedir silêncio, e, estendendo a mão na direção da janela, sussurra:
- Está ouvindo?”
Erico Verissimo – “O Continente” – 1a. parte de “O TEmpo e o Vento”
Outro final que não pode ser esquecido:
“O vento uiva, fazendo matraquear as vidraças. Bibiana Terra Cambará sorri, leva o indicador aos lábios, como a pedir silêncio, e, estendendo a mão na direção da janela, sussurra:
- Está ouvindo?”
Erico Verissimo – “O Continente” – 1a. parte de “O TEmpo e o Vento”
Gustavo, o Tolentino era presepeiro à beça mesmo. Ainda assim, era bom poeta (embora eu não o considere um “gigante”, como o clelio), culto e uma figura engraçadíssima. O tipo de gente de quem valia a pena discordar.