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“Rasgar contos é algo irremediável, porque escrevê-los é como
despejar concreto. Em compensação, escrever um romance é
como colar ladrilhos. Isso quer dizer que se um conto não se
consolida na primeira tentativa é melhor não insistir. Um romance
é mais fácil: volta-se a começar.” GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ

Arquivo de maio, 2007

31/05/2007 - 14:42

Auto-ajuda para escritores

Este vídeo ensina a escrever O Grande Romance Americano.

Com óbvias adaptações, funciona também para quem quiser escrever O Grande Romance Brasileiro.

Se é que alguém ainda quer.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts Tags:
29/05/2007 - 17:03

África em Madri

A 66a Feira do Livro de Madri, inaugurada na última sexta-feira, é dedicada à literatura africana, definitivamente a bola da vez – não em vendas, mas em badalação crítica – no mercado internacional. A edição de sábado passado do caderno Babelia, suplemento literário do jornal “El Pais”, se debruça sobre o tema e traz uma lista de “clássicos (africanos) contemporâneos” que inclui dois autores de língua portuguesa: o angolano Pepetela e o moçambicano Mia Couto, que estará na próxima Flip. (Favor desconsiderar o erro de digitação do jornal, que transformou o último em Mia Coute.)

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts Tags:
28/05/2007 - 22:00

Sai a programação completa da Flip

Saiu a programação completa da Festa Literária Internacional de Parati, que a cidade histórica do litoral fluminense vai sediar de 4 a 8 de julho – baixe a grade em pdf aqui. A programação também estará disponível, juntamente com outras informações sobre os autores, a partir desta terça-feira no site oficial do evento.

Entre as atrações nacionais – pálidas diante do bom elenco de estrelas estrangeiras, já comentado aqui e aqui –, o destaque é a mesa “A vida como ela foi”, inspirada pela recente polêmica sobre a biografia censurada de Roberto Carlos. O autor do livro que o cantor mandou recolher das livrarias, Paulo César de Araújo, terá ao seu lado dois biógrafos de peso, Ruy Castro e Fernando Morais.

Os ingressos (R$ 20 para a Tenda dos Autores e R$ 6 para a Tenda da Matriz) começam a ser vendidos no dia 4 de junho às 9h pela internet e nos pontos de venda da Ingresso Rápido.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts Tags:
27/05/2007 - 17:47

Bog

The Bogus Writer inspeciona as fotos sobre sua mesa de trabalho, imagens de um preto-e-branco granulado e vagamente difuso, como se tivesse baixado uma neblina diante da lente do fotógrafo no momento em que ele, The Bogus Writer, posava contra o muro pichado do centro da cidade com seu ar de tédio, sua gola rulê, seu Gauloise camusiano. As imagens são bonitas, claro. Mas não seriam, o horror, o horror – bonitinhas? No relevo de sua testa alta, billboard semifamoso de uma inteligência superior, franzida neste momento em ondinhas ligeiramente trêmulas, percebe-se que Bog (para os íntimos) não está feliz. Uma dúvida o tortura: e se aquele visual pós-existencialista estiver ficando out-of-date? Solta um suspiro impaciente, atira as fotos sobre a mesa com violência e acende um Marlboro. Na megatela de sua imaginação prodigiosa se vê, imagem difusa, suspirando impaciente e atirando as fotos sobre a mesa com violência, para em seguida acender um – bom, um Gauloise, claro. Pequenas correções desse tipo são a alma do negócio. O cérebro de Bog trabalha atarefado e stacatto, como uma fábrica art déco num poema futurista. Uma nova sessão de fotos com Mika encareceria demais os custos de produção do livro? Atrasaria o lançamento? Irritaria a editora? E se, em vez de Mika, ele se contentasse com um fotógrafo menos cultuado? Ah, mas isso no, non & nein. Atraso, sim; barateamento estético, jamais. Seria la mort annoncée, como disse, às vésperas daquela batalha napoleônica – quem mesmo? Precisava checar no Google. Uma vez aberto o site de busca, porém, The Bogus Writer acaba por se distrair. Encontra na memória do computador a última consulta que fez ontem à noite: “Toshiro Ito”, páginas em português. Decide repetir a busca. O resultado demora dois segundos a aparecer. Logo no alto da tela, como temia, TBW encontra a péssima notícia: Toshiro Ito, o príncipe ultragay do movimento Animal Evisceration e dos minicontos canibalísticos, adolescente genial que há três meses tomou de assalto o submundo de Tóquio, essa peça rara e supostamente intragável acaba de ganhar mais um elogio na imprensa burguesa brasileira, esta manhã. Uma onda de ódio sobe ao rosto de Bog, que apaga com fúria seu Marlboro no cinzeiro em forma de penico. Absurdo, absurdo, repete baixinho, apertando os dentes. Com este, são três os elogios que a dita grande imprensa, hoje uma coisa desgovernada, totalmente perdida em sua decadência inexorável, são três os elogios – e elogios luxuosos, caprichados – que Toshiro Ito amealha neste paisinho de bosta. Ou seja: seguindo o princípio que estabeleceu para si mesmo há anos, Bog, que até este momento foi um empolgado porta-voz extra-oficial de Ito no Brasil, será obrigado a nunca mais tocar no nome do rapaz em público. Ou, se tocar, precisará compor meticulosamente aquela máscara de lábio superior retorcido que todo escritor digno deste nome dedica aos coitados que o público em geral aprendeu a admirar. Eis o primeiro mandamento do Supercool Writer’s Decalogue, a cartilha seminal de Otto Bax, o berlinense suicida. Que, pelo menos este, nunca foi citado na grande imprensa brasileira – nem tudo está perdido. Bog acende outro Marlboro-Gauloise e pega de novo a pilha de fotos em que fumega o Gauloise verdadeiro. Então, pela primeira vez hoje, sorri. Quem disse que seria uma vida fácil?

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sobrescritos Tags:
26/05/2007 - 00:01

Rafael Cardoso: ‘Entre as mulheres’

Se é um romance ou uma coleção de contos o livro “Entre as mulheres‘’ (Record, 256 páginas, R$ 35), de Rafael Cardoso, caberá ao leitor decidir. (Quem quiser pode aproveitar o momento interativo e decidir também se é de bom ou mau gosto essa capa que explica a piada, por assim dizer, praticamente abolindo a ambigüidade do título.) Aqui no meu canto, não acredito que seja importante chegar a uma definição sobre o gênero para ter prazer na leitura desses 16 perfis femininos traçados com sensibilidade – mas sem frescura – e uma sobriedade narrativa que evita toda pirotecnia, toda reinvenção da roda, para confiar apenas no poder das histórias que estão sendo contadas sob rubricas que mantêm o mesmo padrão: um nome de mulher, uma idade, um bairro carioca. Sim, além de uma declaração de amor às mulheres, Cardoso – que lançou pela mesma editora “A maneira negra” e “Controle remoto” – faz uma declaração de amor ao Rio de Janeiro. Os contos ameaçam se tornar um romance por meio de cruzamentos ocasionais entre as histórias, principalmente aqueles promovidos pelo personagem Rafael, homônimo do autor. Não me parece que isso seja o bastante para caracterizar um romance, mas não importa. Continuam valendo histórias como a de “Jamilly, Copacabana, 25”, da qual foi tirado o trecho abaixo:

O guichê da Pluma era o de número 64, e a passagem para Santo Ângelo saía a R$146,68. Isso, fazendo o roteiro Rio de Janeiro-Uruguaiana, passando antes por União da Vitória, Concórdia, Erechim, Passo Fundo, Carazinho e Ijuí. Talvez fosse até mais rápido um semileito direto para Porto Alegre, mas aí teria que pegar outro ônibus lá. Além do mais, só o trecho Rio-Porto Alegre sairia quase cinqüenta reais mais caro pela Penha. Cinqüenta reais era um boquete avulso. De jeito nenhum ela ia dar um boquete, assim de graça, para uma companhia de ônibus qualquer. Dinheiro suado, aquele! Não que ela precisasse fazer economia. Não mais. Graças a Deus. Mas não dava para ficar gastando à toa. O dinheiro guardado tinha destino certo: a casa que ela ia comprar. Própria. Sua casinha, onde havia passado a primeira infância em Santo Ângelo, antes do exílio. Antes da morte dos pais biológicos.

Na hora de preencher a ficha de embarque, por pouco não principiou a escrever “Jamilly” na linha nome do passageiro. Que engraçado, logo agora que finalmente se habituara àquele nome ridículo, não iria usá-lo mais. Era que nem horário de verão, ela pensou: quando a gente acostuma, acaba. O nome havia sido herança de uma outra Jamilly, que a antecedera no apartamento. Agora, tinha ficado para trás, em Copacabana, para a próxima que tomasse seu lugar. Seria para sempre o nome secreto de sua porção carioca, ponderou. Maria Eduarda Rossi de Araújo, escreveu, com a letra meticulosa e firme de quem só pega em caneta para anotar recado. Achou estranho ver seu nome escrito assim. Há muito tempo não se pensava como Maria Eduarda. Duda, para os amigos e familiares, que em breve reencontraria na fria madrugada gaúcha, entre as lágrimas culposas da mãe adotiva e o abraço seco do canalha que se fingia de pai. De quem ela continuava querendo distância, mesmo depois de tanto tempo. Em breve, estariam todos juntos, celebrando o Natal. Sim, os estupradores também comemoram as datas festivas.

Passou um homem junto dela e esbarrou com força no seu braço. Virou-se desequilibrada, esperando um pedido de desculpas, mas só encontrou um sorriso de deboche e um olhar velhaco, os quais sumiram rapidamente em seguida na multidão. Quem teria sido? Ele, pelo menos, a reconhecera. O rosto não lhe era totalmente estranho, mas ela costumava evitar olhar muito para o rosto deles. Era uma estratégia de sobrevivência que aprendera logo de início. Quanto menos se encarava o bicho nos olhos, menos se sofria com o resto. Pensando bem, não era verdade que a Jamilly tivesse ficado em Copacabana. Continuava ali, junto dela, naquela luminosidade fluorescente da Rodoviária Novo Rio, como uma alma penada que se recusava a desencarnar. Não via a hora de subir no ônibus e se livrar de vez desse visgo. Ainda faltavam vinte e cinco minutos até à hora da partida. Tudo bem, ela continuaria a ser Jamilly por mais vinte e cinco minutos. Não ia morrer por causa disso. Depois, se daria ao luxo simbólico de sacudir a poeira dos tênis antes de embarcar no carro que a levaria de volta ao futuro perdido. Leia mais »

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Primeira mão Tags:
24/05/2007 - 17:44

Clarice x Carlinhos & outros embates

No dia em que Clarice Lispector e José Carlos Oliveira quase saíram no tapa na mesa do Antônio’s, a grande escritora entrevistava o cronista para a “Fatos & Fotos: Gente”, revista que, como fizera com a “Manchete” de 1968 a 1969, ela alimentou de entrevistas com artistas, escritores e esportistas brasileiros de dezembro de 1976 a outubro de 1977, para defender uns trocados. No entanto, pouca gente no lendário restaurante boêmio do Leblon deve ter percebido o que acontecia naquela mesa: perguntas e respostas eram disparadas de um lado a outro em atarefado silêncio, rabiscadas numa folha de papel. Clarice estava gripada. Carlinhos ia jantar. Com sua agressividade cultivada e famosa, o cronista do “Jornal do Brasil” enchia suas respostas de palavrões, magoando Clarice, que anotaria mais tarde: “Acho que Carlinhos continuava a me desafiar escrevendo na folha de papel expressões que ele próprio não usa nas suas crônicas. Mas a mim tanto se me faz”. A certa altura, depois de afirmar que “fazer sucesso é chegar ao mais baixo do fracasso, é sem querer cortar a vida em dois e ver o sangue correr”, Clarice emenda, conciliadora: “Nós dois, Carlinhos, nos gostamos um do outro, mas falamos palavras diversas”. É quando tudo azeda de vez:

CARLINHOS: Falamos linguagem diversa, é verdade. Eu prefiro ser feliz na rua a “cortar a vida em dois”.

CLARICE: E eu prefiro tudo; entendeu? Não quero perder nada, não quero sequer a escolha. Mas me fale de seus planos, José Carlos.

CARLINHOS: Você prefere inclusive ser uma grande escritora. Mas eu renunciei há muito tempo a essa vaidade. Quero comer, beber, fazer amor e morrer. Não me considero responsável pela literatura.

CLARICE: Nem eu, meu caro. E estou vendo a hora em que começaremos, dentro de toda a amizade, a brigar. Também posso lhe dizer que se viver é beber no Antônio’s, isso é pouco para mim. Quero mais porque minha sede é maior que a sua.

CARLINHOS: Evidentemente.

CLARICE: Eu gosto muito de você, Carlinhos.

CARLINHOS: Mas aqui não estávamos falando de amizade, e sim mostrando que uma escritora como Clarice Lispector, em vez de comer e beber comigo, tem que pensar em entrevistas para poder sobreviver. É por isso que eu digo: devemos jogar uma bomba atômica na Academia Brasileira de Letras.

Gosto especialmente de “se viver é beber no Antônio’s, isso é pouco para mim”. Sabia bater para machucar, a Clarice. A cena traduz com uma nitidez de cortar o coração a atmosfera de um tempo, um ambiente, um clima da cultura brasileira que hoje parecem pré-históricos. Profundamente datada na licença que a ditadura dava aos “contestadores” para pavonear suas arestas e demais inconveniências no atacado, aquela época pré-marqueteira era também de um despojamento e de uma singeleza que permitiam a Clarice Lispector, já um monstro da literatura, se expor como repórter de uma precursora da “Caras” e conduzir as entrevistas mais anarquizantes de qualquer figurino jornalístico que já encontrei – aí incluídos os famosos bate-papos do “Pasquim”. Tudo isso torna imperdível o livro “Clarice Lispector – Entrevistas” (Rocco, 232 páginas, R$ 29), coletânea de 42 entrevistas, 19 delas inéditas em livro – 23 já tinham sido publicadas no volume “De corpo inteiro” (Rocco, 1999).

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts Tags:
23/05/2007 - 20:26

Começos inesquecíveis: Albert Camus

Hoje, mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: “Sua mãe faleceu. Enterro amanhã. Sentidos pêsames”. Isso não esclarece nada. Talvez tenha sido ontem.

O Todoprosa completou um ano no início deste mês e paga agora uma dívida que tem a mesma idade: foi nas férias, pensando na vida, que me ocorreu o absurdo (palavrinha apropriada) de ainda não ter publicado nesta seção o primeiro parágrafo de “O estrangeiro” (Record, tradução de Valerie Rumjanek), novela lançada em 1957 pelo escritor franco-argelino Albert Camus (1913-1960). Parece que todo esse atraso teve algo a ver com a determinação de fugir do óbvio ou coisa parecida. Desculpa porca. Mais do que proporcionar ao leitor um começo realmente inesquecível, o narrador Mersault, ao anunciar a morte de sua mãe em tom tão frio, está escrevendo a epígrafe de uma época que ainda é a nossa.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts Tags:
22/05/2007 - 18:52

A sombra de Tanizaki

Escrevo (…) estas coisas por ter a impressão de que em algum lugar, quem sabe no campo da literatura ou das artes, resta-nos um caminho capaz de invalidar as já referidas desvantagens. Eu mesmo quero chamar de volta, pelo menos ao campo literário, esse mundo de sombras que estamos prestes a perder. No santuário da Literatura, eu projetaria um beiral amplo, pintaria as paredes de cores sombrias, enfurnaria nas trevas tudo que se destacasse em demasia e eliminaria enfeites desnecessários. Não é preciso uma rua inteira de casas semelhantes, mas que mal faria se existisse ao menos uma construção com essas características? E agora vamos apagar as luzes elétricas para ver como fica.

Eu nunca tinha lido o escritor japonês Junichiro Tanizaki (1886-1965) quando o encontrei no papel de personagem – e talvez um pouco mais do que isso – do bom “O sol se põe em São Paulo”, de Bernardo Carvalho (leia trecho aqui). Mas o ensaio “Em louvor da sombra”, que acaba de sair (Companhia das Letras, tradução de Leiko Gotoda, 72 páginas, R$ 27), me deu a certeza de estar dormindo no ponto. O livrinho, escrito em 1933, é um delicioso – e, paradoxalmente, luminoso – elogio das sombras, valorizadas na cultura oriental de uma forma que o Ocidente, com sua inclinação pelo brilho e pelas transparências, nunca compreendeu nem compreenderá.

Bem diferente da escuridão do “Elogio da sombra” de Jorge Luis Borges, que é reveladora por levar o poeta cego a mergulhar em sua própria alma, a de Tanizaki é uma sombra matizada, suave, que se manifesta até no tom da pele de seu povo. Enquanto ele escreve, porém, a paisagem, sobretudo nas grandes cidades, vai perdendo para sempre parte de sua escuridão na esteira do progresso tecnológico importado. O que leva o escritor a imaginar a cena acima, que soa até estapafúrdia, por parecer invertida, para uma sensibilidade ocidental: a literatura como santuário de obscuridade contra a luz cegante de tudo. Uma delícia. De Tanizaki, a mesma editora já lançou no Brasil os romances “Amor insensato”, “A chave”, “Há quem prefira urtigas” e “Voragem”. “Diário de um velho louco” e “As irmãs Makioka” saíram pela Estação Liberdade.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts Tags:
21/05/2007 - 15:51

Escocês falsificado

Para não voltar das férias numa nota séria demais, que definitivamente não combinaria com meu estado de espírito hoje, aqui vai a história (acesso livre, em inglês) de Chris Baker, um escocês de 26 anos que lançou – na internet, onde mais? – um “projeto literário” com potencial para deixar muito autor aspirante morrendo de inveja.

Por meio do site I Want A Word, qualquer pessoa pode comprar por uma libra esterlina (cerca de R$ 3,80) o direito de escolher uma das palavras que o sujeito, autor inédito, usará num romance. O plano é misturar dez mil palavras pagas com, suponho, outro tanto de graça para dar liga. “Um livro que consiste nas contribuições de 10 mil pessoas tem o potencial de ser algo muito especial”, diz Baker.

A suposta graça, parece, é escolher termos bem difíceis para deixar o autor em apuros. Se tudo der certo, serão dez mil libras no bolso do cara, mas aposto que não dá: mesmo a estupidez humana tem limites. Até o momento, Baker só conseguiu vender 13 palavras. Mas ninguém deve desanimar. A Grande Web-Gincana Literária Mundial está só começando.

Contos personalizados tatuados diretamente na pele do leitor, alguém?

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts Tags:
05/05/2007 - 00:01

Críticos em pé de guerra

Sabe a gritaria no mercado americano contra o fechamento e o corte de páginas em suplementos literários país afora, comentada na nota “De suplementos e videoclipes”, aqui embaixo? Pois é, nada de ficar nas lamúrias com os amigos de chope. Uma organização chamada National Book Critics Circle resolveu pôr corda no bloco e organizar a campanha. Se vai dar algum resultado, não se sabe. Mas faz barulho.

Com isso, fecho o botequim para tirar duas semanas de férias. Dia 21 estou de volta. Até breve.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts Tags:
03/05/2007 - 20:56

Semana Paulo Coelho

Em seus escritos, Coelho, que é católico – embora afirme “não beijar a mão do Papa, com certeza” – se apresenta como um explorador de mistérios e um sábio, um híbrido de Carlos Castaneda e Khalil Gibran.

Não tem nada de muito revelador para os leitores brasileiros o correto perfil de oito páginas de Paulo Coelho que a jornalista e poeta Dana Goodyear assina na “New Yorker” desta semana – a reportagem não está disponível no site da revista, mas pode ser baixada em pdf aqui, no pé da página. A chamada é provocante: “Cem milhões de leitores podem estar errados?” Bem, há controvérsias. Indiscutível é o momento mágico que vive o Mago. Todo esse cartaz na bíblia dos intelectuais de nariz em pé se soma ao seu antológico artigo em defesa da liberdade editorial publicado na “Folha” de ontem (só para assinantes) para fazer desta uma espécie de Semana Paulo Coelho.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts Tags:
02/05/2007 - 11:44

Agualusa ganha o Independent

É uma grande notícia para a língua portuguesa, que ultimamente tem andado atrás até do afegão em prestígio literário no mercado internacional, o prêmio Independent para ficção estrangeira que o angolano José Eduardo Agualusa faturou ontem na Inglaterra pela tradução de seu romance “O vendedor de passados”, que lá virou The book of chameleons (O livro dos camaleões) – veja a notícia, em inglês, aqui. O prêmio em dinheiro não é suntuoso: as 10 mil libras esterlinas, cerca de R$ 40 mil reais, são divididas entre autor e tradutor. Mas a lista de vencedores da história do Independent, que inclui WG Sebald e Orhan Pamuk, mostra que a coisa é séria.

“O vendedor de passados” conta a história de Félix Ventura, que ganha a vida vendendo vistosas genealogias falsas para emergentes da sociedade angolana, pessoas que têm tudo, menos um bom passado. O livro saiu aqui em 2004 pela Forense. Pela editora Língua Geral, da qual é sócio, Agualusa lança este mês no Brasil seu novo romance, “As mulheres do meu pai”.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts Tags:
01/05/2007 - 14:44

Começos inesquecíveis: E.L. Doctorow

Ninguém tomava ao pé da letra as coisas que Martin Pemberton dizia; ele era melodramático demais, ou atormentado demais, para falar sem floreios. Por isso as mulheres o achavam atraente – viam-no como uma espécie de poeta, embora ele fosse mais crítico do que poeta, um crítico de sua própria vida e época. Assim, quando Martin começou a dizer que seu pai ainda estava vivo, nós que o ouvíamos falar e nos lembrávamos de seu pai tínhamos a impressão de que ele estava se referindo à persistência do mal, em termos gerais.

Alguém, creio que Don DeLillo, já disse que o segredo da literatura está no modo como se enfileiram palavras, o resto é secundário. O que sugere um paradoxo: o que há de mais “profundo” na escrita estaria logo ali na superfície, numa combinação de sinais gráficos que leva o leitor a submergir naquilo – ou ir embora. O primeiro parágrafo de “A mecânica das águas”, do escritor americano E.L. Doctorow (Companhia das Letras, 1995, tradução de Paulo Henriques Britto), é um ótimo exemplo de como pode ser poderoso esse negócio de uma-palavra-depois-da-outra.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts Tags:
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