‘Viva o povo brasileiro’ é o melhor dos últimos 25 anos
Viva o povo brasileiro, de João Ubaldo Ribeiro, é o principal livro brasileiro de ficção dos últimos 25 anos. Épico mítico e irreverente da nacionalidade, com seu painel histórico abrangendo quatro séculos, o romanção lançado pelo escritor baiano em 1984 ficou em primeiro lugar na votação promovida pelo Todoprosa junto a 53 escritores, críticos e editores brasileiros.
Em segundo lugar, empatados, vieram Dois irmãos, de Milton Hatoum, e Quase memória, de Carlos Heitor Cony.
Na quarta posição houve outro empate, este triplo, entre Aqueles cães malditos de Arquelau, de Isaías Pessotti, A senhorita Simpson, de Sérgio Sant’Anna, e Morangos mofados, de Caio Fernando Abreu. De todos os primeiros colocados, apenas os dois últimos não são romances: o de Caio Fernando é uma coletânea de contos e o de Sérgio, uma novela escoltada por histórias curtas.
Cada votante foi orientado a escolher o melhor/mais importante título de ficção (romance, novela ou coletânea de contos) publicado a partir de 1982 (inclusive), valendo a data da primeira edição. Um único livro por pessoa. Não houve lista prévia, a menção foi espontânea. Foram disparados 100 emails para profissionais de destaque ligados à literatura, dos dois lados do balcão e em diversas faixas etárias. Cerca de metade deles responderam – nível de participação que ficou dentro das previsões.
A enquete do Todoprosa é abertamente inspirada nas que tocaram o “New York Times” ano passado e a revista colombiana “Semana”, recentemente. A primeira elegeu “Beloved”, de Toni Morrison. A segunda, abrangendo toda a literatura de língua espanhola, apontou “O amor nos tempos do cólera”, de Gabriel García Marquez. Em ambos os casos, o recorte usado foi de 25 anos. Arbitrário, sim, mas talvez uma boa medida de contemporaneidade. E acredito que, para manter a mesma faixa de tempo, já seria razão suficiente a coerência do painel que as três votações formam quando tomadas em conjunto.
Um levantamento desse tipo tem valor meramente jornalístico, é claro. Estará justificado se a brincadeira estimular boas conversas – de botequim ou não – sobre a literatura contemporânea. E se der indicações de leitura a quem pouco conhece de nosso passado recente. Um dos temas de debate que emergem da votação, além das inevitáveis controvérsias em torno de nomes, é sua evidente inclinação por obras que alguns críticos chamariam de “conservadoras”, por valorizarem histórias bem contadas, serem altamente legíveis e não dinamitarem as pontes de prazer que tradicionalmente unem a ficção a seus leitores – embora todas tenham, em graus variados, suas inquietações estéticas.
No entanto, talvez o melhor tema de debate seja a tendência dos votos à pulverização, que parece indicar uma baixa capacidade de nosso ambiente literário atual para a aglutinação em torno de valores, idéias, obras. Temos desempenho notável no quesito diversidade, o que é bom, mas pode haver motivo para preocupação quando essa pluralidade se confunde com desagregação. Talvez seja um sinal de que andam em falta parâmetros mínimos para balizar o bate-bola estético. À medida que se avança no tempo, cresce a dispersão dos votos: dos livros eleitos, três (“Viva o povo…”, “Morangos mofados” e “A senhorita Simpson”) são dos anos 80; dois (“Quase memória” e “Aqueles cães…”), dos 90; apenas “Dois irmãos” é de 2000. Nenhum livro dos últimos anos mereceu mais de um voto. Efeito natural do pequeno distanciamento histórico? Sei não.
A pulverização crescente das preferências, combinada ao critério de apenas um livro por eleitor, explica a baixa votação dos vencedores: “Viva o povo brasileiro” teve sete votos; “Dois irmãos” e “Quase memória”, cinco; “Aqueles cães…”, “A senhorita Simpson” e “Morangos mofados”, três. Todos os demais 25 livros citados receberam apenas uma menção (foram anulados dois votos, de escritores que apontaram obras de sua própria autoria). Eis a lista completa, em ordem alfabética:
“A coleira no pescoço” (Menalton Braff)
“A face horrível” (Ivan Ângelo)
“Ah, é?” e “234” (Dalton Trevisan)
“À mão esquerda” (Fausto Wolff)
“A república dos sonhos” (Nélida Piñon)
“As mulheres de Tijucopapo” (Marilene Felinto)
“Aspades, ETs etc.” (Fernando Monteiro)
“A vitória da infância” (Fernando Sabino)
“Comédias da vida privada” (Luis Fernando Verissimo)
“Curva de rio sujo” (Joca Reiners Terron)
“Dentes guardados” (Daniel Galera)
“Diana caçadora” (Marcia Denser)
“Fátima fez os pés para mostrar na choperia” e “O azul do filho morto” (Marcelo Mirisola)
“Memorial de Maria Moura” (Rachel de Queiroz)
“O alquimista” (Paulo Coelho)
“Onde andará Dulce Veiga?” (Caio Fernando Abreu)
“O nome do bispo” (Zulmira Ribeiro Tavares)
“Os dias do demônio” (Roberto Gomes)
“O vôo da madrugada” (Sérgio Sant’Anna)
“Relato de um certo Oriente” (Milton Hatoum)
“Um táxi para Viena d’Áustria” (Antonio Torres)
“Vastas emoções e pensamentos imperfeitos” (Rubem Fonseca)
“Vésperas” (Adriana Lunardi)
Achei curiosa a listinha. Não é desprezível seu efeito geral como painel – pulverizado – de nosso tempo, embora alguns títulos sejam no mínimo surpreendentes. Deve-se levar em conta, claro, que na terra do voto único vigora a subjetividade mais radical. O que me espanta mais do que qualquer inclusão idiossincrática é constatar que Rubem Fonseca e Luis Fernando Verissimo levaram um único voto cada um, e que nomes como Marçal Aquino e Bernardo Carvalho nem mesmo foram lembrados.
Agora é com você, leitor.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts Tags:
Achei muito interesante
E “Lavoura arcaica”?
Ceci, o livro de Raduan é de 1975.