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“É muito difícil pensar em ’ser escritor’ quando se nasce num país em
que ninguém lê: os pobres porque não sabem ou porque não possuem
meios para adquirir conhecimentos, e os ricos porque não sentem
vontade. Numa sociedade assim, querer ser escritor não é optar por
uma profissão, mas por um ato de loucura.” MARIO VARGAS LLOSA

26/04/2007 - 17:07

À espera dos bárbaros

Com seu ritmo de cartum, uma temporada clássica dos Simpsons tem mais idéias espalhadas por um amplo espectro cultural do que qualquer romance escrito no mesmo ano. A velocidade, a densidade de informação, o leque de referências; a quantidade, a qualidade e a rica humanidade das piadas – tudo isso faz praticamente qualquer romance contemporâneo parecer lento, sorumbático, monótono e quase totalmente vazio de idéias.

Enquanto isso, a internet está rapidamente se tornando a biblioteca de Babel de Borges, o mar de histórias de Rushdie: tudo está ali, numa potencial relação promíscua com todas as outras coisas. Acontece tudo ao mesmo tempo, no mesmo lugar, sem qualquer hierarquia. É como se o espaço e o tempo tivessem entrado em colapso. É excitante – e assustador. Quem está capturando isso num romance? Porque é no romance que isso deve ser capturado. O romance pode tomar liberdades que a televisão não pode, moldar e estruturar a multiplicidade e o caos de modos que a internet não consegue.

Romancistas podem recorrer a essas novas formas de arte para encontrar novas estruturas e técnicas de contar histórias, como Joyce recorreu ao cinema. Mas quem está fazendo isso? Estranhamente, os modernistas parecem captar o momento presente de maneira mais acurada do que os últimos vencedores do Booker. “Finnegans Wake” soa como um pot-pourri de tudo o que jamais existiu, em tradução do Google. Mas John Banville e Anita Desai parecem apenas nostálgicos (por Nabokov, por Dickens, por virtudes tradicionais, pelo cânone).

Exageros argumentativos à parte, esse divertido ensaio (acesso livre, em inglês) do escritor Julian Gough na revista inglesa “Prospect” coincide muito bem com idéias que volta e meia defendo aqui. Gough critica o predomínio da escola trágica e circunspecta sobre a cômica e irreverente na ficção ocidental esteticamente ambiciosa, sobretudo a contemporânea. Se uma defesa tão apaixonada dos Simpsons faz dele um bárbaro, brinca, melhor ainda, porque o romance “literário” de hoje, como romanos da fase decadente do império, “precisa dos bárbaros, anseia secretamente por eles”.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts Tags:

22 comentários para “À espera dos bárbaros”

  1. Sérgio Rodrigues disse:

    Cezar, acredito estar claro no texto do sujeito que recorrer ao cinema “para encontrar novas estruturas e técnicas de contar histórias” significa apenas se apropriar de “truques” da arte alheia, tomar emprestado dela um conjunto de recursos para serem empregados na literatura – e não no próprio cinema. Pode-se dizer, por exemplo, que Proust recorreu à psicanálise, sem que ninguém entenda com isso que ele abriu um consultório, certo?

  2. Cezar Santos disse:

    Tá, Sergio, se vc tá dizendo eu acredito.
    Como não tenho referências de Joyce recorrendo às técnicas cinematográficas para engendrar seus textos (aliás, acho que ele estava anos-luz à frente do cinema, desculpe o trocadilho), mais uma vez confirmo que minha ignorância está se tornando, a cada dia, mais abissal.

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