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“O fato é que o valor intrínseco do livro, peça ou
qualquer outra coisa que o autor esteja tentando vender
é o último e menos importante fator da transação. É provável
que não haja outro ramo da indústria em que seja tão tênue
a relação entre lucro e valor real, ou em que a pura sorte
tenha papel tão destacado.” GEORGE BERNARD SHAW

Arquivo de abril, 2007

30/04/2007 - 16:08

De suplementos e videoclipes

A gritaria geral no mercado americano contra os cortes que vários jornais têm promovido em suas seções dedicadas à literatura (pensou que isso só acontecia aqui?) motivou este interessante artigo (acesso livre, em inglês) do escritor Michael Connelly no “Los Angeles Times”. Connelly reconhece que suplementos literários sempre deram prejuízo, mas observa que sua lógica é a do cultivo de longo prazo, baseada na idéia de que consumidores de livros também consomem jornais. Pode ser. O que talvez indique que a imprensa tradicional já não enxerga diante de si um prazo tão longo assim.

Enquanto isso, o livro “A guerra dos bastardos” (Língua Geral), da jovem escritora carioca Ana Paula Maia, está sendo lançado com um divertido trailer cinematográfico no YouTube. A moda de promover livros com videoclipes transados, apostando no chamado marketing viral, é recente no mercado internacional, e esta é uma de suas primeiras manifestações – e provavelmente a mais bem produzida – no Brasil.

O que tem a ver uma notícia com a outra? Eu acho que muito.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts Tags:
29/04/2007 - 13:36

‘Viva o povo brasileiro’ por quê?

Não me surpreendeu a eleição de “Viva o povo brasileiro” como o grande livro da ficção brasileira dos últimos 25 anos (veja a nota sobre a enquete do Todoprosa aqui embaixo). Abrindo só um dos 53 votos – o meu –, confesso que fui um dos eleitores da obra-prima do autor baiano, livro que consegue ser divertidíssimo e, ao mesmo tempo, de uma ambição vertiginosa. Acrescento que como organizador da brincadeira fiquei aliviado ao constatar que ele teria vencido mesmo sem a minha ajuda.

Surpreendente foi descobrir que alguns amigos escritores se indignaram com o resultado. Um deles chega a considerar mal escrito o livro de João Ubaldo, um mero “rascunhão”. Essas coisas são assim mesmo. Só não se pode negar que, duas décadas depois de lançado, “Viva o povo brasileiro” ocupa um lugar privilegiado no juízo da crítica e na memória do público. A meu ver, merecido.

Achei lúcido este ensaio do crítico Wilson Martins, chamado João Ubaldo Ribeiro, um caso de populismo literário. Martins dá boas pistas dos motivos que levam esse romance a se impor como expoente – inclusive, acrescento eu, sobre qualquer coisa escrita por Jorge Amado, “pai” evidente de Ubaldo:

Não hesitei em qualificar “Viva o povo brasileiro” (1984) de obra-prima, apesar desse título infeliz, substituído com inegável vantagem e grande força sugestiva na tradução em língua inglesa, por ele mesmo [João Ubaldo] realizada (An invincible memory, Nova York, 1989).

João Ubaldo Ribeiro propõe uma visão ideológica da nossa história, estruturada no populismo e no nacionalismo (valores para ele indistinguíveis e intercambiáveis), o que implica, está claro, o inevitável maniqueísmo romântico na construção dos personagens e o irrealismo historiográfico que ignora, precisamente, o que a história tem de… histórico. (…)

O romance de João Ubaldo Ribeiro foi escrito por um ideólogo em luta constante contra o romancista ou por um romancista em luta constante contra o ideólogo: a vitória coube à literatura brasileira, porque foi afinal o romancista que se sobrepôs ao ideólogo e o obrigou a escrever um grande romance em lugar do mau panfleto polêmico e simplista de que restam, aqui e ali, alguns traços inoportunos.

Assim falou Wilson Martins. Agora falo eu: se algo me incomoda na vitória de “Viva o povo brasileiro”, é apenas a sombra – pouco lisonjeira – que ela projeta sobre todos os livros que vieram depois. É que esse romance me parece, de alguma forma, pré-contemporâneo, um temporão, o último e brilhante berro de uma linhagem agônica. Ano passado, indo buscar nele um dos começos inesquecíveis aqui do blog, escrevi o seguinte:

Não será surpresa para este blogueiro se dentro de – digamos – noventa ou cem anos, quando refluir toda a espuma irrelevante do que chamamos de “cena literária contemporânea”, ficar claro feito água que as 673 páginas dessa obra-prima marcam a última tentativa das letras pátrias de dar conta de nosso país de dimensões épicas como um todo. O último relance que tivemos da imagem inteira, por assim dizer, antes que ela se quebrasse em milhões de pedacinhos.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts Tags:
28/04/2007 - 00:01

‘Viva o povo brasileiro’ é o melhor dos últimos 25 anos

Viva o povo brasileiro, de João Ubaldo Ribeiro, é o principal livro brasileiro de ficção dos últimos 25 anos. Épico mítico e irreverente da nacionalidade, com seu painel histórico abrangendo quatro séculos, o romanção lançado pelo escritor baiano em 1984 ficou em primeiro lugar na votação promovida pelo Todoprosa junto a 53 escritores, críticos e editores brasileiros.

Em segundo lugar, empatados, vieram Dois irmãos, de Milton Hatoum, e Quase memória, de Carlos Heitor Cony.

Na quarta posição houve outro empate, este triplo, entre Aqueles cães malditos de Arquelau, de Isaías Pessotti, A senhorita Simpson, de Sérgio Sant’Anna, e Morangos mofados, de Caio Fernando Abreu. De todos os primeiros colocados, apenas os dois últimos não são romances: o de Caio Fernando é uma coletânea de contos e o de Sérgio, uma novela escoltada por histórias curtas.

Cada votante foi orientado a escolher o melhor/mais importante título de ficção (romance, novela ou coletânea de contos) publicado a partir de 1982 (inclusive), valendo a data da primeira edição. Um único livro por pessoa. Não houve lista prévia, a menção foi espontânea. Foram disparados 100 emails para profissionais de destaque ligados à literatura, dos dois lados do balcão e em diversas faixas etárias. Cerca de metade deles responderam – nível de participação que ficou dentro das previsões.

A enquete do Todoprosa é abertamente inspirada nas que tocaram o “New York Times” ano passado e a revista colombiana “Semana”, recentemente. A primeira elegeu “Beloved”, de Toni Morrison. A segunda, abrangendo toda a literatura de língua espanhola, apontou “O amor nos tempos do cólera”, de Gabriel García Marquez. Em ambos os casos, o recorte usado foi de 25 anos. Arbitrário, sim, mas talvez uma boa medida de contemporaneidade. E acredito que, para manter a mesma faixa de tempo, já seria razão suficiente a coerência do painel que as três votações formam quando tomadas em conjunto.

Um levantamento desse tipo tem valor meramente jornalístico, é claro. Estará justificado se a brincadeira estimular boas conversas – de botequim ou não – sobre a literatura contemporânea. E se der indicações de leitura a quem pouco conhece de nosso passado recente. Um dos temas de debate que emergem da votação, além das inevitáveis controvérsias em torno de nomes, é sua evidente inclinação por obras que alguns críticos chamariam de “conservadoras”, por valorizarem histórias bem contadas, serem altamente legíveis e não dinamitarem as pontes de prazer que tradicionalmente unem a ficção a seus leitores – embora todas tenham, em graus variados, suas inquietações estéticas.

No entanto, talvez o melhor tema de debate seja a tendência dos votos à pulverização, que parece indicar uma baixa capacidade de nosso ambiente literário atual para a aglutinação em torno de valores, idéias, obras. Temos desempenho notável no quesito diversidade, o que é bom, mas pode haver motivo para preocupação quando essa pluralidade se confunde com desagregação. Talvez seja um sinal de que andam em falta parâmetros mínimos para balizar o bate-bola estético. À medida que se avança no tempo, cresce a dispersão dos votos: dos livros eleitos, três (“Viva o povo…”, “Morangos mofados” e “A senhorita Simpson”) são dos anos 80; dois (“Quase memória” e “Aqueles cães…”), dos 90; apenas “Dois irmãos” é de 2000. Nenhum livro dos últimos anos mereceu mais de um voto. Efeito natural do pequeno distanciamento histórico? Sei não.

A pulverização crescente das preferências, combinada ao critério de apenas um livro por eleitor, explica a baixa votação dos vencedores: “Viva o povo brasileiro” teve sete votos; “Dois irmãos” e “Quase memória”, cinco; “Aqueles cães…”, “A senhorita Simpson” e “Morangos mofados”, três. Todos os demais 25 livros citados receberam apenas uma menção (foram anulados dois votos, de escritores que apontaram obras de sua própria autoria). Eis a lista completa, em ordem alfabética:

“A coleira no pescoço” (Menalton Braff)
“A face horrível” (Ivan Ângelo)
“Ah, é?” e “234” (Dalton Trevisan)
“À mão esquerda” (Fausto Wolff)
“A república dos sonhos” (Nélida Piñon)
“As mulheres de Tijucopapo” (Marilene Felinto)
“Aspades, ETs etc.” (Fernando Monteiro)
“A vitória da infância” (Fernando Sabino)
“Comédias da vida privada” (Luis Fernando Verissimo)
“Curva de rio sujo” (Joca Reiners Terron)
“Dentes guardados” (Daniel Galera)
“Diana caçadora” (Marcia Denser)
“Fátima fez os pés para mostrar na choperia” e “O azul do filho morto” (Marcelo Mirisola)
“Memorial de Maria Moura” (Rachel de Queiroz)
“O alquimista” (Paulo Coelho)
“Onde andará Dulce Veiga?” (Caio Fernando Abreu)
“O nome do bispo” (Zulmira Ribeiro Tavares)
“Os dias do demônio” (Roberto Gomes)
“O vôo da madrugada” (Sérgio Sant’Anna)
“Relato de um certo Oriente” (Milton Hatoum)
“Um táxi para Viena d’Áustria” (Antonio Torres)
“Vastas emoções e pensamentos imperfeitos” (Rubem Fonseca)
“Vésperas” (Adriana Lunardi)

Achei curiosa a listinha. Não é desprezível seu efeito geral como painel – pulverizado – de nosso tempo, embora alguns títulos sejam no mínimo surpreendentes. Deve-se levar em conta, claro, que na terra do voto único vigora a subjetividade mais radical. O que me espanta mais do que qualquer inclusão idiossincrática é constatar que Rubem Fonseca e Luis Fernando Verissimo levaram um único voto cada um, e que nomes como Marçal Aquino e Bernardo Carvalho nem mesmo foram lembrados.

Agora é com você, leitor.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts Tags:
27/04/2007 - 17:33

Kiran Desai fecha lista de estrangeiros na Flip

A confirmação da vinda da indiana Kiran Desai, 36 anos, completa a lista de autores estrangeiros da Festa Literária Internacional de Parati. Kiran, que vive nos EUA, ganhou o prêmio Booker do ano passado por seu segundo romance, The inheritance of loss, a ser lançado aqui pela Alfaguara com o título (provável) de “O legado da perda”. Filha da escritora Anita Desai, ela teve seu primeiro livro, “Rebuliço no pomar de goiabeiras”, publicado pela Record.

Kiran Desai fecha com a sul-africana Nadine Gordimer, prêmio Nobel de 1991, e com a egípcia Ahdaf Soueif um trio de mulheres em meio a um time de convidados do sexo masculino em que se destacam o também sul-africano e também nobelizado J.M. Coetzee, o israelense Amós Oz, os americanos Art Spiegelman e Lawrence Wright, o inglês Will Self, o mexicano Guillermo Arriaga, o argentino César Aira e o moçambicano Mia Couto.

Completam a lista de estrangeiros os argentinos Alan Pauls e Rodrigo Fresán, o inglês Robert Fisk, o escocês William Boyd, os americanos Dennis Lehane e Jim Dodge e o serra-leonês Ishmael Beah.

Quinze homens, três mulheres. Muito desigual? “Não me preocupei com nenhuma espécie de cota”, ri o diretor de programação da Flip, Cassiano Elek Machado.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts Tags:
26/04/2007 - 17:07

À espera dos bárbaros

Com seu ritmo de cartum, uma temporada clássica dos Simpsons tem mais idéias espalhadas por um amplo espectro cultural do que qualquer romance escrito no mesmo ano. A velocidade, a densidade de informação, o leque de referências; a quantidade, a qualidade e a rica humanidade das piadas – tudo isso faz praticamente qualquer romance contemporâneo parecer lento, sorumbático, monótono e quase totalmente vazio de idéias.

Enquanto isso, a internet está rapidamente se tornando a biblioteca de Babel de Borges, o mar de histórias de Rushdie: tudo está ali, numa potencial relação promíscua com todas as outras coisas. Acontece tudo ao mesmo tempo, no mesmo lugar, sem qualquer hierarquia. É como se o espaço e o tempo tivessem entrado em colapso. É excitante – e assustador. Quem está capturando isso num romance? Porque é no romance que isso deve ser capturado. O romance pode tomar liberdades que a televisão não pode, moldar e estruturar a multiplicidade e o caos de modos que a internet não consegue.

Romancistas podem recorrer a essas novas formas de arte para encontrar novas estruturas e técnicas de contar histórias, como Joyce recorreu ao cinema. Mas quem está fazendo isso? Estranhamente, os modernistas parecem captar o momento presente de maneira mais acurada do que os últimos vencedores do Booker. “Finnegans Wake” soa como um pot-pourri de tudo o que jamais existiu, em tradução do Google. Mas John Banville e Anita Desai parecem apenas nostálgicos (por Nabokov, por Dickens, por virtudes tradicionais, pelo cânone).

Exageros argumentativos à parte, esse divertido ensaio (acesso livre, em inglês) do escritor Julian Gough na revista inglesa “Prospect” coincide muito bem com idéias que volta e meia defendo aqui. Gough critica o predomínio da escola trágica e circunspecta sobre a cômica e irreverente na ficção ocidental esteticamente ambiciosa, sobretudo a contemporânea. Se uma defesa tão apaixonada dos Simpsons faz dele um bárbaro, brinca, melhor ainda, porque o romance “literário” de hoje, como romanos da fase decadente do império, “precisa dos bárbaros, anseia secretamente por eles”.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts Tags:
25/04/2007 - 14:54

Virtual

O escritor imagina um personagem, também escritor, que à deriva diante de seu tablete de cristal líquido, em algum momento entre 1h15 e 4h30 de uma madrugada insone, descobre-se de repente num blog sem nome onde refulge um texto límpido e profundo como o mar em certos trechos mágicos do litoral, blocos de uma prosa poética que se encrespa, corcoveia, muda de forma enquanto o escritor, fazendo rolar a tela sob a ação de suas pálpebras estateladas, sente lhe subir uma excitação nada menos que sexual por ter desentocado tamanho tesouro, cuja obscuridade naquele endereço longo e cheio de barras só pode ser explicada pelo caos que a internet é, pandemônio capaz de abrigar lado a lado cordilheiras de bobagem e essa estranha jóia em que se fundem o sumo de vinte e cinco séculos e a última novidade petulante, veneno e antídoto, pedra e vento, como se não, de modo algum fosse apenas um sonho infantil o poder de destilar numa combinação de caracteres alfabéticos o ácido que dissolveria a desilusão do escritor, e por trás dela também a do escritor, desilusão com sua arte eunuca, seu talento nauseado, seus colegas oligofrênicos, angústia que explica a insônia desta noite e que, no entanto, continua lá quando ele acorda em seu escritório sob o sol alto, a ponta do nariz pressionando F7 no teclado, e não encontra mais o blog que o seduziu nem consegue recuperar na memória uma só das palavras que leu ou sonhou.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sobrescritos Tags:
24/04/2007 - 17:22

Os maiores da língua espanhola (II)

Os 100 títulos da lista são obras de 73 autores, dos quais se destacam Gabriel García Márquez, Mario Vargas Llosa, Roberto Bolaño, Javier Marías, Juan José Saer, Antonio Muñoz Molina, César Aira e Diamela Eltit. Usando os sites da Submarino, Livraria Cultura e Estante Virtual (sebos), cheguei ao seguinte: dos 100 livros, 37 estão disponíveis hoje para compra. Deve-se colocar ainda que há autores com obras publicadas no Brasil que não correspondem às da lista. Por exemplo, César Aira já teve três livros lançados pela Nova Fronteira, porém foram outros três os “laureados”. Contabilizando, vê-se que dos 73 autores da lista, 46 já foram publicados no Brasil.

Já foi comentada aqui a lista dos cem melhores romances de língua espanhola dos últimos 25 anos, elaborada pela revista “Semana”. Na ocasião, interessado em descobrir o tratamento que esses títulos e autores tinham recebido no mercado brasileiro, Marco Polli publicou aqui na área de comentários alguns números iniciais. Agora volta à carga em seu próprio blog, o Ângulo, e acaba de destrinchar o assunto. Vale a visita.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts Tags:
23/04/2007 - 19:52

Violência simbólica, violência real

O escritor e roteirista argentino Marcelo Figueras especula em seu blog no site Boomeran(g), aqui e aqui, que o alarme despertado entre as autoridades escolares por seus textos “perturbadores” – na verdade, esquetezinhos toscos – pode ter contribuído para que Cho Seung-Hui, o atirador da Virgínia, se sentisse realmente um criminoso e completasse o caminho entre a violência simbólica e a real.

Figueras, um cara sério, chega a chamar o assassino de “mártir da correção política”. E completa: “Se um Chuck Palahniuk de 23 anos apresentasse alguns capítulos de Fight Club (‘Clube da luta’) a seus professores, seria denunciado hoje perante as autoridades, espionado, vigiado – e talvez até detido, nestes tempos de Patriot Act que permitem encarcerar por obra e graça das razões de Estado”.

Não costumo subestimar a vocação americana para paranóias do gênero, especialmente depois de uma tragédia tão brutal. Mas acho que o hermano pirou en la papita.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts Tags:
22/04/2007 - 00:01

Começos inesquecíveis: Ivan Ângelo

Quem estivesse na praça da Estação na madrugada de hoje veria um nordestino moreno, de 53 anos, entrar com uns oitocentos flagelados no trem de madeira que os levaria de volta para o Nordeste. Veria os guardas, soldados e investigadores tangendo-os com energia mas sem violência para dentro dos vagões. E veria que em pouco mais de quarenta minutos estavam todos guardados dentro do trem, esperando apenas a ordem de partida.

E, a menos que estivesse comprometido com os acontecimentos, não compreenderia como o fogo começou em quatro vagões ao mesmo tempo. Apenas veria que o fogo surgiu do lado de fora dos vagões, já forte, certamente provocado.

Assim começa, pegando fogo literalmente e num tom de “jornalismo literário” que logo será explicitado, o romance “A festa”, lançado em 1976 pelo mineiro Ivan Ângelo (Summus Editorial, 4a edição, 1978). Na página seguinte, a explicação: “Trecho da reportagem que o diário ‘A Tarde’ suprimiu da cobertura dos acontecimentos da praça da Estação, na sua edição do dia 31 de março de 1970, atendendo solicitação da Polícia Federal, que alegou motivos de segurança nacional”.

Forte candidato a melhor retrato literário do Brasil nos anos da ditadura militar e um caso raro de texto de altos teores políticos que não abre mão de ser esteticamente afiado, “A festa” é, felizmente, um livro bem vivo: a Geração Editorial lançou sua 11a edição em 2004. No entanto, não parece ter entre as novas gerações de leitores o reconhecimento que merece.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts Tags:
20/04/2007 - 22:00

Roberto Bolaño: ‘A pista de gelo’

“A pista de gelo” (Companhia das Letras, tradução de Eduardo Brandão, 200 páginas, R$ 37), que chega às livrarias semana que vem, é um livro do chileno Roberto Bolaño. Isso bastaria para torná-lo um destaque entre os lançamentos da temporada. Um dos nomes mais citados aqui no Todoprosa, personagem de diversas notas nos últimos meses, Bolaño (1953-2003) vem se firmando no juízo da crítica internacional como o maior nome da literatura latino-americana pós-boom. Acontece que, além de tudo isso, este é o primeiro romance que ele publicou, em 1993, bem no início da torrente vertiginosa de lançamentos – romances, contos e poesia – que marcaria seus últimos dez anos de vida como expatriado em Barcelona. Nessa posição, se fica distante da grandiosidade de “Os detetives selvagens”, “A pista de gelo” tem um interesse especial para o admirador de Bolaño por apresentar pela primeira vez vários elementos de sua obra “madura” – adjetivo meio inadequado mas inevitável para o que o sujeito escreveria poucos anos depois.

Três narradores se alternam na condução da história, num prenúncio da megapolifonia que estava por vir. Um fundo de trama policial, mesmo passando longe de confinar o romance num gueto de gênero, fornece a eletricidade que move a narrativa e faz o leitor atravessar digressões, trechos “confusos” ou sujos, às vezes escatológicos (como este abaixo), com o passo firme de quem cumpre um percurso matematicamente calculado. Ah, sim, as obsessões semi-autobiográficas de Bolaño fazem de um dos narradores um poeta mexicano sem tostão que trabalha como vigia num camping da Catalunha. De alguma forma, já estava tudo lá, e ao mesmo tempo não estava. O livro é bom, mas a graça maior da leitura é procurar as fagulhas que em pouco tempo iam detonar a explosão, aquela que transformaria um escritor talentoso em excepcional. De Bolaño, a mesma editora publicou, em 2004, a novela “Noturno do Chile”.

Às vezes, quando eu ia até a cerca do camping, de madrugada, eu o via sair da discoteca do outro lado da rua, bêbado e sozinho, ou com gente que eu não conhecia, tampouco ele, a julgar pela sua atitude retraída, pelos seus gestos de astronauta ou náufrago. Uma vez eu o vi em companhia de uma loura, e essa foi a única ocasião em que me pareceu alegre, a loura era bonita e os dois davam a impressão de ser os últimos a sair da discoteca. As poucas vezes em que me viu nos cumprimentamos levantando a mão, e foi tudo. A rua é larga e nessas horas costuma ter um ar espectral, com as calçadas cheias de papel, restos de comida, latas vazias e vidros quebrados. De tanto em tanto você encontra uns bêbados que peregrinam para os respectivos hotéis e campings, e que terminam, a maioria, perdidos, dormindo na praia. Uma vez Remo astravessou a rua e me perguntou por entre as grades da cerca se o trabalho ia bem. Falei que sim e nos demos boa-noite. Não nos falávamos muito, ele quase não aparecia no camping. Bobadilla é que vinha todas as tardes, antes que eu começasse meu turno, e ficava um tempo olhando os livros e os arquivos. Com Bobadilla nunca cheguei a ter intimidade, cada quinze dias recebia meu pagamento e a isso se resumia nosso contato, um contato cortês, é verdade. Remo e Bobadilla, este em menor grau, eram apreciados por seus empregados: pagavam bem e sabiam se mostrar compreensivos se vez ou outra surgia algum problema. Os recepcionistas, uma moça de Z e um peruano que também era eletricista, e as três mulheres da limpeza, entre as quais havia uma senegalesa que em espanhol só sabia dizer olá e adeus, trabalhavam, dentro do possível, num ambiente descontraído que inclusive propiciava os romances: o peruano e a recepcionista tinham um caso. De todo modo, problemas entre empregados e patrões eram mínimos, e problemas entre empregados não existiam. Uma das causas possíveis dessa harmonia podia ser o caráter atípico do grupo que trabalhava ali: três estrangeiros sem visto de trabalho e três velhos espanhóis a quem em nenhum outro lugar queriam dar trabalho, e o quadro estava quase completo. Leia mais »

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Primeira mão Tags:
19/04/2007 - 17:53

Ana Maria explode o Paiol

A mídia tem dois soluços anuais. Hic! Abril. Hic! Outubro. Em abril, tem o Dia Internacional do Livro Infantil. Em outubro, o Dia da Criança. Nessas duas ocasiões, publica-se a mesma reportagem. Todo ano. Você pode só trocar o nome dos lançamentos. Eles telefonam e fazem as mesmas perguntas aos mesmos escritores. É um rito sazonal. Perguntam se a televisão atrapalha, se as crianças de hoje estão lendo menos. Aí a gente mostra, com números, que as crianças de hoje lêem muito mais. Lêem mais que os adultos até. E eles não acreditam. Seis meses depois, aquilo se repete outra vez. E os jornalistas não acreditam, não lêem, não vêem o que um livro do Pedro Bandeira ou do João Carlos Marinho pode ter de fascinante. Não lêem, não sabem. Mas quando ouvem falar de Harry Potter se arreganham e dão a ele uma capa colorida. A mídia é um caso perdido.

Procuro escrever todo dia. Isso não significa que eu aproveite aquilo que escrevo todo dia. Escrever não quer dizer publicar, não quer dizer aproveitar. (…) O importante é escrever. Uma hora amadurece. Posso estar enganada, mas acho que tem muito mais bobagem publicada do que genialidade não publicada. O que é bom mesmo acaba saindo.

Em toda parte, as livrarias estão mudando. Algumas estão encontrando nichos, se especializando. Mas, de qualquer modo, a produção hoje é tão grande que não dá para um livreiro ter um estoque de tudo. A livraria começa a funcionar como um show room. Você pergunta pelo livro, eles não têm. Mas encomendam. É assim. Aonde isso vai parar, eu não sei. Agora, isso é uma situação dos livros, não da literatura. A literatura já existiu em suportes diferentes. Já foi cantada com liras e alaúdes, já esteve em papiros e pergaminhos. Enfim, a literatura continua.

Está imperdível o Paiol Literário com Ana Maria Machado no “Rascunho”. O site do jornal, com link aqui à direita, ainda não traz a edição de abril, mas vale marcar em cima. Acréscimo em 20/4: o texto do Paiol já está no ar, aqui.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts Tags:
18/04/2007 - 17:05

Disney, ou melhor, Dickens World

Auto-ajudificar um autor como Cormac McCarthy (veja a nota abaixo) não é nada perto da disneyzação do clássico vitoriano Charles Dickens (1812-1870). E isso não tem nada de metáfora. Dê uma olhada no site do Dickens World, um megaparque temático – investimento da ordem de R$ 250 milhões – dedicado ao autor de “Um conto de duas cidades”, que abrirá suas portas na Inglaterra no dia 25 do mês que vem.

Os organizadores prometem, pelo preço do ingresso, mergulhar o visitante nas “ruas, sons e cheiros” da sociedade inglesa – com suas desigualdades de padrão brasileiro – em que viveu o pai de David Copperfield e Oliver Twist. Algo me diz que vão pegar leve no quesito “cheiro”. Ou seja: pobres encantadores de pés descalços e maquiagem fuliginosa tomarão o lugar de Mickey e Donald, mas o espírito é o mesmo.

Um grande barato? O supra-sumo do brega? Talvez seja melhor parafrasear o próprio Dickens: “É o melhor dos tempos, é o pior dos tempos”.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts Tags:
17/04/2007 - 16:07

O Pulitzer ou o público?

Responda depressa: você preferiria ganhar o prêmio Pulitzer de romance, que dá prestígio e um cheque de dez mil dólares, ou uma vaguinha no “clube de leitura” que mais fabrica best-sellers em todo o mundo? Este dilema o americano Cormac McCarthy não precisou enfrentar. Ficou com os dois. Merece ambos, mas não é preciso muito cinismo para encarar essa historinha como um retrato das mudanças que vêm sendo operadas por nosso tempo nas máquinas de fabricar celebridades literárias.

O autor de “Meridiano sangrento” (Nova Fronteira, esgotado) e “Onde os velhos não têm vez” (Alfaguara, 2006) faturou ontem o prêmio Pulitzer de romance por The road, uma sombria história conduzida por um pai e um filho que vão para a estrada num cenário pós-apocalíptico – a edição brasileira do livro está prometida pela Alfaguara para julho deste ano.

O Pulitzer é um prêmio “sério” e tradicional, criado em 1917. Deve ter na carreira de McCarthy, um autor recluso e de apelo popular limitado pela extrema violência de suas histórias, um impacto desprezível. Prestígio não lhe faltava. Revolução mesmo é a que vem sendo provocada pela surpreendente inclusão de The road no Oprah’s Book Club, o “clube de leitura” da apresentadora de TV Oprah Winfrey, que transforma qualquer título em best-seller instantâneo. O romance desolado de McCarthy, que já estava escolhido antes do prêmio, é o livro da vez. E por isso mesmo acaba de chegar ao primeiro lugar na lista dos mais vendidos do “New York Times”.

Será que sucesso tão garantido tem – faustianamente – um preço? Claro que tem. A obra é submetida pelo Oprah’s Book Club a um escrutínio colegial destinado a reduzi-la a mais um representante dessa geléia geral de nosso tempo, a auto-ajuda. Algumas das provocações lançadas aos leitores do “clube” a propósito do romance (veja a newsletter inteira aqui) deixam isso claro: “Ler The road o fez olhar para o mundo à sua volta de uma forma nova? Você encara seu papel como pai ou mãe de maneira diferente? Pensou em como ‘carregará a tocha’ em sua própria vida?”.

Ah, sim: o autor precisa ainda se submeter a uma daquelas entrevistas de “forte apelo emocional” com a apresentadora. Cormac McCarthy, avesso a conversas com a imprensa, ainda não passou por isso, mas passará. Não consta que esteja reclamando.

(Vale o registro: o Pulitzer de não-ficção foi para o festejado “O vulto das torres”, do jornalista Lawrence Wright, um relato de fôlego sobre a trama de acontecimentos que conduziu ao 11 de Setembro. A edição da Companhia das Letras, que trará Wright à Flip, chega às livrarias esta semana com tradução de Ivo Korytowski e preço de R$ 56.)

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts Tags:
16/04/2007 - 10:02

O livro, esse desconhecido

Preocupado com o futuro do livro? Já parou para pensar no seu passado? Este vídeo é espetacular – principalmente se você conseguir ignorar a claque enlatada.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts Tags:
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