Empréstimos, perdas e ganhos
Já transitei pelos dois lados do empréstimo de livros com a mesma desenvoltura. Muitos anos, perdas e ganhos depois, não faço isso mais. Virou tabu: um quarto de porta lacrada no último andar da casa em que é proibido entrar, como num romance gótico. Lá dentro, acumulando poeira, o vazio de perdas incalculáveis e amores insubstituíveis convive com a culpa abafada por devoluções que nunca fiz – parte por esquecimento, a maioria por motivos menos claros. Um dia decidi, chega dessa bagunça. Não empresto mais, não tomo mais emprestado. Com a segunda resolução tento me redimir da antipatia da primeira, ou pelo menos, ao dispor as duas em arranjo simétrico, simular um cenário de olímpica justiça onde há apenas confusão e cansaço.
E antes que me acusem de alguma abominável síndrome retentiva, quem sabe de uma forma bibliográfica de misantropia, aviso que de vez em quando parte aqui das estantes uma enorme caixa transbordante de alegres exemplares para doação. Não corto o fluxo social do livro. Apenas evito que ele me corte.
A maior lacuna entre os livros que emprestei e nunca me devolveram foi deixada – a julgar pela insistência até surpreendente com que me contempla do fundo da memória – por um livro fininho do poeta surreal-paulista Roberto Piva, coisa ali do começo dos anos 80, que, por ser meio artesanal, babau.
No outro extremo, a maior culpa por uma devolução que nunca fiz – neste caso, por ter esquecido realmente quem foi o emprestador – emana de um velho guia turístico-literário de Londres, com endereços de escritores, cenários famosos etc. (Se o dono por acaso ler esta nota e se manifestar, leva.)
E você, caro leitor? Quais foram sua grande perda e seu maior ganho?
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts Tags:
Além do “Caminho Suave”, não me recordo de ter perdido livro algum. Também não me recordo de ter perdido o recorde de ser o único que é 400 neste blog, apesar dos esforços do Tibor.
Bom almoço, Tibor.
Aliás: bom jantar… hihihihi.