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“O fato é que o valor intrínseco do livro, peça ou
qualquer outra coisa que o autor esteja tentando vender
é o último e menos importante fator da transação. É provável
que não haja outro ramo da indústria em que seja tão tênue
a relação entre lucro e valor real, ou em que a pura sorte
tenha papel tão destacado.” GEORGE BERNARD SHAW

Arquivo de março, 2007

30/03/2007 - 22:01

Jorge Franco: ‘Rosario Tijeras’

Na votação dos cem maiores romances da língua espanhola dos últimos 25 anos, feita por críticos e escritores a pedido da revista “Semana” (veja nota abaixo), o romance “Rosario Tijeras”, lançado em 1999 pelo colombiano Jorge Franco (Alfaguara, tradução de Fabiana Camargo, 160 páginas, R$ 28,90), aparece na 87a posição. Pode parecer pouco. Não é. O número de bons autores que não chegaram a entrar na lista é grande o bastante para valorizar o feito desse escritor de 45 anos nascido em Medellín. O romance apresenta, numa narrativa supereditada e veloz, a história de uma assassina sexy do submundo de Medellín e dois rapazes de classe média apaixonados por ela. As semelhanças com uma certa corrente da literatura brasileira contemporânea fixada em sexo e violência — que podemos chamar de rubem-fonsequiana — são evidentes e curiosas. Mas os leitores que, até compreensivelmente, andam cansados do estilo devem levar em conta que “Rosario Tijeras” consegue trabalhá-lo com felicidade acima da média. O trecho abaixo abre o livro:

Como levou um tiro à queima-roupa ao mesmo tempo em que recebia um beijo, Rosario confundiu a dor do amor com a da morte. Mas tirou a dúvida quando afastou os lábios e viu a pistola.

— Senti um arrepio pelo corpo inteiro. Pensei que fosse o beijo… — me disse ela, desfalecida a caminho do hospital.

— Não fale mais, Rosario — disse-lhe, e apertando minha mão ela pediu que não a deixasse morrer.

— Não quero morrer, não quero.

Apesar de animá-la dando esperanças, minha expressão não a enganava. Até moribunda estava bela, fatalmente divina se esvaía em sangue quando entraram com ela na sala de cirurgia. A velocidade da maca, o vaivém da porta e a ordem estrita da enfermeira me separaram dela.

— Avisa a minha mãe — pude ouvi-la falar.

Como se eu soubesse onde morava sua mãe. Ninguém sabia, nem mesmo Emilio, que a conhecia tanto e teve a sorte de possuí-la. Liguei para ele. Ficou tão calado que tive de repetir o que eu mesmo não acreditava, mas, de tanto repetir para tirá-lo daquele silêncio, caí em mim e entendi que Rosario estava morrendo.

— Vamos perdê-la, cara.

Disse isso como se Rosario fosse dos dois, ou quem sabe tivesse sido um dia, num deslize ou no desejo constante dos meus pensamentos. Leia mais »

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Primeira mão Tags:
30/03/2007 - 11:33

Nota para O Livro dos Gêneros (que nunca escreverei)

O romance tem barriga. Se perdê-la, vira novela. A palavra barriga está carregada de conotações negativas que, no entanto, não quero absolutamente expressar. Pois é a barriga que torna o romance superior à novela: a imperfeição faz dele o veículo perfeito para a imitação literária (não necessariamente realista, é claro) da vida. Diante da barriga morna e fértil do romance, a novela é, no máximo, uma top model: linda, mas meio anoréxica. Com ela temos um caso. Com o romance, casamos. Um tanto fria, mais propícia à expressão da literatura como puro jogo, a boa novela tem necessariamente a musculatura definida. Sabe o que está fazendo, planejou a vida inteira, jamais esbarra nos móveis, mas não consegue disfarçar um brilho cruel no fundo do olho. O romance, não: este pode ser sedentário, triste, doentio, de pele áspera e hálito azedo, mas também alegre, ativo, cheiroso, úmido, confortável. Pode ter quantas caras e jeitos tiverem as pessoas, mas nunca perde a mania de se perder um pouco nas encruzilhadas, marcar passo, tropeçar, pedir perdão. Um bom romance nos dá a ilusão de ser feito mais de vida que de literatura. É a barriga que o salva.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts Tags:
29/03/2007 - 18:48

Os maiores da língua espanhola

A revista colombiana “Semana” ouviu 81 críticos, escritores e editores para elaborar uma lista dos cem melhores romances da língua espanhola dos últimos 25 anos – o mesmo período que o “New York Times” arbitrou para fazer sua lista de americanos, ano passado, noticiada na época aqui.

Ganhou “O amor nos tempos do cólera”, de Gabriel García Márquez, com “A festa do Bode”, de Mario Vargas Llosa, em segundo lugar. Esses dois não param tão cedo de se bicar.

Até aí, estamos no terreno dos medalhões. A notícia fica mais interessante quando se descobre, em terceiro e quarto, dois livros do mesmo autor: “Os detetives selvagens” e “2666”, do grande – e, pelo visto, em fase de crescimento – Roberto Bolaño (1953-2003). O sujeito ainda se deu ao luxo de emplacar um terceiro título, a novela “Estrella distante”, na 14a posição.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts Tags:
28/03/2007 - 10:39

Empréstimos, perdas e ganhos

Já transitei pelos dois lados do empréstimo de livros com a mesma desenvoltura. Muitos anos, perdas e ganhos depois, não faço isso mais. Virou tabu: um quarto de porta lacrada no último andar da casa em que é proibido entrar, como num romance gótico. Lá dentro, acumulando poeira, o vazio de perdas incalculáveis e amores insubstituíveis convive com a culpa abafada por devoluções que nunca fiz – parte por esquecimento, a maioria por motivos menos claros. Um dia decidi, chega dessa bagunça. Não empresto mais, não tomo mais emprestado. Com a segunda resolução tento me redimir da antipatia da primeira, ou pelo menos, ao dispor as duas em arranjo simétrico, simular um cenário de olímpica justiça onde há apenas confusão e cansaço.

E antes que me acusem de alguma abominável síndrome retentiva, quem sabe de uma forma bibliográfica de misantropia, aviso que de vez em quando parte aqui das estantes uma enorme caixa transbordante de alegres exemplares para doação. Não corto o fluxo social do livro. Apenas evito que ele me corte.

A maior lacuna entre os livros que emprestei e nunca me devolveram foi deixada – a julgar pela insistência até surpreendente com que me contempla do fundo da memória – por um livro fininho do poeta surreal-paulista Roberto Piva, coisa ali do começo dos anos 80, que, por ser meio artesanal, babau.

No outro extremo, a maior culpa por uma devolução que nunca fiz – neste caso, por ter esquecido realmente quem foi o emprestador – emana de um velho guia turístico-literário de Londres, com endereços de escritores, cenários famosos etc. (Se o dono por acaso ler esta nota e se manifestar, leva.)

E você, caro leitor? Quais foram sua grande perda e seu maior ganho?

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts Tags:
26/03/2007 - 12:00

Pequenos prazeres domésticos

No blog de livros do “Guardian”, Nicholas Clee fala de sua preocupação (em inglês) com o futuro das redes de livrarias convencionais, como Waterstone’s e Borders, que têm fechado lojas aos montes por serem incapazes de concorrer com o preço baixo e a escala massificada dos supermercados de livros – supermercados com aspas, como Amazon, ou sem, como Tesco.

O tema é um dos mais batidos na imprensa literária, mas não faz muito sentido culpar os escribas se a realidade continua a reeditá-lo. Clee até que tenta inovar, atribuindo aos pequenos livreiros de bairro, os chamados independentes, uma vantagem competitiva sobre as redes convencionais – vantagem advinda do charme da seleção idiossincrática de títulos e do contato direto com o cliente. (Infelizmente, o mesmo artigo diz que os independentes estarão extintos em 15 anos, o que parece contrariar o argumento anterior, mas deixa pra lá.)

Eu leio essas coisas e também me preocupo, claro. Não há nada como uma boa livraria real, de preferência com um expresso espumante num canto e um vendedor daqueles que leram tudo o que deve ser lido e ainda têm um GPS mental para encontrar volumes empoeirados em prateleiras improváveis. Mas a leitura do artigo do “Guardian” é interrompida pela campainha.

É o porteiro. Vem entregar uma grande caixa de papelão: a encomenda da Amazon, despachada no dia 23 de fevereiro por cargueiro barato – pressa para quê? –, mas a essa altura aguardada com ansiedade, depois que até já paguei pelos 13 volumes no cartão de crédito, dólar a R$ 2,12. Vou buscar uma faca para abrir a caixa e, dentro dela, o plástico grosso que envolve numa única bolha as duas pilhas de livros. Estou excitado como uma criança com seu ovo de Páscoa.

Esqueço de voltar ao artigo de Nicholas Clee.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts Tags:
24/03/2007 - 00:01

Começos inesquecíveis: Michael Chabon

Anos depois, falando a um entrevistador ou a um público de velhos fãs numa convenção de histórias em quadrinhos, Sam Clay gostava de declarar, a propósito da maior criação sua e de Joe Kavalier, que, quando menino, trancado e de mãos e pés atados dentro do recipiente estanque conhecido como Brooklyn, Nova York, costumava ser assombrado por sonhos de Harry Houdini. “Para mim, Clark Kent numa cabine de telefone e Houdini num caixote eram uma só coisa”, expunha em tom erudito na WonderCon ou em Angoulême ou ao editor do The Comics Journal. “Você não era, ao sair, a mesma pessoa que tinha entrado. O primeiro número de mágica de Houdini, vocês sabem, quando ele estava começando. Chamava-se ‘Metamorfose’. Nunca foi uma simples questão de escapar. Era também uma questão de transformação.” A verdade é que, quando garoto, Sammy só tinha um interesse casual, na melhor das hipóteses, em Harry Houdini e em seus feitos lendários; seus grandes heróis eram Nikola Tesla, Louis Pasteur e Jack London. No entanto, o relato do seu papel – do papel da sua própria imaginação – no nascimento do Escapista, como todas as suas melhores fabulações, soava verdadeiro. Seus sonhos sempre tinham sido houdiniescos: eram os sonhos de uma crisálida debatendo-se no seu casulo cego, louca por um gosto de luz e ar.

O começo de “As incríveis aventuras de Kavalier & Clay”, do americano Michael Chabon (Record, 2002, tradução de Roberto Muggiati), lança mão do velho esqueminha “Mais tarde, quando se lembrasse daquele tempo, fulano diria?” – o mesmo truque que abre “Cem anos de solidão” e outras centenas de livros, mas que nunca perde sua eficácia. Além de ser uma espécie de trailer que permite a apresentação sumária e concentrada de um bom número de traços do protagonista e da trama, esse tipo de começo planta uma cenoura lá na frente, no limite do campo visual do leitor, que, assim, terá dificuldade maior de desistir da viagem antes de alcançar a Daucus carota.

No caso, a viagem vale a pena. Chabon é um escritor pouco prestigiado e ainda menos lido no Brasil, mas muito talentoso. Remexendo meus arquivos, encontrei um pequeno texto que escrevi sobre este livro, publicado na época do lançamento. Como foi feito em cima do laço e diz mais sobre as qualidades do romance do que eu, de memória, seria capaz de dizer hoje, reproduzo-o aqui.

Resenha publicada no caderno Idéias do “Jornal do Brasil” em 2002:

Para os fãs de histórias em quadrinhos, eis um livro mais imperdível que a última graphic novel de Alan Moore. Mas reduzir dessa forma o público-alvo do terceiro romance de Michael Chabon não seria justo com seu talento. A história dos primos Joe Kavalier e Sammy Clay, respectivamente desenhista e roteirista de quadrinhos na época de ouro do gênero, na Nova York dos anos 30 e 40, deve tanto ao ritmo alucinante e à liberdade de imaginação dos comics quanto à ambição de criar personagens tridimensionais e inseri-los num painel histórico detalhista e abrangente – esta mais própria da literatura. Não exatamente da literatura torturada favorecida pelos contemporâneos de Chabon – que estreou em 1988, aos vinte e poucos anos, com “Os mistérios de Pittsburgh” – mas esse anacronismo é justamente um dos charmes do livro, vencedor do Pulitzer de melhor romance do ano passado [em 2001, portanto].

O sucesso se explica por um raro hibridismo: Chabon, autor ainda da boa comédia de costumes [realmente adaptada para o cinema] “Garotos incríveis”, consegue ser esteticamente ambicioso e, ao mesmo tempo, mover-se sem desconforto aparente num universo romanesco tradicional, quase passadista. Fã declarado de estilistas como Vladimir Nabokov e John Cheever, escreve “bonito” como há muito tempo não se usa fazer. Gosta de adjetivos e jamais recusa uma metáfora. Não é fácil encontrar um escritor de sua geração que dispense tanta atenção à reconstituição de época a ponto de encher sua prosa de cheiros, detalhes de vestuário e mobília, gírias e participações especiais de figuras históricas – como a hilariante intervenção de Salvador Dalí numa festa desbundada nova-iorquina. Ou que gaste tanto esforço para dotar cada personagem de motivações meticulosamente esmiuçadas. Chega a ser perturbador que o sujeito, a essa altura do campeonato, acredite tanto assim no velho romance. Mas é gratificante que ele ponha todo esse aparato a trabalhar por uma história que não poderia ter sido escrita no século XIX.

Sammy Clay é um jovem judeu do Brooklyn que sonha com o sucesso no nascente mundo das revistas em quadrinhos. Imaginação para criar histórias mirabolantes não lhe falta. Seu único problema é que desenha mal, mas isso se resolve de modo mais que satisfatório quando um parente tcheco que ele não conhecia, Joe Kavalier, vem se hospedar em sua casa depois de fugir espetacularmente de uma Praga dominada pelos nazistas. Kavalier é um gênio do traço. A dupla não demora a criar O Escapista, super-herói de malha justa que tem como especialidade, como um Houdini vitaminado, escapar de qualquer prisão ou armadilha. A exemplo de outros super-heróis (reais, como o Super-Homem) de seu tempo, O Escapista declara guerra ao Eixo antes que o governo americano o faça. Kavalier e Clay viram grife, ganham dinheiro, e em determinado momento parece que o velho mito do sonho americano triunfará mais uma vez, a história tendo um final feliz ambientado em alguma casa suburbana com gramado na frente. Felizmente, não é nada disso.

“Kavalier & Clay” pode agradar em cheio aos leitores de best-sellers digestivos: é cheio de peripécias e apresenta sua trama de forma linear, sem qualquer contorcionismo formal. Há jovens que sonham com o sucesso e o alcançam. Há um grande amor fraturado pela Segunda Guerra Mundial. Sob a superfície, porém, deixam-se entrever abismos que não fariam feio na obra de literatos mais sintonizados com a “modernidade” e, portanto, mais angustiados com seus meios de expressão: desde a homossexualidade mal resolvida de Sammy até a discussão sobre os limites da cultura de massa, da qual O Escapista é um símbolo evidente. O que sobra ao fim do livro é um gosto amargo de vida real, além de uma pergunta cheia de esperança: quem disse que o escapismo – a capacidade de distrair as pessoas de seus infernos particulares – é uma função menor da arte?

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts Tags:
23/03/2007 - 11:12

O mapa da literatura

Para desestressar: o Literature Map não é novo, mas quem ainda não o conhece pode gostar da brincadeira de digitar o nome de um autor (sim, claro que os de língua inglesa ocupam mais espaço, embora não tenham exclusividade) e receber de volta uma tela que o situa, digamos assim, no mapa literário mundial. Em termos visuais, o digitado torna-se o centro de uma constelação trêmula de nomes afins, a maioria formada por escritores que exerceram influência sobre ele ou foram por ele influenciados. Supostamente, pelo menos. O que torna tudo mais interessante e imprevisível é a ferramenta ser “inteligente”: em vez de se basear no conhecimento enciclopédico de seu autor, o Literature Map (existem também versões do brinquedo para música e cinema) vai aprendendo com os caminhos traçados pelos usuários.

Entre esses usuários não têm faltado brasileiros, a julgar pelos dois nomes que, numa pesquisa aleatória, descobri serem os mais próximos de Julio Cortázar em toda a literatura universal: Lygia Fagundes Telles e? Paulo Leminski! É claro que ser “inteligente”, no caso, equivale muitas vezes a ser extremamente burro. Exemplo: uma pesquisa sobre Franz Kafka revela sua íntima e insuspeitada vizinhança com Bret Easton Ellis. Mas até por besteiras como essa o Literature Map é divertido.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts Tags:
22/03/2007 - 13:47

Fala, Mirisola

Marcelo Mirisola me manda uma carta aberta para responder à carta aberta de Sérgio Sant’Anna, publicada ali embaixo:

Oi, Sérgio.

Pedi uma carta de recomendação a Sérgio Sant’Anna, sim. Não fui escolhido pela comissão do concurso – que tinha regras, um corpo de jurados, critérios pré-estabelecidos e um edital público. Muito diferente do “Bonde da Alegria” da Companhia das Letras. Infelizmente a carta de Sérgio não comoveu os jurados. O que consegui foi uma suplência ridícula que não me rendeu um centavo. Sou suplente de Andrea del Fuego e Eustaquio Gomes. Pode rir…

Agradeço a deferência de Sérgio Sant’Anna. Mas a informação é falsa. Espero que você e ele corrijam o erro.

Obrigado, e um abraço,

Marcelo Mirisola

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts Tags:
21/03/2007 - 11:44

Com a palavra, Sérgio Sant’Anna

Sérgio Sant’Anna, um cara respeitadíssimo aqui no blog, não só como escritor mas como amigo, me pede que publique o recado abaixo sobre a polêmica do projeto “Amores expressos”, que ele integra (vai para Praga):

Avisado por uma amiga que comentários irados e espumantes estavam chegando em grande quantidade à coluna Todoprosa, no site NoMínimo, fui lá conferir. E, na verdade, apesar dos ressentidos e invejosos (poucos) achei a coisa muito bem humorada. Mas é repugnante que um mau-caráter como o tal de Arnaldo diga que eu fui ao Programa Internacional de Escritores, na Universidade de Iowa, EUA, com uma bolsa da Ditadura Militar. Fui selecionado para o programa pela Fundação Ford, que me concedeu a bolsa e passagens, para mim e minha mulher. Isso depois de uma apreciação de meu livro de estréia, O sobrevivente, em edição das mais modestas, custeada por meu pai, com um empréstimo que nunca paguei. Também o pessoal da Ford no Rio me submeteu a uma entrevista. Arnaldo também dá uma de dedo-duro falando na caixa de maconha que me apresentaram, como boas-vindas, assim que cheguei. Mas que tolice, maconha lá era fumada como aqui se toma cafezinho. E garanto a todos que a vida americana, naquela época, era muito melhor do que na era Bush. Quanto às minhas relações com a Ditadura, eu respondia na época a um Inquérito Policial Militar, presidido pelo Marechal Nilo Horácio de Oliveira Sucupira, por minhas atividades subversivas no exercício de minhas funções de Auxiliar de Escritório e sindicalista, na Petrobrás, meu primeiro emprego, em BH. Décadas depois fui anistiado e meus documentos estão lá, na Comissão de Anistia. Mas prefiro terminar essa nota brincando com Marcelo Mirisola. Meu caro Mirisola,você se esqueceu de que no ano passado me pediu uma carta de recomendação para uma bolsa da Secretaria de Cultura de São Paulo, para ser sustentado, só escrevendo, durante um ano? Não se lembra de que recomendei você como uma verdadeira sumidade de nossas letras? Será que o seu ressentimento de agora é por se considerar um bolsista municipal, enquanto outros vão escrever, como eu, em lugares lindos e que inspiram amores, como Praga? Mas concordo que você foi injustiçado, não sendo incluído em Amores Expressos. Sugiro que essa injustiça seja reparada e você vá escrever uma história de amor na Transilvânia. Abraços.

Sérgio Sant’Anna.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts Tags:
20/03/2007 - 00:01

Polêmica expressa

O projeto “Amores expressos” vai mandar 16 escritores brasileiros – alguns inéditos em livro, alguns consagrados, a maioria no meio do caminho – passarem um mês com tudo pago em alguma cidade do mundo, de onde eles se comprometem a voltar com um romance de amor para ser publicado pela Companhia das Letras (embora a editora se reserve o direito de só aproveitar parte do material) e, se tudo correr bem, adaptado para o cinema. Nas andanças por sua cidade turística de eleição (o destino foi escolhido pelos organizadores), cada um será acompanhado durante três dias por uma equipe de cinema, que transformará em documentário esse périplo de 16 autores em busca de 16 histórias.

A notícia do projeto, idealizado pelo produtor cultural Rodrigo Teixeira, 30 anos, responsável pela coleção de futebol Camisa 13 (DBA e Ediouro), explodiu na “Folha de S. Paulo” de sábado e provocou uma agitação incomum nas águas paradas da literatura brasileira. Pode-se afirmar – com algum exagero, claro, mas não mais que o protocolar em clichês como este – que desde então escritores e editores não falam de outra coisa.

Parte do burburinho se explica pelo custo total do projeto: R$ 1,2 milhão, grana vistosíssima num mercado franciscano. O fato de “pouco menos de metade” desse valor, segundo Teixeira, ser dinheiro de renúncia fiscal, captado ou ainda em fase de captação pela Lei Rouanet, contribui para a polêmica – uma polêmica que, justiça seja feita, deveria ir muito além desse caso e envolver um debate sério sobre o próprio mecanismo de financiamento de produtos culturais pelo contribuinte. Não menos ruidosas são as críticas provavelmente inevitáveis à lista de eleitos, elaborada por Teixeira e pelo jovem escritor carioca João Paulo Cuenca, contratado como “coordenador editorial”.

Será que se trata, afinal, de uma jogada de marketing brilhante pela capacidade de “esquentar” uma atividade – a ficção made in Brasil – sabidamente pouco atraente para investidores? Ou de um chamativo bolo midiático em que a ficção entra no papel de cereja? Ou ainda, como escreveu com rapidez no gatilho o escritor Marcelo Mirisola (uma das incontáveis ausências na lista dos 16) em carta publicada na “Folha” de domingo, de uma ação entre “amigos de farra”, com “um ou dois figurões acima de qualquer suspeita” para disfarçar?

“Os critérios de seleção foram de afinidade literária, interesse editorial e química com as cidades de destino”, diz Cuenca, acrescentando que Mirisola “não merece resposta”. Teixeira inclui a palavra “gosto” entre os critérios de seleção, mas isso talvez seja um sinônimo de “afinidade”. “A gente pensou em muitos outros nomes, e pode ser que um ou outro tenha ficado chateado, mas um projeto com 35 seria inviável”, afirma. A decisão de incluir autores que nunca publicaram um livro próprio explica a presença na lista de nomes verdes como Antonia Pellegrino, Cecília Giannetti e Chico Mattoso, enquanto o time dos consagrados é defendido por Sérgio Sant’Anna, Bernardo Carvalho e Marçal Aquino.

Segundo a diretora editorial Maria Emilia Bender, a Companhia das Letras se associou ao projeto porque seis dos selecionados são autores da casa e porque ele dá à editora a oportunidade de “eventualmente abrir seu leque para um autor brasileiro novo, coisa que a gente está sempre buscando”. No entanto, manifestações de insatisfação entre outros escritores da Companhia levam Maria Emilia a frisar que o projeto não é da editora, mas de Rodrigo Teixeira. “A plêiade, digamos, não foi eleita por nós”, diz. Acrescenta que todos os autores, mesmo os que têm vínculo com a casa, toparam correr o risco de ter o livro rejeitado. “Isso nós deixamos bem claro aos organizadores, mesmo porque a lista é bem heterogênea no que diz respeito à experiência”, afirma.

Quem for de fato publicado ganhará da Companhia adiantamentos de praxe no mercado, calculados com base numa tiragem de 3 mil exemplares. Publicado ou não, porém, cada autor embolsará da empresa de Rodrigo Teixeira, limpos, R$ 10 mil a título de cessão de direitos de imagem e de adaptação para o cinema da futura história. As despesas de viagem não estão incluídas nesse valor.

Sobre a pauta, vagamente reminiscente de primeiro capítulo de novela das oito da Globo – a busca de uma história de amor em alguma cidade estrangeira –, Maria Emilia é cautelosa: “Dependendo do autor, qualquer pauta vale. Ou não”. Rodrigo Teixeira aposta na viagem como “uma forma de abrir mais a cabeça dos autores, independente da qualidade do material que vai sair”.

Em abril, embarca a primeira leva: Antônio Prata (Xangai), Cecília Giannetti (Berlim), Daniel Galera (Buenos Aires), João Paulo Cuenca (Tóquio) e, no único destino doméstico, o jovem goiano André de Leones (São Paulo!). Em maio, Amilcar Bettega (Istambul) e Joca Reiners Terron (Cairo). Em junho, Adriana Lisboa (Paris), Chico Mattoso (Havana), Lourenço Mutarelli (Nova York) e Reinaldo Moraes (Cidade do México). E em setembro, fechando a temporada, Antonia Pellegrino (Bombaim), Bernardo Carvalho (São Petersburgo), Luiz Ruffato (Lisboa), Marçal Aquino (Roma) e Sérgio Sant’Anna (Praga).

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts Tags:
19/03/2007 - 11:09

Bolaño neles

Quando “Os detetives selvagens” foi publicado, Ignacio Echevarría, o mais destacado crítico literário da Espanha, o elogiou como “o tipo de romance que Borges poderia ter escrito”. Acertou pela metade. Borges, cujo trabalho de ficção mais longo tem quinze páginas, teria provavelmente admirado o modo como o romance de Bolaño emerge de uma árvore cheias de galhos em forma de histórias. Mas o que acharia ele da delirante viagem de carro, do sexo frenético, das esculachadas exibições de ego masculino? Bolaño enche sua tela com conturbadas emoções lawrencianas, mas as situa dentro de uma fria moldura cerebral. É um estilo digno de seu nome: modernismo visceral.

Seis meses depois de publicado no Brasil, o romance “Os detetives selvagens”, obra-prima do chileno Roberto Bolaño (1953-2003) – nota da época e trecho aqui – ganha um longo e consagrador ensaio-reportagem-resenha de Daniel Zalewski na “New Yorker” desta semana, a propósito de seu tardio lançamento nos Estados Unidos.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts Tags:
17/03/2007 - 00:01

Julian Barnes: ‘Arthur & George’

Da grande geração de escritores ingleses que integra com Ian McEwan, Martin Amis e Salman Rushdie, Julian Barnes é o mais “europeu”, no sentido de sofisticado, afeito a sutilezas de composição e pensamento, numa tradição assumidamente francófila – pecado quase imperdoável em sua ilha. O que o torna também, previsivelmente, o de menor sucesso comercial dos quatro. Autor da obra-prima “O papagaio de Flaubert”, uma mistura de ensaio e ficção em que acerta contas com sua grande admiração literária, Barnes volta, em “Arthur & George” (Rocco, tradução de Léa Viveiros de Castro, 448 páginas, R$ 53,50), a transformar uma figura real da história da literatura em tema. Mas desta vez, embora a variedade sempre tenha sido uma marca de sua obra, surpreendeu até quem já esperava uma surpresa. O escritor cuja vida ele romantiza é popular e inglês até a alma: Arthur Conan Doyle, o criador do detetive Sherlock Holmes. E o livro, o mais convencional que Barnes já escreveu. Ficção histórica consistente, cheia de pesquisa, “Arthur & George” conta em contraponto as histórias do médico Arthur Conan Doyle e de outro personagem real, o advogado George Edalji. Trata-se de dois antípodas: um inglês atlético e bem sucedido, um descendente de indianos acusado de um crime bizarro. Seus caminhos se encontram quando, procurado por George, Arthur decide imitar seu personagem famoso e investigar a injustiça de que o advogado foi vítima, expondo uma trama de ilegalidades e preconceitos na polícia e no Judiciário.

Ele tinha modernizado a investigação criminal. Ele a havia livrado dos representantes da velha escola de detetives de raciocínio lerdo, aqueles simples mortais que recebiam aplausos por decifrar pistas palpáveis deixadas no seu caminho. Em seu lugar, ele havia colocado uma figura fria e calculista que podia enxergar a pista de um assassinato num novelo de lã e condenação garantida num pires de leite.

Holmes trouxe fama instantânea a Arthur e – algo que o comando da equipe inglesa jamais teria trazido – dinheiro. Comprou uma casa de tamanho decente em South Norwood, cujo jardim de muros altos tinha espaço para uma quadra de tênis. Pôs o busto do avô no hall de entrada e alojou seus troféus árticos no alto de uma estante. Conseguiu um escritório para Wood, que parecia ter se estabelecido como auxiliar permanente. Lottie tinha voltado de Portugal, onde havia trabalhado como governanta, e Connie, apesar de ser a mais decorativa, estava se mostrando uma ótima datilógrafa. Ele tinha comprado uma máquina de escrever em Southsea, mas nunca conseguia manipulá-la com sucesso. Era mais habilidoso com a bicicleta de dois assentos que pedalava com Touie. Quando ela engravidou de novo, ele trocou a bicicleta por um triciclo, impulsionado unicamente por força masculina. Sempre que a tarde estava bonita, ele a levava em percursos de quase cinqüenta quilômetros pelas colinas de Surrey.

Ele se acostumou ao sucesso, a ser reconhecido e investigado, bem como aos diversos prazeres e embaraços das entrevistas de jornal.

– Aqui diz que você é um homem alegre, cordial e caseiro. – Touie estava sorrindo enquanto lia a revista. – Alto, de ombros largos e com um aperto de mão firme que, na sinceridade das boas-vindas, chega a machucar.

– Que revista é essa?

The Strand Magazine.

– Ah. Sr. How, se me lembro bem. Não exatamente um esportista, conforme desconfiei na ocasião. A pata de um poodle. O que ele diz de você, meu bem? Leia mais »

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Primeira mão Tags:
16/03/2007 - 11:07

A epígrafe

Foram as poucas linhas daquela carta de recusa que fizeram Lúcio Nareba, lenda da blogosfera literária nacional, perder a cabeça. Não fosse o veneno destilado – gratuitamente, gratuitamente! – pela famosa editora Bia Escarpin, o adorável Nareba estaria entre nós até hoje, esvaziando dois engradados e meio de cerveja por dia às custas de seus admiradores mais jovens, fumando pelos ouvidos, coçando a bunda agressivamente como lhe parecia apropriado aos gênios irascíveis e rabiscando nanocontos em guardanapos com nódoas de azeite. Mas aquela carta de recusa…

Prezado Nareba,

Abri seu manuscrito com grande interesse e, já na primeira página, fui ao delírio com a epígrafe. Genial mesmo, parabéns. Infelizmente, não consegui passar da epígrafe, motivo pelo qual sou obrigada a recusar a publicação de “Sou phodão & outras modéstias”. Como sinal de boa vontade, uma crítica construtiva: a epígrafe é genial mas precisa ser aprimorada. Os versos “Astros! noite! tempestades!/ Rolai das imensidades!/ Varrei os mares, tufão!…” são do Castro Alves e não do Chacal.

Isso posto, não desista jamais. Ou desista, phoda-se.

Bia Escarpin

Gratuito, não? Mais do que gratuito, humilhante. Típico dessa alta burguesia editorial insensível e decadente que aí está. Mesmo assim, o plano de estrangular Bia Escarpin não teria ido longe se, ao sair do botequim certa madrugada, um cigarro fumegando em cada ouvido e dois engradados e meio de cerveja no sangue, Nareba, numa dessas coincidências incríveis que a literatura aprecia, não tivesse topado com a famosa editora no calçadão do Leblon. Piscou para espantar a aparição, mas o fantasma continuou lá. Sozinha, veias saltadas na testa, Bia parecia nervosa, escarpin tiquetaqueando de um lado para o outro nas pedras portuguesas, celular no ouvido, echarpe de seda ao vento.

Enquanto estrangulava Bia Escarpin com a echarpe, ele pensou naquele personagem de Tolstoi que mata a velhinha – como era mesmo o nome dele, Nabokov? Foi quando se decidiu por uma epígrafe em russo para o seu próximo livro, atualmente em produção, chamado “Meu companheiro de cela é phodão & outras delícias”. Tinha que ser em russo, talvez alguma coisa do Ibsen. Um abaixo-assinado pela imediata libertação de Lúcio Nareba rola na internet.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Sobrescritos Tags:
15/03/2007 - 17:21

Bukowski, alguém?

Fiquei surpreso quando vi que o Babelia, suplemento literário do jornal espanhol “El País”, dedicou sua última capa a Charles Bukowski (1920-1994). Minha primeira reação foi suspeitar de exagero. Capa? Do Babelia? Páginas internas, vários pontos de vista, reprodução de cartas dele para uma editora, coleção de links sobre sua vida e obra? A princípio me pareceu descabido, como se o inegável mas restrito mérito literário do escritor americano nascido na Alemanha – recordista mundial em número de páginas dedicadas a porres e ressacas – não merecesse mais do que uma resenha ou artigo isolado.

Aí pensei melhor: me lembrei da força que “Cartas na rua”, na primeira edição da Brasiliense, teve para mim aos 20 anos, e de como passei um ano ou mais caçando tudo o que pudesse encontrar do sujeito. Depois pensei nas levas de jovens escritores e aspirantes influenciados pelo homem, que escreveram e continuam escrevendo sobre suas próprias bebedeiras e promiscuidade como se bebessem e trepassem apenas para escrever depois. É gente à beça, embora a maioria só saiba o que é fome quando a empregada atrasa o jantar, o que estraga um pouco a brincadeira.

Será que tudo isso é pouco para levar Bukowski à capa do Babelia? Claro que não. A discussão que rola por lá é boa e vale a visita. De todas as opiniões, a que mais se parece com a minha foi dada pelo argentino (radicado em Barcelona) Rodrigo Fresán, 43 anos, que estará na próxima Flip a bordo de seu romance “Jardins de Kensington” (Conrad):

Sua obra tem valor em si, como a de (Raymond) Carver, mas é uma leitura um tanto adolescente. Se você continua a lê-lo aos 50, é um pouco triste. O que não me interessa em absoluto é o mito, nem os seguidores do mito Bukowski, nem Sean Penn, nem Matt Dillon. O legado de Bukowski é em muitos casos lamentável. É um desses autores que abrem a porta para escritores-clones, que involuntariamente fazem cópias patéticas.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts Tags:
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