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“Então me digam que metáfora do solitário, pungente,
imaginoso ofício de escrever pode, nesta vida cachorra,
superar o velho ‘manutigium’?” CECILIO GIOVENAZZI

21/02/2007 - 20:24

Começos inesquecíveis: Graham Greene

Uma história não tem princípio nem fim: arbitrariamente, escolhe-se o momento vivido de onde se deve olhar para trás ou para a frente. Eu digo “escolhe-se” com o orgulho incorreto de um escritor profissional que tem sido elogiado – quando observado com seriedade – pela sua habilidade técnica, mas será que, de fato, escolho aquela noite escura e úmida de janeiro no Common, em 1946, a figura de Henry Miles atravessando, inclinada, o grande rio de chuva, ou são essas imagens que me escolhem? É conveniente e correto, segundo as regras do meu ofício, começar exatamente aqui, mas se eu tivesse acreditado então em um Deus, poderia também ter acreditado numa voz, sugerindo ao meu ouvido, “Fale com ele: ele ainda não viu você”.

Eis o começo do fim, ou melhor, de “Fim de caso” (Record, 2000, 3ª. edição, tradução de Léa Viveiros de Castro), romance lançado em 1951 pelo escritor inglês Graham Greene (1904-1991).

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts Tags:

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66 comentários para “Começos inesquecíveis: Graham Greene”

  1. Rafael disse:

    Saint Claire,

    No “Dom Casmurro”, há um capítulo em que Machado de Assis alude diretamente a Luciano de Samósata. É o capítulo LXIV (“Uma idéia e um escrúpulo”), do qual cito o seguinte trecho:

    “Antes de concluir este Capítulo, fui à janela indagar da noite por que razão os sonhos hão de ser assim tão tênues que se esgarçam ao menor abrir de olhos ou voltar de corpo, e não continuam mais A noite não me respondeu logo. Estava deliciosamente bela, os morros palejavam de luar e o espaço morria de silêncio. Como eu insistisse, declarou-me que os sonhos já não pertencem à sua jurisdição Quando eles moravam na ilha que Luciano lhes deu, onde ela tinha o seu palácio, e donde os fazia sair com as suas caras de vária feição, dar-me-ia explicações possíveis. Mas os tempos mudaram tudo.”

    Deixe-me destacar a alusão a Luciano: “Quando eles moravam na ilha que Luciano lhes deu (…)”.

    Luciano de Samósata deixou, entre outros, um livro chamado “História Verdadeira” no qual, se me lembro bem, relata uma viagem fantástica à Lua e uma jornada conduzida por uma baleia e pela qual alcançou um mar feito de leite e uma ilha, a ilha dos abençoados, onde moravam diversos personagens mitológicos. Essa ilha, parece-me, é a ilha onde os sonhos exerceriam sua jurisdição, segundo Machado, prova de que o escritor carioca havia lido mesmo Luciano de Samósata.

  2. É Rafael: o Luciano pode ser considerado, com um pouco de boa-vontade, como um dos precursores da Ficção Científica com aquela sua viagem à Lua.

  3. Tibor Moricz disse:

    Quem veio primeiro? Luciano ou Verne?

  4. Rafael disse:

    Luciano antecede Verne, pelo menos, dezenove séculos. Ele viveu, segundo o verbete na Wikipedia (fonte não muito confiável, mas à mão), entre os anos 120 e 180 D.C.

    Digamos que, naquela época, o tatatatatatatatatatatatatatataravó de Júlio Verne ensaiava os primeiros passos…

  5. Tibor Moricz disse:

    Puxa vida… uma viagem à Lua escrita nos idos de 180? Esse cara era um iluminado. E depois dizem que as primeiras obras de ficção científica começaram de fato no século XIX…

  6. Rafael disse:

    Em realidade, Tibor, não se trata propriamente de ficção científica pela simples razão de que, no Século I, a idéia de ciência, como a concebemos modernamente, não existia. O propósito de Luciano era essencialmente satírico, assim como era o do seu grande sucessor, Jonathan Swift. A viagem à lua narrada por Luciano não era resultado da técnica do homem, do avanço da ciência. A lua, na obra de Luciano, é antes um lugar mitológico, que se alcança navegando através dos marés.

    A contribuição de Júlio Verne é explorar, pela ficção, os possíveis acontecimentos que adviriam com o desenvolvimento da técnica: a invenção do submarino, por exemplo. Júlio Verne, seguido depois por H. G. Wells, vislumbrava as aventuras que o homem viveria graças à invenção de máquinas. Luciano não tinha essa preocupação…

  7. Tibor Moricz disse:

    Rafael,
    Concordo que não podemos chamar a obra de Luciano como ficção científica pelo simples fato de que ciência naquela época se restringia a como prender uma roda numa carroça sem precisar de quatro pregos. Mas, não podemos ignorar que uma viagem à Lua, seja motivada por propósitos satíricos ou não, exige um exercício considerável de imaginação. Continua sendo uma viagem à Lua, independentemente da forma como ela é feita, seja num barco singrando os mares, seja num foguete.
    Se, por um lado, Júlio Verne escreveu ficção científica apoiando-se em desenvolvimento de técnicas científicas modernas (na época), sua viagem à Lua é tão fantástica e (quase) inverossímil quanto a de Luciano. Nesse sentido ambos eram ficcionistas admiráveis, descontado o termo “científico” da ficção.
    A meu ver, fora a ingenuidade de Luciano e de sua época, seu trabalho é um precursor da ficção científica, podendo até ser incluída nela. É difícil para alguém que desconhece ciência (como a conhecemos) escrever sobre ela. Ele usa então alegorias que a ele parecem suficientes para exprimir o seu conceito.
    Posso até estar errado, mas, by the way, é o que eu penso.

  8. Sérgio e galera: o bom desse blog é que ao mesmo tempo que se troca uma idéia, a gente aprende e muito. Parabéns a todos pelas ótimas informações postadas. Já estou aprendendo (e me interessando) pela obra de Luciano de Samósata (dos primordios da genealogia literaria de Verne e Assis, pelo que vejo :-) Info: observei que o Project Gutenberg disponibiliza algumas obras dele.

  9. Ainda no quesito Viagem à Lua, não esquecer o escritor Savinien Cyrano de Bergerac (o personagem real, que viveu no século 18 e que inspirou a criatura de Edmond Rostand, conforme nos lembra Ítalo Calvino no “Por que Ler os Clássicos”). Savinien escreveu um poema imaginando sete maneiras fantásticas de se viajar à lua, tema que inclusive é citado pelo próprio Cyrano na peça de Rostand, na cena em que, com a narrativa de seus métodos de viagem à lua, ele atrasa o pretendente de Roxanne dando tempo a ela de casar com o belo amigo do audaz espadachim. Grande abraço a todos.

  10. Correção: “viveu no século 17″.

  11. Cezar Santos disse:

    Puxa, Saint-Clair,
    O Rafael desmontou o “achado” que tu pensava ter sido uma grande sacada tua com o Samósata/Machado… ele mostrou que o lance está claro, explícito e evidente dentro de um dos livros mais conhecidos do Machadão.
    Não estou falando isso pra lhe diminuir, não me entenda mal…
    Acredito que vc leu aquele trecho e a alusão sobre o Luciano ficou na sua cabeça. Depois, vc “linkou” diretamente em alguma leitura do Luciano e, como não se lembrava da alusão no livro do Machado, ficou achando que era uma “sacada” sua… A literatura tem disso e muitos plágios são cometidos dentro dessa lógica… um autor descreve situações e mesmo histórias sem se lembrar que já tinha visto aquilo antes. Embora tenha os espertalhões, que fazem de má-fé mesmo.

  12. Rafael disse:

    Tibor,

    Para mim, o Luciano foi não propriamente o precursor da ficção científica e sim o criador de certas, digamos assim, “imagens” que compõem parte do imaginário explorado pelos autores de ficção científica.

    Por falar em viagem à lua, para mim, a mais engenhosa (e divertida) que há na literatura está no engraçadíssimo livro “As Aventuras do Barão de Munchausen”, coleção de histórias narradas por um mentiroso incorrigível e publicadas no final do século XVIII. Faz tempo que li o livro, mas nunca me esqueço da maneira como desceu de volta à terra: com dois pedaços de corda; ele descia por uma; quando chegava à ponta, pegava a outra e a amarrava na ponta da que terminara; descia mais um pouco; desatava a que ficara em cima e a amarrava embaixo, e assim sucessivamente, até chegar ao chão.

    Muitos desenhos animados, um século e meio depois, se inspirariam nessa cena.

  13. Clarice disse:

    Cezar, pois eu jamais ia sacar esta mensagem aí do Machado sobre o Luciano. Aliás, eu nunca li o Luciano.
    Este post foi muito bom.

  14. Clarice disse:

    Oba! Tem Luciano de graça no Gutemberg!
    Obrigada Cláudio.

  15. Rafael disse:

    A propósito, quem quiser ler (ou reler) as “Aventuras do Barão de Munchausen”, a versão integral (em inglês, claro) pode ser encontrada aqui neste endereço: http://bulfinch.englishatheist.org/baron/Baron.html

    Salvo talvez o “Dom Quixote”, não conheço outro livro que seja tão engraçado.

  16. Cezar Santos disse:

    Clarice, eu também nunca li o Luciano Samósata… pelo menos não que eu me lembre, por que na infância/adolescência eu li coisas que nem me lembro mais, lógico…e se o cara tem essas coisas de viagem à lua, sei lá, eu lia muito disso quando criança, então, quem sabe?
    Mas vou atrás agora…

  17. Não, Cezar: se bem me lembro, li o romance do Machado DEPOIS de ter tido o insight sobre o Luciano. Eu tive um problema muito sério com o “D. Casmurro”: era um romance que eu não gostava de jeito nenhum. Tentei várias vezes lê-lo e não passava do terceiro ou quarto capítulo. Até que um dia as dificuldades sumiram e eu me deslumbrei. Cada livro tem sua hora de ser lido. A do “D. Casmurro” comigo demorou a chegar…

  18. Clarice, Cezar: tentem ler “O diálogo dos mortos”, do Luciano. É maravilhoso.

    Aliás, temos algumas noções que não correspondem bem à realidade: todo mundo está cansado de saber que o “romance” foi inventado no século XIX, certo? Mais ou menos… os antigos gregos já tinham obras literárias que se aproximavam MUITO do que veio a ser chamado “romance” no século XIX. O próprio Luciano de Samosata chegou a escrever alguns. Eram mais parecidos com folhetins (o que não quer dizer nada, um folhetim é um romance), muito movimentados e cheios de peripécias. Em geral os títulos eram os nomes dos protagonistas.

    Aqui estão disponíveis as “Complet Works” do Luciano:

    http://www.sacred-texts.com/cla/luc/fowl/index.htm

  19. Cezar Santos disse:

    Brigadu, Saint-Clair…
    Cara, uma rapida pesquisinha por aqui, nos ultimos 10 minutos…
    Me ficou claro que o Machado teria lido o cara, mesmo por que ele lia em francês e em inglês…então ele tinha acesso à literatura do Luciano que chegava de Portugal e da França e Inglaterra mesmo. Além disso, o Samosata era um satirista, um dos tipos de literatura predileta do Machadão…
    Saint-Clair, a tese de influência do Samosata sobre o Machado já é estudada há um bom tempo (A poética do hipocentauro, de Jacyntho Lins Brandão, Editora UFMG), dentro da chamada tradição luciânica…
    Cara, esse lance de literatura é o maior barato mesmo…

  20. Rafael disse:

    A noção de que o romance foi inventado no século XIX é absurda. Cito vários livros que são romances e foram escritos muito antes: “Tirant lo Blanc” (séc. XV), “D. Quixote” (Séc. XVII), “Henry Fielding” (Séc. XVIII), “Moll Flanders” (Séc. XVII), “Ligações Perigosas” (Séc. XVIII), “Werther” (Séc. XVIII), “Afinidades Eletivas” (Séc. XVIII).

    O século XIX apenas vulgarizou esse gênero literário.

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