Arquivo de fevereiro, 2007
28/02/2007 - 16:12
Will Davis, um dos blogueiros de livros do “Guardian”, levou um susto e eu também. Está certo que o cinema tem o costume de embelezar os personagens reais que retrata – quando se trata de escritores, muitas vezes o falseamento é até um ato de caridade. Nicole Kidman de narigão de borracha para interpretar Virginia Woolf é a exceção que confirma a regra. Mesmo assim, a linda, luminosa, extraordinária Anne Hathaway (de “Brokeback Mountain” e “O diabo veste Prada”) no papel da desfavorecida solteirona Jane Austen (1775-1817) – uma bela escritora, não me entendam mal – deve estabelecer um novo recorde mundial para a glamourização da vida na sétima arte. Becoming Jane, a cinebiografia da autora de “Orgulho e preconceito”, estréia na Inglaterra semana que vem prometendo fazer qualquer amante do realismo nas telas perdoar o Shakespeare garotão de Joseph Fiennes e o garboso Euclides da Cunha de Tarcísio Meira.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts
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27/02/2007 - 11:41
A poderosa novela Everyman, inédita no Brasil, deu ao escritor americano Philip Roth o prêmio PEN/Faulkner, no valor de US$ 15 mil. Não é uma das maiores honrarias do mundo das letras, mas a notícia tem apelo extra por ser a primeira vez que um escritor conquista o tri: Roth ganhou o PEN/Faulkner em 1994 com “Operação Shylock” e em 2001 com “A marca humana”, ambos lançados no Brasil pela Companhia das Letras.
Para ler um trecho de Everyman, publicado ano passado em tradução da casa no Todoprosa, clique aqui. Alerta: quem acha bacaninha o ridículo eufemismo “melhor idade” deve passar bem longe desse livro.
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26/02/2007 - 11:46
O recém-lançado Comment parler des livres que l’on n’a pas lus (“Como falar de livros que não se leu”), do professor de literatura e psicanalista francês Pierre Bayard, não é exatamente um daqueles manuais para blefadores que andaram na moda alguns anos atrás. Sendo um intelectual francês, Bayard tem pretensão maior – alguma coisa a ver com uma defesa da não-leitura como atividade criadora. Como estou falando do livro dele sem tê-lo lido, fica tudo em casa.
Mas Comment parler… é, antes de mais nada, uma provocação, e como tal tem atingido seu objetivo. De um lado Bayard vem colhendo o apoio risonho de quem reconhece sua coragem de ir contra a hipocrisia e cutucar um tabu de intelectuais – pois é evidente que todo mundo trapaceia de vez em quando, mesmo porque o tempo para ler tudo o que se deveria ler anda escasso pelo menos desde o início do século XVIII. Recepções simpáticas ao livro de Bayard podem ser lidas no artigo da “Lire”, em francês, e, com uma dose maior de ironia, na resenha do “New York Times”, em inglês.
Naturalmente, também é possível carregar no sarcasmo, como fez esse artigo publicado no “Times” de Londres (onde mais?) ao dizer que o livro de Bayard confirma algo que sempre se suspeitou sobre os acadêmicos franceses: “que, em sua maioria, são fraudes subsidiadas além do que valem”. É provável que a verdade esteja em algum lugar no meio do caminho, mas uma coisa é certa: não é pequena a coragem de Pierre Bayard ao revelar que nunca terminou de ler “Ulisses”.
Inspirado por ele, confesso que eu também não. Comecei algumas vezes, por caminhos diversos: no original, na tradução de Antonio Houaiss, na de Bernardina Pinheiro. Nunca me pareceu que valesse a pena prosseguir. Prefiro “Dublinenses”. Por quanto tempo devo ficar ajoelhado no milho?
E você, qual é aquele livro obrigatório que nunca leu?
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts
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24/02/2007 - 00:01
“Luz em agosto”, do grande mestre americano William Faulkner (Cosac Naify, tradução de Celso Mauro Paciornik, 448 páginas, R$ 69), já teve uma tradução lançada no Brasil, pela Nova Fronteira, em 1983. Neste quarto de século, porém, tornou-se figurinha rara entre nós este romance que costuma ser considerado o mais acessível do autor (1897-1962) de “O som e a fúria”, a melhor porta de entrada em sua obra. Publicado em 1932, “Luz em agosto” talvez tenha mesmo mais ação e menos monólogos interiores do que os livros mais famosos do homem, embora não lhe faltem uma prosa luminosa e aquela atmosfera faulkneriana de decadência econômica e moral do Sul dos Estados Unidos. Como afirma a boa orelha assinada por Marçal Aquino, “há escritores que escrevem grandes livros. Há outros, mais raros, que instauram mundos”.
A acessibilidade não significa que o livro seja simples. O grande número de personagens faz de “Luz em agosto” uma malha de histórias que se cruzam, se completam e se corrigem, todas centradas na cidadezinha de Jefferson, no fictício condado de Yoknapatawpha. Os personagens que sustentam a construção, porém, são três, e todos párias: a adolescente Lena Grove, solteira e grávida, que chega em busca do pai fujão de seu filho; o reverendo Gail Hightower, que uma esposa infiel e suicida tornou malvisto no lugar; e o forasteiro Joe Christmas, figura misteriosa que compartilha com Jesus Cristo mais do que as iniciais e se situa exatamente a meio caminho entre o lugar do herói e o do vilão. Christmas é branco, mas acredita ter sangue negro (terá mesmo?), o que o condena à inadaptação aonde quer que vá. O trecho abaixo abre o capítulo 2 e marca sua entrada em cena:
Byron Bunch sabe o seguinte: foi numa manhã de sexta-feira, três anos atrás. E o grupo de homens que trabalhava no galpão da serraria levantou os olhos e viu o estranho ali parado, olhando na sua direção. Eles não sabiam há quanto tempo ele estava ali. Parecia um vagabundo, mas também não exatamente um vagabundo. Seus sapatos estavam empoeirados, e a calça, encardida. Mas ela era de sarja decente, bem vincada, e a camisa estava suja mas era uma camisa branca, e ele usava uma gravata e um chapéu de palha bastante novo inclinado num ângulo arrogante e provocador sobre o rosto impassível. Não parecia um vagabundo profissional em andrajos profissionais, mas havia nele alguma coisa definitivamente desarraigada, como se nenhuma vila ou cidade fosse sua, nenhuma rua, nenhuma parede, nenhum quadrado de terra seu lar. E parecia carregar sempre consigo essa consciência como se fosse uma bandeira, com um quê de implacável, solitário e quase altivo. “Como se”, disseram os homens mais tarde, “andasse apenas sem sorte por algum tempo e não pretendesse ficar nisso, e não fizesse caso de como se ergueria.” Ele era moço. E Byron o observou ali parado e olhando para os homens nos macacões manchados de suor, com um cigarro num canto da boca e o rosto sombria e desdenhosamente impassível meio de lado por causa da funaça. Passado um instante, ele cuspiu o cigarro sem encostar a mão, deu meia-volta e foi até o escritório da serraria, enquanto os homens de macacões desbotados e sujos do trabalho olhavam-no pelas costas com uma espécie de perplexo sentimento de afronta. “Devíamos passá-lo na plaina”, disse o capataz. “Talvez isso tirasse esse ar da sua cara.”
Não sabiam quem ele era. Nenhum deles jamais o vira antes. “Sem contar que é muito perigoso um homem exibir essa expressão no rosto em público”, disse um. “De repente ele se esquece e a usa em algum lugar onde alguém pode não gostar dela.” Depois eles o deixaram de lado, ao menos na conversa, e voltaram ao trabalho entre rangidos e chiados de eixos e correias. Mas não demorou dez minutos para o superintendente da serraria entrar com o estranho na cola.
“Empregue este homem”, disse o superintendente para o capataz. “Ele diz que se vira com uma pá. Pode colocá-lo no monte de serragem.”
Os outros não tinham parado de trabalhar, mas não havia um único homem no barracão que não estivesse olhando de novo para o estranho com suas roupas citadinas sujas, sua expressão insuportável e soturna e todo seu ar de frio e silencioso desprezo. O capataz olhou para ele rapidamente, o olhar tão frio como o do outro. “Ele vai fazer isso com essas roupas?”
“Isso é problema dele”, disse o superintendente. “Não estou contratando as roupas.” Leia mais »
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Primeira mão
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23/02/2007 - 13:45
Acabo de ler o último livro do sul-africano J.M. Coetzee, Slow man, ainda sem tradução no Brasil (o próximo, Diary of a bad year, está prometido para outubro). O que achei dele não é simples de expressar. Se não posso dizer que gostei, é certo que o desagrado, no caso de um autor tão inteligente, costuma ser esteticamente mais prazeroso do que muitos prazeres fáceis. A história vinha bem: tem pegada o drama do fotógrafo Paul Rayment, um sujeito entre a meia-idade e a velhice que perde uma perna ao ser atropelado em sua bicicleta numa rua da cidade australiana de Adelaide – sim, no país de adoção de Coetzee. O livro é narrado naquela terceira pessoa marcante de “Desonra”, uma secura orgulhosa e exasperante como pano de fundo, pequenos rasgos de humanidade ofuscando o leitor aqui e ali.
Eis que de repente, sem aviso, entra em cena a velha Elizabeth Costello, escritora meio chatonilda que Coetzee transformou – não sem auto-ironia – em alter ego. E não é que dona Costello conhece como ninguém o livro que estamos lendo? Até frases de capítulos anteriores, que só o narrador e o leitor poderiam conhecer. Daí em diante a história da paixão de Rayment por sua bonita enfermeira croata vira um debate moral entre personagem e autor – papel que Elizabeth Costello sem dúvida desempenha, embora seu estatuto exato permaneça brumoso até o fim. Deus ex machina, pois é. E um estranho uso da metalinguagem em romance, de resto, realista.
Estranho, mas original. O que me fez pensar. A história que tem consciência de ser história tem sido descartada por alguns críticos e leitores – inclusive aqui, nos comentários deste blog – como um recurso exaurido, patético, truquezinho de autores sem imaginação. Que um certo pós-modernismo de anedota andou abusando do recurso metalingüístico, não se discute. Mas tentar negar a um autor o direito de criar dobras textuais em sua narrativa, dobras como as que já usava Cervantes no “Quixote”, é de um ridículo tão grande quanto proibir os poetas de rimar. Recursos gastos por escritores medíocres existem para que escritores de gênio os reabilitem. Desde que a literatura é literatura é assim.
Neste caso Coetzee não chega lá. Mas tenta, o que não é pouco.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts
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21/02/2007 - 20:24
Uma história não tem princípio nem fim: arbitrariamente, escolhe-se o momento vivido de onde se deve olhar para trás ou para a frente. Eu digo “escolhe-se” com o orgulho incorreto de um escritor profissional que tem sido elogiado – quando observado com seriedade – pela sua habilidade técnica, mas será que, de fato, escolho aquela noite escura e úmida de janeiro no Common, em 1946, a figura de Henry Miles atravessando, inclinada, o grande rio de chuva, ou são essas imagens que me escolhem? É conveniente e correto, segundo as regras do meu ofício, começar exatamente aqui, mas se eu tivesse acreditado então em um Deus, poderia também ter acreditado numa voz, sugerindo ao meu ouvido, “Fale com ele: ele ainda não viu você”.
Eis o começo do fim, ou melhor, de “Fim de caso” (Record, 2000, 3ª. edição, tradução de Léa Viveiros de Castro), romance lançado em 1951 pelo escritor inglês Graham Greene (1904-1991).
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20/02/2007 - 13:13
Um livro infantil premiado, voltado para crianças de 9 a 12 anos, foi proibido em diversas escolas e bibliotecas americanas (notícia aqui, em inglês) porque contém a palavra “escroto”. Não o adjetivo brasileiro, mas o substantivo mesmo – trata-se de explicar o ponto exato da anatomia de um cachorro que uma cobra mordeu.
Aqui entre nós: a palavra “escroto” é bem escrota. Mas proibi-la é muito mais.
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18/02/2007 - 00:01
Todo cuidado é pouco com essa máscara, viu, Vi? Não, sua boba, empresto com prazer porque você sabe que é a minha neta preferida, e além disso tem outras coisas, sinto um arrepio só de imaginar que a minha máscara negra veneziana nariguda vai se soltar por essas ruas outra vez depois de meio século guardada numa caixa de chapéu com a tampa afundada, devia andar triste, a coitadinha, olha só esses olhos vazados caídos, tão merencórios. Ah, esses olhinhos viram coisa, Vi. Claro que não era como agora, era melhor, era pior. Diferente: eu nunca fui de folia e nem podia ser, sempre fui certinha. Seu avô, sim, aquele se esbodegava inteiro, saía no sábado pra voltar na quarta-feira que nem na música da camisa listrada, só que a fantasia dele, infalível, era de arlequim – conhece a música da camisa listrada? Ainda toca isso? Em vez de tomar chá com torrada ele tomou parati, não, imagine se vai tocar. Agora é diferente, pior, melhor, depende. Por exemplo, quando você casar, duvido que agüente o que eu agüentei. Não agüenta, Vi, mudou demais. Para melhor, nesse ponto eu acho que foi para muito melhor, porque se o seu marido um dia sair por aí com um canivete no cinto e um pandeiro na mão, sossega leão e tal, eu acho que você pode até aceitar, mas conhecendo você como eu conheço, eu sei que mal a porta bateu você vai sair também, você pra lá, eu pra cá, até quarta-feira, lalaiá, lalaiá. Sossega leoa – vai ou não vai? Pois eu acho que está certíssimo, querida, nós é que éramos bobas no meu tempo, eu era. Engolia, agüentava, chorava no travesseiro, noite em cima de noite perdendo o viço. Uma mulher guardada numa caixa de chapéu com a tampa afundada, cheiro de naftalina, ih, estou melosa, estou dramática, mas era assim. Não admira que os olhinhos fossem ficando merencórios, que o marido perdesse o interesse e procurasse cada vez mais passatempos, depois vinha cair na cama sem tirar nem o sapato. O seu avô, por exemplo: um homem bom, trabalhador, mas um patriarcão de antigamente, acho que um dos últimos. Pisada firme, vozeirão, chicote na cinta, chicote é maneira de dizer, que no Rio de 1950 ninguém usava chicote, mas você entende. Sua mãe não era nascida ainda, os outros quatro sim, aquela escadinha, e foi aí que ele me prometeu. O baile de máscaras do sábado de carnaval no casarão da Glorinha Pissaruçuba na Praia do Flamengo – não tinha programa mais cintilante, jóia social mais cobiçada naquele tempo. Era diferente demais, melhor, pior, eu não disse? Melhor, Vi, nesse caso era melhor porque nós íamos pela primeira vez no baile da Glorinha Pissaraçuba, ah, você tinha que ver a minha felicidade! A máscara veneziana eu comprei na Rua do Ouvidor para a ocasião, não foi barata, negra porque assim ficava mais discreto, mais digno, seu avô aconselhou. Aconselhou? Essa é boa, aconselhou nada, mandou, pois é. O vestido ia ser um verde brilhoso de festa que já começava a encardir no armário, mandei tirar, lavar, quarar, engomar, chegou o dia e eu fui fazer o cabelo, as crianças excitadas só de ver a minha felicidade, mamãe vai sambar, vai sambar, sambar, e quando chegou a hora, Vi – sambei, justamente. Seu avô ligou da rua dizendo que a gente não ia mais no baile de máscaras, imprevistos, ele falou, contratempos, uma palavra assim. Eu sabia o tipo de contratempo que ele gostava, aquele que o cabelo não nega mas em compensação a cor não pega, feito dizia o Lamartine. Seu avô não era fácil e a gente era boba demais, triste e amargurada, não tinha essa sabedoria das mulheres de hoje, não tinha o salve o prazer, salve o prazer. Me tranquei no quarto aquele sábado, os olhinhos merencórios dessa máscara negra aí, essa mesma, ficaram me olhando em cima da cama um tempão. Foi a Conceição que pôs as crianças para dormir, apagou a casa toda, você não teve tempo de conhecer a Conceição, até hoje eu sinto saudade. Ela cuidou de tudo enquanto eu ficava sentada na cama de vestido verde e laquê armado ouvindo as risadas, gritinhos, gente batendo na lata, os barulhos todos de carnaval que você conhece, isso não mudou tanto, ainda é assim. Eu nunca fui de folia e nem podia ser, sempre fui certinha, e quando cheguei na esquina de máscara e vestido verde e vi um grupo de clóvis me olhando do outro lado da rua, me veio um pânico doido, quase dei meia volta. Nem sei como continuei andando, marcando o passo com o meu coração, acho que eu corria. Não lembro de ter entrado no Cadillac que o pierrô de porre parou do meu lado, me deu um branco mas eu sabia que, tendo entrado ou não, a verdade era que eu estava dentro dele agora, sentada no banco do carona com a cabeça girando e a mão do pierrô no meu joelho enquanto a estradinha cheia de curvas passava por nós, o mar rugindo lá embaixo, reconheci a Niemeyer. Quem é você, diga logo que eu quero saber, ele me disse que se chamava Jorge, depois Álvaro, mais tarde Toninho, e com o céu começando a clarear já tinha virado Camilo, Ciro, Ismael. Eu também não pronunciei o nosso nome, Vi, e a máscara negra nariguda eu só tirei enquanto a escuridão nos protegia, o pierrô não soube que eu me chamava Elvira. Mas nunca vou esquecer os olhos verdes dele, aqueles não tinham nada de merencórios, eram da cor do mar de São Conrado quando amanhece num domingo de carnaval – idênticos aos que me olham agora da sua cara espantada, Vi, isso também não mudou, e no fim daquele ano sua mãe nasceu.
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17/02/2007 - 00:01
Do escritor inglês Jonathan Coe, 45 anos, só li o romance que costuma ser considerado sua obra-prima, “O legado da família Winshaw” (Record, 2002, tradução de Celina Cavalcante Falck). Um livro divertido, despudoradamente farsesco, em que as histórias de variados personagens se cruzam numa trama complicada e não desprovida de artificialismo, para compor uma sátira feroz da Grã-Bretanha de Margaret Thatcher. Um bom romance cujo aparente defeito – uma certa candura ou confiança excessiva no poder do contador de histórias – termina por ser sua maior qualidade, ou pelo menos aquilo que o distingue no panorama literário atual. Não sei se fui claro: é evidente que Coe tem ambições, tanto estéticas quanto políticas, mas não cabe bem no figurino do literato. Provavelmente não é sequer um grande escritor, mas está tão empenhado em envolver o leitor em suas fabulações e comentar com ele o mundo lá fora – e não a própria literatura, o que o diferencia de boa parte do pós-modernismo em que se alinha – que acaba tendo uma vitalidade curiosa.
(Será que influi em minha simpatia o fato de Coe ter se revelado um sujeito sensato, afável e sem frescura quando nos conhecemos na Flip de 2004, em que fiz a mediação da mesa que ele dividia com o presunçoso Jeffrey Eugenides? Talvez. Isso não invalida nada, mas é sempre bom deixar explícito o risco de parti pris.)
“A casa do sono” (Record, tradução de Marcello Rolemberg, 400 páginas, R$ 49,90), que a editora apresenta como o “novo” romance de Jonathan Coe, só é novo aqui: foi lançado em 1998, logo depois da “Família Winshaw”. Conta as histórias cruzadas de estudantes que dividiram uma república nos anos 80 e se reencontram, mais de dez anos depois, na mesma casa, transformada agora numa clínica especializada em distúrbios do sono.
— Conte-me sobre seus sonhos — Gregory disse uma vez para Sarah, sentado naquele mesmo terraço, em uma manhã clara de novembro, muitos anos antes. — Conte-me há quanto tempo isso vem acontecendo.
Sarah aqueceu as mãos na caneca, tremendo um pouquinho por causa da brisa do oceano, e olhou para ele com carinho. Isso foi nos primeiros meses do relacionamento deles, muito antes de eles se distanciarem. Ainda achava, naqueles dias, que ele podia ser muito gentil. Ela ainda o considerava um homem sábio e compreensivo. Sentada naquele terraço, apoiada, como que por instinto, nele, com os joelhos tocando os dele, sentia que suas ansiedades começavam a se dissolver. Ele esquecia que eles vinham discutindo com mais freqüência, recentemente, e a respeito de coisas cada vez menores. Em relação ao sexo, ela repetia para si que ele melhoraria com o tempo. Tentava ignorar o fato de que, enquanto falava com Gregory, ele escrevia o que ela dizia em um caderno que trazia escrito na capa “PROBLEMAS PSICOLÓGICOS DE SARAH”.
De qualquer forma, ela estava excitada, não havia como negar: eles acabavam de fazer uma importante descoberta. Haviam encontrado uma explicação para algo que vinha confundindo Sarah nos últimos cinco anos ou mais. Eles haviam descoberto, naquela mesma manhã, que ela não conseguia notara diferença entre seus sonhos e as memórias de sua vida real.
— Conte-me sobre esses sonhos — Gregory estava dizendo. — Conte-me há quanto tempo isso vem acontecendo.
E Sarah tomou um longo fôlego, e contou para ele.
* * *
Isso começara, ela disse, quando tinha 14 ou 15 anos. Estava infeliz na escola, freqüentemente tinha problemas para terminar seus deveres de casa, e tinha um medo especial de seu professor de História, um certo Sr. Mountjoy. No fim de uma noite difícil, percebendo-se completamente incapaz de escrever um artigo sobre as causas da Guerra Franco-Prussiana — um artigo que ela teria de ler em voz alta na aula do dia seguinte —, ela fora para a cama aos prantos, disposta, em seu desespero, a faltar a aula no dia seguinte ou fingir estar doente. Mas, em vez disso, ela acordou com uma sensação imediata de leveza, com uma lembrança pura de ter escrito o artigo, e tendo escrito, ela sabia, em alto nível: ela conseguia visualizá-lo no livro de exercícios, quatro páginas e meia, diversas rasuras na página três, mas ainda assim limpinhas e apresentáveis, o título sublinhado duas vezes com caneta vermelha e com algumas notas de rodapé para dar a ele um aspecto acadêmico. E foi só às 11h30 daquele mesmo dia, na primeira aula após o intervalo, quando ela abriu o livro de exercícios pouco antes de ser chamada para ler diante da turma, que ela descobriu que o artigo, inacreditavelmente, não existia. Leia mais »
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Primeira mão
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15/02/2007 - 17:21
Bem, é um tipo de trabalho sedentário e introspectivo que se faz de pantufas, enfiando o dedo no nariz e coçando a bunda, você sozinho em seu escritório, e não há a menor possibilidade de ser de outra forma. Assim, qualquer um que entre nessa de olho em ganhos materiais e agitação mundana, eu não acredito que chegue muito longe.
Surpresa: Martin Amis, 57 anos, um dos romancistas vivos mais importantes da Inglaterra – e provavelmente, com sua máscara midiática enfezada, o mais famoso – está sendo anunciado hoje pela Universidade de Manchester como seu novo professor de “escrita criativa”. Deve haver muito estudante apavorado, mas em entrevista ao “Guardian” (acesso livre, em inglês, aqui), Amis trata de tranqüilizá-los:
Posso ser ácido na forma de escrever, mas não na forma como vivo. Seria muito difícil para mim dizer coisas cruéis a pessoas numa posição tão vulnerável. Imagino que eu vá ser surpreendentemente doce e gentil com eles. Uma das coisas que aprendi sobre ficção é que você realmente se expõe de uma forma que nenhum outro artista dito criativo faz. Na maioria das outras artes você está só exibindo um talento específico, de certa forma até na poesia, mas ao escrever ficção você desnuda não apenas seu talento, mas todo o seu ser, seu ser social, sexual e psicológico, e nada pode deixá-lo mais vulnerável do que isso. Estou bem ciente desse fato e vou levá-lo em consideração.
Tudo bem, mas fiquei curioso: será que alguém aqui escreve de pantufas?!
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts
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14/02/2007 - 17:12
Olha o Joaquim Maria aqui de novo.
Essa aí ao lado é a capa de uma edição bilíngüe (português-russo) de doze contos de Machado de Assis, inéditos na língua de Anton Tchecov, que acaba de ser lançada pelo Centro Lusófono Camões da Universidade Hertzen, de São Petersburgo. Organizado por Vadim Kopyl e com prefácio do professor brasileiro Adelto Gonçalves, o livro traz um elenco respeitável de histórias curtas: “Uns braços”, “O caso da vara”, “O espelho”, “Uma senhora”, “A senhora do Galvão”, “A sereníssima República”, “A igreja do Diabo”, “O enfermeiro”, “A causa secreta”, “D. Paula”, “Entre santos” e “Um apólogo”.
Sentiu falta de “O alienista”, “Missa do galo”, “Um homem célebre”, “A cartomante”? Eu também. Mas Machado é um contista tão grande que o time fica poderoso mesmo com desfalques.
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13/02/2007 - 18:26
Um dos chavões preferidos da imprensa literária brasileira é discutir a discreta presença do futebol em nossa ficção. E o carnaval, clichê da “nacionalidade” tão forte quanto o velho ludopédio, será que está bem representado?
À primeira vista, não. “O país do carnaval”, romance de estréia de Jorge Amado, de carnavalesco mesmo tem pouco mais que o nome. Os contos “Antes do baile verde”, de Lygia Fagundes Telles, e “A morte da porta-estandarte”, de Aníbal Machado, chegam mais perto da festa, mas mantendo um pé na vida e outro na morte. Também sombrio, “O bebê da tarlatana rosa”, de João do Rio, outra história curta, talvez entre mais um pouco no espírito da gandaia. Mas cabe à crônica “Batalha no Largo do Machado”, de Rubem Braga, ser, esta sim, uma brilhante tradução em prosa da ofegante epidemia. É claro que o gênero crônica, por sua natureza, oferece uma fartura de textos de carnaval, mas não acredito que algum deles chegue perto desse do Braga.
Devo estar esquecendo títulos importantíssimos, com certeza. Infelizmente, nunca tive nas mãos a (esgotadíssima) “Antologia do carnaval”, de Wilson Louzada. Sendo este post uma obra aberta, espero que me corrijam. Mas mesmo assim o saldo tende a ser magro. Na poesia, Manuel Bandeira e Mario de Andrade abrem alas para um bloco ativo, ainda que meio melancólico, ali na fronteira da Quarta de Cinzas. A prosa fica devendo ou é impressão minha?
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12/02/2007 - 19:34
O post deve iniciar com breve e superficial descrição do ambiente. Usar as palavras casa de minha avó, sombra da mangueira, calor abafado. Falar da quase felicidade que eu sentia por estar ali, lendo um livro, sem maiores preocupações. Talvez especular sobre a experiência de não suar apesar do calor, divagando sobre as possíveis causas do fenômeno e sobre o modo como ele, longe de representar incômodo, tornava tudo ainda mais estranhamente agradável. Tom neutro.
Começa bem, depois melhora. Quem acha que blog não combina com prosa literária de qualidade precisa ler isso.
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11/02/2007 - 00:01
A autora nunca me interessou terrivelmente, mas comecei a ler seu diário de juventude com uma vaga curiosidade e fui até o fim. São cheias de reflexões como essas aí embaixo – cruas, nervosas, às vezes meio adolescentes, mas transpirando sinceridade – as anotações que a escritora e pensadora americana Susan Sontag (1933-2004) manteve de 1958 a 1966, basicamente entre Paris e Nova York, enquanto lutava para se inventar como escritora.
Como atração colateral, vale a pena fingir por um momento que estamos lendo os posts de uma aspirante a escritora do século XXI: o estilo blogueiro já estava maduro há meio século, só faltava o meio.
Uma tradução do diário de Susan Sontag acaba de ser publicada pela revista “Granta” em espanhol – acesso livre, em pdf, aqui.
31 de dezembro de 1958:
Por que é importante escrever? Sobretudo por egoísmo, suponho. Porque quero ser esse personagem, uma escritora, e não porque haja algo que deva dizer. Mas por que não também por isso? Com um pouco de construção do ego – como mostra o fait accompli deste diário – emergirei lá na frente com a confiança de que eu (eu) tenho algo a dizer, algo que deve ser dito.
19 de novembro de 1959:
O orgasmo concentra. Desejo escrever. A chegada do orgasmo não é a salvação; mais do que isso, é o nascimento do meu ego. Não posso escrever até encontrá-lo. A única escritora que eu poderia ser é uma que se expõe a si mesma…
24 de dezembro de 1959:
Meu desejo de escrever está relacionado com minha homossexualidade. Preciso dessa identidade como arma, para enfrentar a arma com a qual a sociedade me ameaça. Não justifica minha homossexualidade. Mas me daria – creio – uma licença. Começo a me dar conta de quanto remorso me causa ser lésbica.
Sem data, final de 1966 (três anos depois de lançar seu primeiro romance, “O benfeitor”, publicado aqui pela L&PM):
Joe (Chaikin) me pergunta esta noite o que sinto quando descubro que o que estou escrevendo, transcorridas três quartas partes, digamos, é medíocre, inferior. Respondo-lhe que me sinto bem e que luto até o fim. Me desfaço da mediocridade que há em mim. (A imagem excrementícia da minha escrita.) Ali está. Quero me livrar dela. Não posso negá-la por uma ação da vontade. (Ou posso?) Só posso lhe conceder voz, “expulsá-la”. Aí então posso fazer outra coisa. Pelo menos sei que não terei que fazer aquilo de novo.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts
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