Alguns livros estrangeiros do ano
Os detetives selvagens, de Roberto Bolaño (Companhia das Letras), do qual publiquei um trecho em Primeira Mão aqui, não teve na imprensa literária brasileira a acolhida que merecia. Houve quem o condenasse a nota de colunão, depois se arrependesse. Isso talvez se explique em parte pela força impressionante de uma narrativa que vai para duzentos lados ao mesmo tempo, confundindo o leitor apegado a eixos mais fixos. Romance complexo e excessivo, estilhaçado mas coeso, trágico mas engraçadíssimo, a obra-prima desse chileno que morreu precocemente na Espanha em 2003 é povoada de dezenas de personagens, quase todos, curiosamente, poetas – e menos curiosamente, considerando que Bolaño viveu no país, mexicanos. Engajam-se em disputas às vezes surdas, às vezes escancaradas sobre qual seria a voz capaz de redimir, com seu canto, todo um continente desgraçado – o nosso. Ou estarão apenas atrás do ouro-de-tolo da glória?
A ingenuidade dessa fé juvenil no poder da literatura é contrabalançada com folga por um desencanto de gelar a espinha, os dois pólos entre os quais vagam os “detetives” do título. Sua busca de romance metapolicial os leva a errar pelo mundo, arrastando, sempre um ou dois passos atrás, o leitor boquiaberto. Para mim, o livro estrangeiro do ano no Brasil.
O seguinte vem de mais um país hermano: O cavalo perdido e outras histórias, do uruguaio Felisberto Hernández (Cosac Naify), que também teve um trecho adiantado aqui em Primeira Mão. É a primeira edição brasileira desse escritor e pianista que morreu em 1964. E eu, que, confesso, não sabia nada do homem, ao terminar de ler o primeiro conto já estava aos soluços pelo tempo perdido. Quem gosta da inclinação pela magia que têm Julio Cortázar e Italo Calvino, os dois fãs mais famosos de Hernández, vai adorá-lo: não são poucos os pontos de contato entre seus estilos. Só que a voz do uruguaio é inconfundível, a voz de um escritor gigantesco, espantoso. O segundo destaque estrangeiro do ano no Brasil.
Que fique sempre entendido, falo daquilo que li. Não li tudo. Mas li um bocado. E eu avisei que seríamos subjetivos.
O terceiro não é um livro, mas uma penca deles: a estréia do excelente selo espanhol Alfaguara (tendo por trás a Objetiva-Santillana) foi o acontecimento editorial de 2006 no país. Como símbolo desse pacote, embora o livro esteja longe do melhor que o autor pode fazer, a capinha reproduzida aqui ao lado é a de Travessuras da menina má, de Mario Vargas Llosa, que estava na primeira leva de lançamentos e virou o grande best-seller da turma – para o trecho publicado neste blog na época, clique aqui.
Percebo de repente, com um certo susto, que o escritor peruano acaba de tornar o pódio internacional do Todoprosa totalmente latino-americano. Tudo bem, não há nada de programático nisso: aconteceu. Mas convém não esquecer que o selo Alfaguara entrou aqui pelo jogo coletivo e que ele inclui nomes de outras paragens como Lobo Antunes, Cormac McCarthy, Amitav Ghosh, James Joyce, Will Self…

Um ano muito bom, me pareceu. Teve a edição em capa dura de O Exército de Cavalaria, de Isaac Bábel (Cosac Naify), a primeira com tradução direta do russo, e o milagre de Suíte francesa, de Irène Némirovsky (Companhia das Letras), romance-evento que, publicado seis décadas após a morte de sua autora, uma judia russa, em Auschwitz, consegue ser um documento do avanço nazista na França escrito no calor da hora e, ao mesmo tempo, literatura de qualidade. Não convém esquecer o surpreendente A história do amor, da americana Nicole Krauss (Companhia das Letras), mais conhecida como mulher de Jonathan Safran Foer, que também disse presente com Extremamente alto & incrivelmente perto (Rocco). E, para fechar com mais um sul-americano, o ótimo argentino César Aira, que merece ser muito mais lido do que é, teve logo dois títulos lançados pela Nova Fronteira, Um acontecimento na vida do pintor-viajante e As noites de flores.

Um feliz 2007 pra você também, João Paulo!
Me lembrei que há um escritor árabe que teve mais um livro lançado este ano (”O último amigo”) por aqui, que é maravilhoso e ninguém fala dele no Brasil: Tahar Ben Jelloun. Ele escreve em francês, um francês ótimo, cristalino, mas ligeiramente diferente do francês de autores franceses. Temos alguns de seus livros publicados em português. Recomendo com veemência. Parece que ele é um dos cotados pra um futuro Nobel de literatura.
De curiosidade: já ouviram falar em Tahar Ben Jelloun?
Li sobre Tahar Ben Jelloun na Entrelivros. Uma entrevista se não me engano.
Realmente Cesar Aira merece!
Saint-Clair, você está brincando quando diz que não há espaço para edições -e com sucesso de vendas!- de “Contos Gays”, não?!
Claro que que há! Quem precisará de leitores heteros, mas ,fique certo, eles virão!
Aguardo do lançamento!
Abs.