Arquivo de dezembro, 2006
31/12/2006 - 11:59
Tempo físico e mental para ler “As mil e uma noites”, “Dom Quixote”, “A comédia humana”, “Guerra e paz”, “Em busca do tempo perdido”, “O quarteto de Alexandria”, “O Senhor dos Anéis”, “O tempo e o vento”, as aventuras completas de Maigret, as obras reunidas de Pynchon, toda a saga de Sandman, Mônica e Cebolinha unabridged – todos estes, um ou outro deles, nenhum, desde que sem sombra daquela sensação de correr contra o tempo para cumprir tarefas. Pelo puro prazer de pular fora do tempo. É o que deseja o Todoprosa a todos os seus leitores em 2007, aproveitando o mote para avisar que vai dar um tempo: o blog volta a ser renovado dia 15 de janeiro. Até lá.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts
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29/12/2006 - 00:01
Os detetives selvagens, de Roberto Bolaño (Companhia das Letras), do qual publiquei um trecho em Primeira Mão aqui, não teve na imprensa literária brasileira a acolhida que merecia. Houve quem o condenasse a nota de colunão, depois se arrependesse. Isso talvez se explique em parte pela força impressionante de uma narrativa que vai para duzentos lados ao mesmo tempo, confundindo o leitor apegado a eixos mais fixos. Romance complexo e excessivo, estilhaçado mas coeso, trágico mas engraçadíssimo, a obra-prima desse chileno que morreu precocemente na Espanha em 2003 é povoada de dezenas de personagens, quase todos, curiosamente, poetas – e menos curiosamente, considerando que Bolaño viveu no país, mexicanos. Engajam-se em disputas às vezes surdas, às vezes escancaradas sobre qual seria a voz capaz de redimir, com seu canto, todo um continente desgraçado – o nosso. Ou estarão apenas atrás do ouro-de-tolo da glória?
A ingenuidade dessa fé juvenil no poder da literatura é contrabalançada com folga por um desencanto de gelar a espinha, os dois pólos entre os quais vagam os “detetives” do título. Sua busca de romance metapolicial os leva a errar pelo mundo, arrastando, sempre um ou dois passos atrás, o leitor boquiaberto. Para mim, o livro estrangeiro do ano no Brasil.
O seguinte vem de mais um país hermano: O cavalo perdido e outras histórias, do uruguaio Felisberto Hernández (Cosac Naify), que também teve um trecho adiantado aqui em Primeira Mão. É a primeira edição brasileira desse escritor e pianista que morreu em 1964. E eu, que, confesso, não sabia nada do homem, ao terminar de ler o primeiro conto já estava aos soluços pelo tempo perdido. Quem gosta da inclinação pela magia que têm Julio Cortázar e Italo Calvino, os dois fãs mais famosos de Hernández, vai adorá-lo: não são poucos os pontos de contato entre seus estilos. Só que a voz do uruguaio é inconfundível, a voz de um escritor gigantesco, espantoso. O segundo destaque estrangeiro do ano no Brasil.
Que fique sempre entendido, falo daquilo que li. Não li tudo. Mas li um bocado. E eu avisei que seríamos subjetivos.
O terceiro não é um livro, mas uma penca deles: a estréia do excelente selo espanhol Alfaguara (tendo por trás a Objetiva-Santillana) foi o acontecimento editorial de 2006 no país. Como símbolo desse pacote, embora o livro esteja longe do melhor que o autor pode fazer, a capinha reproduzida aqui ao lado é a de Travessuras da menina má, de Mario Vargas Llosa, que estava na primeira leva de lançamentos e virou o grande best-seller da turma – para o trecho publicado neste blog na época, clique aqui.
Percebo de repente, com um certo susto, que o escritor peruano acaba de tornar o pódio internacional do Todoprosa totalmente latino-americano. Tudo bem, não há nada de programático nisso: aconteceu. Mas convém não esquecer que o selo Alfaguara entrou aqui pelo jogo coletivo e que ele inclui nomes de outras paragens como Lobo Antunes, Cormac McCarthy, Amitav Ghosh, James Joyce, Will Self…

Um ano muito bom, me pareceu. Teve a edição em capa dura de O Exército de Cavalaria, de Isaac Bábel (Cosac Naify), a primeira com tradução direta do russo, e o milagre de Suíte francesa, de Irène Némirovsky (Companhia das Letras), romance-evento que, publicado seis décadas após a morte de sua autora, uma judia russa, em Auschwitz, consegue ser um documento do avanço nazista na França escrito no calor da hora e, ao mesmo tempo, literatura de qualidade. Não convém esquecer o surpreendente A história do amor, da americana Nicole Krauss (Companhia das Letras), mais conhecida como mulher de Jonathan Safran Foer, que também disse presente com Extremamente alto & incrivelmente perto (Rocco). E, para fechar com mais um sul-americano, o ótimo argentino César Aira, que merece ser muito mais lido do que é, teve logo dois títulos lançados pela Nova Fronteira, Um acontecimento na vida do pintor-viajante e As noites de flores.
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28/12/2006 - 00:01
Existe uma segunda vantagem em tentar acompanhar o turbilhão de lançamentos que comentei na nota abaixo: diante da tarefa de eleger os livros mais destacados do ano, basta pescar na memória aqueles que conseguiram fugir do campo gravitacional dessa algaravia-láctea, suspendendo a impaciência e a exasperação da leitura para instaurar seu próprio tempo. Ah, o critério é subjetivo? Evidente que é. O Todoprosa nunca foi outra coisa. (Existe mesmo quem seja?)
Os títulos à altura da façanha não foram tantos assim. Em meio ao borrão de velocidade que Thomas de Quincey, com uma argúcia que soa deliciosamente ingênua nestes tempos eletrônicos, identificou no futuro da humanidade ao contemplar em meados do século XIX a carruagem do correio inglês, os livros que carregam suas próprias cápsulas de tempo flutuam nítidos na memória do leitor que leu muito, leu demais, mas ainda se recusa a abrir mão do prazer como princípio básico da brincadeira.
Não houve livro brasileiro de ficção que eu tenha lido com mais gosto este ano do que Mãos de Cavalo (Companhia das Letras), de Daniel Galera, resenhado na época aqui. Não estou dizendo que seja uma obra-prima, uma obra irretocável. Uma leitura ranzinza identifica nele pelo menos um ponto que se poderia chamar de calcanhar-de-aquiles – uma virada de trama que, se não fosse habilmente mascarada pela estrutura temporal em vaivém, saltaria aos olhos como inverossímil e forçada num livro que nunca rompe com o realismo. Que a busca do tal “defeito” sirva de estímulo extra para quem ainda não leu esse caprichado romance de formação de um autor que evoluiu como nenhum outro de sua geração.
Para mim, o que torna “Mãos de cavalo” mais interessante é o respeito – jamais excessivo ou paralisante – que Galera demonstra pela tradição do romance clássico, pela dedicação a um ofício que nunca foi bolinho, num momento em que um certo neo-romantismo alimentado pela internet enfatiza o voluntarismo da expressão dos egos, afugentando leitores à mão cheia.
Deixei ele lá e vim, de Elvira Vigna, outro bom livro de 2006, dialoga com a tradição do romance de modo inteiramente diferente: idiossincrático e sacana. Mais madura que Galera, a autora está claramente interessada em demolir – e não em erguer – o barraco ficcional. Exige participação tão ativa do leitor, trabalha com tantas elipses, pistas falsas e puxadas de tapete, que em mãos menos habilidosas sua prosa correria o risco de se tornar ilegível. O mais bacana é isto: não se torna nunca. Pelo contrário, para resistir à escrita de Elvira só mesmo sendo um crítico brasileiro médio, desses que ignoraram a pequena jóia que, já a partir do título, é “Deixei ele lá e vim”. (O Todoprosa também frangou o livro, cerca de três meses atrás, mas tem o álibi da falta de tempo; terminei de lê-lo há duas semanas, e espero que sua inclusão nesta lista seja redenção suficiente.)
O terceiro lançamento nacional que me encheu os olhos em 2006 tem carga menor de novidade, mas sua edição inédita em livro é uma notícia espetacular: Cartas de viagem e outras crônicas, comentado aqui, reúne textos publicados no “Pasquim” por Campos de Carvalho, autor de “A lua vem da Ásia” e “O púcaro búlgaro”. Trata-se de um grande escritor que o Brasil de vez em quando tem que redescobrir – o que é uma forma de dizer que sempre o esquece. Foi o melhor título da boa coleção Sabor Literário, da José Olympio.
Outros prazeres de 2006: o pontapé inicial no bem-vindo relançamento de toda a obra de Luiz Vilela, com a novela inédita Bóris e Dóris (Record); a surpresa do finíssimo humor grosso de Edward Pimenta em O homem que não gostava de beijos (Record); os delírios verbais de Luiz Roberto Guedes em O mamaluco voador (Travessa dos Editores); a prosa simplíssima de Michel Laub na novelinha O segundo tempo (Companhia das Letras); a engenhosidade de Flávio Carneiro em A confissão (Rocco); a densidade poética de Ronaldo Monte em Memória do fogo (Objetiva). Houve mais, mas…
Ah, sim: 2006 fica na história como o ano em que Milton Hatoum, com Cinzas do Norte (lançado em 2005), ganhou todos os prêmios que havia para ganhar. Justo. E mais um sinal de que o romance-romance não está disposto a ser aposentado.
Até aqui, estamos falando de livros inéditos, mas relançamentos em grande estilo foram responsáveis por boa parte do espetáculo em 2006 – como devem ser. Puxando a fila das velhas novidades, A vida como ela é, de Nelson Rodrigues (Agir), marcou a mudança de endereço da obra em prosa do autor, até então na Companhia das Letras, e apresentou a uma nova geração essas obras-primas do conto-crônica carioca. Na época do lançamento escrevi sobre o livro aqui.
Outras boas notícias do ano: a continuação, pela editora Ouro Sobre Azul, do projeto de relançamento da obra do crítico Antonio Candido, chegando agora ao clássico Formação da literatura brasileira; e a exploração do rico filão do “Pasquim” que vem sendo promovida em ritmo acelerado pela editora Desiderata. A reedição de O nariz do morto, de Antonio Carlos Villaça (Civilização Brasileira), obra-prima do memorialismo brasileiro que resenhei aqui, também merece destaque, juntamente com a do esquecido romance A idade da paixão, de Rubem Mauro Machado (Bertrand Brasil).
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27/12/2006 - 13:26
Em 2006 eu li muito, talvez nunca tenha lido tanto. Não é uma experiência de todo positiva. Ler por obrigação, tentando acompanhar o ritmo cada vez mais desembestado dos lançamentos, deve trair algum princípio formador do gosto pela leitura, desses que ficaram perdidos na pré-história da vida adulta. Tem algo de heresia nessa exasperação, nessa velocidade, e outro tanto de mau gosto e barbárie. Não me queixo. É até possível – embora por enquanto seja apenas uma suspeita a ser ponderada com calma em 2007, eis mais uma resolução para a lista – que tal modo de ler tenha a virtude de reproduzir numa escala individual a aceleração do fluxo de informações que é uma marca do nosso tempo, com todos os penduricalhos da diluição geral dos sentidos, da atenção curta, da impaciência do leitor etc.
E por que isso seria uma virtude? Sei lá – porque mergulhar de forma suicida no Zeitgeist deve servir para alguma coisa. Nem que seja para descobrir onde fica o botão que desliga essa joça.
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25/12/2006 - 21:34
“Mestre da ficção auto-reflexiva”, assim já se chamou Vladimir Nabokov (São Petersburgo, 1890-Montreux, Suíça, 1977). A verdade é que este escritor genial que estava convencido de o ser criou um estilo que, se com certeza é único, paradoxalmente fecundou de maneira extensa a narrativa norte-americana que não depende exclusivamente do realismo. Mesmo assim, Nabokov é um detalhista consumado; a quantidade de gestos, trejeitos e outras coisas extraídas da realidade que utiliza é impressionante; verdadeiramente fascinante é o modo pelo qual as transmuta em literatura, porque é tão minucioso ao selecionar o que seu olhar observa como ao transpor tudo isso para o território da imaginação. O constante fluxo de imagens em sua prosa é resultado de uma poderosa reflexão sobre as qualidades expressivas da linguagem, pois, como assinala seu biógrafo com acerto, “só quando a mente tenta olhar além da generalização ou do lugar-comum as coisas começam de verdade (o grifo é meu) a se tornar reais, individuais, detalhadas, diferenciadas umas das outras”. O melhor realismo seleciona, para o imitar, o que considera significativo da realidade; Nabokov dá a sensação de operar de modo inverso, isto é: só aceita a realidade que sua imaginação iluminou previamente; sua magia – ele gostava de mágicos e prestidigitadores – é a capacidade de apresentar como reais as imagens mentais.
A crítica que José Maria Guelbenzu publicou no “Babelia” (acesso livre) sobre a tradução espanhola do segundo e último volume da biografia de Vladimir Nabokov escrita pelo irlandês Brian Boyd, Los años americanos, me fez incluir o livro na lista das leituras obrigatórias de 2007. Normalmente não ligo para biografias, mas quem disse que Nabokov é um escritor normal? Outro dia afirmei acreditar que, a esta altura, toda ficção que não incorpore em alguma medida a auto-reflexão corre o risco de ser apenas arte naïf, e houve quem achasse que eu falava de truquezinhos metalingüísticos chinfrins. A questão é bem mais funda do que isso, claro, muito menos relacionada ao enredo do que ao plano em que as palavras e as coisas fazem seu pacto. E desconfio que esse exilado russo carregue boa parte da culpa.
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24/12/2006 - 00:01
O “conto de Natal” é um subgênero mortífero. Se for muito natalino, dificilmente escapa de ser má literatura. Se não for nada natalino, pode até ser boa literatura, mas conto de Natal não mais será. Por isso, de vez em quando nessa época eu releio e renovo minha admiração por “Natal na barca”, de Lygia Fagundes Telles, o melhor conto natalino que conheço, publicado no livro “Antes do baile verde” (1970). Para ler ou reler, é só clicar aqui. Bom Natal para todos.
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23/12/2006 - 00:01
“Você vai causar uma ótima impressão.”
Esta é a primeira linha de Lunar Park e na sua concisão e simplicidade deveria supostamente ser um retorno à forma, um eco, da frase de abertura do meu primeiro livro, Abaixo de zero.
“As pessoas têm medo de mudar de pista nas vias expressas de Los Angeles.”
Desde então, as frases de abertura dos meus livros – não importa o quanto artisticamente compostas – tornaram-se supercomplicadas e ornamentadas, com uma ênfase pesada e inútil nas minúcias.
Que fique claro: o começo de “Lunar Park” (Rocco, 2006, tradução de Aulyde Soares Rodrigues e Maira Parula) parece ser mais inesquecível para seu próprio autor, o americano Bret Easton Ellis, do que para o leitor. Paciência. Uma seção como esta não poderia deixar passar um início de romance feito de inícios de romance, numa apoteose metalingüística que, se não me deu vontade de ler o livro, tem lá o seu engenho – ainda que cabotino. De Ellis, li nos anos 80 o bom “Abaixo de zero”, que o transformou no jovem da moda nas letras americanas, e nos anos 90 “O psicopata americano”, tão equivocado que me fez desistir do sujeito.
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21/12/2006 - 16:17
A idéia foi roubada de um post do blog de livros do “Guardian”, blog que foi uma das melhores notícias da – em geral mais louvada do que merece – blogosfera literária em 2006: eleger o livro mais superestimado do ano. Soa antipático? Soa, claro. Uma antipatia à moda inglesa. Mas não deixa de ser uma forma inteligente de retrospectiva. Ao inverter os sinais habituais em busca de identificar aquele livro que ocupou mais espaço em nossas vidas do que – percebemos claramente agora – fazia por merecer, estamos refletindo sobre o passado recentíssimo e nos imunizando contra uma praga comum nas listas que proliferam nesta época do ano, a do “vamos dar uma força para o Zé”.
No blog inglês, melhor do que o post em si foi a resposta que ele provocou nos leitores, cada um em busca do seu livro superestimado de eleição. Mãos à obra, portanto, moçada. Fica aqui a minha contribuição: “Mastigando humanos”, de Santiago Nazarian (Nova Fronteira), foi tratado por parte substancial de nossa imprensa literária como um livro de originalidade lancinante, apenas por ser narrado por um jacaré. O papagaio de Verissimo chegou poucas semanas depois, e com prosa bem melhor, mas não a tempo de revogar tanto pasmo zoológico.
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20/12/2006 - 15:15
“Borges”, de Adolfo Bioy Casares, é um livro monstruoso e de alguma forma heróico. Tem a descortesia de somar 1.663 páginas, que podiam ter sido reduzidas, nas mãos de um editor menos preocupado em parir um monumento, facilmente a 600. A maior parte das entradas desse extenso e excessivo diário de vida são listas de pessoas que jantaram na casa de Bioy ou compareceram a um coquetel da sociedade de escritores argentinos. O excesso de páginas é ainda mais aterrador quando se pensa que os protagonistas do livro eram, com justiça, famosos como fanáticos da concisão.
(…) Não indicado para almas sensíveis, Borges e Bioy destróem em poucas frases toda a literatura espanhola depois de Quevedo, e Eliot, e Pound, e Aragon, e Sartre, e Eluard, e Beckett, e Neruda, e Mistral, e Camões, e naturalmente Arlt, Sábato (um dos grandes personagens cômicos do livro), Cortázar…
O articulista Rafael Gumucio, do suplemento literário do jornal chileno “El Mercurio”, defende a tese de que Adolfo Bioy Casares traiu seu grande amigo e irmão literário, Jorge Luis Borges, ao manter um diário tão minucioso de sua convivência. A traição estaria na exibição de um homem prosaico, fofoqueiro, palavroso, às voltas com as miudezas da vida, em contraste dramático com a imagem heráldica que o próprio Borges cultivou para si.
A notícia sobre a publicação do tijolaço de Bioy apareceu no Todoprosa em nota de 19 de outubro – aqui. Vale ler também o comentário do blogueiro Jean François Flogel, o bom correspondente do El Boomeran(g) em Paris, a cuja paixão pelo pai de Pierre Menard devo esta e a outra notícia sobre “Borges”.
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19/12/2006 - 17:39
Nada melhor para combater o baixo astral de uma acusação de plágio do que publicar um belo texto na “New Yorker”. Ian McEwan sabe disso. A revista adianta um trecho do próximo romance do autor inglês, On Chesil Beach, a ser publicado em junho – aqui. Recomendo efusivamente. A descrição da tensa lua-de-mel de Edward e Florence, ambos virgens, numa década de 60 que ainda não tinha dito com todas as letras a que viera, é puro McEwan na mescla de paisagens interiores e ambientação histórica. E o sexo, com todos os seus conflitos, é quase tão bom – embora bem menos gratificante – quanto o da inesquecível cena da transa na biblioteca em “Reparação”.
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18/12/2006 - 20:54
Em 2000, dois anos antes de morrer, o pai do escritor turco Orhan Pamuk lhe deu uma mala cheia de escritos que, literato amador, acumulara ao longo da vida. As cenas tensas que se desenrolaram em seguida foram lembradas por Pamuk em seu discurso de agradecimento do Nobel de Literatura, parcialmente publicado no fim de semana pelo “Guardian” – acesso livre, em inglês, aqui.
A primeira coisa que me manteve afastado do conteúdo da mala foi o medo de que eu pudesse não gostar do que ia ler. Como meu pai sabia disso, tomara a precaução de fingir que não levava aquilo a sério. Depois de trabalhar como escritor por 25 anos, era doloroso para mim perceber isso. Mas eu não queria ficar irritado com ele por ter fracassado em levar a literatura a sério (…) Meu verdadeiro medo, a coisa crucial que eu não queria saber ou descobrir, era que ele pudesse ser um bom escritor.
É impressionante a semelhança entre a experiência pungente relatada por Pamuk e aquela que inspirou ao inglês Hanif Kureishi seu livro “No colo do pai” – comentado aqui embaixo, na nota de 6/12.
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17/12/2006 - 00:01
DIÁRIO DE ANDRÉ
(conclusão)
18 de… de 19… – (…meu Deus, que é a morte? Até quando, longe de mim, já sob a terra que agasalhará seus restos mortais, terei de refazer neste mundo o caminho do seu ensinamento, da sua admirável lição de amor, encontrando nesta o aveludado de um beijo – “era assim que ela beijava” – naquela um modo de sorrir, nesta outra o tombar de uma mecha rebelde dos cabelos – todas, todas essas inumeráveis mulheres que cada um encontra ao longo da vida, e que me auxiliarão a recompor, na dor e na saudade, essa imagem única que havia partido para sempre? Que é, meu Deus, o para sempre – o eco duro e pomposo dessa expressão ecoando através dos despovoados corredores da alma – o para sempre que na verdade nada significa, e nem mesmo é um átimo visível no instante em que o supomos, e no entanto é o nosso único bem, porque a única coisa definitiva no parco vocabulário de nossas possibilidades terrenas…
O início de “Crônica da casa assassinada”, romance lançado em 1959 pelo escritor mineiro Lúcio Cardoso (Civilização Brasileira, edição comemorativa dos 40 anos da obra, equivalente à 12a, 1999), lança o leitor sem preâmbulo dentro de uma densa, negra, torturada, convulsiva, profunda – e bonita de doer – obra-prima da literatura brasileira.
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16/12/2006 - 00:01
Juan Carlos Onetti (1909-1994) é um dos menos conhecidos dos grandes escritores latino-americanos. Eu mesmo confesso que demorei demais a conhecê-lo. Mas que é um dos maiores – para muita gente mais nervosa no manejo dos superlativos, o maior – ficou claro para mim ao ler o romance “A vida breve”, na edição de 2004 da editora Planeta, com tradução impecável de Josely Vianna Baptista, que agora nos dá esses “47 contos de Juan Carlos Onetti” (Companhia das Letras, 448 páginas, R$ 42). O mais recente título da coleção de contos da Companhia – aquela com belas capas em estilo retrô de Jeff Fisher – traz todas as histórias curtas escritas por Onetti ao longo de seis décadas, de 1933, em Montevidéu, onde nasceu, a 1993, em Madri, cidade que adotou após ser exilado pelo regime militar, em 1975. Mestre da sutileza e do desencanto, com suas narrativas em que “nada acontece” ocupando quase programaticamente o pólo oposto ao das pirotecnias verbais e simbólicas do chamado realismo mágico, é até compreensível que esse uruguaio que se dividiu entre o jornalismo e a publicidade – sem jamais deixar de ser ficcionista – tenha sido mais lento que tantos de seus contemporâneos na corrida pela consagração. Mais compreensível ainda é que seu nome vá ficando cada vez maior, à medida que passam as modas. Leia abaixo o conto “Amanhã será outro dia”:
A chuva deixara os bulevares quase vazios e só restava gente agrupada no café envidraçado onde, havia meses, não a deixavam entrar.
Sonia, de pé no vestíbulo da casa vazia, viu que a chuva passava, fatigada, a manso chuvisco, viu-a cessar enquanto aumentava o frio do vento, e pensou que aquilo era sinal de boa sorte. Um pouco mais longe, do outro lado do amplo passeio, as luzes da cidade começavam a se acender. A noite tinha início, e, respirando o aroma tristonho de seu casaco molhado, Sonia pensou que também a esperança tinha início. Sorriu, sem realmente acreditar, como uma menina para a qual recitaram uma história já ouvida e inverossímil.
Apalpou novamente a crespa peruca loira e com grande cuidado — tinha as unhas muito compridas — foi esticando as meias ensopadas presas pelas ligas.
Sentiu fome de novo e lembrou que tinha um sanduíche de presunto no bolso. Mas não podia estragar o desenho da boca que fizera com batom e com tanto cuidado. Também lembrou que até o fim do mês estava em ordem com a polícia e obrigou-se a caminhar, aproximando-se da beira das calçadas para sorrir para os carros, rebolar e parar, fingindo procurar alguma coisa na bolsa enorme. Mas nada, ninguém, e sem dinheiro para tentar a sorte em bares onde ainda a deixavam entrar.
Era noite e depois madrugada no bairro sujo da grande cidade. E Sonia, já sem fome, quase sem esperanças, continuava caminhando sobre a dor dos sapatos de salto agulha.
Repetiram-se os breves diálogos com os homens que passavam.
— Vamos. Você vem?
— Vá tomar no cu.
— Gosto disso. Eu também posso botar se quiser experimentar. Leia mais »
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Primeira mão
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14/12/2006 - 17:19
Acertos de contas do gênero não são novos, e confesso até já ter brincado com a idéia de me vingar de uma ou outra pessoa nefasta da vida real por meio da ficção – embora, felizmente, não tenha levado adiante planos tão mesquinhos. Mas o que o best-seller Michael Crichton, de “O Parque dos Dinossauros”, fez em seu último livro, Next, bate todos os recordes. O caso é contado no “New York Times” de hoje (aqui, mediante cadastro gratuito) e pode ser resumido assim: este ano, um repórter de política formado em Yale e baseado em Washington, chamado Michael Crowley, escreveu um artigo criticando Crichton com violência por suas posições políticas conservadoras; em Next, um personagem secundário chamado Mick Crowley, colunista político formado em Yale, baseado em Washington e – detalhe infame – portador de um pau pequeno, é preso por estuprar um menino de dois anos, “ainda de fralda”. O mesmo nome, a mesma universidade, a mesma cidade, a mesma profissão, não se sabe se a mesma anatomia. E o mais imperdoável dos crimes. Tudo indica que Crichton pirou.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts
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