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“É muito difícil pensar em ’ser escritor’ quando se nasce num país em
que ninguém lê: os pobres porque não sabem ou porque não possuem
meios para adquirir conhecimentos, e os ricos porque não sentem
vontade. Numa sociedade assim, querer ser escritor não é optar por
uma profissão, mas por um ato de loucura.” MARIO VARGAS LLOSA

26/11/2006 - 00:01

Edward Pimenta: ‘O homem que não gostava de beijos’

Eu nunca tinha ouvido falar de Edward Pimenta. A orelha de “O homem que não gostava de beijos” (Record, 128 páginas, R$ 27,90) informa que ele é jornalista, nascido em Mirassol (SP) em 1974. Ah, sim: na introdução, o diretor de teatro Gerald Thomas se rasga em elogios. Hmm. Confesso que isso não preparou meu ceticismo de retinas tão fatigadas para o prazer de ler esses 31 contos breves protagonizados por um personagem de mil caras chamado Horace Catskill. O tênue fio condutor desse nome parece ser a razão pela qual o material de divulgação chama o livro de “romance”, coisa que ele definitivamente não é. Pimenta, que talvez seja antes de tudo um humorista, revela-se também um prosador talentoso e – coisa rara em nossas letras – cosmopolita, no controle de infinitas referências pop, mas sem traço de deslumbramento. Vale a pena vencer a barreira do título careta, curiosamente menos provocante que o da maioria dos contos, para descobrir, por exemplo, o que uma mosca encontra ao entrar pelas fossas nasais de Michael Jackson. Sabe aquela sisudez tristonha que a literatura brasileira gosta de confundir com seriedade, mencionada na nota de ontem – a sisudez que Campos de Carvalho, por exemplo, pagou caro por não cortejar? Nem sinal dela aqui. No continho abaixo, chamado “Um duelo com Luther Blissett”, Catskill se encontra numa taverna atemporal com Charles Dickens, o autor de “Oliver Twist”, e Luther Blissett, escritor fictício criado nos anos 1990 por um “coletivo” de artistas italianos disposto a provar a falência da idéia de autoria.

Charles Dickens, Luther Blissett e eu estamos nos vértices de um triângulo perfeito dentro da taverna. Coisa de cinco metros. Blissett consegue observar os dois, enquanto eu sou obstruído por umas mulheres risonhas. Só consigo encarar Blisset. Dickens está de férias. Passa temporadas no litoral pedregoso de Broadstairs para descansar do tumulto da capital. Vai sendo tragado pelo século XIX. Tomo cidra filtrada aos borbotões e sinto que não dormirei sem antes arrumar uma briga.

Qualquer pessoa bem informada sabe que Luther Blissett é uma fraude. E que seu projeto literário se ampara num manjado artifício de cruzar informações históricas com ficção, de preferência com ambientação medieval, porque é mais difícil de checar. Aproveitando que ele agora resolveu trafegar pelos estertores do Oitocento, sinto-me à vontade para freqüentar seu bar preferido, bisbilhotar sua casa e assediar sua mulher.

Como todo filósofo mistificador, Blissett é um homossexual. A grande verdade é que não acrescenta uma linha sequer ao pensamento de Schopenhauer e Spinoza. Essa é a verdade. Uma verdade objetiva. Ele está tomando absinto, que também é coisa de salta-pocinhas. Posso adivinhar que vibra com a hipótese de que sua mulher possa ser currada por uma legião de homens mais machos do que ele.

Com mais uns dois passos em direção ao balcão, fico a duas envergaduras de distância de sua cara de salamandra pré-histórica. Um salto bem dado, com a mão vinda de trás, vóp, alcanço-lhe o queixo. Mas não teria graça. Quero dizer umas verdades. Algumas considerações que fariam corar um escritor do século XIX. Eis que então ele se adianta. Um grunhido xaroposo vem precedido por um dedo apontado balançando no ar. Ninguém fica incólume quando põe o dedo para mim.

Minhas considerações, num vapor de perdigotos e exasperação: foda-se você com sua idéia de copyleft.

Um salto bem dado, com a mão vinda de trás, e vóp, vororóp, alcanço-lhe o queixo e ainda tiro tinta da cara de dois bibelôs que o emolduram. Ele não teve tempo de ver a mão crescendo-lhe nas fuças. Charles Dickens, sobrolho erguido, espia e sabe que alguma coisa importante deve ter acontecido com a literatura pós-moderna.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Primeira mão Tags:

16 comentários para “Edward Pimenta: ‘O homem que não gostava de beijos’”

  1. Bem legal esse conto. Seguro, bem-humorado, com ritmo. Também nunca tinha ouvido falar do autor.

  2. Outra coisa: essa capa é horrorosa! Pelamordedeus. Livro é mercadoria (também), e se não está numa embalagem bonita, quem há de se interessar?

  3. Roberson disse:

    O título e a capa não ajudam mesmo. Mas o texto… uau: muito bom.

  4. maria do carmo disse:

    Edward Pimenta?
    Eu ja tinha ouvido falar, sim.
    Alias, quero fazer uma correçãozinha no texto do Sergio Rodrigues: o cara é só nascido em Mirassol, mas viveu pelas plagas de Monte Alto, e circulou um bom tempo por Rio Preto (São Jose do Rio Preto – SP – pasmem senhores!, boca do sertão com ares de California-Brasil).
    Mas isso é mero detalhe, porque o Pimenta, sempre teve transito livre com o Jabor, Mainardi, y comprys Paulo Francis, que é a fonte de onde bebeu dessa agua purificadora de talentos ácidos e pós schopenhauerianos
    A capa? li ainda hoje, “que o envólucro acaba sempre no lixo”, pra que capa?
    Com tamanha urdidura e non sense realista, o menino vai longe.
    Pergunta pro Thomas.

  5. Roberto disse:

    Bom texto. Pior capa do ano.

  6. Giuliano Ventura disse:

    O texto é ótimo. E isso basta.

  7. João Marcos disse:

    Bom texto, mas esse tipo de (anti) herói psicopata, ao mesmo tempo machão, violento, culto e intelectual – uma mistura de Mike Tyson com Carlos Drummond de Andrade – foi, há muito, tragado pelo século XX.

  8. Mr. Ghost Writer disse:

    Entrou para a lista de auto-presentes para o Natalzão consumista… Obrigado Sergio…

  9. Felipe disse:

    gostaram, é? mais ou menos… :)

  10. Sirio Possenti disse:

    Não gostei de “sou obstruído por umas mulheres risonhas”. Obstruído?

  11. joao gomes disse:

    da para o gasto.

  12. Clarice disse:

    Além de ser “obstruído por mulheres” ele “”Toma cidra filtrada aos borbotões e…”. Descreve os arremedos de Borges que se vem produzindo por aí (ponto positivo).
    Mas, trocar filósofo por teatrólogo em “Como todo filósofo mistificador, Blissett é um homossexual.” descreveria o autor da orelha. Ah! Tem que trocar para “bisexual” Coitada da Fernadinha. Ninguém merece.

  13. pila disse:

    estou procurando seu irmao modestia parte adorei seu livro

  14. pila disse:

    eu te conheço , sussesso queria poder ve-los novamente abraço , alguem muito longe e voce nem imagina

  15. Cristina Berger Fadel disse:

    O seu livro “salvou” um pedaço das minhas férias, sem dúvida é uma ótima pedida para quem deseja se divertir de maneira capciosa e abrir-se a novos horizontes literários!!!!!
    Com relação à capa……bem, é melhor deixar pra lá……

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