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“É muito difícil pensar em ’ser escritor’ quando se nasce num país em
que ninguém lê: os pobres porque não sabem ou porque não possuem
meios para adquirir conhecimentos, e os ricos porque não sentem
vontade. Numa sociedade assim, querer ser escritor não é optar por
uma profissão, mas por um ato de loucura.” MARIO VARGAS LLOSA

11/11/2006 - 00:01

Sérgio Rodrigues: ‘As sementes de Flowerville’

Momento de autopromoção explícita: o titular deste blog tem um enorme telhado de vidro, inversamente proporcional à cobertura capilar que lhe resta. Autor do livro de contos “O homem que matou o escritor” (Objetiva, 2000) e da coletânea de crônicas “What língua is esta?” (Ediouro, 2005), está lançando na semana que vem seu primeiro romance, “As sementes de Flowerville” (Objetiva, 136 páginas, R$ 28,90). Os leitores do Todoprosa que moram no Rio ou estiverem passando por aqui nesta terça-feira, dia 14, estão convidadíssimos para um aperto de mão e dois dedos de prosa: a noite de autógrafos rola a partir das 19h na Livraria Argumento do Leblon (Rua Dias Ferreira, 417). Abaixo, um trecho do livro, que, instigado por um amigo a definir em duas palavras, resolvi chamar na intimidade de “farsa futurista”. O que é um rótulo tão idiota quanto qualquer outro, mas tem a vantagem de prometer alguma originalidade. Quantas farsas futuristas têm sido lançadas no Brasil?

Adelina começa a sentir contrações no meio da tarde do feriado de Sete de Setembro. Quando chega a noitinha e as dores estão vindo de dois em dois minutos, Sebastião corre com o vigor de seus vinte anos até a casa da parteira, bate palmas. Grita, se desespera, e nada. Uma vizinha aparece na janela com creme cor de abacate na cara e diz que a parteira foi passar o feriado com a filha que mora em outra cidade, só volta no dia seguinte. Sebastião responde, com vontade de chorar, que no dia seguinte é tarde. A mulher faz cara de foda-se e bate a janela.

É nessa hora que decide, o plano surgindo inteiro de uma vez, levar Adelina ao hospital. Se o trânsito ajudar, podem chegar lá em meia hora. A poucos passos da casa da parteira vê o Opala de quatro portas estacionado.

Quase entra com o Opala barraco adentro: freia no último instante, levantando poeira na rua de terra. Adelina está deitada na cama, olhos de louca, empapada de suor. Sebastião pega aquilo tudo no colo – a barriga de Adelina, o suor de Adelina, a respiração de Adelina, além da própria Adelina – e corre até o Opala. Ela geme no banco de trás. Ele arrasta uma nuvem de pó favela abaixo, vai escurecendo depressa, no meio do caminho acha que atropelou um cachorro, parece o Marechal, o velho vira-lata do Zoinho, seu amigo de infância, que pena, e daí.

Vai dar certo.

Não, não vai dar certo.

No asfalto, lembra-se de conferir o mostrador de combustível – na reserva. No chão da reserva. Vão ficar na estrada a qualquer momento. Adelina berra mais alto.

Não é justo, pensa Sebastião.

– Puta que o pariu! – grita. – Tá de sacanagem, maluco!

Adelina zurra, arfa, bale, zune.

– Vai tomar no cu, filho-da-puta!

Está rindo, Sebastião. Insulta Deus e ri, histérico. Que grande filho-da-puta. Pisa mais fundo no acelerador, não porque acredite na possibilidade de vitória contra o Escroto Supremo, mas para apressar a derrota, acabar logo com isso. O que seria, então? Um parto na estrada, noite escura já, só os faróis para jogar sua luz dura sobre a natividade, aquela sangueira toda?

Que fosse. Que ganhasse o puto, o Sacana-Mor, e a ele, Sebastião, só restasse o insulto, mas – o que era aquilo? Uma miragem?

Sente tudo desanuviar e pensa: obrigado, Sacana. Surpreso, também, pois não tinha a mais vaga lembrança daquele estabelecimento comercial que agora via se aproximar, passando o Ferro-Velho Moreirinha: o Auto-Posto Bela Cintra.

Um grandalhão cabeludo estava parado junto à bomba, de camisa social desabotoada até a barriga. Seu peito era forrado por um carpete negro em que um cordão de ouro se destacava como jóia em estojo de veludo. Não tinha cara de frentista.

– Completa, emergência!

Adelina gemia feito uma ambulância. O cara nem se mexeu.

– Não tá vendo? Minha mulher tá tendo um filho!

O sujeito deu um passo à frente e espiou pelo vidro do Opala com seu narigão esburacado. Viu Adelina, viu os olhos dela. Não tinha como não ter visto. Depois deu um passo atrás outra vez e disse:

– Eu quero ver o dinheiro.

Puta azar, Sebastião não estava acreditando. O cara era estranho, parecia cana.

– Tá, então não completa. Mas faz o favor de botar uma gasolina, é uma emergência, eu pago, o meu filho tá nascendo…

– O dinheiro. Mostra o dinheiro que eu boto a gasolina.

– Caralho, bota dez merréis, você acha que eu não tenho dez merréis? O meu filho…

– Eu não acho, não, eu sei! Eu sei que tu não tem nem dois merréis, que dirá dez, seu ladrão safado! – o cara falou grosso e rouco e tirou da cintura um trinta-e-oito, que apontou para Sebastião. – Seu filho não me interessa porque filho de ladrão safado vai ser ladrão safado também. Ou mostra o dinheiro ou some da minha frente, seu macaco de merda.

Sebastião tentou se lembrar se já vira o sujeito, se tinha feito mal a ele alguma vez na vida, fosse por querer, sem querer, qualquer coisa. Mas não conseguiu achar na memória nada que se relacionasse com aquele rosto de nariz escroto, expressão retorcida agora numa careta de nojo e prazer enquanto chutava a sua cara, a sua barriga, e depois, puxando Adelina do carro, a barriga dela também, repetidas vezes, pondo toda a força que tinha em cada pontapé e morrendo de rir.

Isso foi há trinta anos.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Primeira mão Tags:

28 comentários para “Sérgio Rodrigues: ‘As sementes de Flowerville’”

  1. Caro Trajano:

    o dia que um escritor tiver medo de sacrilégio, um sacrilégio será cometido.

    Independentemente da posição religiosa do autor, você deve ler o personagem, e não confundir tudo numa moral deturpada por muitas surras na sacristia.

    Abra essa mente. Não dói.

    Abraços,
    Alexandre Heredia

  2. Carlos Marques disse:

    Parabéns, Sergio. Graças a este seu blog tão agradável, vou dar meu voto de confiança e buscar seu livro. Há algum lançamento planejado para Sampa?

  3. André Laurentino disse:

    Sérgio,
    Que boa notícia, rapaz. Troco meus canapés com vinho branco pela amostra grátis do Blog. Vou ao Rio hoje, mas volto na manhã do dia D, antes das 19h. Compro o meu em SP mesmo, e leio explicitamente, ô Cuenca. Como internet não tem tom de voz, aqui vai um emoticon de sacanagem ;)

  4. joao gomes disse:

    e entao… sebastiao bateu o carro e foram todos (o proprio a mulher e o casal de gemeos) para Flowerville felizes para sempre????

  5. Julia Michaels disse:

    gostei muito, Sérgio e tenho muita pena de não poder estar no lançamento. te desejo muito sucesso!

  6. Sérgio Rodrigues disse:

    Obrigado Júlia, Dedé, Simone, Alexandre, Glória, Noga e todo mundo que deixou aqui suas mensagens de interesse pelas “Sementes”. A quem é do Rio, lembro que o lançamento é hoje à noite. Espero vocês lá.

    Dedé, meu amigo, acho que o João Paulo da leitura implícita e o Cuenca não são a mesma pessoa.

    Simone, gostei da sua farsa futurista. É bem mais futurista que a minha. Um beijo.

  7. PW disse:

    Boas vindas à farsa futurista, que de farsas passadistas nós já estamos cansados!

  8. ADriano disse:

    Mais um “estilo nu e cru”. Não posso reclamar, pois algum literata-moderninho dirá logo “mas a realidade é isso aí mesmo, não vamos fugir dela…”. Bem, não vou julgar por um trecho (aliás que idéia, não fará a menor diferença eu julgar ou não). Quem venha o livro.

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