A polêmica da vez
É boa a polêmica surgida entre Vinicius Jatobá e Gaston Gallimard na caixa de comentários da nota “Littell, Goncourt no bolso, é da Alfaguara”, aí embaixo. Boa, exaltada e complexa, mas no geral vejo uma dose maior de bom senso nos argumentos de Gaston. Tudo indica que a Alfaguara empregou bem seu dinheiro em Jonathan Littell – qualquer que seja o valor exato. Com a histeria internacional de público e crítica que cerca “As Benevolentes”, não é improvável que o investimento gere lucro. Quem sabe, até, muito lucro. Creio ser este o ponto fraco do retrato que Vinicius faz dos best-sellers – ralos de dinheiro que o autor brasileiro, se bem entendi, financia. Ora, best-sellers fazem dinheiro. É o que eles fazem, por definição. Exatamente de que forma isso seria ruim para o autor brasileiro aspirante?
Na história da indústria editorial, pelo contrário, é recorrente que fenômenos comerciais financiem o ambiente de afluência em que bancar a publicação de meia dúzia de escritores duvidosos, “literários”, passa a ser encarado como um piquenique. Convém não esquecer que o negócio de livros é, como sempre foi, um negócio. Interessa ao ambiente intelectual como um todo que o negócio seja saudável. Comprar os direitos de um livro que o mundo inteiro está comprando não é ruim para o Brasil. É fundamental, é o básico. Isso me parece cristalino: o mínimo para quem quer estar pelo menos na platéia de um certo Concerto das Nações.
Acho também que não se deve abusar do argumento nacionalista. Em seu sucesso, Jonathan Littell é parente próximo de Paulo Coelho, de Luis Fernando Verissimo. Do mesmo modo que o autor brasileiro incompreendido pelas editoras é primo do autor americano – ou, a propósito, búlgaro, ugandense, islandês – incompreendido pelas editoras.
Está tudo uma beleza, então? Sabemos que não, longe disso. Mas algo me diz que a culpa não é de Jonathan Littell.
Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts Tags:
Acompanhei a discussão e tendo a concordar com monsieur Gallimard. Não que Jatobá esteja inteiramente desprovido de razão: às vezes falta, de fato, um pouco mais de coragem para algumas editoras brasileiras, que poderiam investir mais em novidades nacionais. Mas aí vai um pouco de exagero, porque acho que os autores novos estão sendo razoavelmente bem publicados – muito mais do que na década passada, por exemplo.
Não entendo como a compra de best-sellers poderia revelar descaso com o autor nacional. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Pode-se perfeitamente editar (e pagar caro por) grandes sucessos internacionais e ao mesmo tempo investir na moçada nova e promissora. A choradeira – e o destempero do Jatobá ao ser confrontado com uma opinião diferente – me pareceram um pouquinho exagerados. Devagar com o andor, rapaziada!
Só um complemento: nota-se que o Jatobá, ao defender tão veementemente a identificação dos comentadores, é partidário do substitutivo do senador Azeredo. Talvez o Sérgio deva exigir que aqui se inclua, além de nome e email, o CIC, o RG e a filiação literária do comentador – assim ficaria mais fácil debater, não acham?
Os argumentos do Jatobá e do Gaston são “concordáveis”. Talvez o Jatobá tenha exagerado um pouco, mas ele tem razão. E o Gaston, mesmo tendo feito comentários curtos, tem razão também. Afinal, o dinheiro é da editora, ela faz o que bem entender. Autores nacionais ficam encalhados ou porque não são bons, ou porque faltou marketing. Sinceramente, tenho visto muito autor nacional ruim sendo publicado nos últimos tempos. O jeito é apelar para os estrangeiros. Fazer o quê? Mais especificamente sobre a Alfaguara, tenho uma visão bem capitalista: eles chegaram com dinheiro e editaram obras muito boas e em edições de muita qualidade. E alguns títulos estão bem baratos, não dá pra negar. Acho que quem ganha, com esses investimentos, somos nós, leitores. Mas é óbvio que falta um pouco mais de apoio ao autor brasileiro. Só que, como as editoras podem dar esse apoio, se os leitores brasileiros não se interessam por lê-los? Essa discussão é parecida com a discussão da Educação em nosso país: não adianta medidas emergenciais no ensino superior. O correto é corrigir o ensino de base. E mais não digo pra não misturar mais as coisas.
Bom, Sérgio, em nenhum momento pensei nos autores de livros policiais ou trillers jurídicos ou narrativas históricas para consumo de massa. Falo mesmo de autores de ‘qualidade’ que não vendem tanto assim e recebem valores altíssimos para terem seus livros editados no Brasil. Em nenhum momento pensei em livros de best-sellers, até mesmo porque a lógica desse tipo de literatura é encontrar que livro no estrangeiro podemos pagar uma bagatela para ganhar muitíssimo. Veja o caso do ‘Caçados de Pipas’: seus direitos custaram 15000 dólares. Essa é a questão que levantei: paga-se, muitas vezes, uma valor irreal ao nosso mercado para consumir autores de qualidade. A Alemenha paga 450000 dólares por cada romance do Lobo Antunes; chegou a 700000 euros a compra dos direitos de Houellebecq… Mas eles têm um mercado que aguenta isso, eles têm bibliotecas públicas, universitários que lêem, programas de literatura muito assistidos… Não acredito que o Brasil possa, pelo mercado que tem, entrar numa competição dessas, porque cada vez fica mais caro publicar autores de qualidade. Eu mesmo trabalhei numa editora e tentei comprar dois anos atrás uma autora que a Cia das Letras está publicando agora e era um absurdo os direitos de publicação. Então eu entendo porque a Cia está publicando essa autora por 45 reais, porque simplesmente nosso mercado, por não possuir uma pletora de edições mais rica (hardcover, e-book, paperback, etc), e não tem mesmo como recuperar esse dinheiro gasto. O dinheiro com best-seller é fácil de recuperar; o dinheiro que se gasta pelos direitos do Roth, Amis, Munro, etc, etc, e agora Littell, serão recuperados como? Como nosso mercado produzirá uma venda que recupere esses seis dígitos gastos, provavelmente, em euros? Como, se quando um livro de qualidade vende 12000 exemplares a editora já comemora? É disso que estou falando. As editoras reclamam tanto de dinheiro, e como gastam dessa forma? E é claro que o Littell não se pagará, e quem é ingênuo de acreditar que são os outros livros que vão ter que absorver esse prejuízo? Se os livros vão se inflacionando, menos pessoas compram livros; e escritor, que quer se profissionalizar, tem que vender livro, tem que formar leitor. Então falamos de quê: fazer de bons autores objetos de culto para aqueles que tem 60 reais para gastar, ou de formar um público leitor com preços justos? Porque se os livros começarem a se inflacionar do modo que estão se inflacionando (trabalho com livros à seis anos, e o aumento no preço de capa é superior à 100%), chegaremos ao paradoxo de um mercado que edita o melhor produzido no mundo mas que colocará os leitores na berlinda de terem de escolher entre comer ou ler. Quanto ao ignorante e mal educado do Gaston, ele vem com uma estória de que sou ressentido, que estou propondo defensionismo literário, e não é nada disso. Estou apenas dividindo com pessoas interessadas em leitura algo que tenho notado com esse meu trabalho de anos com livros, editoras, resenhas. Essa é a minha impressão, é a minha preocupação, e divido-a com quem quiser pensar nela. Se os próprios editores não estivessem preocupados com isso, eles não estariam pensando em coleções de bolso. Há um problema, há um inflacionamento. Pergunto-me: quê fazer?
…e quem é ingênuo de acreditar que não são os outros livros que vão ter que absorver esse prejuízo?…
Eu me sinto exatamente como aquele leitor descrito pelo Jatobá: não tenho R$60,00 pra comprar livros de bons autores como o Lobo Antunes, a Alice Munro e o Roberto Bolãno (que, dificilmente, aparecem em sebos). Portanto, concordo com ele. Está a se formar uma situação esquizofrênica no mercado de livros de qualidade no Brasil: oferta há, mas não se tem como comprá-los. Fico imaginando aonde essa situação vai nos levar. Provavelmente a lugar nenhum: quem pode, compra. Quem não pode, pega as sobras. Estou me sentindo uma hiena.
Não acho que seja uma situação “natural” os livros já começarem a bater na casa dos 70 reais. Há algo de muito assustador nisso. Algo de profundamente inquietante. Será que ninguém de peso vai criar coragem e dizer que o Rei está nu?!?
Eu idem. Quero comprar livro.
Que tal, então, mudar o mercado, diversificá-lo? Certo, não há como editar por menos, então os escritores nacionais, como os escritores lá fora, passam a poder negociar edições diferentes de um mesmo texto seu. Publica-se uma edição de brochura pela editora A e, depois de uma janela estabelecida legalmente, pode-se negociar o mesmo texto com uma editora especializada em edições de Bolso, que pode não ter nada haver com essa editora A. Durante muito tempo foi assim nos EUA, até que as editoras maiores foram comprando as editoras de paperbacks e transformando-as em selos editoriais. Creio que assim teríamos o livro de 45; depois, um livro de 22-25. Vejo o caso do Javier Marías, da Alfaguara espanha. Não satisfeito com a edição de bolso dos seus livros pelo selo de bolso da Alfaguara, simplesmente fechou com a Mondadori, maior rival da Alfaguara na Espanha, para ter os livros que publica em brocura em uma editados em bolso na outra. O mercado está amadurecendo; e o escritor nacional, não vai andar junto? O que acredito, mesmo, é que essa lógica atual não será benéfica nem para os escritores nem para os editores que desejem publicar autores nacionais. Qual o limite disso? Romances à 70, 80? Sinceramente, essa faixa é para livros de referência, dicionários, enciclopédias, e não para romances. Acho que os escritores têm uma atitude muito passiva, e acabam assim publicando seus livros só de cinco em cinco anos. Porque a questão não parece ser de dinheiro pelas cifras que são gastas lá fora. E as grandes editoras não investem tanto assim em novos autores, e muito menos nos clássicos. Quantos grandes clássicos estão fora de catálogo à décadas? Só agora Murilo Rubião voltou a ser editado. Na França Flaubert nunca está esgotado. Há sempre edições de bolso que estudantes podem comprar. Ou o mercado se diversifica, ou será pra meia dúzia. E, na verdade, o Best-Seller serve para financiar o próximo best-seller; se fosse o contrário, editoras que emplacam muitos livros editariam dezenas de escritores nacionais. O que pode ser observado é que a estória não é bem essa… A editora pode fazer com o dinheiro dela o que bem entender; mas o escritor brasileiro, diante do quadro que se desenha, tem que escolher também: ser profissional e lutar para receber publicidade e ter seus livros com tiragens maiores e preços justos, ou ser um bobo alegre por ter 2000 exemplares encalhados em um estoque por aí, com ‘prestígio’ mas sem um tostão furado no bolso?
Vinicius, sua revolta é louvável, mas acho que você confunde um pouco as coisas. O autor brasileiro vende pouco por um motivo bastante simples: o leitor praticamente não existe. Não tem publicidade e preço baixo que façam um autor de ficção estreante vender mais que 3000 exemplares no Brasil. Entendo seu desespero, porque você deve fazer parte da ínfima camada de leitores não-remediados desse país – os remediados são mais raros ainda -, e para nós o livro é caro mesmo. Mas acho que, a despeito dos aumentos, temos tido alguns avanços. A coleção de bolso da Companhia das Letras, por exemplo, que começou como um experimento temporário, cresce cada vez mais. Semana passada comprei um Freud, um Vonnegutt e um Dostoievski por menos de quarenta reais (os três), todos editados pela LP&M. Dava pra fazer mais? Sem dúvida. Mas enquanto o Brasil não tiver um público-leitor razoável, viveremos eternamente à mercê da esquizofrenia do mercado.
É sempre mais cômodo achar um “inimigo” para o problema, seja ele as editoras, os autores estrangeiros, os best-sellers. O fato é que nosso buraco é beeeem mais embaixo…
Olá Sergio,
eu sempre leio “no mínimo” e sempre leio a sua coluna e a do Fiuza. Coloquei um link em meu blog. Só tenho um problema: não consigo ouvir a seleção musical. Qdo eu clico aparece “concluido” e nada…
É frustrante…
Relamente o livro “Dalia Negra” é ótimo. Tenho até medo de ver o filme. Já cansei de ver meus livros prediletos sendo destruídos no cinema.Ah, e a minha capa é aquela antiga.
Um abraço e parabéns pelo ótimo trabalho.
Mon cher Sergiô,
Antes de mais nada, obrigado por não transformar meus comentários num laudo psicanalítico sobre auto-estima depreciada. Merci à toi.
A regra número um pra botar uma editora a pique é pagar com os livros que vendem
muito os livros que vendem pouco. São inúmeros os exemplos: o cara edita “Como comer sua mulher todo dia durante 25 anos” e ganha milhões de reais. Pronto: aí edita contos populares do Sudão, a nova sensação da Mauritânia e as obras completas de Karl Jaspers. O resultado é uma bela falência. Então é bobagem , e da grossa, associar o preço alto dos autores literários ao preço alto que se paga por eles. OU melhor, amadorismo, pois cada livro tem uma escala e deve ter uma saúde própria – é assim que trabalham todos os profissionais que dão certo.
O que encarece, e muito, é a produção: quero ver o nosso Jatobá comprar os direitos de, por exemplo, um Martin Amis, por um preço alto, mas não exorbitante. Digamos, US$ 3 mil de adiantamento (que vai ser abatido na venda). Tem que traduzir (pagando mal já é caro, pagando bem, como convém, é bem caro), diagramar dignamente, fazer uma capa boa, comprar papel, pagar a impressão, manter estoque, distribuir, consignar, recolher o estoque e acertar o direito autoral cobrando, digamos, R$ 35 para um livro de 200 páginas. Não fecha. Ok, a culpa é da tiragem, modesta, 3 mil exemplares. Então a solução é fazer edições mais populares também. Vamos lá: rediagrama, faz nova capa (tem que ter nova capa), tira as orelhas, piora o papel (mas tem que comprar, né?), paga a impressão (cujo custo é o mesmo), tem que manter o estoque (alto, pois a tiragem aqui vai ser de 10 mil exemplares), distribui, consigna, recolhe, acerta, etc. Pela primeira edição o Martin Amis recebeu 8% de direito autoral. Pela segunda, 5%, pra viabilizar um preço de, digamos, R$ 15. Não fecha, simplesmente porque no Brasil não há 13 mil leitores de Martin Amis. É aquela história do Garrincha diante da estratégia perfeita do técnico: já combinou com o adversário?
E mais:
Criar várias fases para o livro é bom quando se combina com o adversário, ou seja, quando se tem leitor. E não temos um público leitor como o da Inglaterra onde o Allen Lane inventou na Penguin o livro de bolso. Estamos por isso condenados à ignorância? Não, claro que não. Mas os livros têm que começar a circular de algum jeito. Hoje o Brasil traduz quase tudo e publica muita gente da nova geração. Está boa a situação? Não, mas não caminha para o desastre e a segregação, ao contrário. Mercado leva tempo pra se acomodar e o nosso, em termos modernos, tem pouquinho mais do que 20 aninhos.
Isso para não falar nos poucos leitores: o cidadão que se esfalfa para dar conta dos preços praticados não quer “arriscar” seu dinheiro num autor brasileiro novo. Arrisca no estrangeiro em parte por colonização e em parte porque quando vem um estrangeiro não é “novo”: já há imprensa sobre ele, repercussão, etc. Aí os autores novos reclamam de marketing. Pois bem, quando um deles, os jovens, é bem divulgado, quase todos os outros dizem que ele não presta, que é puro produto de marketing. Quando o garoto ou a garota aparecem em revistas, na TV, na FLip, na Bienal, tem sempre gente para dizer que “fulano é invenção de marketing”. OK, e se for? Não é isso que se quer? O colega não está sendo “profissional”? Mas aí é a síndrome do caranguejo de Recife: Oliveira Vianna, o historiador, hospedou-se num hotel e encheu a banheira de caranguejos, que daria de presente a um amigo. O gerente reclamou, argumentando que os bichos poderiam criar problemas para os hóspedes. E vem a resposta, irretocável: “Não se preocupe não é tudo caranguejo de Recife: quando um está quase saindo da banheira vem dois e puxam ele pra baixo”… Ou seja, a caranguejada (que só é de Recife na anedota, eu conheço mais caranguejos em São Paulo, no Rio Grande e no Rio de Janeiro do que em Recife) não se ajuda e só se lê para falar mal. É, no barato, paroquial este mundo literário que vive da reclamação – ressentida, sim, pois atribui exclusivamente a um Outro um problema que é de todos.
Já disse e repito: para se falar em profissionalismo é bom entender a profissão. Se não eu vou começar a reivindicar um “espaço na mídia” para os neurocirurgiões auto-didatas, que querem se profissionalizar. Já pensaram????
Roberto,
Se, como vc diz, o leitor praticamente não existe, como vc explica o fato de as editoras investirem milhares de dólares na aquisição de títulos estrangeiros? Nesse ponto o Vinicius Jatobá tem razão. Pois se o leitor não existe, então as editoras nem deveriam existir. E no entanto elas existem e os editores estão todos milionários. Acho que o problema é outro. A verdade é que o autor estrangeiro sabe falar melhor à massa de leitores do que o brasileiro. Quer um exemplo? “Dália Negra”, citado aqui no Todoprosa. Um livraço. Qual o autor brasileiro hoje é capaz de escrever um livro desses? (não adianta apelar para Rubem Fonseca, que esse não escreve um livro bom há bem uns 15 anos). O problema da literatura brasileira é que ela não tem público, ou porque é ruim, ou porque é chata demais, ou porque é umbiguista demais, ou porque é intelectual demais, ou porque é marginal demais, ou porque é indigesta mesmo… Escritor brasileiro não escreve pensando no leitor e o leitor retribui não comprando os seus livros. Simples assim…
Se Sidney Sheldon ou o Dan Brown fossem viver só com o que ele vende no Brasil, viveriam muito bem, obrigado. Mas aqui todo mundo quer ser o novo Joyce ou o novo Proust ou o novo Kerouac ou a nova Clarice. Aí não dá!!!!
Sérgio, apesar de nunca comentar, sou leitor assíduo do blog. Acabei de chegar de SP e li agora a curiosa polêmica entre os dois personagens fictícios que você cita no texto acima. Acho triste, tristíssima, essa postura chororô de autor novo (sou um deles) reclamando de mercado no país. Quem não tem editora interessada, deve partir para as independentes ou para a autopublicação, que está cada vez mais barata. Ou botar o manuscrito na gaveta e chorar na cama que é lugar quente. (Antes que digam que para mim é fácil dizer isso, já respondo: deve ser mesmo, porque nunca bati em porta de editora em editora pra empurrar livro, e, graças a deus, meu texto sempre chegou muito antes de mim em todos os lugares.) O resto do discurso-chororô é de uma chatice circular, de caminhos e argumentações intermináveis como o labirinto de Creta – onde eles são Teseu e descobrem que também são o Minotauro: perdem-se para sempre e jamais encontram a saída. Nessas rodas, fala-se muito mais sobre o “mercado” e suas intriguinhas do que sobre literatura ou a cor do céu à tarde, ou as moças passando, ou um poema do Baudelaire, ou a espuma do chope, ou aquele trechinho do Dom Quixote ou do conto do Foster Wallace, ou sobre o disco novo do Bob Dylan, ou sobre o Obina, que é melhor do que o E´to. Porque nego é careta, e é chato. E eu estou cada vez mais fora desses lugares, coquetéis e lançamentos, Sérgio. Por que esse discurso anódino, para mim, é anti-poesia. É rancor, e um rancor chatinho, não o poderoso rancor de um João Antônio, por exemplo. Esses pretensos escritores se preocupam muito mais em construir um ressentido discurso de batalha do que em produzir literatura. Até nesse sentido, acho uma perda de tempo e esforço, pois grandes romances foram alimentados pelo sentimento de exclusão. Mas esse pessoal sequer consegue articular o rancor em poesia. Não conseguem articular nada em poesia. Não são escritores, não são poetas. São chatos ranhetas desfiando erudição de google. No mais, parabéns pelo blog que é sensacional, principalmente quando fala de literatura. Grande abraço,
Grande JP! Esse sim, um cara que corre atrás. E vou logo dizendo que isso não é alfinetada em ninguém aqui. Não quero polêmica nem pedradas. Mas eu quero falar sobre uma coisa que o Paulo falou, em um dos comentários: “o autor estrangeiro sabe falar melhor à massa de leitores do que o brasileiro”. Não é bem assim. Tudo bem que existem livros estupendos de autores estrangeiros, e que seria impossível um autor brasileiro escrever esse ou aquele livro. Ok. Mas que autor estrangeiro poderia escrever “Vidas secas” ou “Dom Casmurro” ou “Grande sertão: veredas”? (este último não li, mas cito pelo tamanho de sua importância). E ninguém é doido de dizer que esses três livros são clássicos e que não têm valor. Nosso problema é a falta de incentivo à leitura. O gosto pela literatura tem que ser estimulado nas crianças, para que elas possam crescer lendo e se interessando cada vez mais. Não precisa viajar muito pra ter uma noção do que acontece. É só olhar para um amigo ou para alguém da família, caramba. Eu tenho pouquíssimos amigos que gostam de ler. Meus pais lêem pouco e, quando lêem, é Paulo Coelho e Lya Luft (minha mãe) e umas coisas de auto-ajuda e inteligência emocional (meu pai). Meus irmãos vivem grudados na tv e não querem saber de livros, mesmo eu incentivando o tempo todo. Isso é cultural, não se resolve num passe de mágica. Aliás, cultural, social e econômico. Quem é que vai poder parar pra ler um livro, tendo não sei quantos filhos pra sustentar e trabalhando 12 horas por dia? Nós, bons leitores, só lemos porque podemos ler. Ninguém aqui se sacrifica pra ler, certo? Estou falando de tempo, e não de dinheiro. O camarada que trabalha que nem um cachorro quer chegar em casa, assistir um jornal e dormir. Ele lá vai querer saber de ler? Ou seja: a situação econômica do nosso país contribui com o pouco êxito de nossa literatura. A coisa é bem mais complicada do que parece. Não se trata de editoras gastarem uma pá de dinheiro com um livro e o lucro desse livro pagar edições de 2 mil exemplares de algum autor nacional. Livro barato tem por aí, e bom: Fernando Pessoa tem pela Cia das Letras e pela Alfaguara por pouco mais de 20 pilas. Menos de 20? Coleção Plus da L&PM, 6 pilas cada livrinho (e só livrinho bom!). Fora os pockets dela e as outras editoras pocket, como a Martin Claret, por exemplo. Tem Carver e Updike aqui na cidade por 6 reais pra quem quiser também. O que nos falta é o costume de ler, são as condições pra ler (leia-se tempo para se dedicar a um livro). Graças a Deus, nós, que aqui estamos discutindo tudo isso, temos condições de ler e gosto pela leitura. Mas somos poucos, e não podemos fazer muita coisa. Infelizmente é o governo que tem de colocar mais mãos na massa e fazer com que os livros cheguem mais cedo nas mãos dos nossos jovens. Mas isso, todos sabem, não é fácil, e só Deus sabe quando vai acontecer.
concordo com o Cuenca que chororô é coisa chata. vida de autor novo é uma lenha, e ao contrario dele estou batendo na porta das editoras e pedindo uma atençãozinha, mas no final das contas o que é bom acaba aparecendo, e se não for bom, paciência. enquanto isso a gente escreve no blog e sonha. quanto ao mercado de livros, eu acho que melhorou. os livros aqui são muito mais baratos que nos EUA. qdo eu morava lá só comprava no baú das almas da Barnes&Noble. e aqui compro online em módicas prestações, às vezes em torno de 5, 10 reais. conheço muitos jovens que lêem, e não sei se é pq estou mais interessada no assunto, tenho lido muita discussão sobre literatura. editora sempre foi negócio, e foi aos poucos se tornando um negocio milionário. não vejo a mão do governo nisso, gente. só mesmo da publicidade e do marketing. além do que fora do Brasil todo mundo frequenta biblioteca. eu não gosto, portanto não sei se as daqui são boas, mas nos EUA na cidadezinha fajuta onde eu morava tinha duas, com computador grátis de ultima geração pra todo mundo ficar navegando à vontade. isso sim, achei coisa de primeiro mundo, me impressionou. então estou querendo lançar uma campanha, de leitor que compra pra leitor que não compra, vamos repassar os livros… doar pra bibliotecas… e dar de comer a quem tem fome de literatura. tenho uma meia duzia aqui pronta pra seguir viagem, tô prometendo botar a lista no blog, vou ver se no fim de semana faço isso. quem for solidário (e literário) me siga.
Agora que os argumentos fantásticos de Gaston Gallimard (3000 dólares num Martin Amis? esse cara realmente não sabe do que fala) com as fantásticas divagações estético-etílicas do clássico contemporâneo João Mela Cueca (quem leu esse cara?) estão reunidas em defesa do autor que não vende e não vai à coquetéis realmente me convenci que devo transformar meu rancor em poesia e desisitir de toda minha ‘erudição à base de Google’. Peço desculpas. Vou ler as memórias do Gallimard e absorver algo de seu conhecimento e fichar alguns dos exemplares do ‘Copo Ausente’ que estão começando a pipocar em sebos pra ver se transformo toda esse energia em algo verdadeiramente criativo.
help, Sergio! esse seu blog é um clubinho fechado falado em idioma cifrado e eu não sabia! tá virando lavação de roupa suja de desafetos e o que é pior, sob pseudônimo. vamos combinar, o autor do tal projeto controlador da internet está com a razão. neguinho se apresentar e falar o que quer sem se identificar é covardia. quem é Gallimard? o famoso editor francês? com um português tão bom? uai! (google rápido) ele não morreu não? (é humor, gente, ironia, viu?)) e “Copo Ausente”? minha erudição de google não deu pra esclarecer. tô me sentindo excluída pra caramba, como se já não me bastasse esse sentimento na vida real.
Autor que não vende? Vendi (quer dizer, venderam pra mim) uma edição de 3 mil livros. Pelo que dizem, é o que sai de um escritor contemporâneo no Brasil (como o Marçal e o Sérgio). De qualquer forma, o número é muito maior do que a minha pretensão mais selvagem poderia imaginar quando o escrevi. Sou um modesto, Vinicius. Isso sem falar nas dezenas (seriam centenas?) de milhares de leitores que tenho por semana no Globo. Por enquanto, estou mais do que satisfeito. Sobre livro em sebo, é uma alegria pra mim. Fico emocionado quando vejo um! Outro dia, vi uma menina comprando. Quase chorei de emoção. Vinicius, você me faz sentir mais ou menos como a moça bonita na praia de Ipanema detratada pela gordinha de aparelho – acaba fazendo muito bem pra minha auto-estima. No mais, acho que você deveria tomar um banho de Lima Barreto (ou então de chuva, com a língua de fora) e tentar escrever alguma ficção que preste, ou editar um zine de xerox, ou ler poesia em pé numa cadeira de boteco no Catete. Literatura para as massas, Vinicius! Eu faço meu papel: escrevo e publico. E você? Você reclama do “mercado editorial brasileiro”. Ao contrário de você, eu não tenho nenhum interesse no assunto “mercado editorial brasileiro”. E o mais engraçado é que eu participo ativamente dele. Não é engraçado? Eu acho. Grande abraço, (PS. Noga, “corpo ausente” é um trocadilho divertido do Vinicius com o título do meu romance, “Corpo presente”. É também o título de uma coluna incrível do Bernardo Carvalho – esse sim, um escritor que respeito – publicada na Folha, sobre o mesmo livro.)
É, o João Paulo tem razão. Essa discussão já tá um saco. Por isso, eu que nunca publiquei nada, vou publicar um conto:
Alaranjados e Vermelhos
Ela nem reparou, mas os dois peixes do aquário têm a cor de seu cabelo. Passa na sala todos os dias, senta no sofá, coloca as meias, o tênis, e sai. Muito mais fácil colocar a calça depois das meias, o algodão desliza melhor pelo jeans do que os pés nus, ainda um pouco molhados do banho. Mas a janela da sala não tem cortinas, e ela sempre esquece de levar as meias para o banheiro. Por isso, já vestida, anda até a sala com a toalha nas mãos, senta no sofá, pega o par de meias que estava dentro do tênis, coloca as meias, o tênis, e sai. Às vezes olha para o aquário na estante, em cima da televisão, mas não reparou ainda que os peixes têm a cor de seu cabelo. São dois, entre alaranjados e vermelhos. Acho que se chama japonês esse tipo de peixe.
Ela não reparou. Desce despencando os três andares do prédio sem elevador, e na rua começa a aflição. Nada no Rio é tranqüilo. Mesmos nas atividades mais corriqueiras e prazerosas, como ir à praia, ou à padaria, sempre fica a sensação de que é preciso estar atento. A tensão não vem do que se lê nos jornais, ela mal tem tempo de ler os jornais, mas da própria cidade, não o Rio, mas a cidade que mora dentro dela, a cidade onde nasceu e viveu até os dezoito anos.
No começo, ruborizava por tudo. O pior foi quando pediu uma pipoca sem casca.Teve que aturar o pipoqueiro rindo, um riso debochado, que lhe doeu. Ficou entre alaranjada e vermelha. Da cor dos peixes e do cabelo, mas na época não tinha nem peixes nem cabelos pintados.
Hoje, os cabelos entre alaranjados e vermelhos deslizam com mais facilidade nas ruas da cidade, mas, ainda assim, sem o conforto das meias vestidas antes de se colocar a calça jeans. Talvez só abandone a cidade dentro dela para viver nessa de agora, quando encontrar na esquina um pipoqueiro que venda pipocas sem casca, que ela demorou dezoito anos para descobrir que só existem em Petrópolis. Ou quando alguém lhe mostrar que os dois peixes em cima da estante têm a cor de seus cabelos.
Pedro