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“Rasgar contos é algo irremediável, porque escrevê-los é como
despejar concreto. Em compensação, escrever um romance é
como colar ladrilhos. Isso quer dizer que se um conto não se
consolida na primeira tentativa é melhor não insistir. Um romance
é mais fácil: volta-se a começar.” GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ

Arquivo de novembro, 2006

29/11/2006 - 00:01

Isaac Bábel: ‘O Exército de Cavalaria’

O assombroso Isaac Bábel (1894-1940), um judeu franzino de óculos nascido em Odessa, cumpriu um percurso tristemente típico de seu tempo e lugar: fulgurante escritor revolucionário soviético nos anos 20, uma espécie de Maiakóvski da prosa; visto com desconfiança cada vez maior e incomodado com os rumos tomados pelo país ao longo dos anos 30; preso como contra-revolucionário e assassinado pela máquina repressiva de Stálin em 1940; reabilitado oficialmente pelo Partido em 1957. Esse breve esboço biográfico vai aqui porque, em primeiro lugar, ajuda a dissipar um pouco do denso desconhecimento que paira sobre Bábel no Brasil, e depois por ter, na sua brutalidade, uma sinistra correspondência com a literatura do homem. O livro de contos que a Cosac Naify lança agora como vigésimo volume da coleção Prosa do Mundo, “O Exército de Cavalaria” (tradução e apresentação de Aurora Fornoni Bernardini e Homero Freitas de Andrade; posfácio de Boris Schnaiderman e Otto Maria Carpeaux; capa dura, 256 páginas, R$ 55), já teve no Brasil, com o título de “A cavalaria vermelha”, até edição na série Clássicos de Bolso da Ediouro. Isso não o impediu de permanecer pouco conhecido entre nós, o que é lastimável. A edição atual, a primeira com tradução feita diretamente do russo, tem cuidados de forma e conteúdo que podem – se tivermos um pouco de sorte – mudar essa história. Escritos a partir das experiências de Bábel como correspondente no front da guerra russo-polonesa em 1920, os contos curtos e violentos de “O Exército de Cavalaria” têm uma estranha mistura de secura realista e imagística suntuosa que não se encontra em nenhum escritor antes ou depois de Bábel. No posfácio, Schnaiderman os chama de “texto-paradigma do século XX”. E explica: “Com o seu sabor acre de sangue e terra, com sua violência que nos deixa perplexos, eles estão realmente entre os escritos que expressaram melhor aquele século de horror e de mudança”. Leia a seguir o conto “O filho do rabino”:

… Lembra-se de Jitómir, Vassíli? Lembra-se do Tiéteriev, Vassíli, e daquela noite em que o sabá, o novo sabá, insinuava-se ao longo do crepúsculo, esmagando as estrelas sob seu tacão vermelho?

O corno esguio da lua banhava suas pontas nas águas escuras do Tiéteriev. O ridículo Guedáli, fundador da Quarta Internacional, levou-nos à casa do rabino Motale Bratslávski, para a oração da noite. O ridículo Guedáli sacudia as penas de galo de seu chapéu alto na fumaça vermelha do anoitecer. As pupilas rapinantes das velas bruxuleavam no aposento do rabino. Debruçados sobre os livros de orações, judeus espadaúdos gemiam surdamente, e o velho bufão dos tsadiks de Tchernóbyl fazia tilintar moedas de cobre no bolso rasgado…

… Lembra-se daquela noite, Vassíli?… Do outro lado da janela os cavalos relinchavam e os cossacos gritavam. O deserto da guerra bocejava lá fora, e o rabino Motale Bratslávski, com os dedos consumidos cravados no talete, orava junto à parede do Oriente. Daí a cortina da arca foi descerrada e, à luz funérea das velas, vimos os rolos da Torá metidos em suas capas de veludo púrpura e seda azul, e, debruçado sobre a Torá, o belo rosto inanimado e submisso de Iliá, o filho do rabino, o último príncipe da dinastia…

E eis que, faz uns dois dias, Vassíli, os regimentos do Décimo Segundo Exército deixaram o front em Kóvel a descoberto. Na cidade ribombou o desdenhoso bombardeio dos vencedores. Nossas tropas vacilaram e se misturaram. O trem da Secpolit começou a rastejar pela espinha morta dos campos. Camponeses tifosos rolavam diante de si a tão conhecida corcova da morte do soldado. Eles saltavam nos estribos do nosso trem e eram derrubados a coronhadas. Fungavam, debatiam-se, voavam longe e silenciavam. Uma dúzia de verstas depois, quando as batatas acabaram, atirei-lhes uma pilha de panfletos de Trótski. Mas só um deles estendeu a mão morta e suja para apanhar um panfleto. E eu reconheci Iliá, o filho do rabino de Jitómir. Eu o reconheci na hora, Vassíli. Ver o príncipe, que perdera as calças, dobrado em dois sob a mochila de soldado, doía tanto que, desobedecendo aos regulamentos, nós o puxamos para dentro do vagão. Seus joelhos nus, desajeitados como os de uma velha, batiam nos degraus enferrujados; duas datilógrafas peitudas, com blusa de marinheiro, arrastaram pelo chão o corpo comprido e envergonhado do moribundo. Nós o depositamos num canto da redação, no chão. Cossacos de calças bufantes vermelhas ajeitaram-lhe a roupa caída. As moças, plantando no chão suas pernas tortas de fêmeas broncas, observavam friamente os órgãos genitais, a virilidade mirrada e crespa de um semita que tinha definhado. Mas eu, que o vira numa das minhas noites errantes, comecei a arrumar no baú os pertences espalhados do soldado Vermelho Bratslávski. Leia mais »

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Primeira mão Tags:
28/11/2006 - 00:01

Kafka + Kafka

O acaso promove uma espécie de festival Franz Kafka (1883-1924) nas livrarias brasileiras: chegam ao mercado ao mesmo tempo dois lançamentos que trazem abordagens opostas, embora igualmente apaixonadas, do escritor tcheco. Uma é pop-cabeça e se destina a iniciantes em sua obra. A outra, papo-cabeça, só será devidamente apreciada por quem já leu tudo ou quase tudo escrito por esse atormentado judeu de Praga, um dos maiores escritores do século XX.

“Kafka de Crumb” (Relume Dumará, tradução José Gradel, 176 páginas, R$ 34,90) é uma parceria do famoso desenhista de Fritz the Cat com o escritor David Zane Mairowitz. O título original do livro, Introducing Kafka, deixa clara sua intenção: apresentar ao leitor em linhas gerais o universo do autor, um mundo entendido aqui como mistura de vida, contexto histórico-cultural e obra. Assim, a pequena biografia ilustrada de Franz é entremeada de breves adaptações simplificadas de seus principais livros.

Apontar o dedo em riste para o que tem de superficial um livro desse tipo seria fácil, mas tolo. “Kafka de Crumb” é saboroso até para kafkianos cascudos. Parte de seu mérito funda-se no texto de Mairowitz, que consegue ser sucinto e didático sem subestimar a inteligência do leitor. Mas o trunfo maior está mesmo no traço sujo de Crumb, que é fiel a Kafka, com seu desespero entre o sombrio e o cômico, e ao mesmo tempo o trai, enchendo de detalhes cênicos uma narrativa que, como poucas, é feita do essencial. Mesmo esse descompasso, porém, acaba por ser adequado ao seu modo: não é o estranhamento o principal efeito que se abate sobre o leitor de Kafka, afinal?

No outro extremo do arco da ambição intelectual situa-se o livro “K.”, do editor e crítico italiano Roberto Calasso (Companhia das Letras, tradução de Samuel Titan Jr., 296 páginas, R$ 46,00). Belamente escrito mas seco, sem o conforto dos vôos de especulação e das imagens de apoio que colorem os ensaios sobre literatura de autores como Umberto Eco e Alberto Manguel, o livro de Calasso pega Kafka pelo pé (da letra) e não larga mais, buscando o sentido profundo, vírgula por vírgula, daquilo que o autor escreveu. Detém-se sobretudo em “O processo” e “O castelo”, narrativas protagonizadas pelo K. do título (no caso do primeiro, Josef K.), mas não desdenha outros livros, cartas ou diário.

Calasso segue à risca a recomendação de Elias Canetti reproduzida no quinto capítulo de seu livro: “Há escritores, bem poucos na verdade, que são tão inteiramente eles mesmos que qualquer declaração que se arrisque a seu respeito deve soar como uma verdadeira barbárie. Kafka foi um autor desse tipo, e, correndo o risco de parecermos pouco independentes, não podemos deixar de ater-nos com máximo rigor às suas próprias declarações”. Pois “K.” é isso: Kafka comentando Kafka, com Calasso em papel semelhante ao de médium. Um belo livro.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts Tags:
27/11/2006 - 16:14

Real x virtual, 57o round

O repórter Wilson Tosta conta no “Estadão” deste fim de semana que, segundo números do IBGE, a presença da internet avança no Brasil enquanto encolhe a das livrarias. A parcela de municípios servidos por provedores de acesso à rede passou de 16,4%, em 1999, para 46%, em 2005. Já a de cidades que têm pelo menos uma livraria encolheu, no mesmo período, de 35,5% para 30,93%. O levantamento traz notícias de outros altos e baixos da paisagem cultural brasileira, do bom desempenho das bibliotecas públicas ao panorama desolador das salas de cinema. Acesso livre ao texto aqui.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts Tags:
26/11/2006 - 00:01

Edward Pimenta: ‘O homem que não gostava de beijos’

Eu nunca tinha ouvido falar de Edward Pimenta. A orelha de “O homem que não gostava de beijos” (Record, 128 páginas, R$ 27,90) informa que ele é jornalista, nascido em Mirassol (SP) em 1974. Ah, sim: na introdução, o diretor de teatro Gerald Thomas se rasga em elogios. Hmm. Confesso que isso não preparou meu ceticismo de retinas tão fatigadas para o prazer de ler esses 31 contos breves protagonizados por um personagem de mil caras chamado Horace Catskill. O tênue fio condutor desse nome parece ser a razão pela qual o material de divulgação chama o livro de “romance”, coisa que ele definitivamente não é. Pimenta, que talvez seja antes de tudo um humorista, revela-se também um prosador talentoso e – coisa rara em nossas letras – cosmopolita, no controle de infinitas referências pop, mas sem traço de deslumbramento. Vale a pena vencer a barreira do título careta, curiosamente menos provocante que o da maioria dos contos, para descobrir, por exemplo, o que uma mosca encontra ao entrar pelas fossas nasais de Michael Jackson. Sabe aquela sisudez tristonha que a literatura brasileira gosta de confundir com seriedade, mencionada na nota de ontem – a sisudez que Campos de Carvalho, por exemplo, pagou caro por não cortejar? Nem sinal dela aqui. No continho abaixo, chamado “Um duelo com Luther Blissett”, Catskill se encontra numa taverna atemporal com Charles Dickens, o autor de “Oliver Twist”, e Luther Blissett, escritor fictício criado nos anos 1990 por um “coletivo” de artistas italianos disposto a provar a falência da idéia de autoria.

Charles Dickens, Luther Blissett e eu estamos nos vértices de um triângulo perfeito dentro da taverna. Coisa de cinco metros. Blissett consegue observar os dois, enquanto eu sou obstruído por umas mulheres risonhas. Só consigo encarar Blisset. Dickens está de férias. Passa temporadas no litoral pedregoso de Broadstairs para descansar do tumulto da capital. Vai sendo tragado pelo século XIX. Tomo cidra filtrada aos borbotões e sinto que não dormirei sem antes arrumar uma briga.

Qualquer pessoa bem informada sabe que Luther Blissett é uma fraude. E que seu projeto literário se ampara num manjado artifício de cruzar informações históricas com ficção, de preferência com ambientação medieval, porque é mais difícil de checar. Aproveitando que ele agora resolveu trafegar pelos estertores do Oitocento, sinto-me à vontade para freqüentar seu bar preferido, bisbilhotar sua casa e assediar sua mulher.

Como todo filósofo mistificador, Blissett é um homossexual. A grande verdade é que não acrescenta uma linha sequer ao pensamento de Schopenhauer e Spinoza. Essa é a verdade. Uma verdade objetiva. Ele está tomando absinto, que também é coisa de salta-pocinhas. Posso adivinhar que vibra com a hipótese de que sua mulher possa ser currada por uma legião de homens mais machos do que ele. Leia mais »

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Primeira mão Tags:
24/11/2006 - 18:13

Começos inesquecíveis: Rubens Figueiredo

Não não. Papel, não. Ninguém vai falar de papel aqui. Não é coisa que se fale. Papel. Mas já reparou como tem papel por aí, espalhado, empilhado, grampeado, no mundo inteiro, um mundo de papel. Olha bem. Papel de parede, lenço de papel, papel-moeda, toda hora a gente está pegando ou olhando para um papel.

Que nem você aí parado.

E não precisa nem se mexer porque é aqui perto, bem pertinho, nessa página mesmo, que tem uma pessoa a um passo e a poucas páginas da maior complicação da sua vida por causa de um punhadinho bobo de papel.

Não conheço muita gente que concorde comigo, mas lamento que Rubens Figueiredo tenha abandonado tão definitivamente o estilo efervescente de seus três primeiros livros, “O mistério da samambaia bailarina”, “Essa maldita farinha” e “A festa do milênio” – em que brincava desvairadamente com a linguagem em farsas rebuscadas e divertidíssimas –, para se dedicar aos meios-tons melancólicos de obras como “As palavras secretas”, “Barco a seco” e “Contos de Pedro”. Sim, foi esta segunda fase, sem dúvida competente, que tornou Rubens respeitado pela crítica brasileira. Mas eu, que sempre tive medo de confundir seriedade com sisudez, confesso sentir falta de abrir um livro dele e encontrar um início empolgante como o de “Essa maldita farinha” (Record, 1987).

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts Tags:
23/11/2006 - 11:12

NYT elege os “cem mais” de 2006

Philip Roth e John Updike, sem surpresa nenhuma, deram as caras. Thomas Pynchon e Monica Ali também, embora tenham merecido resenhas bem menos que entusiasmadas – indicando que na seleção dos “cem livros notáveis do ano” o julgamento propriamente literário não ocupou o centro do quadro. Novos nomes? Claro: Gary Shteyngart, Nell Freudenberger, Marisha Pessl?

Não surpreende que quase todo mundo tenha o inglês como primeira língua na lista de livros do ano (mediante cadastro gratuito) do “New York Times”, escolhidos entre os que foram resenhados pelo jornal desde dezembro do ano passado em duas categorias, ficção & poesia e não-ficção. Estamos falando, afinal, de um país que chama um campeonato esportivo nacional de World Series. Kiran Desai, a indiana que ganhou o Man Booker, não chega a ser uma das exceções que confirmam a regra: mora nos EUA desde a adolescência. É meio incômodo – e provavelmente sintomático do isolacionismo da era Bush, por mais que o NYT se oponha a ela – que “o mundo lá fora” não vá muito além de um Michel Houellebecq aqui, uma Irène Némirovsky acolá.

Com as migalhas que caem da mesa, esboça-se a nova geopolítica literária vista do Hemisfério Norte. A África está mais bem representada do que a América Latina – inclusive com Uzodinma Iweala, de “Feras de lugar nenhum”, também lançado no Brasil. Para a terra do ex-boom, um mísero livro de ficção. A boa notícia é que escolheram bem: se é para ser um só, que seja o chileno Roberto Bolaño.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts Tags:
22/11/2006 - 00:35

Milton Hatoum (surpresa!) ganha o Portugal Telecom

Está ficando monótono. Depois de faturar o Jabuti, o romancista amazonense Milton Hatoum, autor de “Cinzas do Norte”, foi anunciado esta noite, em cerimônia realizada em São Paulo, como o grande vencedor do 4o Prêmio Portugal Telecom, o mais importante da literatura brasileira, no valor de R$ 100 mil.

Milton, ficcionista de mão cheia, merece os prêmios em série. A biodiversidade cultural brasileira, talvez não. A repetição lembra o caso recente do americano Jonathan Littell, cujo “Les Bienveillantes” ganhou na França, quase no mesmo fôlego, o grande prêmio de romance da Académie Française e o Goncourt.

Em segundo lugar no Portugal Telecom (R$ 35 mil) ficou o poeta Alberto Martins, autor de “História dos ossos”. Em terceiro (R$ 15 mil), Ricardo Lísias, pelo romance “Duas praças”. Leia a notícia da Agência Estado aqui.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts Tags:
21/11/2006 - 18:39

Livro favorito? ‘O alquimista’

Numa oficina literária, recentemente, todos fomos instados a levar nosso livro favorito. Íamos balançando a cabeça, sabidos, à medida que desfilavam os suspeitos de sempre: Orwell, Waugh, McEwan, “O guia do mochileiro das galáxias”. E então alguém brandiu “O alquimista”, de Paulo Coelho. É um bom livro para ler quando se está pensando em mudar de vida, disse sua defensora.

Devo confessar logo de cara que “O alquimista” não funciona para mim: não consigo pensar numa razão para alguém sequer terminar de lê-lo, muito menos para elegê-lo seu livro favorito. Mas, pondo meu preconceito de lado, ainda assim me parece que “ser um bom livro para ler quando se está pensando em mudar de vida” é uma estranha razão para se escolher um favorito (claro, talvez ela tivesse outros motivos também, mas esses me escaparam).

A nota que Sarah Burnett lançou hoje no animado blog de livros do “Guardian” tinha um propósito singelo: convocar o leitor a nomear seu próprio livro favorito na área de comentários (sim, o pessoal atendeu em peso). Mas eu, que acredito tanto em “livro favorito” – no singular – quanto em Papai Noel, me diverti mesmo foi com a participação especial do nosso best-seller canarinho, que a blogueira, significativamente, chama de “Coehlo”.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts Tags:
20/11/2006 - 11:07

Vida & arte – nesta ordem

“Sugerir que Jane Austen era lésbica ou Sófocles um travesti”, escreve o teórico da literatura Terry Eagleton, “é a forma encontrada por aqueles que não têm nada especialmente brilhante a dizer sobre a ironia ou o destino trágico para forçar sua entrada na cena literária. É um pouco como ganhar uma reputação de geógrafo eminente por achar o caminho do banheiro.” A literatura, em outras palavras, é grande demais, independente demais, importante demais para ser aprisionada nos domínios da vida. E de qualquer maneira, o que exatamente é tão importante na vida? O poeta John Ashbery uma vez me disse que nunca quis escrever sobre nenhum dos assuntos normais da vida porque “as mesmas coisas acontecem a todo mundo”. Há uma desconexão entre arte e vida que deveria nos pôr em alerta contra invasões morais ou psicológicas. Orwell se perguntou se nossos sentimentos em relação a Shakespeare seriam diferentes caso fosse descoberto que ele tinha o hábito de atacar menininhas sexualmente. Bem, seriam? A resposta, parece, é sim.

O ótimo artigo de Bryan Appleyard no “Sunday Times” (acesso livre, em inglês, aqui) reflete sobre a fascinação do nosso tempo com a vida dos escritores, traduzida no boom das biografias, obras que, mesmo quando sérias, ficam na vizinhança da fofoca. Appleyard demonstra acima de qualquer dúvida que a confusão entre arte e vida é velha de alguns séculos, pelo menos. E ainda assim me deixou mais convencido do que nunca de que estamos vivendo um momento de virada.

A verdadeira obra de um escritor é e será cada vez mais – do ponto de vista do público – sua biografia (mesmo que imaginária), suas taras com animais de pequeno porte, as pessoas que ele algemou na cabeceira da cama, suas bebedeiras épicas, o bico como traficante de escravas brancas ou ogivas russas contrabandeadas que aceitou num momento difícil da vida. Os livros que escreveu? Subprodutos. Quem está ligando para isso?

Qualquer jovem escritor de hoje que tenha senso mercadológico deve se preocupar primeiro em inventar para si uma vida com apelo midiático. E só depois, se sobrar algum tempo, escrever. Ou nem isso: basta comprar um romance pronto de algum desses ghost writers que não têm vida, coitados.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts Tags:
19/11/2006 - 00:01

Rubem Fonseca bom é o outro

O melhor livro rubem-fonsequiano da temporada não é a coletânea de contos “Ela e outras mulheres” (Companhia das Letras, 176 páginas, R$ 34), a última e desvitalizada cria do autor de obras-primas como “A coleira do cão” e “Feliz ano novo”. É o romance “O que contei a Zveiter sobre sexo” (Record, 336 páginas, R$ 44,90), de um gaúcho radicado no Rio de Janeiro chamado Flávio Braga.

O título é o que o livro de Braga tem de pior. Deve-se desconsiderá-lo. Além de palavroso e sem sal, esbarra no inconveniente de que o tal Zveiter, psicanalista a quem o narrador confessa suas aventuras, não chega a se constituir como personagem. Superado esse problema, o que o leitor encontra é um furioso, perturbador e engraçado romance picaresco em torno da compulsão sexual do priápico João.

A comparação com Fonseca vai além da conveniência jornalística de juntar lançamentos que aliam afinidades temáticas e proximidade cronológica. Por acaso, quando saiu “Ela e outras mulheres”, eu tinha acabado de ler o livro de Braga e ainda refletia sobre o que ele tem de rubem-fonsequiano, no bom sentido – e tem muito. Mas só ao ler o novo do próprio Fonseca é que percebi o quanto confrontar os dois poderia jogar luz sobre algumas questões enroladas. Uma delas: o enorme legado do autor de “A grande arte” faz bem ou mal à literatura brasileira? Outra: ao próprio RF o peso parece ter feito mal, mas por quê? Já estaria seu projeto, desde o início, embicado na direção do beco sem saída ético-estético do qual “Ela e outras mulheres”, com seu profundo conservadorismo disfarçado de amoralidade, é um atestado cabal? Ou será que algo se perdeu no meio do caminho?

Com alguma benevolência, seria possível encarar os 27 contos curtos de “Ela e outras mulheres”, todos batizados com nomes femininos e organizados em ordem alfabética, como trabalhos apenas corretos de um escritor competente mas cansado – mera reiteração de estilo. O problema é mais grave do que isso por uma razão simples: ao cair numa espécie de escrita mecânica, entediada e entediante, Rubem Fonseca abole da vida de seus personagens qualquer possibilidade de surpresa. E não dá para falar de contos corretos sem surpresa.

Todos caminham feito robôs para o crime frio, o sexo frio, a morte fria, algum desses destinos que o artifício do autor, friamente, exige deles. Mesmo as reviravoltas da trama, como no conto da menina rica que pede ao namorado bandido que mate seu pai, são previsíveis. No vácuo desse mundo estático não há espaço para angústia, descoberta, crescimento, aventura – nem dos personagens nem do leitor. Depois de duas dúzias de páginas, começa a zumbir ao fundo uma dúvida incômoda: por que narram os narradores deste livro? De onde tiram ânimo para tanto, se o próprio ato de contar uma história foi reduzido, em seu mundo, ao automatismo de uma escovada de dentes? A conta não fecha.

Não gostaria de exagerar o peso da influência de Rubem Fonseca sobre os autores da minha geração. Para uma parte da crítica brasileira, qualquer pessoa que ouse escrever hoje sobre sexo e violência – ou seja, os ancestrais amor e morte tão caros a Homero, para citar apenas o mais antigo – cai imediatamente na vala comum dos “realistas urbanos”. Sempre achei que essa crítica presta um enorme desserviço público ao tratar como iguais trabalhos fundamentais e trabalhos acessórios, Marçal Aquino e Patrícia Melo – além de não levar em conta que, com ingredientes “realistas”, é possível preparar pratos que passam longe desse sabor. A via picaresca escolhida por Flávio Braga é apenas um dos caminhos. E uma indicação de que os elementos com que trabalha a ficção de Rubem Fonseca – as várias faces da brutalidade num país brutal – não envelheceram tanto quanto ele.

Lido sob essa ótica, “O que contei a Zveiter sobre sexo” é um exemplo de influência bem digerida. A narração fria e desapaixonada de cenas gráficas de sexo e violência, a marginalidade social do protagonista, seu cinismo, o talento inverossímil para transitar com desenvoltura tanto em círculos burgueses quanto nos da bandidagem barra-pesada – tudo isso pode ser considerado “puro Rubem Fonseca”. No entanto, não existe na leitura do livro nem sombra de déjà vu.

Problemas há. Quase inevitavelmente, algumas peripécias são melhores do que outras. A cena de incesto, arriscada, impressiona mais pela coragem do autor do que por sua resolução artística. No entanto, existe um frescor inegável nas aventuras sexuais de João, alguma coisa que evita o aborrecimento da leitura requentada e faz uma frase conduzir à seguinte com a inexorabilidade um pouco ansiosa das boas narrativas que não se sabe aonde vão dar. Tudo o que não se encontra em “Ela e outras mulheres”.

O fato de Flávio Braga não se levar a sério demais – embora, evidentemente, leve a sério a literatura, o que não é nenhum paradoxo, pelo contrário – parece ser pelo menos parte da explicação. Épater jamais será um fim em si enquanto a ficção, realista ou não, mantiver no horizonte sua dimensão lúdica, antídoto eficaz contra pregações (a)moralizantes. A despeito dele mesmo, ainda existe vida no lado rubem-fonsequiano do mundo.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts Tags:
18/11/2006 - 00:01

Começos inesquecíveis: Suzana Flag

– Você não vem?

– Vou já, mamãe.

Mas não foi: nem iria nunca. “Coitada de mamãe”, pensou, numa tristeza maior. D. Margarida não sabia, não desconfiava de nada. Se soubesse, se pudesse imaginar! Disse baixinho: “Daqui a pouco estarei morta”. E repetiu, como se custasse a acreditar: “Estarei morta”.

Assim, com a morte rondando o seio da família, começam as peripécias rocambolescas de “Núpcias de fogo” (Companhia das Letras), o quarto folhetim escrito por Nelson Rodrigues com o pseudônimo de Suzana Flag. “O Jornal” publicou-o em capítulos em 1948. A primeira edição em livro só saiu em 1997.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts Tags:
17/11/2006 - 11:42

Tony Rocco – cuidado com esse nome

A lição não está no curso de Raimundo Carrero (veja nota abaixo) ou em qualquer outro: escritores devem ter cautela ao batizar personagens, especialmente os vilanescos. Em seu romance policial Johnny come home, lançado este ano, o inglês Jake Arnott imaginou um ex-cantor de big band e atual gângster chamado Tony Rocco. Foi processado por danos morais por um ex-cantor de big band – e, parece, atual cidadão de bem – chamado… adivinhou, Tony Rocco. Derrota para autor e editora, sem muito papo. Não há chance para a defesa em casos assim.

A notícia inspira um artigo bem-humorado de John Sutherland no “Guardian” de hoje – acesso livre aqui, em inglês – sobre os riscos do batismo de personagens e as formas como diversos autores lidaram com o problema ao longo da história. Em nossas oficinas de literatura, o máximo que se costuma adiantar nesse terreno é a recomendação de evitar que nomes semelhantes se embaralhem numa mesma trama: nada de José Carlos disputando namoradas com seu amigo João Carlos – a menos, claro, que a idéia seja confundir o leitor irremediavelmente.

Com a indústria dos danos morais em franca expansão no mundo inteiro, pode ter chegado a hora de levar o tema a sério. Por mais que uma apoteose do clichê mafioso como “Tony Rocco” sugira que, pelo menos nesse caso, o escritor mereceu.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts Tags:
16/11/2006 - 12:01

Raimundo Carrero: trabalhar, trabalhar, trabalhar…

Na 11a e última aula de sua oficina literária online no Portal Literal, o romancista pernambucano Raimundo Carrero, autor de “Os segredos da ficção” (Agir), faz um resumão do curso tomando como fio condutor a bibliografia comentada que usou nas aulas – aulas que também é possível revisitar no arquivo do site.

O aproveitamento de “lições” desse tipo vai ser sempre idiossincrático, claro, ou não será aproveitamento algum. Há tópicos para assimilar, para refutar e para esquecer. No geral, porém, Carrero reflete com lucidez sobre o ofício de escrever ficção. Eis o ponto mais louvável de sua abordagem: o fato de tratar como ofício o que ofício é, sem dar bola para a mitologia da “irrefreável expressão do eu” que a era da internet, num curioso retrocesso, tanto reavivou.

O autor de “Sombra severa” (Iluminuras) chega ao exagero de sustentar – como neste artigo publicado ano passado em NoMínimo, em resposta a uma crítica de Antonio Fernando Borges às novas gerações de escritores – que qualquer pessoa pode se tornar ficcionista, que talento é balela. Nesse ponto eu subo no caixote para discordar com a maior ênfase possível: acredito, como Nelson Rodrigues, que o sujeito precisa de talento até para atravessar a rua. O que não me impede de reconhecer o valor da missão civilizadora de quem, neste Brasil sérgio-buarquiano de inspirações e facilidades, apregoa pelas esquinas a importância de trabalhar, trabalhar, trabalhar, trabalhar, trabalhar.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts Tags:
14/11/2006 - 16:20

Contra (ou a favor de) Pynchon

A revista Time e a Publishers Weekly desrespeitaram o embargo imposto pela editora Penguin à publicação de resenhas sobre o novo livro de Thomas Pynchon, Against the day (“Contra o dia”) – veja nota anterior do Todoprosa aqui. Faltando uma semana para o lançamento nos Estados Unidos, dia 21, quando finalmente as resenhas estarão liberadas, as duas publicações puseram suas críticas na rua. A da “Time”, naquele estilo antiintelectualista característico, compara o peso literal do volume de 1.085 páginas com o de uma torradeira e conclui que esta leva vantagem: faz torradas.

O rompimento do tradicional acordo de cavalheiros entre editora e imprensa está provocando algum alvoroço, comenta Richard Lea no blog de livros do “Guardian”. Compreensível. Pynchon, autor de “O arco-íris da gravidade”, é um recluso que não fala, não se deixa fotografar e publica um livro por década – com muitas centenas de páginas, para compensar a longa espera. A expectativa que o cerca é sempre grande. A “Time” e a “PW” só fizeram ampliá-la um pouco mais.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts Tags:
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