João Gilberto Noll: ‘A máquina de ser’
O escritor gaúcho João Gilberto Noll chega este ano à categoria dos sessentões tendo uma obra vasta e coerente para mostrar. Nela predominam os romances: “A fúria do corpo”, “Bandoleiros”, “Harmada”, “Berkeley em Bellagio” e outros. Essa predileção pelas narrativas longas – ou relativamente longas, pois a verborragia aqui não tem lugar – sempre me pareceu intrigante. Meu livro preferido de Noll continua sendo o primeiro, de contos, “O cego e a dançarina”, lançado em 1980. O estilo marcante do autor, com sua indeterminação crônica instalada no coração mesmo das frases, das palavras, torna aflitivamente fugidios, estranhos, esgarçados, personagens e cenários. O que me parece bem menos adequado à narrativa longa que à curta, que pode prescindir com mais facilidade de uma arquitetura precisa, de um enredo calculado – ainda que calculado para confundir. Por tudo isso é muito boa a notícia de que, após publicar o volume de minicontos “Mínimos múltiplos comuns” (Francis, 2003), Noll já está de volta ao gênero, e dessa vez em tamanho mais suculento, com as 24 histórias de “A máquina de ser” (Nova Fronteira, 144 páginas, R$ 22), que chega às livrarias no próximo fim de semana. Abaixo, um conto inteiro, um dos melhores do livro, chamado “Nado livre”:
Vivi tanto aquele dia que de mim escorreu sangue ao deitar. Tinha tomado champanhe, uma garrafa inteira de vodca, me arranhara fundo pelos espinhos de umas plantas que poderiam ser de um jardim, praça, parque, sei lá! E, de repente, estava sem bebida em casa. Então, feito fosse uma garrafa de vinho, acabei bebendo em pesadelo o que sobrara de mim própria em meio a cólicas —, sim, desidratando-me inteira, a cabeça ruiva sobre os travesseiros, os mesmos sobre os quais eu beijara pouco antes uns lábios carnudos que se abriram passando uns goles de champanhe para os meus, ávidos de sal. Meu filho, um homem adolescente, me acordou de manhã pedindo que eu fizesse o lanche que ele já estava atrasado pro colégio. Hein?, quase supliquei uma trégua, assim, com essa indagação vaguíssima. Ele insistiu que eu fizesse o café porque a aula de inglês começava às oito. Então me levantei depois de me arrastar pelos lençóis, como se fosse um soldado pelos charcos de uma terra inimiga, até que o meu filho homem no raiar da adolescência me pegou pelos braços e foi me guiando até o banheiro para a minha higiene matinal. Fechei a porta atrás de mim. Ainda me sentia tonta pelo porre da noite. Fui até o vaso me agarrando pelas coisas para não cair. Como doar meus próximos minutos para meu rebento? Sentei, o xixi demorou a sair. Fiquei ali, esperando, até que, ao sair de mim num amarelo quente, não parou mais… Meu filho já batia na porta, pedindo que eu viesse logo que já eram sete e meia. Ai!, gemi bem alto, mas não tanto o ponto de apagar o som do meu xixi. Vem, mãe!, ele clamava. Eu bocejava trazendo à superfície não somente o cansaço inerente a uma brutal ressaca, mas também a expressão de um tédio quase sempre partícipe no ato do bocejo. Eu é que tive vontade de clamar para ele. Clamar por um armistício válido para aquela manhã apenas… Mas eu já sabia, ele era a tradução de um ego inflamado de adolescente. Se eu o riscasse do meu dia, jamais seria perdoada. E eu precisava ser perdoada? Não, não, eu permaneceria trancada naquele banheiro pelo dia todo, deitada no chão frio. Ele tinha o banheiro da área de serviço. Que se virasse pra comer. Que fosse pro colégio agora e lanchasse lá. Ainda ouvia o som do meu xixi para encontrar assim um equilíbrio interno, qualquer coisa por aí, quando de um golpe a porta do banheiro é arrombada, trazendo junto o corpo de um homem enorme com certeza o arrombador que acaba caindo próximo aos meus pés junto com lascas da porta. Quem era o homem? E eu saberia dizer assim de supetão? Seria meu filho já tão grande assim? Não, decididamente, não era ele não.
Mas aquele ali teria muito mais que a sua idade? Era jovem, talvez bocadinho mais velho que o meu… e parecia ferido. Sim, havia um corte bem feio em sua fronte. Ele gemia, não tentava se levantar. Estaria gravemente ferido em minha casa? Trouxe a calcinha de volta pra cintura, peguei uma toalha, me ajoelhei, tentei verificar de onde provinha realmente o sangue. Passei a toalha sobre onde parecia ser o centro do trauma, coloquei sua cabeça sobre minhas pernas dobradas, procurando limpá-lo o máximo para encontrar a sua identidade. Quem era? O amigo íntimo de meu filho, o Inácio, com quem tinha cometido o máximo da noite entre os meus lençóis —, era ele sim. E eu posso?, meditei boquiaberta, tentando recobrar o que jazia enterrado sob a amnésia alcoólica. Ele não estava tão mal assim, pois me ouviu e respondeu: Você pode sim. E pra onde te levar?, resmunguei. Pro primeiro Pronto-Socorro, ele respondeu muito ajuizada-mente. Devolvi sua cabeça ao piso do banheiro e fui atrás de alguma coisa ou de alguém que não fosse o meu filho, pois esse eu queria que estivesse de fato entregue à aula de inglês, entregue mesmo, como se tivesse naquela tarde uma entrevista superimportante para seu futuro com um norte-americano monoglota! Não, ele de fato não se encontrava em casa, então fui me vestir com qualquer roupa, peguei a chave do carro, me ajoelhei de novo no banheiro, ainda tive o desplante de imaginá-lo com a cabeça ensangüentada sobre minhas pernas como uma boa figuração da Pietà, pois é! De imediato varri isso da cabeça e lhe perguntei: Você tem forças pra se levantar com a minha ajuda? Tenho sim, ele falou e veio se levantando com bastante autonomia. Na garagem alguém ouvia Rolling Stones. Enquanto conduzia o rapaz para meu carro, percebi que se tratava de dois jovens do prédio a se beijarem no carro do pai da menina. Como eu vinha de uma noite bêbada, quase que paro pra dar corda a uma curiosidade insana, quase que paro para olhar aquele casalzinho em altos arrulhos no início da manhã. No Pronto-Socorro fomos levados a uma das salas dos traumatizados, assim: um enfermeiro segurando o braço dele e eu ao lado do rapaz, falando uma das besteiras que são ditas aos recém-feridos, tipo não é nada grave você verá, eles farão um curativo a tempo de abrirmos outro champanhe e tal… Pediram que ele sentasse. Aproximei-me mais enquanto eles tomavam as providências sobre o corte numa das têmporas. Encostei-me no outro lado de seu rosto. Ele deitou a face no meu peito. Suas lágrimas molhavam o meu vestido preto de alças. Davam arriscados pontos na fronte do rapaz. Eu dizia pra ele sossegar porque logo passaria a dor. Senti que ele se acalmava com a orelha sobre as francas batidas do meu coração. Eu repetia com convicção que assim que o último ponto fosse dado a gente saudaria os novos tempos com mais uma garrafa de champanhe. O que te aconteceu foi um batismo, meu que-rido, saudando os novos tempos… E de súbito me achei tremendamente ridícula… e me pus a chorar cheia de candura pelo choro dele… E o pior era que aquelas lágrimas ao encontro das lágrimas do garoto aumentavam a sensação de ridículo. O médico falava agora que o rapaz já podia ir para casa. Foi aí que beijei os seus cabelos encharcados de suor. Ao beijar senti o cheiro que eu tanto tinha gostado de experimentar sobre os meus lençóis. Não tinha perfume, apenas a grata aspereza de um herói do cloro, do campeão do nado livre. Ao sentar no banco do carro, percebi que o suor das minhas costas me colava ao couro do encosto. Vi que o fecho do vestido atrás estava aberto. Pedi ao belo campe
trouxera de Roma. Esperava pelo almoço, claro. Dessa vez porém ele parecia não esperar por nada. Roncava. E sentei na poltrona para olhá-lo. Estava muito alto, corpo sarado. Seu umbigo era o que de mais meu ele tinha. Cheguei mais perto, bem devagar, sem quase respirar, para que ele não me pegasse no ato de examinar aquele seu pequeno ponto cavo na barriga, aquele ponto de onde saía um fio de pêlos que ia se alargando em direção ao púbis —, um ponto enfim que estivera ligado ao meu corpo por um cordão…, até a noite de temporal do nascimento dele. Estava tão próxima a seu umbigo que quase podia sentir o cheiro de suas vísceras… e por seus caminhos lá dentro eu poderia quem sabe me embrenhar… Tornei a mim, me afastei de meu filho, desliguei a televisão. E agora?, me perguntei. Passei pelo banheiro com a porta arrombada em pedaços. Fechei os olhos para o pequeno horror. Diante de minha cama com os lençóis revoltos e a fronha suja do sangue que escorre-ra de mim ao deitar nas altas da madrugada, diante da cama assim só me restava deitar exausta como eu fazia agora aqui. Que deixasse meu filho sem almoço, que largasse de mão o apartamento sem tomar qualquer providência para o dia, que inventasse amanhã alguma doença para justificar minha falta onde fosse sentida… Não importava, pois eu já ia sonhando em águas mansas em luz de alta primavera… eu ia, eu ia sim já toda, toda nua, sem pressa de chegar a lugar algum —, ah, levada pelas águas, bem assim, assim…

…ops. O que voce quer, mesmo, saber?
Estava imerso em um curso em BSB, sobre Int. a Gestao Ambiental.
Quem é essa Clarice que comentava aqui, hein? Gostaria de trocar umas idéias com ela.