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“Rasgar contos é algo irremediável, porque escrevê-los é como
despejar concreto. Em compensação, escrever um romance é
como colar ladrilhos. Isso quer dizer que se um conto não se
consolida na primeira tentativa é melhor não insistir. Um romance
é mais fácil: volta-se a começar.” GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ

26/09/2006 - 12:00

Hay, Segóvia, Parati

Em Segóvia há muito mais açougues que livrarias. Consomem-se mais leitões do que livros. Não há tradição de encontros literários, e muito menos existiam antecedentes de pagar para poder ouvir escritores falando de suas obras, seus gostos literários ou suas opiniões sobre literatura ou política. Segóvia não é Hay on Wye, a cidadezinha galesa cheia de livrarias e acostumada a celebrar encontros de escritores há décadas. E, apesar de tudo, em Segóvia o Festival de Hay foi um êxito e uma surpresa. Os encontros literários dos dias – e das noites – segovianas demonstraram que há, sim, o desejo de escutar, ler, debater e participar das discussões culturais e literárias. Os locais onde se deram os encontros estavam cheios, as pessoas pagavam pelo espetáculo de ouvir os intelectuais, historiadores ou escritores de tão distinta condição, cultura ou fama que ali compareceram. Havia debates, perguntas e celebrações de manhã à noite na monumental, civilizada, divertida, e de excelente gastronomia, cidade castelhana. Havia filas (!!) para poder ver um escritor.

É engraçado ler a embasbacada crônica do jornalista espanhol Javier Rioyo no site literário Boomeran(g) sobre o sucesso do Festival de Hay em Segóvia – sim, um absurdo equivalente ao do Rock in Rio em Lisboa, o triunfo da grife sobre a geografia. Mais engraçado ainda quando se descobre que lá estiveram autores como Ian McEwan e Martin Amis. Com adaptações mínimas, o que Rioyo diz do Hay segoviano podia ser dito da Flip algum tempo atrás. Mas por aqui parece que já passamos da fase da incredulidade.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts Tags:

3 comentários para “Hay, Segóvia, Parati”

  1. Eu nunca consegui ir a Paraty porque é muito caro. Lamento, mas se quero falar de literatura com os autores que amo ou admiro ou que me irritam, descubro o e-mail deles e mando um. Sai mais barato e, no final, o resultado é de maior qualidade (para mim, claro).

  2. Tamara Sender disse:

    Como toda forma de arte, a literatura é uma experiência individual (seja a produção, seja a recepção). Por isso, vejo com certa desconfiança os festivais como o de Paraty. Não consigo acreditar que toda essa gente que lota os hotéis tenha verdadeiro interesse por textos literários. É tipo o oba-oba das bienais, quando neguinho disputa senha a tapa pra conversar com autor sem nunca ter lido nada dele. Festa literária é provavelmente uma ótima diversão extraliterária.

  3. Roberval disse:

    Passaram da fase da incredulidade para entrar na da jequice…

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