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“Rasgar contos é algo irremediável, porque escrevê-los é como
despejar concreto. Em compensação, escrever um romance é
como colar ladrilhos. Isso quer dizer que se um conto não se
consolida na primeira tentativa é melhor não insistir. Um romance
é mais fácil: volta-se a começar.” GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ

Arquivo de setembro, 2006

30/09/2006 - 00:01

João Gilberto Noll: ‘A máquina de ser’

O escritor gaúcho João Gilberto Noll chega este ano à categoria dos sessentões tendo uma obra vasta e coerente para mostrar. Nela predominam os romances: “A fúria do corpo”, “Bandoleiros”, “Harmada”, “Berkeley em Bellagio” e outros. Essa predileção pelas narrativas longas – ou relativamente longas, pois a verborragia aqui não tem lugar – sempre me pareceu intrigante. Meu livro preferido de Noll continua sendo o primeiro, de contos, “O cego e a dançarina”, lançado em 1980. O estilo marcante do autor, com sua indeterminação crônica instalada no coração mesmo das frases, das palavras, torna aflitivamente fugidios, estranhos, esgarçados, personagens e cenários. O que me parece bem menos adequado à narrativa longa que à curta, que pode prescindir com mais facilidade de uma arquitetura precisa, de um enredo calculado – ainda que calculado para confundir. Por tudo isso é muito boa a notícia de que, após publicar o volume de minicontos “Mínimos múltiplos comuns” (Francis, 2003), Noll já está de volta ao gênero, e dessa vez em tamanho mais suculento, com as 24 histórias de “A máquina de ser” (Nova Fronteira, 144 páginas, R$ 22), que chega às livrarias no próximo fim de semana. Abaixo, um conto inteiro, um dos melhores do livro, chamado “Nado livre”:

Vivi tanto aquele dia que de mim escorreu sangue ao deitar. Tinha tomado champanhe, uma garrafa inteira de vodca, me arranhara fundo pelos espinhos de umas plantas que poderiam ser de um jardim, praça, parque, sei lá! E, de repente, estava sem bebida em casa. Então, feito fosse uma garrafa de vinho, acabei bebendo em pesadelo o que sobrara de mim própria em meio a cólicas —, sim, desidratando-me inteira, a cabeça ruiva sobre os travesseiros, os mesmos sobre os quais eu beijara pouco antes uns lábios carnudos que se abriram passando uns goles de champanhe para os meus, ávidos de sal. Meu filho, um homem adolescente, me acordou de manhã pedindo que eu fizesse o lanche que ele já estava atrasado pro colégio. Hein?, quase supliquei uma trégua, assim, com essa indagação vaguíssima. Ele insistiu que eu fizesse o café porque a aula de inglês começava às oito. Então me levantei depois de me arrastar pelos lençóis, como se fosse um soldado pelos charcos de uma terra inimiga, até que o meu filho homem no raiar da adolescência me pegou pelos braços e foi me guiando até o banheiro para a minha higiene matinal. Fechei a porta atrás de mim. Ainda me sentia tonta pelo porre da noite. Fui até o vaso me agarrando pelas coisas para não cair. Como doar meus próximos minutos para meu rebento? Sentei, o xixi demorou a sair. Fiquei ali, esperando, até que, ao sair de mim num amarelo quente, não parou mais… Meu filho já batia na porta, pedindo que eu viesse logo que já eram sete e meia. Ai!, gemi bem alto, mas não tanto o ponto de apagar o som do meu xixi. Vem, mãe!, ele clamava. Eu bocejava trazendo à superfície não somente o cansaço inerente a uma brutal ressaca, mas também a expressão de um tédio quase sempre partícipe no ato do bocejo. Eu é que tive vontade de clamar para ele. Clamar por um armistício válido para aquela manhã apenas… Mas eu já sabia, ele era a tradução de um ego inflamado de adolescente. Se eu o riscasse do meu dia, jamais seria perdoada. E eu precisava ser perdoada? Não, não, eu permaneceria trancada naquele banheiro pelo dia todo, deitada no chão frio. Ele tinha o banheiro da área de serviço. Que se virasse pra comer. Que fosse pro colégio agora e lanchasse lá. Ainda ouvia o som do meu xixi para encontrar assim um equilíbrio interno, qualquer coisa por aí, quando de um golpe a porta do banheiro é arrombada, trazendo junto o corpo de um homem enorme com certeza o arrombador que acaba caindo próximo aos meus pés junto com lascas da porta. Quem era o homem? E eu saberia dizer assim de supetão? Seria meu filho já tão grande assim? Não, decididamente, não era ele não. Leia mais »

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Primeira mão Tags:
29/09/2006 - 16:58

Cala a boca, heideggeriano!

A história foge do terreno da ficção em que se concentram as obsessões do Todoprosa, mas reúne nomes de peso e um coquetel de política e filosofia que merece atenção: a supereditora francesa Gallimard acaba de suspender a publicação de um livro de filosofia chamado Heidegger à plus forte raison – notícia do “Le Monde”, em francês, aqui. Detalhe bizarro: a suspensão se deu no último minuto, depois que cópias do livro já tinham sido distribuídas à imprensa e algumas resenhas, publicadas. A Gallimard não explicou a decisão. A proposta do livro – de diversos autores, com organização de François Fédier – é provar que o filósofo alemão Martin Heidegger (1889-1976) não era nazista.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts Tags:
28/09/2006 - 16:01

Para calvinistas e não-calvinistas

FERNANDO ARRABAL, espanhol, vinte e sete anos, pequeno, cara de criança com uma barba que parece um colar e franjinha. Há anos vive em Paris. Escreveu peças teatrais que ninguém nunca quis encenar e também um romance publicado pela Julliard. Passa fome. Não conhece nenhum escritor espanhol e os odeia todos porque dizem que ele é um traidor e gostariam que fizesse realismo socialista e escrevesse contra Franco e ele se recusa a escrever contra Franco, ele nem sabe quem é Franco, mas na Espanha, se não formos contra Franco, não podemos publicar nada nem ganhar prêmios literários porque quem manda em tudo é Goytisolo, que impõe a todos o realismo socialista, ou seja, Hemingway-Dos Passos, ele nunca leu Hemingway-Dos Passos, nem sequer leu Goytisolo porque não consegue ler realismo socialista, e deixando de lado Ionesco e Ezra Pound não gosta de muita coisa. É extremamente agressivo, brincalhão de forma obsessiva e lúgubre, e nunca se cansa de me bombardear com perguntas sobre como é que eu posso me interessar por política e também sobre o que se faz com as mulheres. Seus objetivos polêmicos são dois: política e sexo. Ele e os blousons noirs, dos quais se faz intérprete, nem sequer conseguem entender como pode haver pessoas que achem política e sexo interessantes. Interessa-se apenas por cinema (especialmente cinemascope, technicolor e gângsteres) e fliperamas. Depois de ter deixado o seminário (estudava para ser jesuíta, na Espanha) nunca teve contatos sexuais, ao que parece nem sequer com sua mulher (está casado há três anos) e nunca teve vontade de tê-los, o mesmo se dá quanto à política.

Pelo estilo, é impossível adivinhar o autor desse sumário, maldoso e divertidíssimo retrato de um artista quando jovem – no caso, um jovem que em poucos anos se tornaria famoso em todo o mundo como um superdramaturgo, autor de “O arquiteto e o imperador da Assíria”. O miniperfil foi rabiscado por um sujeito conhecido por textos muito mais limpos e elegantes: o escritor italiano (nascido em Cuba) Italo Calvino (1923-1985). É parte de uma das cartas endereçadas por Calvino à sua editora em 1959, quando ganhou uma bolsa para jovens escritores nos Estados Unidos. Na mesma turma estava Arrabal – e deveria ter estado também o alemão Günter Grass, que, no entanto, foi barrado no exame médico por conta de pulmões avariados e não pôde entrar no país. (O júri que selecionou esse pessoal também merecia um prêmio.)

O livro “Eremita em Paris – Páginas autobiográficas” (Companhia das Letras, tradução de Roberta Barni, 264 páginas, R$ 39,50) reúne cartas, anotações para uma autobiografia que nunca foi escrita, entrevistas. Ou seja, é o próprio baú do Calvino. Nem sempre esse tipo de material merece recomendação, mas acho que o fragmento acima fala por si. Eu, que por alguns anos fui um calvinista juramentado, estou me divertindo à beça.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts Tags:
27/09/2006 - 11:50

Pau no Capote

“Travessia de verão” é assustadoramente supertrabalhado, cheio daquelas metáforas improváveis que mais tarde Capote diria detestar.

É impiedosa a crítica (em francês) que Josyane Savigneau assina no “Le Monde” sobre a tradução francesa do primeiro romance de Truman Capote – sim, tudo indica que se trata realmente do primeiro, embora o crítico brasileiro Silviano Santiago tenha tentado mudar essa cronologia em resenha no “Mais!” (só para assinantes). O rigor francês não surpreende. Curioso mesmo é descobrir que o lançamento do livro por lá, mercado voraz, coincidiu com o brasileiro – veja nota do dia 22, aqui embaixo.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts Tags:
26/09/2006 - 12:00

Hay, Segóvia, Parati

Em Segóvia há muito mais açougues que livrarias. Consomem-se mais leitões do que livros. Não há tradição de encontros literários, e muito menos existiam antecedentes de pagar para poder ouvir escritores falando de suas obras, seus gostos literários ou suas opiniões sobre literatura ou política. Segóvia não é Hay on Wye, a cidadezinha galesa cheia de livrarias e acostumada a celebrar encontros de escritores há décadas. E, apesar de tudo, em Segóvia o Festival de Hay foi um êxito e uma surpresa. Os encontros literários dos dias – e das noites – segovianas demonstraram que há, sim, o desejo de escutar, ler, debater e participar das discussões culturais e literárias. Os locais onde se deram os encontros estavam cheios, as pessoas pagavam pelo espetáculo de ouvir os intelectuais, historiadores ou escritores de tão distinta condição, cultura ou fama que ali compareceram. Havia debates, perguntas e celebrações de manhã à noite na monumental, civilizada, divertida, e de excelente gastronomia, cidade castelhana. Havia filas (!!) para poder ver um escritor.

É engraçado ler a embasbacada crônica do jornalista espanhol Javier Rioyo no site literário Boomeran(g) sobre o sucesso do Festival de Hay em Segóvia – sim, um absurdo equivalente ao do Rock in Rio em Lisboa, o triunfo da grife sobre a geografia. Mais engraçado ainda quando se descobre que lá estiveram autores como Ian McEwan e Martin Amis. Com adaptações mínimas, o que Rioyo diz do Hay segoviano podia ser dito da Flip algum tempo atrás. Mas por aqui parece que já passamos da fase da incredulidade.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts Tags:
25/09/2006 - 10:25

Julian, Arthur e George

No “Telegraph” deste fim de semana, Jasper Rees conversa com Julian Barnes sobre seu último livro, que, quem diria, é um relativo sucesso comercial na Inglaterra: “Arthur & George”, uma história de tribunal de leitura grudenta em que o advogado é ninguém menos que Arthur Conan Doyle, o criador do detetive Sherlock Holmes.

Surpreendente, sem dúvida, mas não pelo uso do personagem famoso. Barnes escreveu sua obra mais marcante quando transformou sua paixão por Gustave Flaubert numa deliciosa mistura de romance, esboço biográfico e ensaio literário em “O papagaio de Flaubert”. Difícil saber em qual gênero o livro brilha mais.

Situando Julian Barnes em sua geração excepcional, Rees anota: “Martin Amis, Salman Rushdie, Ian McEwan – com eles você sabe, há anos, onde está pisando. Mas o tema unificador da obra de Barnes? O fio condutor? Se existe tal coisa, é uma elegante imponderabilidade…”. Imagino que seja um elogio.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts Tags:
23/09/2006 - 12:41

Começos inesquecíveis: Franz Kafka

Quando Gregor Samsa despertou, certa manhã, de um sonho agitado, viu que se transformara, em sua cama, numa espécie monstruosa de inseto.

Eis o primeiro parágrafo de “A metamorfose” (Civilização Brasileira, tradução de Brenno Silveira, 5a edição, 1988), do escritor tcheco Franz Kafka (1883-1924). Sem comentários.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts Tags:
22/09/2006 - 16:49

Alfaguara, o epílogo: Truman Capote e Will Self

Para fechar o capítulo do megalançamento brasileiro do selo espanhol Alfaguara (veja as duas últimas notas, sobre os livros de Mario Vargas Llosa e Cormac McCarthy), o Todoprosa destaca outros dois títulos no pacote de meia dúzia que está chegando às livrarias neste fim de semana: “Travessia de verão” (tradução de Fernanda Abreu, 143 páginas, R$ 31,90), o primeiro romance escrito por Truman Capote, e “Grandes símios” (tradução de José Rubens Siqueira, 406 páginas, R$ 59,90), do inglês Will Self.

Trata-se de dois livros menores do que seus autores – mas os autores são tão interessantes que isso não é grave. “Travessia de verão” tem uma história curiosa: os cadernos escolares com o manuscrito foram entregues à casa de leilão Sotheby’s em 2004 pelo herdeiro do proprietário de um apartamento em que Capote (1924-1984) morara nos anos 40. O livro foi publicado ano passado nos EUA com a autorização do Truman Capote Literary Trust, embora o autor de “Bonequinha de luxo” – com o qual “Travessia de verão” tem parentesco – e da obra-prima “A sangue frio” nunca tenha demonstrado o menor interesse em lançá-lo em vida. Como documento dos primeiros passos de um grande escritor, é material valioso.

“Grandes símios” é a história alucinada que um autor símio – num mundo dominado pelos macacos, mas muito semelhante ao nosso – escreve quando resolve cometer a ousadia de imaginar um protagonista humano. Um “Planeta dos macacos” metido a besta? Não exatamente. Um dos melhores e certamente o mais original escritor inglês dos últimos anos, Self é um satirista de primeira. “Grandes símios” deixa no leitor a sensação de ter um ponto de partida frágil demais para sustentar suas 400 páginas, mas os momentos hilariantes, argutos e doentios – trinômio que é a cara do autor – não são poucos. E quem sabe agora, avalizado por um selo como o Alfaguara, Will Self consiga ter no Brasil a repercussão que merece – e que seus dois livros lançados aqui pela Geração Editorial, a excelente dupla de novelas “Cock & Bull” e o tenebroso romance “Minha idéia de diversão”, não conseguiram.

Completam o pacote uma tradução de “Um retrato do artista quando jovem” (267 páginas, R$ 39,90), de James Joyce, com a grife de Bernardina da Silveira Pinheiro, que ano passado publicou sua versão de Ulisses pela Objetiva; e “Quando fui outro” (223 páginas, R$ 29,90), seleção de cartas e poemas de diversos heterônimos de Fernando Pessoa feita pelo escritor brasileiro Luiz Ruffato.

No mês que vem saem outros cinco títulos: “Palácio de espelho”, do indiano Amitav Ghosh, “Conclave”, do italiano Roberto Pazzi, “A boa terra”, da americana nobelizada Pearl S. Buck, “Conhecimento do Inferno”, do português António Lobo Antunes, e “Quase memória”, de Carlos Heitor Cony – o primeiro escritor brasileiro a ser publicado pela Alfaguara.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts Tags:
21/09/2006 - 18:59

Cormac McCarthy: ‘Onde os velhos não têm vez’

É a primeira vez que a seção Primeira Mão aparece aqui dois dias seguidos, mas a ocasião justifica o exagero. No pacote de lançamento do selo Alfaguara no Brasil (veja a nota de ontem sobre o livro de Mario Vargas Llosa), chama atenção outro escritor de primeira grandeza, este, porém, de obra pouco conhecida entre nós: o americano Cormac McCarthy, 73 anos. Em maio deste ano McCarthy teve o livro que costuma ser considerado sua obra-prima, “Meridiano sangrento”, incluído por um júri do “New York Times” entre os mais importantes da ficção americana nos últimos 25 anos (nota da época aqui).

“Meridiano sangrento” foi lançado nos EUA em 1985 e saiu aqui pela Nova Fronteira em 1991, mas faz tempo que virou raridade. Depois disso a Companhia das Letras publicou a chamada Trilogia da Fronteira de McCarthy: “Todos os belos cavalos” (1993), “A travessia” (1999) e “Cidades da planície” (2001). Ficou nisso. O que torna mais bem-vinda esta edição de “Onde os velhos não têm vez” (Alfaguara, tradução de Adriana Lisboa, 252 páginas, R$ 38,90), um western moderno – ambientado nos anos 80 – e ultraviolento que a prosa tensa e seca de McCarthy ajuda a tornar mais do que um jogo de gato-e-rato convencional.

O livro se sustenta em três personagens: Llwelyn Moss, um veterano do Vietnã que, caçando num deserto do Texas, esbarra por acidente numa bolada de dois milhões de dólares que era transportada por traficantes de drogas – já convenientemente mortos quando ele os encontra – e decide ficar com o dinheiro; um xerife que investiga o caso; e um assassino profissional desses de gelar o sangue, Anton Chigurh, que os donos do dinheiro contratam para reavê-lo. O argumento poderia ser o de um filme hollywoodiano besta. Como se trata de McCarthy, que sabe como poucos dar ressonância artística e verdade humana ao horror, é um alívio que o livro, lançado ano passado no mercado americano, esteja sendo adaptado para o cinema pelos ótimos irmãos Coen.

No trecho abaixo, Chigurh – um sujeito que mata por pouco, por nada, mas gosta de dar às suas vítimas uma chance no cara-ou-coroa – conversa com o dono de uma lojinha de conveniência num posto de beira de estrada.

Chigurh estendeu um dólar sobre o balcão. O homem abriu a caixa registradora e empilhou o troco diante dele do modo como um carteador de cassino coloca as fichas. Chigurh não tinha tirado os olhos dele. O homem desviou o olhar. Tossiu. Chigurh abriu o pacote plástico de castanhas-de-caju com os dentes e despejou um terço do pacote na palma da mão e começou a comer.

Mais alguma coisa? o homem disse.

Não sei. Será?

Tem algo errado?

Com o quê?

Com alguma coisa.

É isso o que você está me perguntando? Se tem algo errado com alguma coisa?

O homem se virou e colocou o punho fechado sobre a boca e tossiu outra vez. Olhou para Chigurh e ele desviou o olhar. Olhou pela janela para a frente da loja. As bombas de gasolina e o carro parado lá. Chigurh comeu mais um punhadinho de castanhas-de-caju.

Mais alguma coisa?

Você já me perguntou isso.

Bem é que eu preciso fechar.

Fechar.

Sim senhor.

A que horas você fecha?

Agora. Fechamos agora.

Agora não é um horário. A que horas você fecha?

Normalmente ao escurecer. Quando escurece.

Chigurh ficou ali mastigando devagar. Você não sabe o que está dizendo, não é mesmo? Leia mais »

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Primeira mão Tags:
20/09/2006 - 23:01

Mario Vargas Llosa: ‘Travessuras da menina má’

O romance “Travessuras da menina má” (Alfaguara, tradução de Ari Roitman e Paulina Wacht, 302 páginas, R$ 39,90), de Mario Vargas Llosa, saiu há cinco meses na Espanha e marca um momento especial na carreira do escritor peruano de 70 anos: sua obra completa começou a ser editada na mesma época e os rumores de que o Nobel de Literatura – que será anunciado mês que vem – tem lhe piscado um olho andam fortes como nunca desde que ele esteve este ano em Estocolmo, terra do prêmio, para participar de um monumental congresso de especialistas em sua obra.

Assumido pelo próprio Vargas Llosa como sua primeira “história de amor”, o livro é divertido a seu modo ligeiro, distante da grandiosidade de, por exemplo, “Conversa na Catedral”. A paixão do protagonista Ricardo pela menina má do título se espalha no tempo – quatro décadas – e no espaço, passando por muitas das cidades em que o autor viveu, para esboçar um painel da segunda metade do século XX: Lima nos anos dourados, Paris no tempo do radicalismo estudantil, Londres quando ela era swinging, Madri na redemocratização. Em cada cidade o pobre Ricardo reencontra sua fria e impiedosa amada num novo papel, com uma nova identidade. Soa meio esquemático – e é. O trecho abaixo dá uma pista de como o talento de Vargas Llosa para contar histórias consegue levar o projeto a bom termo mesmo assim.

Para encerrar, registre-se que no lançamento de “Travessuras da menina má” dá-se um fenômeno raríssimo: a editora é mais notícia que a obra. Estrela de um pacote que inclui cinco outros títulos de uma só vez, o livro marca a estréia brasileira do selo espanhol Alfaguara, nome de prestígio que o grupo editorial Prisa-Santillana – atuando no Brasil desde o ano passado, quando adquiriu 75% do capital da editora carioca Objetiva – reserva para seus autores de qualidade literária mais estabelecida.

Dos outros cinco títulos do pacote inicial da Alfaguara brasileira destacam-se, pelo ineditismo, um Truman Capote, um Cormac McCarthy e um Will Self – mas destes deixarei para falar depois, que a mesa é farta demais para ser atacada de uma vez.

Com a palavra, Mario Vargas Llosa:

Naquele verão extraordinário, nas festas de Miraflores todo mundo parou de dançar valsas, corridos, blues, boleros e huarachas, porque o mambo arrasou. O mambo, um terremoto que fazia todos os casais infantis, adolescentes e maduros se sacudirem, balançando, pulando e fazendo firulas nas festas do bairro. E certamente acontecia o mesmo fora de Miraflores, para além do mundo e da vida, em Lince, Breña, Chorrillos, ou nos ainda mais exóticos bairros de La Victoria, o centro de Lima, o Rímac e o Porvenir, onde nós, miraflorenses, nunca tínhamos pisado nem pensávamos pisar jamais.

E assim como havíamos passado das valsinhas e huarachas, das sambas e das polcas para o mambo, também passamos dos patins e patinetes para a bicicleta, e alguns, Tato Monje e Tony Espejo por exemplo, para a moto e até mesmo, um ou dois rapazes, para o automóvel, como o grandalhão do bairro, Luchín, que às vezes roubava o Chevrolet conversível do pai e nos levava para dar uma volta pelo cais, de Terrazas até a quebrada de Armendáriz, a cem por hora.

Mas o fato mais notável daquele verão foi a chegada a Miraflores, diretamente do Chile, seu distante país, de duas irmãs cuja presença marcante e inconfundível jeito de falar, rapidinho, esquecendo as últimas sílabas das palavras e arrematando as frases com uma exclamação aspirada que soava como um “pueh”, deixaram abobalhados todos os miraflorenses que acabavam de trocar as calças curtas pelas compridas. E eu, mais do que qualquer outro.

A mais alta parecia ser mais nova e vice-versa. A mais velha chamava-se Lily e era um pouco mais baixinha que Lucy, que tinha um ano menos. Lily devia estar com 14 ou 15 anos, no máximo, e Lucy, com 13 ou 14. O adjetivo marcante parecia ter sido inventado para elas, mas, sem deixar de sê-lo, Lucy era menos marcante que a irmã, não só porque seu cabelo era menos louro e mais curto e se vestia com menos atrevimento que Lily, mas também porque era mais calada e, na hora de dançar, apesar de também fazer firulas e requebrar a cintura com uma audácia que nenhuma miraflorense se atreveria a assumir, parecia uma garota recatada, inibida e quase insípida em comparação com aquele pião, aquela labareda ao vento, aquele fogo-fátuo que era Lily quando, colocados os discos na vitrola, o mambo explodia e começávamos todos a dançar.

Lily dançava num ritmo saboroso e cheio de graça, sorrindo e cantarolando a letra da canção, erguendo os braços, mostrando os joelhos e balançando a cintura e os ombros de tal maneira que todo o seu corpinho, modelado com tanta malícia e tantas curvas pelas saias e blusas que usava, parecia se encrespar, vibrar e participar do baile dos pés à cabeça. Quem dançava um mambo com ela sempre se saía mal porque, como acompanhá-la sem se atrapalhar no turbilhão endiabrado daquelas pernas e pezinhos saltitantes? Impossível! Você ficava constrangido desde o início, e totalmente consciente de que os olhos de todos os casais estavam concentrados nas façanhas mambeiras de Lily. “Que menina!”, indignava-se a tia Alberta, “dança como uma Tongolele, parece uma rumbeira de filme mexicano”. “Bem, não vamos esquecer que é chilena”, insistia, “e o forte das mulheres desse país não é a virtude”. Leia mais »

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Primeira mão Tags:
19/09/2006 - 16:20

Vila-Matas e o futuro do livro

Adivinhar o futuro do livro diante da suposta ameaça digital é como especular com o resultado que seu time favorito obterá no domingo. Você não tem como saber, não faz idéia e é melhor que não faça, porque se o seu time, por exemplo, vai perder de goleada, é inútil que você preveja isso, porque não poderá fazer nada por ele, nada para evitar a catástrofe. De modo que o melhor é não se incomodar demais com especulações. Depois de tudo, ocorrerá o que tiver de ocorrer. Mais ainda: na realidade o futuro digital do livro já está escrito, e não creio que em sua escritura eu tenha participado ou venha a participar.

Há pouco mais de dois meses, passaram aqui pelo Todoprosa os ecos de uma boa polêmica travada nas páginas do “New York Times” entre o ficcionista John Updike e o jornalista Kevin Kelly, o primeiro declarando-se horrorizado com as previsões do segundo de que o livro como o conhecemos, com autoria, estilo, começo e fim, está prestes a se diluir num grande livro universal sem autor e sem forma, acessado aos pedaços por mecanismos de busca – a própria internet, pois é.

A última edição do caderno cultural Babelia, do jornal espanhol “El Pais”, pula no bonde com algum atraso, publicando uma tradução do artigo de Updike. Como contribuição nova ao debate traz um curioso texto de Enrique Vila-Matas, do qual retirei o trecho acima. O fatalismo do autor de “Bartleby e companhia” me deixou meio exasperado, mas, pensando bem, quem pode lhe negar razão?

No mínimo, ajuda a entender a atração de Vila-Matas pelo escriturário de Melville.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts Tags:
18/09/2006 - 14:48

Chávez lê, diz que lê – e manda os outros lerem

Já sabemos que George W. Bush posa de leitor de grandes livros para ficar bem na foto e que Lula, mais autêntico, não tem a menor intimidade com eles (veja abaixo a nota “O que lêem os presidentes”, de 23/8). Mas o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, é diferente, garante um artigo (em inglês, mediante cadastro) assinado por Simon Romero no “New York Times” de ontem. Na ficção, as paixões literárias de Chávez incluem “Os miseráveis”, de Victor Hugo, e “Dom Quixote”, de Miguel de Cervantes – cujo aniversário de 400 anos, ano passado, foi comemorado pelo governo venezuelano com uma edição de um milhão de exemplares para distribuição gratuita.

Chávez não se limita a ler, diz Romero: está sempre citando livros em seus longos discursos, o que, juntamente com as escolhas de títulos e autores, sugere uma tentativa consciente de dar dimensão cultural às suas idéias políticas. Mas como o cacique do “bolivarismo” acha tempo para ler tanto? – pergunta-se o articulista. Uma resposta vem de Herma Marksman, que foi namorada de Chávez de 1984 a 1993: segundo ela, Chávez lhe pedia, sempre que estava dirigindo, que ela lesse em voz alta. “Prestava atenção em cada palavra, principalmente se fosse Gabriel García Márquez”, conta.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts Tags:
17/09/2006 - 00:01

Começos inesquecíveis: Juan Rulfo

Vim a Comala porque me disseram que aqui vivia meu pai, um tal de Pedro Páramo.

Um dia a dúvida tinha que aparecer nesta seção: será que o começo de “Pedro Páramo” (Record, 2004, tradução de Eric Nepomuceno), romance publicado em 1955 pelo mexicano Juan Rulfo (1917-1986), só é inesquecível porque o livro todo é? Ou existirá alguma coisa na primeira linha dessa obra-prima da literatura latino-americana que a faria reverberar mesmo sozinha, no ar seco de um México mítico, sustentada entre o tema ancestral da busca do pai e a sonoridade estranha de nomes como Comala e Páramo?

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts Tags:
16/09/2006 - 00:01

Genichiro Takahashi: ‘Sayonara, Gangsters’

Até agora o único livro do japonês Genichiro Takahashi lançado nos Estados Unidos, e também o primeiro a chegar ao Brasil, “Sayonara, Gangsters” (Ediouro, tradução do japonês de Jefferson José Teixeira, 296 páginas, R$ 39,90) é um espanto. Engraçado e perturbador, satírico e ridículo, cínico e bobo, incongruente e brilhante, é tarefa inglória tentar encontrar referências que situem o trabalho de Takahashi, um ex-diretor de filmes pornográficos, em algum tipo de tradição literária ou mesmo antiliterária. O “Japan Times” bem que tentou, falando em “Pynchon com editor” e “Calvino como ele é”. O que talvez tenha sua graça, mas não soa muito condizente com uma história passada num futuro indeterminado em que as pessoas já não têm nomes propriamente ditos, o protagonista é conhecido como Sayonara, Gangsters (sim, o livro leva o nome dele), existe uma sala de aula com um deserto no meio e Virgílio, o poeta, é uma geladeira.

O “Japan Times” não teria como saber disso, mas, aqui do meu canto, o escritor mais aparentado com Takahashi em que consigo pensar é o José Agrippino de Paula de “PanAmérica”: cada um a seu modo, os dois refratam a cultura pop num prisma de loucura. O trecho abaixo dá uma idéia do grau de piração do livro, que foi lançado no Japão em 1982 e chega ao Brasil com a mesma capa e a mesma recomendação de Jonathan Safran Foer, autor de “Tudo se ilumina”, que ajudaram a vendê-lo no careta mercado americano: “Com certeza é um livro engraçado. E belo. E um pouco maluco também. E assustador. E de partir o coração”. É por aí. Se você não gosta de literatura que anarquize sua cabeça, não passe nem perto de “Sayonara, Gangsters”.

Eu e esse cara estávamos de pé no meio do corredor da escola.

De pé diante de mim, o professor de história perguntou:

— Diga-me, garoto, você realmente tem certeza de que o descobridor da América em 1492 foi Babe Ruth?

— Não — eu respondi. — Desculpe meu erro, mestre. Foi Marlon Brando.

— Permaneça de pé por mais uma hora — o professor ordenou.

O professor de história parou diante desse cara.

— Você realmente acha que o livro que a rainha Elizabeth I pediu a Shakespeare para escrever em 1598 era Emmanuelle? — ele indagou.

— Hum — esse cara gemeu e, de braços cruzados por algum tempo, permaneceu pensativo. Então esse cara inesperadamente abriu um pequeno sorriso, indo sussurrar algo ao pé do ouvido do professor.

— Permaneça aí até amanhã de manhã — o professor ordenou.

Esse cara despendeu de pé, no corredor da escola, alguns anos valiosos daquele período difícil da vida.

À semelhança de um judeu que finalmente chega à Terra Prometida, nem um pé-de-cabra o tiraria de sua posição no corredor.

Mesmo no dia de minha formatura, esse cara continuava de pé no corredor, dirigindo-se de modo divertido aos professores e alunos que passavam diante dele: — Vejam, eu sou um corredor.

— Adeus — eu disse ao me despedir dele. Leia mais »

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Primeira mão Tags:
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