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“É muito difícil pensar em ’ser escritor’ quando se nasce num país em
que ninguém lê: os pobres porque não sabem ou porque não possuem
meios para adquirir conhecimentos, e os ricos porque não sentem
vontade. Numa sociedade assim, querer ser escritor não é optar por
uma profissão, mas por um ato de loucura.” MARIO VARGAS LLOSA

30/08/2006 - 14:07

Naguib Mahfouz (1911-2006)

O escritor egípcio Naguib Mahfouz, que morreu hoje no Cairo aos 94 anos, foi o único escritor do mundo árabe a ganhar o Prêmio Nobel de Literatura, em 1988. Mahfouz fora internado há um mês e meio, depois de sofrer uma queda em casa.

O declínio da saúde de Mahfouz começou em 1994, quando um homem o esfaqueou no pescoço – e fugiu sem ser preso. O atentado foi provavelmente praticado por um extremista islâmico: líderes fundamentalistas tinham acabado de declarar o escritor “infiel”. De fato, sua literatura era boa demais, humana demais, para descer pela goela do fundamentalismo. Muitos de seus livros foram proibidos em outros países árabes, e um deles, de 1959, no próprio Egito.

Leia o obituário do “New York Times” (em inglês, mediante cadastro) aqui. E o do “Le Monde” (em francês, acesso livre), aqui.

Mahfouz, que certa vez se definiu como um “escritor de quarta ou quinta categoria”, é autor de três dezenas de romances, além de volumes de contos, peças teatrais e roteiros de cinema, mas sua obra hoje é escassa nas livrarias brasileiras. Lançado em 1997, o romance “Noites das Mil e Uma Noites” (Companhia das Letras), fantasia baseada no maior clássico das letras árabes, é o mais fácil de encontrar.

ERRATA: Cheguei a escrever aqui que “Noites das Mil e Uma Noites” era o único romance de Mahfouz em catálogo no Brasil hoje, mas leitores caridosos trataram de me corrigir. “Akhenaton, o rei herege” (Record) foi lançado ano passado, mais ou menos na mesma época da coletânea de contos “Miramar” (Berlendis & Vertecchia). O romance “O beco do pilão” (Planeta) saiu em 2003 e também é encontrável. Fora isso, há títulos como “O jardim do passado” e “O palácio do desejo” (ambos da Record) – estes, porém, só em sebos mesmo.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts Tags:

17 comentários para “Naguib Mahfouz (1911-2006)”

  1. Erwin disse:

    De fato, um dos grandes que se vai. Ele escreveu com uma preocupação de nos mostrar os tipos mais comoventes de árabes, que geralmente não frequentam nosso imaginário. Conseguiu nos fazer ver mais do que isso, que a humanidade é sempre a mesma, independentemente de qualquer credo, local de nascimento, fortuna ou destino. Mediante determinadas situações todos nós reagimos de forma muito semelhante. Escreveu com uma abundância digna de um Balzac e com a mesma riqueza de detalhes nos fazendo sentir iguais, irmãos.

  2. Pois é: ainda não consegui ler nada dele, justamente porque é dificílimo achar. Mas Mahfouz é daqueles escritores que, mesmo não se tendo lido ainda, sabemos que vamos amar.

    Por enquanto, porque é mais fácil achar em francês lá na biblioteca da Maison de France, vou lendo outro “árabe”: Tahar Ben Jelloun – que é maravilhoso também.

  3. Clara disse:

    Li (e gostei muito)o primeiro de Mahfouz editado no Brasil, só que não consigo me lembrar do título de jeito nenhum, nem o reconheço entre os livros editados posteriormente ao prêmio Nobel. Me sinto péssima quando isso acontece, mas acontece…

  4. Fabiano disse:

    Há mais dois livros de Naguib Mahfouz editados no Brasil. Em 2003, a Planeta publicou o romance “O beco do pilão”, e a Berlendis & Vertecchia, a coletânea de contos “Miramar”.

  5. Sérgio Rodrigues disse:

    Fabiano, obrigado pela correção. E além desses tem “Akhenaton, o rei herege”. Já corrigi lá. Um abraço.

  6. anraphel disse:

    Lograram êxito com Mahfouz onde fracassaram com Rushdie. Sabe Deus onde vai parar quem mata, ou jura de morte, escritor pelo que escreve.

    De Mahfouz, só li “Akhenaton, o Rei Herege” e estranho estar fora de catálogo, pois a edição brasileira é de 2005, pela Record. É muito bom. Quem quiser conhecer de forma romanceada o relato sobre o faraó que, segundo alguns estudiosos, foi o responsável pelo primeiro culto monoteísta da história, lá pelos séculos XIV ou XIII a.C., é ótima pedida.

  7. Sérgio Rodrigues disse:

    Akhenaton está na área, anraphel. Dei uma informação errada, mas consertei.

  8. Fábio disse:

    É uma pena isso… esperava lê-lo enquanto estivesse vivo, mas parece que a barbárie venceu a razão mais uma vez…

    Uma prova de que muitas pessoas temem mais as palavras que armas…

  9. Clara disse:

    Existe um livro do Mahfouz editado no Brasil bem antes destes livros mencionados, tenho certeza.

  10. Clara disse:

    Vou ter que pegar o exemplar na casa dos meus pais.

  11. Roberto Pedreira de Freitas Ceribelli disse:

    Quando leio algo assim me vem a cabeça, que bom, se esta geração está chegando nesta idade, imagina as próximas.
    . Beto, a favor do respeito as pessoas de idade, incluindo eu .

  12. Pedro Curiango disse:

    Perdoem-me. Creio que Mahfouz é uma figura humana de primeira ordem e ele tem todo meu respeito como ser humano, como defensor de idéias que, no seu meio, são boas demais talvez para serem aceitas. Mas a verdade é que se trata de um autor bastante medíocre, do mesmo nível de um Rushdie. Tentei lê-lo algumas vezes (em traduções inglesas) e nunca consegui ir além de umas poucas páginas. Talvez seja um problema cultural – mas a verdade é que até hoje não encontrei ninguém que o tenha lido e tenha dito que se trata de um escritor que merecia o Nobel (se o Nobel fosse realmente só dado a quem o merecesse…)

  13. Rushdie medíocre? Como assim???

  14. Pedro Curiango disse:

    Saint-Clair: você acha que se os iranianos não tivessem feito a besteira de condenar à morte o Rushdie estaríamos agora falando dele?

  15. BCK disse:

    É verdade que a fatwa fez bem pra carreira dele, mas isso não faz com que o Rushdie deixe de ser um excelente escritor.

  16. Acho que o primeiro livro dele no Brasil é
    “As codornas e o outono”, traduzido do original árabe por Alphonse Nagib Sabbagh e João Baptista M. Vargens, professores do Centro de Estudos Árabes da UF, publicado pela Espaço e Tempo, em 90, por aí. Uma novela sensacional, que se passa no Cairo e em Alexandria. Li recentemente e o funcionário público Issa me pareceu assim meio saído da angústia do Graciliano Ramos, uma aproximação que, sei lá, engloba até a coragem ética dos dois escritores. Por aí.

  17. Nilda Maria disse:

    Eu tenho da editora Espaço e Tempo,”As codornas e o outono’,e da Record,’O palácio do desejo’,'Entre dois palácios’,'Jardim do passado’,estes três últimos,como história são um assombro!
    Tomara que logo editem os outros que são muito bons.

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