iG
iBest BrTurbo

Publicidade

Publicidade

“Rasgar contos é algo irremediável, porque escrevê-los é como
despejar concreto. Em compensação, escrever um romance é
como colar ladrilhos. Isso quer dizer que se um conto não se
consolida na primeira tentativa é melhor não insistir. Um romance
é mais fácil: volta-se a começar.” GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ

Arquivo de agosto, 2006

31/08/2006 - 00:01

A vida como ela voltou a ser

“Envelheçam depressa, deixem de ser jovens o mais rápido possível.” O conselho de Nelson Rodrigues (1912-1980) aos jovens deixa evidente a implicância que ele devotava a qualquer pessoa que não carregasse um bom número de décadas nas costas. No entanto, pelo menos num ponto – entre outros, claro – a juventude é invejável: quanto menos vivido, mais chances tem o leitor de receber como revelação a nova edição de “A vida como ela é…” (Agir, 606 páginas, R$ 59,90). E encontrar essas histórias pela primeira vez é um privilégio, uma dádiva. Convém, então, refazer aquele conselho: não envelheçam, jovens. Não enquanto não lerem isso aqui.

Crônicas? Bem, pode-se dizer que sim, pois saíam no jornal. Por alguma razão parece melhor chamar de contos essas variações curtas e às vezes brutais em torno do tema do adultério. Como contos, aliás, elas já eram rotuladas em sua primeira edição em livro, nos dois volumes lançados em 1961 pela editora J. Ozon, que a Agir reúne agora num volume só. Contos populares, velozes, furiosos, magistrais em sua economia de meios. Fazendo as vezes de pano de fundo, um milagre: como é possível que textos de jornal, escritos diariamente – sim, com uma única folga por semana – ao longo de toda a década de 50 para a “Última Hora” de Samuel Wainer, componham um todo tão coeso e de qualidade literária tão cintilante? O que fazer de nossas noções de abismo intransponível entre literatura de massa e literatura com L maiúsculo?

Não sei a resposta, mas tenho um palpite. Começa pelo reconhecimento de que ninguém, na língua portuguesa, jamais escreveu diálogos como Nelson Rodrigues. Não há quem chegue perto. (A propósito, escritores interessados em dominar essa arte cabeludíssima só precisam estudar a obra teatral do homem, que num juízo mais ou menos unânime – sempre existem os casos de falta de juízo – é o maior dramaturgo brasileiro. Basta isso: quem fizer o dever de casa direitinho será um mestre dos diálogos em uma semana. Depois não digam que eu não avisei.)

Os diálogos, pois é. Acredito que eles expliquem a maior parte do milagre de “A vida como ela é…”. Escritos sempre com travessão, no velho figurino brasileiro que as aspas americanizadas vêm tentando aposentar, tocam as histórias para a frente de forma inapelável. Saltam da página, queimam os olhos com seu sabor carioca de época e dúzias de gírias datadas como “espeto” e “batata”. Não é uma arte banal, essa. Sem ela, os exasperados personagens rodriguianos, sempre em contato mais direto com suas pulsões primitivas do que admite a literatura realista, dificilmente deixariam de soar inverossímeis ou tolos. O que os torna irresistíveis é a forma perfeita como falam.

Claro, não se trata de teatro. O narrador intervém, situa, comenta, descreve, ironiza. Sempre, porém, de forma sucinta, sem falta nem sobra. Não aparece aqui, ou aparece discretamente, a vocação para as hipérboles cômicas e imagens estereotipadas que Nelson exercitava sem parar em suas crônicas propriamente ditas. Um ou outro pescoço pode até ser “grosso e bovino”, mas as tempestades não são de “terceiro ato de Rigoletto”.

Item de colecionador na velha edição de 1961, “A vida como ela é…” foi reposta em circulação nos anos 90 pela Companhia das Letras, com seleção de Ruy Castro. “O homem fiel”, de 1992, e “A coroa de orquídeas”, de 1993, traziam ao todo 95 histórias. A edição atual, espelho da original, tem cem. Algumas são as mesmas, outras não. O bolo total da série “A vida como ela é…” chega a dois mil contos – muitos, é verdade, com elementos repetidos de forma mais ou menos descarada. Como dizia o próprio Nelson: “Um dia sim, outro não, repito a metáfora da antevéspera”.

Expirados os contratos dos herdeiros de Nelson Rodrigues com a Companhia das Letras, a Agir foi à luta e levou, não sem estresse, os direitos de publicação de sua obra em prosa por sete anos – o teatro permanece na Nova Fronteira. Esse material ganhará agora uma edição bem diferente da que foi organizada por Ruy.

“Uma obra tão dispersa comporta o critério de edição definitiva? Acho que não”, afirma Paulo Roberto Pires, gerente editorial da Ediouro (que detém o selo Agir). Pires planeja um novo volume de histórias de “A vida como ela é…” garimpadas nos arquivos da “Última Hora”, mas ainda não tem data para lançá-lo. O próximo livro de Nelson na casa, “O casamento”, sai em novembro. Trata-se de um romance, coisa mais caprichada, mais ambiciosa. Acreditem, jovens: não chega aos pés deste aqui.

Para o ano que vem estão previstos dois livros que Pires chama de “inventados”: um volume estiloso juntando trechos de crônicas e fotos do Rio de Janeiro para compor uma “geografia rodriguiana” da cidade, com organização de Beatriz Rezende, e uma reunião das principais entrevistas dadas por Nelson a colegas como Hélio Pellegrino e Otto Lara Resende.

Para encerrar, um brinde para o leitor do Todoprosa: clicando na imagem ao lado, pode-se ler, em pdf, a falsa primeira página do jornal “Crítica” (nome do diário que pertenceu a Mario Rodrigues, pai de Nelson), editada por Paulo Roberto Pires para esquentar o material de divulgação do livro. Ficou bem divertido.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts Tags:
30/08/2006 - 14:07

Naguib Mahfouz (1911-2006)

O escritor egípcio Naguib Mahfouz, que morreu hoje no Cairo aos 94 anos, foi o único escritor do mundo árabe a ganhar o Prêmio Nobel de Literatura, em 1988. Mahfouz fora internado há um mês e meio, depois de sofrer uma queda em casa.

O declínio da saúde de Mahfouz começou em 1994, quando um homem o esfaqueou no pescoço – e fugiu sem ser preso. O atentado foi provavelmente praticado por um extremista islâmico: líderes fundamentalistas tinham acabado de declarar o escritor “infiel”. De fato, sua literatura era boa demais, humana demais, para descer pela goela do fundamentalismo. Muitos de seus livros foram proibidos em outros países árabes, e um deles, de 1959, no próprio Egito.

Leia o obituário do “New York Times” (em inglês, mediante cadastro) aqui. E o do “Le Monde” (em francês, acesso livre), aqui.

Mahfouz, que certa vez se definiu como um “escritor de quarta ou quinta categoria”, é autor de três dezenas de romances, além de volumes de contos, peças teatrais e roteiros de cinema, mas sua obra hoje é escassa nas livrarias brasileiras. Lançado em 1997, o romance “Noites das Mil e Uma Noites” (Companhia das Letras), fantasia baseada no maior clássico das letras árabes, é o mais fácil de encontrar.

ERRATA: Cheguei a escrever aqui que “Noites das Mil e Uma Noites” era o único romance de Mahfouz em catálogo no Brasil hoje, mas leitores caridosos trataram de me corrigir. “Akhenaton, o rei herege” (Record) foi lançado ano passado, mais ou menos na mesma época da coletânea de contos “Miramar” (Berlendis & Vertecchia). O romance “O beco do pilão” (Planeta) saiu em 2003 e também é encontrável. Fora isso, há títulos como “O jardim do passado” e “O palácio do desejo” (ambos da Record) – estes, porém, só em sebos mesmo.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts Tags:
29/08/2006 - 15:51

O poeta, a amante, o biógrafo e o cafajeste

Os personagens são quase inteiramente desconhecidos por aqui, mas a história é tão boa que vale assim mesmo.

Uma recente biografia do poeta inglês Sir John Betjeman – poeta “oficial” do Reino Unido de 1972 até morrer, em 1984 – trouxe como uma de suas maiores curiosidades uma derramadíssima carta de amor até então inédita endereçada por Betjeman a uma amante.

O biógrafo, AN Wilson, acaba de reconhecer que o texto é falso e que alguém lhe armou uma cilada. A prova é incontestável: um jornalista descobriu que as iniciais maiúsculas de cada frase da suposta carta de amor formam a sentença “AN Wilson is a shit” (AN Wilson é um merda).

Esse ambiente literário sabe ser inóspito às vezes.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts Tags:
28/08/2006 - 10:42

Ficção é coisa de mulher?

Faz alguns anos que pesquisas no mundo anglófono vêm denunciando a insignificância do papel masculino entre os leitores de ficção: os homens respondem por cerca de 20% do mercado. Só. Não foi à toa que o inglês Ian McEwan, um dos maiores escritores vivos, declarou ano passado: “Quando as mulheres pararem de ler, o romance estará morto”.

É sempre arriscado tirar conclusões muito ambiciosas em cima de estatísticas como essa. Faltam dados a respeito do sexo dos leitores de ficção em outros países – e em outras épocas, como quando Ernest Hemingway era rei com seus livros cheios de testosterona.

Mesmo sendo difícil pôr em perspectiva números tão curiosos, já se começa a murmurar por aí que a dramática perda de prestígio cultural dos romancistas, ocorrida do último quarto do século XX para cá, está relacionada ao fato de os homens, os detentores do poder, estarem interessados mesmo é em livros de não-ficção. Obras sérias, sabe como? (Atenção: isso é uma ironia. O Todoprosa só se interessa por não-ficção quando ela fala de ficção.)

O ótimo tema da feminilidade da leitura é discutido com graça em suas diversas implicações – políticas, culturais, filosóficas – num artigo (em inglês) publicado pela jornalista Lakshmi Chaudhry na revista In These Times:

Não olhe agora, mas podemos estar voltando ao século XIX, quando o romance era considerado um passatempo de senhoras, frívolo e sem prestígio social, inadequado a homens de verdade.

Puxa. Mas se nós, os homens que lemos ficção, somos mesmo tão poucos, que tal ver a coisa pelo lado bom? Cantadas literárias bem sacadas tendem a valer ouro num mercado tão desabastecido.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts Tags:
27/08/2006 - 00:01

Começos inesquecíveis: Italo Svevo

Sou o médico de quem às vezes se fala neste romance com palavras pouco lisonjeiras. Quem entende de psicanálise sabe como interpretar a antipatia que o paciente me dedica.

Não me ocuparei de psicanálise porque já se fala dela o suficiente neste livro. Devo escusar-me por haver induzido meu paciente a escrever sua autobiografia; os estudiosos de psicanálise torcerão o nariz a tamanha novidade. Mas ele era velho, e eu supunha que com tal evocação o seu passado reflorisse e que a autobiografia se mostrasse um bom prelúdio ao tratamento. Até hoje a idéia me parece boa, pois forneceu-me resultados inesperados, os quais teriam sido ainda melhores se o paciente, no momento crítico, não se tivesse subtraído à cura, furtando-me assim os frutos da longa e paciente análise destas memórias.

Publico-as por vingança e espero que o autor se aborreça. Seja dito, porém, que estou pronto a dividir com ele os direitos autorais desta publicação, desde que ele reinicie o tratamento. Parecia tão curioso de si mesmo! Se soubesse quantas surpresas poderiam resultar do comentário de todas as verdades e mentiras que ele aqui acumulou!…

O pequeno prefácio que abre “A consciência de Zeno” (Nova Fronteira, tradução de Ivo Barroso), obra-prima de humor e desencanto publicada em 1923 pelo italiano Italo Svevo, introduz por breves momentos a voz – pouco confiável, como logo se descobre – do psicanalista, Doutor S., que induz o personagem Zeno Cosini a contar sua vida no livro que vem em seguida. Momento histórico: até que alguém prove o contrário, trata-se da primeira vez que a psicanálise ocupa lugar tão destacado na ficção. Um começo promissor, mas, no caso de “A consciência de Zeno”, quase lamento que esta seção não se chame “Finais inesquecíveis”:

Haverá uma explosão enorme que ninguém ouvirá, e a Terra, retornando à sua forma original de nebulosa, errará pelos céus, livre dos parasitos e das enfermidades.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts Tags:
26/08/2006 - 00:01

Margaret Atwood: ‘O conto da aia’

“O conto da aia” (Rocco, tradução de Ana Deiró, 368 páginas, R$ 48), da canadense Margaret Atwood, é uma curiosa fantasia futurista na linha conhecida como “distopia”, ou utopia às avessas, a mesma de “1984”, de George Orwell, e “Admirável mundo novo”, de Aldous Huxley. O adjetivo “curiosa” se deve ao fato de que a obra soa, em muitos momentos, como uma resposta direta à paranóia americana pós-11 de setembro, embora tenha sido lançada em 1985. Num país que já foi conhecido como Estados Unidos da América, hoje chamado de Gilead, um golpe militar que teve como pretexto a ação de “fanáticos muçulmanos” aboliu os direitos civis em geral – e os das mulheres ainda mais. Não é a primeira vez que o livro sai no Brasil. Com o título de “A história da aia”, foi publicado pela editora Marco Zero em 1987. Mas é inegável que hoje soa mais atual do que na época.

O romance é narrado pela aia (categoria social inferior, destinada exclusivamente à procriação) chamada Offred, que no trecho abaixo encontra uma colega chamada Ofglen. Infelizmente, ao optar por manter os nomes originais, em vez de adaptá-los como fez a tradução da Marco Zero, a edição mascarou a relação de posse que eles contêm: uma é of Fred, “de Fred”, e a outra, of Glen, “de Glen”.

Uma forma vermelha, uma touca de abas brancas ao redor da cabeça, uma forma como a minha, uma mulher de aparência sem graça e desinteressante, de vermelho, carregando uma cesta, se aproxima da calçada de tijolos vindo em minha direção. Ela me alcança e examinamos uma o rosto da outra, olhando pelos túneis brancos de tecido que nos cercam. Ela é a mulher certa.

– Bendito seja o fruto – diz ela para mim, a expressão de cumprimento considerada correta entre nós.

– Que possa o Senhor abrir – respondo, a resposta também correta. Viramo-nos e caminhamos juntas passando pelas grandes casas, em direção à parte central da cidade. Não temos permissão para ir lá exceto em pares. Isso é supostamente para nossa proteção, embora a idéia seja absurda: já somos bem protegidas. A verdade é que ela é minha espiã, como eu sou a dela. Se alguma de nós duas escapulir da rede por causa de alguma coisa que aconteça em uma de nossas caminhadas diárias, a outra será responsável.

Esta mulher tem sido minha parceira há duas semanas. Não sei o que aconteceu com a outra, a anterior. Um belo dia, ela simplesmente não estava mais lá, e esta aqui estava em seu lugar. Não é o tipo de coisa a respeito de que você faça perguntas, porque as respostas não são, geralmente, respostas que você queira conhecer. De qualquer maneira, não haveria uma resposta.

Esta aqui é um pouco mais roliça do que eu. Seus olhos são castanhos. O nome dela é Ofglen, e isso é mais ou menos tudo que sei a seu respeito. Ela caminha com modéstia e gravidade afetadas, de cabeça baixa, as mãos enluvadas de vermelho entrelaçadas na frente, com pequenos passos curtos como um porco treinado andando sobre as patas traseiras. Durante essas caminhadas ela nunca disse nada que não fosse estritamente ortodoxo, no entanto, nem eu. Pode ser uma verdadeira crente, uma Aia em mais do que apenas o título. Não posso correr o risco. Leia mais »

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Primeira mão Tags:
24/08/2006 - 17:37

Sete décadas de ‘Angústia’

Passados setenta anos da publicação de “Angústia”, reafirmada sua excelência artística no âmbito da literatura brasileira, Graciliano Ramos parece ter-se enganado sobre seu livro mais polêmico. É conhecido o desconforto do escritor em relação ao romance que necessitava, segundo ele, ser revisto até chegar ao osso, sem as repetições e os excessos que julgava defeitos a serem sanados. A prisão em 3 de março de 1936 o impediu de realizar a revisão desejada, antes que o livro fosse editado com o autor ainda na cadeia.

O “livro infeliz”, como Graciliano se refere a “Angústia” em “Memórias do cárcere”, vai aos poucos se impondo por meio de um processo de atração e repulsa, que marcará para sempre a postura do romancista diante da obra.

Em artigo de capa no jornal “Rascunho”, o professor de literatura Wander Melo Miranda, autor de “Graciliano Ramos” (PubliFolha), comemora os 70 anos de “Angústia”, do autor preferido de Heloísa Helena.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts Tags:
23/08/2006 - 16:38

O que lêem os presidentes

O último número da revista “New Yorker” traz uma boa gozação de Adam Gopnik com a lista de “leituras de verão” de George W. Bush, uma tradição americana tão forte que mesmo um dos presidentes mais notoriamente broncos a passar pela Casa Branca acha de bom tom não dispensá-la. A piada maior é que, brilhando na lista de Bush, aparece “O estrangeiro”, de Albert Camus.

E por que isso é engraçado? Bem, como se sabe, o narrador do maior clássico do existencialismo, Mersault, mata um árabe sem motivo – não, o sujeito não era acusado de esconder armas químicas no quintal. Entende-se o interesse do presidente americano, então? Claro que sim, mas apenas quando se leva em conta que listas desse tipo cumprem sobretudo um papel marqueteiro. Não é preciso que Bush leia Camus. Basta que ele diga que está lendo. E que depois agüente as gozações. Passada a zoeira, o que sobra é, por via das dúvidas, a imagem de um homem um pouco mais pensante do que imaginávamos – e se quisermos ser muito, muito crédulos, um verdadeiro estadista.

Estamos bem longe disso no Brasil. O colunista Ancelmo Góis, do “Globo”, publicou no último fim de semana uma boa nota em que os candidatos à presidência nomeavam seus livros de estimação. Heloísa Helena falou apaixonadamente de toda a obra de Graciliano Ramos. Geraldo Alckmin, fiel às suas raízes interioranas, foi de “Urupês”, de Monteiro Lobato. Cristovam Buarque preferiu ignorar a ficção e ficar com o pensamento econômico de Celso Furtado. Marketing ou não, tudo bonito.

Pena que Lula não tenha respondido. Algum assessor poderia ter citado, sei lá, “O estrangeiro”. Mas quem não sabe que a arte de Camus – ou, a propósito, qualquer livro – soaria ainda mais inconcebível na cabeceira do presidente brasileiro do que na do americano?

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts Tags:
22/08/2006 - 14:35

Livros à mão vazia

Reportagem de ontem do jornal “Valor Econômico”, assinada por Tainá Bispo, fala do alarme geral provocado pela apresentação de Fábio Godinho, diretor da Larousse do Brasil, no 34o Encontro de Editores e Livreiros, em Fortaleza. Tentando entender por que o mercado de livros no Brasil encolheu, segundo seus números, 26% nos últimos dez anos, com venda de 270 milhões de exemplares e receita de R$ 2,5 bilhões em 2005, Godinho apontou, além da desorganização do setor, razões econômicas. Destacou o fato de o preço do livro ter subido acima da inflação nesse período, o que faz sentido. Por outro lado, comemorou “a universalização do ensino médio”. Aí, acho que já não faz tanto.

Que ensino é esse? O Brasil jamais terá um mercado leitor saudável enquanto insistir na sua educação de mentirinha. Considerando que qualquer medida nessa área só surtirá efeito a longo prazo, e que não se vê nenhuma medida decente no horizonte, não será surpresa para este blog se o mercado continuar murchando. Apertem os cintos.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts Tags:
22/08/2006 - 00:01

A incrível história da ‘História de O’

“História de O”, romance publicado em 1954 com a assinatura de Pauline Réage, costuma ser considerado um dos maiores clássicos da literatura erótica de todos os tempos, e talvez a única obra do século XX a levar o tema às alturas – ou profundezas? – atingidas pelo Marquês de Sade. Conta a história da submissão voluntária de O a seu amante, num crescendo de provas psicológicas e castigos físicos que ela encara – eis o escândalo – cada vez mais feliz e realizada. Sim, o livro pode ser lido como um poderoso libelo antifeminista, embora, convenhamos, isso o empobreça terrivelmente.

Tendo lido “História de O” já faz uns vinte anos, posso garantir que não é fácil apagar da memória algumas de suas imagens, como a que encerra o livro: a linda O, nua e com uma enorme máscara de coruja, finalmente despersonalizada, endeusada, cercada de homens devotos numa festa. Estranhíssimo. Deve-se reconhecer que essa insistência em permanecer na memória é mais do que se encontra na maior parte da literatura, erótica ou não.

A verdadeira identidade da autora de “História de O” foi um grande mistério literário na França durante quarenta anos. Albert Camus chegou a garantir que o livro era obra de um homem, pois “uma mulher não poderia escrevê-lo”. Errou feio. O furo espetacular foi publicado pelo jornalista inglês John de St Jorre na revista “The New Yorker” em 1994: por trás de Pauline se escondia uma editora francesa chamada Dominique Aury, que escreveu o livro como uma espécie de Sherazade, enviando capítulo por capítulo a seu amante da época, o famoso editor Jean Paulhan, da revista literária La Nouvelle Revue Française, a fim de mantê-lo interessado na relação. Deu certo. O caso deles durou vinte anos.

O jogo de espelhos vai mais longe. Dominique também era um pseudônimo, um nome profissional – na certidão de nascimento ela era Anne Declos. Tinha 86 anos quando abriu o jogo para a “New Yorker”. Morreu menos de quatro anos depois. Foi tempo suficiente, porém, para contar sua história diante das câmeras da cineasta americana Pola Rapaport. E aí chegamos finalmente ao motivo desta nota: anunciar que o documentário de longa-metragem Écrivain d’O (“Escritora de O”), registro detalhado e cheio de depoimentos dessa história toda, acaba de sair em DVD no mercado internacional – veja aqui.

Tem requintes como este: Dominique conta a certa altura que a protagonista foi inspirada em sua amiga Odile, na época namorada de… Albert Camus, pois é. O mesmo que apostou todas as fichas na autoria masculina do livro.

Vale a pena dar uma olhada também na boa resenha (em inglês) sobre o filme publicada pela bailarina Toni Bentley, autora do recente “A entrega – Memórias eróticas” (Objetiva) – uma apaixonada e quase religiosa ode ao sexo anal. Tudo se encaixa, não? Ah, sim, “História de O” teve uma reedição recente e caprichada no Brasil: saiu ano passado pela Ediouro, com direito a prefácio de Jean Paulhan.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts Tags:
21/08/2006 - 00:27

Começos inesquecíveis: Leon Tolstoi

Todas as famílias felizes se parecem entre si; as infelizes são infelizes cada uma à sua maneira.

A frase de abertura de “Ana Karenina”, obra-prima do romance que Leon Tolstoi começou a publicar na imprensa em 1875 (Editora Nova Aguilar, Obra Completa, volume 2, 2004, tradução de João Gaspar Simões), conseguiu virar aquilo que a maioria dos escritores só ousa perseguir em sonho: máxima, aforismo, provérbio, dito popular, pérola de sabedoria que parece não ter dono, mas brotar diretamente do inconsciente coletivo.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts Tags:
20/08/2006 - 00:01

‘Bufo & Spallanzani’, museu da informática

Liguei o TRS-80. Primeiro o printer, Epson FX-80, conectado no computador. Depois, no drive 0 coloquei o Superscripsit e no drive 1 um floppy disk, para arquivo. A luz vermelha em cima dos drives acendeu e apagou quando o TRSDOS foi carregado. Mês, dia e ano, ENTER, hora, minutos, segundos, ENTER, luz vermelha acendendo e apagando, nos dois drives. READY. Escrevi: SS. ENTER. O menu do programa apareceu na tela. Bati 0.

Name of document to open?
Escrevi Bufo.
ENTER.
Na tela, Open Document Options:
Document name: Bufo: 1
Author: Gustavo Flávio.
Operator: GF.
Comments: Romance
Printer type: LP 8
Lines per page: 54
Pitch: P
Line spacing (to 3 +, “+” = ½): 1
1st page to include header: 1
1st page to include footer: 1

Apareceu a screen page: a tab line, com o ghost cursor e a status line e as especificações de impressão do documento. No alto da “página” o cursor piscava. Tudo pronto para escrever.

Pronto mesmo? Ufa.

Perto do fim de seu bom romance “Bufo e Spallanzani” (1985), pouco antes de o narrador, que é um escritor de sucesso, apagar o livro em que vinha trabalhando, Rubem Fonseca capricha no informatiquês da época. Que hoje, claro, soa como grego antigo. É curioso que um autor capaz de driblar na linguagem as principais armadilhas da datação – seu “Feliz ano novo”, de 1975, parece escrito hoje de manhã – tenha sucumbido de forma tão absoluta à velocidade da tecnologia. Sua famosa paixão pela coisa deve tê-lo cegado.

Não deixa de ser uma atração adicional do livro. O computador de Gustavo Flávio nos contempla, paleozóico, de seu mostruário de museu.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts Tags:
19/08/2006 - 00:01

Roberto Bolaño: ‘Os detetives selvagens’

Ainda não terminei de ler “Os detetives selvagens”, do chileno Roberto Bolaño (Companhia das Letras, tradução de Eduardo Brandão, 624 páginas, R$ 59,50), mas o humor selvagem do que li dá e sobra – sobra muito – para recomendá-lo aqui no Primeira mão. O estranho romanção desse autor estranho, que morreu há três anos na Catalunha, onde viveu a metade de seus cinqüenta anos trabalhando em empregos modestos, é uma (falsa?) história de detetive radicalmente (anti?) literária: os detetives são poetas, a mulher desaparecida que eles procuram também é, e todas as conversas giram em torno do assunto, um tanto absurdamente, como se nada mais no mundo tivesse importância. E tem?

“Os detetives selvagens” foi um dos muitos livros que Bolaño escreveu de forma caudalosa depois de ser “descoberto” tardiamente, aos 40 anos, com “A literatura nazista na América do Sul”. Lançado em 1999, o romance que sai agora no Brasil ganhou o prêmio Rómulo Gallegos, o mais importante da língua espanhola. Mais do que isso, foi saudado por muita gente boa – como Enrique Vila-Matas em artigo publicado no “Mais!” há dois meses – como a obra que finalmente tirou a literatura latino-americana do beco sem saída em que o boom do realismo mágico a metera, abrindo caminho para uma nova geração de escritores. É cedo para dizer o que acho de juízo tão grandiloqüente. Mas que o riso feroz – e desesperado – que ecoa neste livro tem o maior jeito de novidade, isso não dá para negar.

Acordei em casa de Catalina O’Hara. Enquanto tomava o café da manhã, bem cedinho (María não estava, o resto da casa dormia), com Catalina e seu filhinho Davy, que ela precisava levar para o berçário, lembrei-me de que na noite anterior, quando só restávamos uns poucos, Ernesto San Epifanio dissera que existia literatura heterossexual, homossexual e bissexual. Os romances, geralmente, eram heterossexuais, já a poesia era absolutamente homossexual, os contos, deduzo, eram bissexuais, mas isso ele não disse.

Dentro do imenso oceano da poesia, distinguia várias correntes: bichonas, bichas, bicharocas, bichas-loucas, bonecas, borboletas, ninfos e bâmbis. Walt Whitman, por exemplo, era um poeta bichona. Pablo Neruda, um poeta bicha. William Blake era uma bichona, sem sombra de dúvida, e Octavio Paz , bicha. Borges era bâmbi, quer dizer, de repente podia ser bichona e de repente simplesmente assexuado. Rubén Darío era uma bicha-louca, na verdade a rainha e o paradigma das bichas-loucas.

– Na nossa língua, é claro – esclareceu –, no vasto mundo o paradigma continua sendo Verlaine, o Generoso.

Uma louca, segundo San Epifanio, estava mais próxima do hospício florido e das alucinações em carne viva, enquanto as bichonas e as bichas vagavam sincopadamente da Ética à Estética, e vice-versa. Cernuda, o querido Cernuda, era um ninfo e, em ocasiões de grande amargura, um poeta bichona, enquanto Guillén, Aleixandre e Alberti podiam ser considerados bicharoca, boneca e bicha, respectivamente. Os poetas tipo Carlos Pellicer eram, via de regra, bonecas, enquanto poetas como Tablada, Novo, Renato Leduc eram bicharocas. De fato, a poesia mexicana carecia de poetas bichonas, embora algum otimista pudesse pensar que aí se enquadravam López Velarde ou Efraín Huerta. Bichas, em compensação, abundavam, do maldoso (mas por um segundo escutei mafioso) Díaz Mirón até o conspícuo Homero Aridjis. Deveríamos remontar a Amado Nervo (vaias) para encontrar um poeta de verdade, quer dizer, um poeta bichona, e não um bâmbi como o agora famoso e reivindicado potosino Manuel José Othón, pesadão como ele só. E falando de poetas pesados: borboleta era Manuel Acuña e ninfo dos bosques da Grécia, José Joaquín Pesado, perenes cafetões de certa lírica mexicana. Leia mais »

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Primeira mão Tags:
17/08/2006 - 16:20

Quando Machado não era rei

Embora fosse coisa assente, a grandeza de Machado não se entroncava na vida e na literatura nacionais (nas primeiras décadas do século XX). A sutileza intelectual e artística, muito superior à dos compatriotas, mais o afastava do que o aproximava do país. O gosto refinado, a cultura judiciosa, a ironia discreta, sem ranço de província, a perícia literária, tudo isso era objeto de admiração, mas parecia formar um corpo estranho no contexto de precariedades e urgências da jovem nação, marcada pelo passado colonial recente. Eram vitórias sobre o ambiente ingrato, e não expressões dele, a que não davam seqüência. Dependendo do ponto de vista, as perfeições podiam ser empecilhos. Um documento curioso dessa dificuldade são as ambivalências de Mario de Andrade a respeito. Este antecipava com orgulho que Machado ainda ocuparia um lugar de destaque na literatura universal, mas nem por isso colocava os seus romances entre os primeiros da literatura brasileira.

O artigo “Leituras em competição”, do crítico Roberto Schwarz, é um dos destaques da última edição da revista “Novos Estudos”, do Cebrap. Schwarz – que fez minhas leituras preferidas da obra de Machado de Assis nos livros “Ao vencedor as batatas” e “Um mestre na periferia do capitalismo” (Duas Cidades) – volta a seu tema habitual para traçar de forma sucinta a história de como o entendimento da obra do gênio carioca oscilou ao longo do século passado no Brasil e no exterior. A leitura é recomendada não só por conta da prosa elegante de Schwarz, mas também pelas idéias – cada uma em seu devido lugar.

Autor: Sérgio Rodrigues - Categoria(s): Posts Tags:
Voltar ao topo